The Engagement
26 Silêncio
Notas iniciais
Erica estava um tanto entediada naquela mansão. Era um lugar enorme no qual ela poderia muito bem se isolar dos amigos idiotas do noivo idiota do seu alfa? Sim, óbvio. Mas não era grande o suficiente para que ela conseguisse passar dias trancada sem se sentir sufocada com todas aquelas paredes a cercando. Ela era metade loba, precisava de um pouco de liberdade em sua vida. Um pouco de ar fresco, natureza, contato com a vida. Infelizmente, ela não poderia se manter apenas lendo livros até que o seu alfa não tivesse outra mansão para se mudar.
Suspirando devido ao cansaço daquele ambiente e ao tédio em que se encontrava, a garota de dezessete anos se ergueu da poltrona em que se encontrava na biblioteca da família Hale. Ela já havia lido uma boa parte do acervo desde que passou a se isolar na mansão Hale e agora se encontrava entediada. As palavras bonitas das poesias e os acontecimentos marcantes e surpreendentes dos romances já não lhe fascinavam mais. Pelo menos não ao ponto de distraírem a sua mente das paredes que a prendiam como um animal em uma jaula. Ela precisava respirar ar puro. A garota precisava sair daquela casa, precisava caminhar pelo lado de fora.
E fora isso o que ela fez. Em seu vestido azul desprovido de mangas, que possuía uma abertura na lateral direita, permitindo a exibição de sua perna, e uma sombrinha também azul, a loira de cabelos cacheados saiu da mansão e desceu as escadas da entrada lenta e elegantemente. A moça de azul chamou a atenção de alguns betas enquanto caminhava pelas ruas com a sombrinha azul abaixada, escondendo o seu rosto, a dando um ar de mistério, mesmo com eles a reconhecendo pelo cheiro. O objetivo de Erica não era esconder sua identidade, mas sim o seu rosto, para que não pudesse ver os olhares julgadores em sua direção.
Aqueles mesmos olhares que ela via em outros rostos. Aqueles olhares que diziam o quanto a sua presença era indesejada, mesmo em sua forma mais bela. Ela conseguia enxergar o caminho através da renda da qual era feita a sua sombrinha, mas a mesma conseguia esconder os olhares das pessoas para si. Só Deus sabia o quanto Erica amava aquela renda azul. A ômega suspirou uma vez, parando ao lado de um pequeno canteiro sem dono e se abaixou para poder recolher uma pequena hortênsia solitária que ali brotara.
A flor de pétalas azuis claras sempre fora a sua favorita. Ela era pequena, delicada e possuía um aroma agradável. Às vezes, ele sentia vontade de ser aquela pequena flor. A Hortênsia passara a ser o seu brasão pessoal secreto. Ela lhe representava perfeitamente. A flor azul representa a sua verdadeira forma, não as formas que as pessoas estranhas lhe viam, mas sim a forma que seu alfa fora o primeiro a perceber. Erica se lembrava perfeitamente do segundo motivo pelo qual amava aquela flor. Um pequeno buquê natural de hortênsias fora a primeira coisa que Stiles lhe deu. Fora a primeira coisa que o castanho fizera assim que lhe encontrou, prestes a matá-lo para saciar a sua fúria.
Ela se lembrava perfeitamente daquele dia. A loura estava irritada por todos a sua volta correrem de si. Até mesmo os insetos mais venenosos corriam ao sentir sua presença. Até mesmo o puma mais forte se encolhia e se arrastava para longe como um gato fugindo de um humano furioso. Ela estava a destruir uma parte de um bosque, golpeando tudo com suas mãos grandes e cobertas de ossos, deixando a marca de suas garras e suas pegadas por onde passava. Mas árvores e arbustos não lhe ajudavam em nada a passar a sua raiva. Foi então que ele apareceu e o seu mundo mudou completamente.
