Já fazia três dias que Taehyung não dormia nem comia nada, ignorando completamente os apelos de Namjoon para que se alimentasse e descansasse.

Durante todo esse tempo, permaneceu na delegacia, afundado na poltrona da sala de Namjoon, os olhos fixos na tela do celular, esperando por uma ligação de Victor. Se ao menos ele ligasse, poderiam rastreá-lo. Mas o telefone permaneceu em silêncio, e com cada hora que passava, a esperança se esvaía um pouco mais.

O cansaço já cobrava seu preço. Taehyung estava visivelmente abatido, os olhos fundos, a barba por fazer, o rosto marcado pela exaustão. Sua aparência desleixada denunciava o quanto estava se desgastando.

Foi então que Namjoon entrou na sala, carregando algumas peças de roupa e uma toalha. Seu olhar era firme, determinado. Ele não permitiria que Taehyung continuasse assim.

— Tome um banho e se barbeie. Não vai querer encontrar Yoongi e a Sra. Kim, nesse estado deplorável.

Taehyung tinha o olhar vazio, focava no nada.

— Será que vamos mesmo reencontrá-los?

Namjoon se aproximou e tocou seu ombro.

— Sim, nós vamos. Yoongi é mais forte do que você imagina. Ele está bem e vai cuidar da sua mãe. Nós vamos vê-los novamente, tenho fé nisso.

Com um suspiro pesado, Taehyung pegou a toalha e as roupas das mãos de Namjoon. Não precisava que ele dissesse nada, sabia que seu estado estava péssimo. Arrastou-se até o banheiro e, ao sentir a água quente escorrendo pelo corpo, finalmente relaxou um pouco. O banho foi longo, reconfortante, como se lavasse não apenas a sujeira, mas também parte do peso que carregava nos ombros.

Quando saiu, sentia-se mais leve, quase revitalizado. Ainda não era o bastante, mas pelo menos não parecia mais um fantasma. Com a porta do banheiro entreaberta, secava os cabelos distraidamente com a toalha quando ouviu a voz de Namjoon chamando por ele. Curioso, Taehyung espiou para ver o que ele queria.

— Você tem visitas!

— Visitas? Quem? — Taehyung o olhou, curioso.

Antes que Namjoon falasse algo mais, Jimin entrou correndo na sala.

— TAE! — Ele correu e o abraçou.

Taehyung quase caiu com um Jimin eufórico o abraçando. Suas pernas bambearam mas conseguiu manter o equilíbrio. Jungkook entrou em seguida, segurando algumas sacolas.

— Ele estava ansioso para vê-lo, me desculpe se estiver te incomodando — Disse Jungkook.

— Claro que não — Taehyung acariciou os cabelos de Jimin — Eu gosto muito do Jimin.

— Tae, o Jimin fez pão para você — Jimin correu até Jungkook e pegou a sacola com cuidado, levando-a até a mesinha de centro. Com gestos rápidos e precisos, começou a organizar tudo para o café da tarde surpresa.

No centro da mesa, colocou uma garrafa térmica de café, ao lado de uma fileira de pãezinhos confeitados que ele mesmo havia preparado. Cada um deles tinha formatos adoráveis, ursinhos, pandinhas e gatinhos. Cuidadosamente decorados com confeitos delicados. Tudo havia sido feito por ele, especialmente para Taehyung.

Jimin sabia que nos últimos dias Taehyung não tinha apetite, mal tocava na comida. Então, pensou em algo que pudesse animá-lo, algo que o fizesse querer comer ao menos um pouco. E se havia algo que poderia quebrar a resistência de Taehyung, eram aqueles pãezinhos feitos com carinho.

Namjoon riu baixinho, cruzando os braços enquanto observava a cena. Taehyung não tinha escapatória, ele sabia que comer. Por mais abatido que estivesse, jamais teria coragem de recusar a comida de Jimin. Não suportaria vê-lo triste, muito menos chorando por causa de uma desfeita.

Resignado, Taehyung se sentou à mesa, os olhos correndo por cada detalhe da surpresa cuidadosamente preparada. A delicadeza dos pãezinhos confeitados, o aroma acolhedor do café, o carinho evidente em cada pequeno gesto Mas o que mais o tocava não era a comida.

Era Jimin.

De todas as pessoas, Jimin era quem mais deveria odiá-lo. Afinal, seu rosto era o reflexo exato do homem que o machucou tanto. Qualquer outro teria se afastado, mas Jimin, em vez disso, o tratava com gentileza. Gostava dele. Se preocupava com ele. E isso fazia algo apertar dentro do peito de Taehyung.

Com um sorriso sutil e genuíno, ele pegou um dos pãezinhos, sentindo, pela primeira vez em dias, um pouco de conforto.

