The Eleventh Hour

9 O baile celestial


Notas iniciais
eternal summer - the strokes: https://open.spotify.com/track/6IRzBP4gVoV4D2zHmocoWy?si=7h95a1OCQhGpekFWeqT2mw

I can't believe it
This is the eleventh hour
Psychedelic
Life is such a funny journey

No dia do baile, cada integrante do comitê de organização do evento ganhou previamente dez pontos pelo trabalho bem feito (Penny havia apresentado infográficos e fotos). Isis, que estava acostumada a perder pontos sem fim para a corvinal – recuperando-os apenas nos jogos de quadribol – não poderia estar mais exultante. Por isso e, claro, pelo pequeno detalhe de que agora ela tinha uma namorada.

— Chega a ser irritante.

— Hm?

— Você e esses seus sorrisinhos bobos para o nada. – Rowan implicou, mas apenas por diversão. – Eu mal posso acreditar que vocês se resolveram tão rápido.

— Não foi rápido, no meu ponto de vista.

— Nem no meu. – Bill apareceu e roubou um pedaço de pão que estava há minutos inteiros esquecidos no prato da amiga. – Oi Rowan. Você está bonita hoje.

A garota sufocou um pouquinho com o próprio ar. Isis abriu outro sorriso, dessa vez muito diferente. Rowan sentiu o rosto queimar.

— Obrigada, Bill.

— Assumo que este pequeno demônio te convenceu a ir ao baile, no fim das contas. – ele disse, beijando o topo da cabeça de Isis de maneira fraternal, o que a fez girar os olhos teatralmente.

— É, ela conseguiu.

— Como eu ajudei na campanha, acho que não custa nada alguém me deixar dar uma espiadinha no salão mais tarde, hein, Poeirestelar?

— Não sei não, Bill. Vou pensar no seu caso.

— Ela vai deixar. – Rowan disse firme. Que Merlin a ajudasse, Bill Weasley a veria num maldito vestido de gala nem que fosse a última coisa que ela fizesse em sua vida escolar.

— Parece que está decidido então. – Bill sorriu antes de se afastar. – Mande um beijo para Penny por mim.

— Deixa comigo. – Isis gritou, antes de encarar a amiga: — Chega a ser irritante... – Brincou, sem poder evitar.

— Cala a boca! – Rowan pediu, achando que aquele era o melhor dia de sua vida até então.

— Sabe de uma coisa, Rowie? – ela se levantou da mesa. – Eu vou mesmo.

E então Isis cruzou o amplo salão principal. E felizmente Penny Haywood tinha pensado a mesma coisa. Elas se encontraram no meio do caminho e, depois de uma rápida conferida para checar se nenhum adulto estava presente, elas se beijaram como em um dos muitos filmes heteronormativos que ambas haviam assistido durante suas vidas de nascidas trouxas. E houve clamor adolescente. E houve também aquela alegria pueril quase insuportável de tão boa.

— Bom dia!

— Bom dia! Pronta para começar os preparativos em meia hora?

— Eu nasci pronta, Haywood. – Isis piscou e Penny sentiu uma vertigem. Ela estava certa de que podia tirar aquele sorrisinho confiante de Poeirestelar junto com um bocado de suas roupas se aquele não fosse um lugar público e não houvesse dezenas de pessoas encarando-as.

— Então tá. – ela ajeitou a gravata da lufa lufa, antes de dizer: — Antes, será que nós podemos conversar em particular no corredor?

— É claro. – Isis respondeu com o coração disparado e as duas tomaram cuidado para saírem de maneira calma e digna do salão principal.

*

As garotas e Barnaby trabalharam a manhã e a tarde inteira para que as coisas ficassem do jeito que eles haviam premeditado. Penny Haywood era perfeccionista e isso dificultava tudo que o auxilio da magia facilitava. No fim, com as bolas flutuantes de luz dispostas à distancias exatas, o tapete galáctico estrelado gigantesco que delimitava a pista de dança, os tsurus e as mesas redondas de jantar estavam...

— Mais ou menos. – Penny concluiu, com olhos clínicos.

— Puxa, Penélope, dá um tempo. – Tulipa riu, maravilhada. – Ficou ótimo.

— Ficou mesmo. – Tonks disse, aproximando-se do tapete que ela considerava sua obra prima. Era como estar pisando no espaço. Acima, o céu estrelado naturalmente encantado do salão reforçava a ideia.