Desde então, Erica sentia que alguém queria estar consigo. Mesmo que fosse uma pessoa só, ela sentia que alguém a queria por perto. E ela queria estar perto dele. Erica queria fazer o mundo inteiro se curvar a Stiles, ao mesmo tempo em que o queria longe de todos. Era difícil de explicar. Ela queria o exibir para o mundo, fazer com que todos reconhecessem o espetáculo que era aquele rapaz, a glória que era a sua existência, mas ela não queria ninguém desconhecido ou indesejado perto do rapaz. Nem todos conseguiam reconhecer Stiles de primeira, como os ômegas conseguiam. A prova disso era o bando Hale Mesmo alfas e betas dos mais variados tipos não conseguiam sentir o que ela e os outros sentiam por ele.
A garota suspirou, antes de levar a flor azul ao rosto, cheirando a mesma. Ela adorava o cheiro das hortênsias. A loira de cachos ignorou as pessoas que desviavam o caminho do seu. Ela já estava acostumada, isso ocorria há muito tempo. No entanto, mesmo ignorando, aquilo lhe magoava o peito. Era difícil ser julgada por algo que ela não podia controlar. Por algo que não havia machucado nenhum deles, muito menos feito algo de errado. A loura abaixou mais a sombrinha, como se a mesma pudesse lhe esconder dos betas alheios. Erica apertou a flor em sua mão, a esmagando, antes de apertar um pouco mais o passo. Ela queria se afastar das pessoas, queria viver isolada com Stiles e os outros ômegas novamente, sem ninguém para lhe julgar daquele jeito.
A loura olhou para o lado assim que ouviu alguém gritar exaltado para que alguém tomasse cuidado. Foi então que ela viu um cavalo, preso a uma carroça, correr assustado, ignorando completamente os lobos a sua frente. As pessoas saiam da frente do animal por serem pegas de surpresa, mas uma pequena bola parou no caminho do animal, e, com ela, uma criança. O menino se abaixou para poder recolher o brinquedo, antes de olhar para o lado com os outros lobos gritando para que ele saísse dali. O pequeno garoto só teve tempo de arregalar os olhos, surpreso, na direção do cavalo, que se assustou com a sua presença. O equino ergueu as patas dianteiras para os olhos dourados assustados do garoto, tentando o golpear com os cascos em sua defesa.
O garoto viu um vulto branco amarelado passar por si e logo ouviu os cascos do cavalo batendo em algo duro. Quando ele piscou os olhos, ele viu aquele muro branco estranho a sua frente, antes de ver mais um vulto branco passar a sua esquerda e seguir na direção do cavalo. Ele se virou para trás, apenas para ver uma moça de vestido azul apontar os braços em sua direção. Os braços de Erica já se tornavam coberto de ossos a partir de seus ombros, a loura envolveu a barriga do equino com uma de suas enormes mãos, controlando o animal, enquanto o mesmo permanecia a golpear as costas de sua outra mão, que fora colocada entre o menino e o equino.
— afaste-se – ordenou a loura com a voz muito mais grossa do que a de qualquer homem, fazendo o garoto estremecer e recuar imediatamente.
Assim que o garoto saiu do alcance do cavalo, Erica recolheu a mão que usara como escudo para proteger o menino, fazendo o seu braço retornar ao normal, permitindo que todos os ossos que o envolviam desaparecessem como fumaça ao vento. Os betas não se mexiam. Estavam ocupados demais murmurando e encarando a garota conter o cavalo estando cara a cara com animal descontrolado. Ela estava intrigada. Já era para o responsável pelo animal ter aparecido para conter o mesmo, a livrando de segurar o animal por tanto tempo, mas ela não viu ninguém se aproximar.
— acalme-se – disse a moça tentando acalmar o animal. Mas sua voz grossa o assustava demais para o fazer se acalmar.
— se você não se acalmar, eu não vou poder deixar você ir – falou a loura novamente, se sentindo frustrada por não conseguir fazer o animal manter a calma.
— fique calmo. Eu não quero machucar você – pediu a garota, mas nada de diferente ocorreu.