— Jimin! Que delícia! Você está de parabéns. Pelo visto é um bom confeiteiro.

— Obrigado Tae. Sabe, o Yoongi também é amigo do Jimin. O Jimin tem certeza que o Yoongi logo estará de volta.

Taehyung estava com a cabeça cheia demais para se perguntar como Jimin conhecia Yoongi, então ele apenas assentiu, tentando se mostrar positivo sobre tudo aquilo.

— Obrigado, Jimin. Obrigado por tudo — Taehyung não conseguiu conter as lágrimas, que caiam livremente molhando suas bochechas. Jimin gentilmente o abraçou.

...

A porta para fora daquele bunker estava logo à frente. A liberdade estava ao alcance, tão próxima que podiam quase senti-la no ar, misturada ao cheiro frio e metálico do subsolo.

Mas, no último instante, Hye Sung hesitou.

Seu peito subiu e desceu em um suspiro pesado, a mão pousando sobre o próprio coração como se tentasse acalmá-lo. A dor era silenciosa, mas avassaladora. Seu filho ainda estava ali. Abandoná-lo novamente era como rasgar um pedaço de si mesma. Cada passo para fora daquele lugar parecia uma traição.

Mas então olhou para Yoongi, para as crianças ao seu lado, para o desespero disfarçado de determinação em seus olhos. Ela precisava fazer isso. Não podia permitir que Taehyung carregasse mais esse peso. Não podia continuar deixando que outros sofressem por um passado que era seu.

— Hye Sung? — Yoongi a chamou, ao perceber que ela estava parada olhando para trás — Está tudo bem?

— Sim está, vamos. Precisamos sair logo daqui, vamos aproveitar que não tem guardas esse horário, o único que tinha você já deu um jeito — Hye Sung sorriu.

— Sim — Yoongi retribuiu o sorriso — Vamos, vai dar tudo certo.

Com um último olhar carregado de dor, Hye Sung engoliu o nó na garganta e seguiu em frente.

Avançaram em direção à porta, pisando silenciosamente, quase flutuando sobre as pontas dos pés. A tensão era sufocante, o ar parecia denso, pesado, carregado pelo medo. Yoongi sentiu uma gota de suor escorrer pela têmpora, mas não se atreveu a enxugá-la. O silêncio absoluto era tão frágil quanto o vidro, e qualquer som poderia estilhaça-lo.

E então, aconteceu. A criança no colo de Hye Sung deixou o brinquedo cair. O impacto contra o chão ativou um mecanismo, e, de repente, uma enjoativa melodia infantil preencheu o corredor escuro, ecoando por todas as direções como um aviso gritante de sua presença.

O sangue de Yoongi gelou.

Em um reflexo rápido, ele agarrou o brinquedo e arrancou as pilhas com dedos trêmulos. O som cessou abruptamente. Mas o estrago já estava feito. Eles ficaram imóveis, os corações martelando contra o peito, esperando pelo pior.

— Corre! — Hye Sung ordenou.

Sem mais tempo para sutilezas, correram até a porta, ignorando qualquer tentativa de silêncio. A essa altura, já não fazia diferença.

Yoongi pegou o cartão de acesso e deslizou-o pela tranca eletrônica da imensa porta de aço, prendendo a respiração. Seu coração martelava enquanto rezava para que aquilo funcionasse. Um bip soou. A porta se abriu.

Ele soltou o ar que nem percebera estar prendendo e gesticulou para que todos passassem primeiro. Apenas quando o último deles cruzou a saída, Yoongi atravessou e travou a porta atrás de si, garantindo que ninguém pudesse segui-los com facilidade.

O que encontraram do outro lado não foi exatamente um alívio. Estavam em um longo túnel subterrâneo. As paredes de terra eram sustentadas por vigas de concreto desgastadas, e o ar pesado e úmido tornava a respiração difícil. Sem alternativa, seguiram em frente, caminhando apressadamente por vários minutos até o fim do túnel. E então, lá estava ela. Outra porta de aço. Dessa vez, um elevador. Yoongi não hesitou. Passou o cartão no dispositivo ao lado, e, com um ruído mecânico, as portas se abriram.

— Vamos para o último andar. Imagino que seja a superfície — disse, olhando para os outros com determinação.

A liberdade estava mais perto do que nunca.

O elevador subiu lentamente, os segundos se arrastando como se quisessem torturá-los. Cada minuto parecia uma eternidade.

O que os aguardava lá em cima?

O silêncio dentro da cabine era denso, carregado de tensão. Todos estavam apreensivos, os corpos rígidos, os olhos fixos no painel que indicava a subida.

Yoongi sentiu uma onda de fraqueza percorrer seu corpo. Seus olhos pesavam, a visão parecia embaçada por instantes, e uma tontura sufocante ameaçava derrubá-lo.

