The Don't You Give Up Guy
1 Don't you dare
Não era a frustração, descontentamento ou qualquer sentimento negativo que Adaira estava descontando em uma bebida ruim e nos pobres ouvidos ensurdecidos pelo som estrondoso do recinto. Não, longe disso. Ela era capaz de resolver seus problemas sozinha em vez de empurrá-los para o lado com alguma droga aleatória.
Isso não significava, no entanto, que não quisesse se divertir de vez em quando. Mas era difícil fazê-lo sem a presença da amiga, Laurel, em um local que apenas ia por sua causa e porque ela o fazia divertido. Que droga, Leo, pensou, referindo-se à peste que Laurel apelidara de namorado. Agora eram dez e meia da noite e Adaira estava sozinha na maldita boate, gastando dinheiro sem ao menos notar em uma bebida horrível e sentindo cada vez mais a audição ser danificada por aquele ruído que não merecia ser chamado de música. Maravilha.
Olhou ao redor, buscando algo que lhe parecesse no mínimo interessante naquele centro de suor e álcool. Não que já não houvesse feito isso. O barman provavelmente já estava frustrado por vê-la engolindo tudo o que colocava em seu copo para logo em seguida parecer uma coruja vistoriando o salão. Adaira balançava os ombros mentalmente quando se dava ao trabalho de notar isso. É só da minha conta.
Alguém sentou-se no banco a seu lado e ela escaneou rapidamente o bar, tentando decifrar se estava prestes a ser galanteada ou se aquele era o único lugar disponível. Constatou a segunda opção e soltou o ar pelos lábios, sem saber exatamente se estava contente ou infeliz por não ter sido vítima de investidas naquela noite. Não seria uma má ideia, na verdade. Já estava ali, jogando seu dinheiro no lixo. Fugir para aproveitar um pouco poderia ser bom.
Ela olhou de relance para o vizinho e franziu a testa por um segundo, para sentir o rosto se incendiar no outro. Adaira o conhecia. Fazia alguns anos desde que vira o seu rosto, mas ele nunca mudara de fato, mesmo no longo período em que o acompanhava quase todos os dias. Ainda assim, ela não se esqueceria tão facilmente dos traços de quem a fez se inspirar em suas palavras, se exaltar com sua voz e se manter de olhos abertos com as lições que ele nunca soube que havia dado.
Era uma pena que ele houvesse se tornado um idiota.
Adaira não sabia qual era a música ou o álbum mais recente da banda na qual ele era parte – a que um dia foi sua favorita, anos antes, ainda em sua adolescência. Sequer sabia se a banda ainda existia. Já não lhe era uma informação relevante. Ele havia há muito deixado de ser-lhe relevante.
O cantor pegou-a olhando em um soslaio e voltou-se para ela, as sobrancelhas franzidas. Nunca foram tão estupidamente famosos, então provavelmente sequer supunha que Adaira o havia reconhecido. Ela sacudiu o cabelo castanho e olhou-o com menos pudor, dizendo as primeiras palavras que lhe vinham à mente.
– Sabe, eu costumava te adorar. A todos vocês.
Ele desviou o olhar, mascarando uma elevação do canto do lábio.
– “Costumava”, é?
– É. – Adaira deu de ombros. – As pessoas mudam. Eu mudei. Eles mudaram. Você mudou. Um pouco demais, até.
O cantor pareceu constrangido, mas recuperou a voz.
– Foi o melhor período que tivemos. O alcance da banda se tornou quase incalculável.
A jovem riu.
– Definitivamente não para mim e para muitos outros fãs – ela suspirou. – Quer saber, não interessa. Já não é da minha conta.
Adaira apenas encarou o barman e ele voltou a encher seu copo. Ao terminá-lo, notou que o artista ainda olhava seu rosto e ela se amaldiçoou por tê-lo atiçado.
– Desde quando você acompanha a banda?
Não mais, seu estúpido vendido, ela quis dizer, mas contentou-se em simplificar as coisas.
– Há mais de dez anos.
Ele arregalou os olhos e ela contraiu os lábios, tentando dizer um “eu sei do que estou falando” sem ter que usar as palavras. O cantor ficou pensativo por alguns momentos e logo voltou a atenção para seu copo e sua bebida. O que o haveria levado até ali? Adaira lembrava-se das canções mais antigas, que falavam sobre álcool, drogas, sexo, amizade e juventude. Nunca gostara muito dos dois primeiros temas, mas o líder da banda – ele – era capaz de fazer coisas incríveis com sua voz e seus versos. Os demais rapazes eram a parte que a faziam perder a cabeça com os instrumentos fabulosos e que pareciam tocar diretamente a sua alma. Eles eram racionalidade e sentimento, gelo e fogo, simultânea e individualmente – e Adaira os adorava tanto que chegava a doer.
Até que eles se destruíram e a ela.
Adaira voltou os pensamentos ao bar e percebeu com infelicidade que ele estava prestes a voltar a perturbá-la. Mas ele não falou com sua ex-fã quando abriu a boca novamente. E ela não respondeu a seu ex-ídolo quando liberou as palavras. Da mesma forma que tal relação foi totalmente esquecida quando eles chegaram no apartamento da jovem, intrínsecos um ao outro, ansiosos e animados por algo de bom naquela noite entediante.
Mais tarde, ele achou que não, mas ela ouviu quando sussurrou em seu ouvido, quase adormecida, para que não mais ficasse ressentida. Que não desistisse. Que ele iria abandonar os novos costumes. Para ela, no entanto, era demasiado tarde.
Adaira jamais retornou à boate.
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