Ela se sentia frustrada. Sabia muito bem que poderia mover o animal do vilarejo para a campina onde o seu alfa participou do duelo sagrado. Ali, o cavalo poderia correr livremente, sem causar danos a ninguém. Mas havia um preço para ela manusear o animal até lá. E o preço era ver os mesmos olhares aterrorizados em sua direção. Ela poderia matar o animal apenas fechando a mão? Poderia. Mas desde que conheceu Stiles ela passou a preservar tanto a vida, que se sentia aterrorizada apenas com a ideia. Esse era o objetivo do seu alfa, afinal. Ele ordenava que eles pulverizassem bandos que tinham o intuito de acabar com o ecossistema, reduzindo qualquer raça a nada.
— eu não quero amassar a sua flor, garoto – murmurou a loura olhando com dor para o cavalo.
— calma, garoto – pediu uma voz calma ao lado de Erica, surpreendendo a loura.
— calma – pedia Vernon caminhando na direção do cavalo enquanto Erica ainda o prendia.
— ninguém aqui está com a intenção de lhe machucar – o homem falava com calma, estando com as mãos erguidas na direção do animal de cascos, ouvindo o mesmo, aos poucos, se acalmar, parando de golpear o chão com os cascos.
— isso, rapaz. Ela não vai lhe machucar. Pode ficar tranquilo – dizia o Boyd e, aos poucos, Erica passou a soltar o animal.
A loura observou o beta acalmar o animal aos poucos antes de um outro beta se aproximar um tanto encolhido. Vernon se virou para o rapaz, irritado por o mesmo não ter ido fazer nada pelo animal que era responsabilidade dele. O beta nem precisou falar nada. Erica e Vernon sentiam o cheiro do rapaz no equino. Eles ouviram, em silêncio, o rapaz explicar que uma cobra havia assustado o animal e que ele acabou perdendo o controle sobre o mesmo assim que o réptil surgiu do nada ao lado do equino. Um tanto tímido e envergonhado, o beta agradeceu a Vernon, o que irritou ainda mais o Boyd quando o beta, simplesmente, ignorou Erica, que era quem realmente havia feito alguma coisa. O Boyd iria protestar contra a atitude do seu companheiro de bando, mas parou assim que viu Erica dar as costas e caminhar até a sombrinha que se encontrava rastejando no chão devido ao vento.
— me desculpe por isso. Eu sei que você está decepcionada, mas ele só... não está acostumado com você ainda? – Vernon falou, desesperado, tentando concertar a burrada do beta. No entanto, o que era para ser um argumento, acabou sendo uma pergunta na qual nem ele mesmo acreditava.
Eles haviam sido ordenados a acolherem os betas do humano, mas mesmo assim todos evitavam eles. Eles não comentavam nada, como faziam antes, mas, em contrapartida, apenas se afastavam, o que ainda deixava óbvio que eles não eram bem-vindos no território Hale por parte dos betas. Erica gargalhou, fazendo o Boyd se sentir ainda mais envergonhado. Aquilo não era para ter soado como uma pergunta. Qual é? Nem ele iria acreditar naquilo. A Reyes apenas pegou o objeto azul rendado e bateu com a mão no mesmo, suavemente, retirando a terra de sua renda, enquanto, aos poucos, o seu riso morria, como se a piada da qual ria fosse perdendo a graça.
— não precisa se desculpar por nada. Não é como se eu esperasse algo diferente, de todo jeito – falou a loura de cabelos cacheados retomando sua caminhada.
— não, é sério. Dê um tempo para eles. Eles vão se acostumar com isso – argumentou o homem vendo a loura parar e se virar minimamente para revelar os lábios entreabertos em uma certa indignação.
— se quando você diz “isso”, você se refere ao fato de eu ser um monstro horrível, eu lhe digo: não, eles não vão se acostumar. Ninguém normal nunca se acostuma com isso – ditou a ômega voltando a caminhar, deixando o beta para trás aos poucos.