Penny consultou Isis com os olhos. Aquela era uma mania antiga, algo que elas faziam desde o primeiro ano. Isis Poeirestelar sabia que, quando Haywood estava contrariada ou confusa, quase nunca adiantava dizer coisas. Então Isis apenas a olhava de volta e torcia para que ela enxergasse o que ela mesma via. O contrário era igualmente válido. E funcionava feito mágica. Agora que nenhum ruído de medo ou segredo pairava entre elas, parecia que a coisa toda tinha alcançado um novo nível de vinculo e intimidade.

Haywood abriu um sorriso discreto.

— Está ótimo mesmo. – disse por fim, voltando atrás no seu próprio receio e insegurança.

— Como você fez isso? – Tulipa perguntou à Isis que, ainda calada, apenas encolheu os ombros.

— É algum tipo de superpoder de pessoas apaixonadas. – Barnaby explicou. – Eu já vi acontecer antes. As vezes as pessoas estão em lados opostos de uma sala, mas então elas se olham e entram numa dimensão paralela só delas e todo mundo sente inveja porque é assim que a vida deveria ser para todo mundo, não?

— Barnaby isso foi surpreendentemente acurado. – Tonks murmurou, assustada.

— E inteligente. – Penny atalhou.

— E eu acho que todo mundo do nosso ano vai ter a possibilidade de se sentir assim hoje. Com par ou sem. – Isis disse por fim, satisfeita com o comitê e com a própria vida.

E ela estava certa.

À noite, quando Rowan e Isis saíram juntas da sala comunal da corvinal, havia um comichão de expectativa que passava de uma amiga para a outra feito eletricidade. Quando Ben se juntou a elas, a sensação triplicou.

E não importava o fato de que eles haviam se atrasado muito ao decidirem esperar uns pelos outros, porque eles estavam juntos. E esse era o tipo de elo que valia tanto quanto qualquer ligação amorosa. Naquele instante, Isis Poeirestelar se sentiu completa em si mesma porque Rowan também se sentia e o mesmo acontecia com Cooper. Eles ainda tinham dois longos anos pela frente, mas Isis sabia que se pudessem permanecer assim, tudo acabaria bem.

Quando eles finalmente adentraram o salão, os olhos de Isis encontraram com os de Penny Haywood no centro. Ela pediu licença aos amigos por um instante para ir cumprimentar o seu par.

— Haywood. – Isis sorriu, experimentando o gosto da sua palavra favorita no mundo. Ela estava tão bonita... Com o cabelo curto e uma franja que Isis tinha certeza que não existiam até duas horas atrás, ela era a coisa mais adorável que seus olhos já tinham visto dentro de um vestido dourado de ar vintage, calçando as mesmas botas de sempre.

— Poeirestelar. – Haywood devolveu a saudação e não se sentiu desconfortável em olhá-la com calma. Isis trajava um vestido azul escuro quase preto. Pequenos pontinhos de luz brilhavam como estrelas. Ela havia prendido os dreads no alto da cabeça e tirado os óculos de tartaruga. Sua boca estava pintada com um batom vermelho sangue que fazia Penny pensar numa lista infindável de pensamentos pouco inocentes.

— Penélope. – Isis disse de novo, apenas encantada demais para dizer qualquer outra coisa.

— Isis. – Penny brincou e Isis sorriu. Havia algo de comovente em apenas estar ali e escutar a garota que ela amava a chamando pelo nome. Não por desfazedora de feitiços, não por quebradora de maldições, não por nenhuma insígnia ou alcunha que ela já havia recebido. Nada que a definisse, nada que a limitasse, apenas seu nome. Uma designação para sempre em aberto.

Parecia apropriado: ser apenas Isis. Parecia um fim-principio. Parecia a única maneira de encontrar aquela faixa de “felizes para sempre”.

Notas finais
Eu mal posso acreditar que em dois dias escrevi quase 11k de fic - com inicio, meio e fim - mas foi exatamente isso que aconteceu de ontem para hoje e eu não poderia estar mais feliz :) há tanta coisa que poderia ser acrescentada no desenvolvimento da história, no arco dos personagens, mas eu fiz com o intuito só de me divertir, sem pensar muito, e acho que o resultado ficou até decente diante disso.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!