The Doll

1 A chuva começa....


Perdi minha mãe aos nove anos. Sempre vivemos humildes. Ás vezes nos faltava alimentos e nossa casa era cheia de goteiras, ainda assim ela sempre me ensinou a respeitar e ajudar aqueles necessitados que encontrávamos na rua. Foi com essa visão que, no mesmo ano que ela morreu, me aproximei de uma velha que se abrigava da chuva.

—Olá- Sussurrei me aproximando de seu esconderijo.

A figura não se mexeu, pensei que estivesse dormindo de tão parada que estava debaixo de sua capa negra. Então ela se moveu. Eu ainda não podia ver seu rosto, apenas seu queixo enrugado e seus lábios feridos.

— Olá. –Sua voz era rouca e arrastada, como se sua garganta estivesse ressecada- O que uma menina tão bonita como você faz aqui fora neste temporal?

— Estou longe de casa.

— Oh, então por que você não se aproxima? Você pode se esquentar com esse cobertor velho que tenho aqui. – Falou mexendo em sua sacola e tirando de lá uma coberta toda rasgada- Ora, vejam. Você esta toda molhada.

Aproximei-me devagar e me enrolei agradecida no pedaço de pano oferecido.

— Sua mãe não lhe disse para ficar longe da chuva?- Perguntou, ralhando.

— Minha mãe morreu...

—Oh...

Um sorriso triste brotou dos lábios da velha. Ela novamente levou sua mão à sacola e tirou de lá uma marionete. Primeiro, saíram algumas cordas soltas, logo em seguida uma linda boneca de madeira de cabelos ruivos, olhos verdes e vestido branco.

—Veja. – Falou gentilmente- Esta boneca é tão parecida com você, é adorável.

Olhei para a boneca, interessada.

— Tem algum desejo a fazer, querida? Esta boneca pode realizá-lo.

— Algum desejo?

—Sim, qualquer coisa. É só você desejar e me dar um fio de cabelo seu.

Eu queria tantas coisas... Se eu tivesse minha mãe de volta...

— É claro, qualquer coisa que seja plausível, ela não tem o poder de reviver os mortos, por exemplo. Algo material, ou até sentimental...

A velha sorria, e algo naquele sorriso me arrepiou, tive a estranha impressão de que ela sabia o que se passava na minha mente, mas não arredei o pé.

— Eu não sei o que quero pedir ain...

Não consegui terminar a frase, parecia que tudo havia congelado, o ar não entrava e nem saia do meu pulmão, nem mesmo conseguia me levantar para sair dali, comecei a entrar em pânico.

—Ah, querida, deve haver algo. Não? Bem, se você quiser fazer o desejo mais tarde, tudo bem. Mas eu vou pegar um fio de cabelo seu, certo? –Um sorriso maníaco surgiu e seus lábios expondo seu dentes podres- Vou lhe explicar como funciona, espere só um pouco...

Ela levou a mão à sacola novamente, tirando de lá uma agulha e uma venda negra, colocou a boneca no colo e acariciou seus cabelos para trás.

— São apenas algumas regras, guarde-as bem. – Ela ergueu a mão e a direcionou para os meus cabelos ruivos... tanto, quanto os da boneca- Primeiro: Você deve obedecê-lo, e somente a ele. Quanto mais você lutar contra os fios, mais doloroso será. – E então murmurou- Esse fio deve resolver o problema – Arrancou-o da minha cabeça sem delongas, fazendo meus olhos marejarem de dor- Segundo: Não se afeiçoe a ninguém. Terceiro: Você não tem um tempo especifico de trabalho, nem horário, lembre-se disso.

Ela havia enfiado meu cabelo na agulha e ia começar a prendê-lo a cabeça da boneca. Tentei me mexer ou gritar, mas nada acontecia, apenas lagrimas brotavam de meus olhos e caiam rolando pela minha face. O que ela queria dizer com tudo aquilo?

— Acho que essas são as principais regras. Aquele que for cuidar de você tem regras mais especificas. –Ela olhou para mim- Oh, querida, não chore! Vai estragar minha mercadoria. – Reclamou.

Mexa-se! Mexa-se! Por favor, alguém me ajude...

—Não se preocupe, vão cuidar bem de você.

Ela deu o ultimo nó e ajeitou a boneca de um modo que ficasse na mesma posição que eu. Amarrou os fios com firmeza aos pulsos, tornozelos, cabeça e a outras partes do copo, amarrando as outras pontas em uma estrutura de madeira. Pegou a venda e a posicionou na frente dos olhos verdes da marionete.

—Durma um pouco, querida. Você irá acordar quando seu novo mestre te aceitar- Então fechou a visão dos olhos da nova marionete. Ao mesmo tempo fiquei cega, senti cordas firmes se prenderem em todo o meu corpo, deixando-o incrivelmente leve. A ultima coisa que senti foi meu rosto batendo no chão duro da rua antes de perder a consciência.

Notas finais
E então, gostou?
Estou aberta a elogios e criticas, então pode se aproximar, não mordo nem assombro (talvez).
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!