Vernon se xingou mentalmente levando a palma da própria mão a bater em sua testa. Agora ele que tinha feito merda. O homem suspirou um tanto estressado encarando a adolescente seguir pelas ruas do vilarejo, sendo evitada por todos. Era triste ver aquilo. Erica era uma garota tão linda e as pessoas a evitavam devido ao seu outro lado. Era como os humanos que terminavam um namoro ao descobrirem que seu parceiro era um lobisomem. Vernon já havia passado por aquilo. Ele conhecia uma garota na cidade que dizia lhe amar e tudo mais. Mas, em um deslize, os seus olhos brilharam na lua cheia e a garota descobriu tudo, tratando de correr de si e passar a lhe evitar, tanto, que até saíra da cidade com os pais. Ele não desejava isso para a ômega, mas, ao que parecia, ela era bem mais experiente no assunto do que ele.
Liam estava sentado no centro de uma das salas do templo do território Hale. Aquele enorme e espaçoso prédio era o único lugar em que ele podia fazer aquilo. Por mais que ainda pudesse ouvir betas treinando em outras salas, ali era muito melhor do que a floresta para meditar. Na mata, ele se distraía com as folhas, com a possibilidade de alguma ameaça e até mesmo com uma caça. O Dunbar era um rapaz muito hiperativo, assim como o seu alfa. Mesmo que Stiles tivesse toda aquela graça e charme de um homem formado, mesmo possuindo apenas dezessete anos, ele ainda era um adolescente e era inquieto. Muitos não percebiam, mas o Stilinski costumava lamber os lábios com frequência sempre que ficava muito tempo quieto durante uma reunião, como a que ocorreu quando ambas as famílias foram apresentadas.
Liam era apenas um garoto de dezessete anos, mas ainda assim ele reconhecia a responsabilidade que tinha como um ômega do bando Stilinski. Ele não era tão... irresponsável e traquino quanto os garotos de sua idade. O louro sempre surpreendia os humanos quando saía com o seu alfa para a cidade. As mulheres exclamavam o quanto ele era galante e cortês sempre que as cumprimentava, enquanto os homens sempre comentavam o quanto ele era responsável e educado ao lado de Stiles. Nenhum deles nunca respondia a humanos, mas o segredo de seus comportamentos eram a relação intensa que tinha com o rapaz de cabelos castanhos e olhos da cor âmbar.
Stiles poderia parecer um humano qualquer na visão de qualquer ser especial, como Stiles gostava de chamar, mas para os ômegas, aquele adolescente de pele clara e lábios finos era um Deus. Nada, nem ninguém desmerecedor deveria se quer se aproximar de Stiles, nada que ameaçasse a segurança do rapaz deveria existir. E era exatamente para isso que eles existiam. Eles deveriam cuidar para que existências desnecessárias fossem corrigidas. Aquilo que antes fazia ameaças, sofreria, o que antes matava, morreria, o que antes existia, sumiria. Era simples, prático e, muitas vezes, rápido. Ele se lembrava perfeitamente do último bando que os ameaçou. A ameaça fora feita para Stiles, mas quem levara o ultimato foram os ômegas.
Uma família de alfas que comandava um bando grande, exatamente como o bando Hale, havia se sentido desgostosa com a existência do bando da Rosa Negra. Eles se sentiam indignados por um humano conseguir fazer o que eles não faziam. Eles queriam os ômegas, não sabendo exatamente o que eram. E para isso ameaçaram o amado, tão precioso e “frágil” humano. Assim que soube da ameaça feita, Stiles ordenou que eles se infiltrariam no território do bando adversário naquela noite. Trinta e cinco minutos. Bastaram apenas trinta e cinco minutos para que todo e qualquer lobo daquele enorme bando deixasse de existir. Fora uma ação rápida e simples, porém muito sangrenta. Todos eles estavam indignados e furiosos pela ameaça ao seu alfa. Tão furiosos que faziam questão de fazer o sangue alheio jorrar e sujar a tudo, inclusive os seus corpos. Liam se lembrava muito bem de ter que esfregar o seu cabelo por muito tempo para que o sangue seco em seus fios alourados saísse por completo.