"Não aqui. Não agora. Eu preciso ser forte."

Ele respirou fundo, forçando-se a manter o foco. Sacudiu levemente a cabeça, como se pudesse espantar a exaustão. Não podia se permitir fraquejar. Não quando estavam tão perto.

— Tudo bem? — Hye Sung perguntou.

— Sim sim, não se preocupe. Está tudo bem, só estou um pouco indisposto.

— Logo estaremos em casa — Hye Sung tentou confortá-lo.

Um bip soou, indicando que haviam chegado ao último andar. O coração de todos disparou. As portas do elevador começaram a se abrir lentamente, e por um instante, o medo de encontrar guardas ou algum obstáculo os paralisou. Mas, por sorte, o que os esperava não era um exército de seguranças, apenas mais um túnel. Sem perder tempo, seguiram por ele em um ritmo apressado, os passos ecoando pelas paredes úmidas.

Chegaram a mais uma porta. Yoongi, já acostumado com o procedimento, passou o cartão no leitor. A tranca eletrônica emitiu um som baixo e, logo depois, a porta se abriu. Mas, do outro lado, em vez de uma saída evidente, havia uma cortina densa de folhas e vegetação, obscurecendo a visão. Yoongi foi o primeiro a avançar. Com as mãos, afastou aquela cortina natural, sentindo o cheiro terroso da umidade misturado ao frescor das plantas. E então, finalmente, estavam do lado de fora.

Uma floresta se estendia diante deles, o solo coberto por folhas secas e galhos quebradiços. O céu escuro era iluminado apenas pelo brilho frio e prateado da lua.

Eles estavam livres. Ou quase isso.

Porque não tinham a menor ideia de onde estavam. Nem mesmo sabiam se ainda estavam na Coreia. Yoongi tentou dar um passo à frente, mas seu corpo cedeu. A tontura que vinha ignorando por tanto tempo finalmente o atingiu em cheio, e ele cambaleou. Antes que caísse, Hye Sung o segurou, firme.

— Aguente firme, estamos quase lá — murmurou ela, preocupada, mas ao ver o estado de Yoongi, mudou de ideia — Precisamos fazer uma pausa.

— Não podemos, Victor já deve ter notado nossa ausência... Venha, vamos continuar, com sorte talvez achemos algum abrigo.

E Yoongi estava certo. Depois de aproximadamente uma hora caminhando pela floresta, exaustos e incertos do destino, um misto de felicidade e alívio tomou conta do grupo ao avistarem uma pequena casa no meio do nada. As luzes do lado de fora estavam acesas, um sinal de esperança em meio à escuridão.

Sem pensar duas vezes, correram desesperados até a porta. Yoongi, mesmo sentindo o corpo pesar de cansaço, bateu com firmeza, chamando por alguém.

— Tem alguém aí? Por favor, precisamos de ajuda!

O silêncio reinou por alguns segundos. Depois, passos pesados se aproximaram da porta. Ela se abriu, revelando uma senhora de aparência forte, vestida com roupas simples e segurando uma espingarda carregada.

O coração de todos disparou de susto.

— Quem diabos são vocês? — a mulher perguntou com voz firme, os olhos desconfiados, analisando cada um deles — O que querem?

Yoongi levantou as mãos devagar, tentando mostrar que não eram uma ameaça.

— Por favor… só precisamos de ajuda. Precisamos de um telefone, apenas isso — Respondeu Yoongi, seu rosto pálido e sua respiração fraca.

A senhora olhou para a criança nos braços de Hye Sung e se compadeceu.

— Venham, entrem — Ela abaixou a espingarda e abriu a porta para que entrassem — Tenho um telefone, mas o sinal aqui é muito ruim.

— Eu posso tentar ligar?

A senhora pegou um telefone antigo de cima de uma prateleira repleta de fotos desbotadas pelo tempo. O aparelho era ultrapassado, sem acesso à internet, mas isso não importava. Yoongi só precisava de uma única ligação. Com dedos trêmulos, discou o número de Taehyung.

Do outro lado, o toque do celular rompeu o silêncio da delegacia.

Taehyung quase pulou da cadeira, seus olhos arregalados fixos na tela. Seu coração disparou, enquanto Namjoon, ao seu lado, imediatamente entrou em alerta, os dedos prontos para iniciar o rastreamento da chamada.

— Número desconhecido — murmurou Taehyung, engolindo em seco.

Namjoon assentiu, indicando para ele atender. Respirando fundo, Taehyung deslizou o dedo pela tela, levando o celular ao ouvido.

— A-alô? — sua voz saiu hesitante, cheia de expectativa e medo.

Do outro lado, uma voz fraca, mas inconfundível, respondeu:

— Tae?

O mundo de Taehyung parou.