The Empress Of Wonderland
2 Gato
Notas iniciais
Mio.
− Bom dia, bichano.
Como sempre, me levantei e fui tomar café. Mas dessa vez, quando fui me trocar, senti novamente o olhar azul sobre mim.
− O quê que é?
Acompanhei o olhar dele. O problema é que tive a impressão de que o olhar dele mirava a minha calcinha.
Talvez gatos fossem tarados.
Coloquei meu uniforme com toda a pressa do mundo, o que obviamente resultou em um tombo memorável.
Quando toquei a maçaneta, ele miou alto.
− O que foi? Eu deixei leite aí pra você.
Seus olhos pidões encontraram os meus, suplicando minha companhia.
− Não posso. – suspirei. Eu bem que queria ficar. − Volto na hora do almoço. Trago peixe pra você.
Um dia de aula nunca se passou tão lento. A garoa cobria a tudo como uma névoa pegajosa e irritante, deixando meu cabelo uma eca.
Assim que o sinal tocou, corri para o mercado.
Mio.
− Oi pra você também, bichano.
Peralá. Lá estava eu, conversando com o gato. De novo. O bicho em si já era estranho. Ainda mais se me respondia.
Não, o pior era eu entender o que ele dizia.
Mio.
Não, eu não iria responder. Tudo aquilo de conversar com gatos roxos e listrados era apenas minha imaginação.
Mio.
Apenas minha imaginação.
Mio.
− Para de miar, eu não vou responder! Não sei falar língua de gato!
Mio.
− Como assim eu sabia até agora?
Mordi o lábio. Era impressão minha ou havia sarcasmo naqueles olhos azul elétrico?
− Aqui. − Disse, contrafeita, entregando-lhe uma bandeja com peixe sem espinha.
Mio.
− Isso é muito estranho.
A noite estava ainda mais escura do que o normal, graças à tempestade que açoitava as janelas. Mas eu estava agradavelmente encolhida na minha cama, coberta, fazendo a lição de casa.
E com um gato roxo listrado de laranja no meu colo.
− Você tem sorte de ser um gato. – Eu havia enfim desistido. Afinal, que fosse. Eu falaria com o gato. – Gatos não têm que fazer lição de casa.
Ele miou, se enroscando ainda mais.
Eu estava exausta, e com muita preguiça; Pulei algumas questões.
Ele se mexeu um pouco.
Uma suspeita se esgueirou para a minha mente. Quando eu respondia as questões direito ele ficava quieto...
... Parei de responder, e fiquei desenhando na margem do caderno.
Ele começou a se mexer.
− Você tem algum problema com não fazer a lição direito?
Ele miou agudo e me encarou.
Larguei o caderno perto da mochila. Depois dessa eu não conseguiria me concentrar, mesmo que tentasse.
−WAA! – CABOF!
Sim. Dez a zero pra mosca.
− Você bem que poderia agir como um gato de verdade e matar a mosca, né? – disparei para o gato espreguiçado na minha cama.
Ele me olhou com ironia, quase que zombando da minha cara, antes de pular para a mesa do meu quarto. Mancando levemente, ele se aproximou do inseto sem fazer ruído, e em um salto o tinha esmagado entre as patas.
Ok. Até então, eu achava que ele era de alguma espécie rara ou criada em laboratório, para justificar suas cores. Havia acreditado que nossas “conversas” eram fruto da minha imaginação, e que ele miava apenas como reação ao som da minha voz.
Mas aquilo era outra história.
Segurei-o entre minhas mãos, com carinho e medo ao mesmo tempo.
− O quê você é? – Sussurrei, assombrada e maravilhada.
Ele apenas me olhou com firmeza. Aqueles olhos azuis e elétricos pareciam não ter fim.
− Mana, tenho novidades.
− Ah... – Hesitei, com pressa de ver o gato.
− Os pais do Joseph, nosso vizinho, vão viajar, e...
− Falaí, esquisita!
Senti um tapa nas costas que me fez expelir todo o ar que tinha nos pulmões e ainda mais alguns órgãos.
− AH... – Demorei alguns segundos pra me recompor. – Legal...
Sim. Muito legal. Alguém tem uma máscara de hóquei e uma serra elétrica?
− É sério, agora eu tenho que ir...
Sem esperar resposta, corri escadas acima até o meu quarto; Esperava encontrar o bichano dormindo no sofá, se enroscado na minha cama, cheirando algum canto do meu quarto, caçando alguma mosca, fuçando na minha gaveta, até talvez cheirando meus sutiãs (sim, ele já havia feito isso), cutucando alguma bola de papel, escalando algum móvel...
Abri a porta, feliz da vida.
De fato, havia algo na minha cama.
A garota fitou-o embasbacada. Não era um gato que estava largado sobre os colchões.
Era um garoto.
Um garoto de cabelo roxo, com mechas laranja. Um garoto cujo rosto era espantosamente belo, de traços exóticos e selvagens. Um garoto espreguiçado sobre os lençóis desarrumados, exibindo assim toda a envergadura de um corpo delgado. Um garoto que usava uma coleira ao pescoço, exatamente igual à do bichano. Um garoto que usava roupas de um roxo que beirava o azul escuro, com detalhes bordados de dourado: Uma roupa estranha, agarrada no tronco mas com enormes mangas largas, como as de um mago, e uma calça... Agarrada... E...
O olhar de Sharon ainda estava preso na calça sensual do garoto quando ele moveu as orelhas. E aí ela ficou ainda mais abismada: Ele tinha orelhas de gato. Orelhas como as do bichano, pontudas e cuidadosamente felpudas. Ele também tinha o rabo do bichano, um rabo listrado, macio e delgado, cuja ponta se agitava ao sabor dos seus sonhos.
Com todo o cuidado do mundo, ela se aproximou de seu rosto adormecido. Ele estava tranquilo, embora arranhado. Ela nunca vira um rosto assim. Ele era felino.
E ele lhe passava o mesmo sentimento que o gato. Ela queria abraça-lo, cuidar dele... Mas o garoto lhe causava ainda outros sentimentos. Os seus lábios entreabertos pareciam uma armadilha mortal que guardava um tesouro maravilhoso.
A curiosidade e o medo lhe tomaram. Seria um sonho? Uma alucinação? O gato já era difícil de aceitar: Imagine-se então um garoto maravilhoso com orelhas e rabo de gato?
Com a ponta dos dedos trêmulos, afastou uma mecha roxa de seus olhos...
... Olhos que se abriram...
− WAA! – CABOF!
Sharon estava atônita demais para ligar para a dor. A cabeça do garoto surgiu, por cima da cama.
Ele tinha olhos grandes, e do mesmo azul elétrico dos do gato. Mas, de repente, eles pareciam muito mais profundos, intrigantes e atraentes...Pareciam traga-la para dentro de si, como se ela fosse se perder neles e nunca mais fosse ver mais nada que não fosse seu azul interminável...
Ele sorriu. Um sorriso largo, de orelha a orelha, que fez seus olhos se tornarem fendas azuis. Um sorriso cheio de dentes. Um sorriso irônico e sarcástico.
E disse com uma voz rouca e maravilhosa, que ressoou em sua mente:
− Bom dia, Sharon.
Ela nada disse. Apenas empalidecia, ficando mais fraca a cada segundo.
“Meu nome é Cheshire.”
Com um baque surdo, Sharon desabou no chão, sem sentidos.
Notas finais
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