O pequeno louro de boina laranja era um bom ômega e ele sabia disso. Ele era bom... para o seu alfa. Se Stiles decidisse ser bom, então ele seria; se Stiles decidisse ser mal, então Liam seria também. Ele seguiria o castanho. Até o inferno se necessário, mas seguiria. Liam sabia que ele era bom no que fazia: proteger Stiles. Mas também sabia que não era o melhor em suas habilidades. Ele ainda não conseguia controlar todo o potencial que tinha e era exatamente por isso que ele passava a maior parte do tempo trancado em alguma sala do templo. O Dunbar sempre pedia ajuda a Stiles, mas, devido aos últimos acontecimentos, ele tem se desapegado um pouco do castanho quanto ao treino. Stiles estava com os seus próprios problemas com o noivado e tudo mais para que o pequeno ômega lhe deixasse ainda mais sobrecarregado. Liam respirou fundo, ouvindo passos apressados no corredor daquele andar. Ele abaixou a cabeça, tentando ignorar todo e qualquer som ao seu redor.
A porta fora aberta com violência e acabou batendo contra a parede, o que fez o garoto se sobressaltar, assustado com o estrondo, tendo a boina laranja caindo de sua cabeça. O adolescente olhou para trás, enquanto ajustava a boina em sua cabeça novamente, vendo um louro um pouco mais alto do que si lhe fitar surpreso, enquanto erguia as mãos em um pedido mudo de desculpas. Liam suspirou cansado, ignorando o Raeken e retornando para a posição de meditação.
— me desculpe, eu achei o Derek estivesse aqui, descontando a raiva – disse o beta vendo o ômega negar com a cabeça, ainda de costas para si.
— está tudo bem – respondeu Liam antes de respirar fundo tentando se concentrar.
— o que está fazendo aqui, sozinho? – perguntou Theo vendo o rapaz de boina, casaco e calças curtas, todos laranjas, permanecer na mesma posição.
— meditando – respondeu Liam voltando a respirar fundo.
— você está tendo problemas para controlar o seu lobo? – indagou Theo, surpreso.
Os lobisomens só meditavam no início de seus treinamentos, quando eles não conseguiam controlar os seus lobos interiores. Ver um ômega tão calmo e controlado como Liam meditando era de surpreender um pouco, de certa forma. Afinal, Liam era um ômega. Ômegas eram descontrolados, no final das contas. O louro menor suspirou cansado. Ele não queria falar nada sobre isso com Theo, e nem pretendia. O rapaz estava atrapalhando o seu treinamento consumindo a pouca paciência que lhe restava. Ele estava irritado por não conseguir alcançar o que tanto queria. Caramba! Até Corey que tem um maldito réptil como lado animal havia conseguido o domínio sobre suas habilidades, mas ele não. Ele se sentia tão inútil por isso que chegava a evitar confrontos de alta dificuldade, por saber que poderia muito bem não acabar como ele esperava.
— é uma longa história – respondeu Liam em um murmúrio, antes de se levantar.
— eu tenho tempo – argumentou encarando o menor negar com a cabeça.
— falar disso com você não é uma opção, Theo – rebateu vendo o maior lhe fitar confuso.
— por que não? Algum problema comigo? – indagou o Raeken vendo o menor negar com a cabeça, sorrindo minimamente.
— não – mentiu – é apenas algo que não deve ser discutido com ninguém do seu bando. Devo falar disso apenas com os meus – disse o baixinho caminhando na direção da porta, ignorando o odor de indignação do mais alto.
— cara, somos de bandos aliados, não somos? Você pode falar comigo – Theo argumentou vendo o rapaz sorrir ladino ao mesmo tempo em que liberava um odor claro de indignação.
— o meu bando é aliado do seu bando, mas isso não nos torna amigos ou coisa do tipo – Liam rebateu o argumento do mais velho, com seriedade na voz.
Uma seriedade que surpreendeu o mais velho. Liam surpreendeu o bando Hale, assim como vários humanos, assim que sua idade fora revelada. Principalmente a Theo. O garoto tinha dezessete anos, mas era tão maturo e responsável. Ninguém do seu círculo de amizade era a metade do que Liam era quando tinham a idade do garoto. Theo fitou, boquiaberto, o garoto passar por si, saindo da sala de treinamento e começar a seguir pelo corredor. Ele já não entendia mais nada. O Raeken jurava que o garoto era o único ômega que falava consigo, mas agora estava assim? Ele queria entender o que estava acontecendo. Ele precisava entender.
— espera! Por que está assim comigo? – indagou o mais alto começando a seguir o mais novo, que apertou o passo para se ver livre do maior.
— por que será? – questionou Liam, sarcasticamente, começando a correr pelos corredores de piso de madeira ao sentir o mais velho se aproximando.
— Liam! Garoto, me responde – pediu o louro mais alto apertando o passo ao ver que o adolescente já havia alcançado as escadas.
Ele engoliu em seco ao ver o garoto subir no corrimão das escadas em um salto, parando de costas para a queda de alguns bons andares que machucaria qualquer lobo se o mesmo ousasse aterrissar diretamente no solo e mataria qualquer criança que dali caísse. Ele parou assim que viu Liam lhe fitar com seriedade, abrindo os braços, indicando que poderia se jogar a qualquer momento. E lá estava o que ele tanto esperava. Ele julgava ser impossível um adolescente ser tão certinho e perfeito quanto Liam. O lourinho não tinha o ar rebelde ou a capacidade incrível para péssimas escolhas que os adolescentes geralmente tinham. Mas ali estava ele, de pé ao lado de uma queda que poderia lhe deixar paralisado por semanas de pura dor e agonia, mesmo ele sendo um ômega.
— não faz isso, garoto. Eu só quero que você me responda. Você me deve isso – argumentou Theo, erguendo as mãos, desesperado, encarando os olhos frios do mais novo em si.
— eu não lhe devo respostas, membro do bando Hale. Eu lhe devo apenas silêncio – fora tudo o que o baixinho disse antes de saltar, girando o corpo para trás em um mortal, não notando quando Theo correu para tentar lhe agarrar qualquer parte do corpo.
As garras do Raeken rasparam o tecido laranja do casaco de Liam quando o garoto estava de cabeça para o chão e costas para si. Por pouco ele não conseguiu segurar o Dunbar, impedindo a queda do mesmo. Uma dor lhe apertou o peito ao ver o garoto de boina segurar a mesma quanto finalizava o giro, apontando as pernas para o chão. O mais velho gritou o seu nome, chamando a atenção de todos os lobos que estavam nos corredores do templo, que no mesmo instante correram para as escadas ao ouvirem um beta gritar o nome de um ômega. Todos fitaram, surpresos, o garoto cair os vários andares do templo.
Já Liam, encarava o chão com seriedade ao mesmo tempo em que os seus músculos começavam a tomar forma, dobrando de tamanho, lhe dando uma forma um tanto assustadora. Seus olhos brilharam em dourado, enquanto os seus cabelos que estavam de fora da boina paravam de se mover com o vento da queda. Quando o chão finalmente se aproximou, o mais novo o acolheu com os pés, antes de, devido a velocidade da queda, sentir o seu corpo ser forçado para baixo. Ele então se abaixou, quase colando as nádegas redondas que eram espremidas pelo tecido laranja apertado, devido a mudança em seu corpo, em seus sapatos brancos. Um grupo de betas que adentrava o templo lhe fitou surpreso, antes de se assustarem quando, do nada, uma ventania se originou da queda, lhe forçando a cobrir os olhos.
— e é por isso que vocês não deveriam nos negligenciar. Podemos ser loucos, mas ainda somos mais fortes e melhores do que vocês – ditou o rapaz, com seriedade, fazendo os betas recuarem, lhe abrindo caminho para passagem enquanto, nos andares de cima, os betas encaravam, em choque, o chão no centro da escada, lá embaixo.
— filho da mãe! – exclamou Theo, surpreso e aliviado, ao ver o garoto caminhar para o lado de fora do templo como se nada tivesse acontecido, como se ele não tivesse pulado de uma altura absurda até mesmo para um lobo.
— o que merda esse garoto comeu na infância? – se perguntou o Raeken, ainda em choque ao mesmo tempo em que observava vários betas colocando a cabeça para fora sobre o corrimão, olhando para cima para tentarem descobrir de que andar o louro de roupa laranja havia pulado.
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