The Diarist
1 Capítulo 1
O tempo de Londres era louco.
E isso me fazia pensar sobre como eu podia ter escolhido ganhar a vida em um país como esse. Fazia um tempo que me questionava sobre isso, sempre pela manhã antes de se levantar para trabalhar como empregada na casa dos Sr. Wood. E, embora fosse o meu sonho, morar nesse lugar fazia meus nervos irem até o céu e voltar.
Gemendo, levantei da cama pedindo a Deus para que fizesse sol quando saísse de casa. Rezava todos os dias pelo sol e calor do Rio de Janeiro. E o tempo aqui sempre era frio, úmido e chovia frequentemente.
Trabalhava como Diarista três vezes por semana. O dinheiro era bom, eu consegia viver bem e dividir o apartamento pequeno com uma americana chamada Janie que trabalhava em uma starbucks no centro da cidade.
A vida não era muito fácil. Acordava as seis (deveria acordar as cinco e meia, mas sempre queria dormir mais meia hora), tomava um banho correndo, as vezes comia e saia correndo para a parada de ônibus. Depois pegava um metrô e, descia na estação do Chelsea. De lá ia andando. Sempre chegava as nove em ponto, horário que entrava para trabalhar. Nos dias em que não trabalhava, estudava inglês em um curso barato que consegui pagar juntando algum dinheiro no Brasil.
O sonho de morar em uma cidade charmosa vinha desde criança. Tinha sempre a impressão que era uma vida mais fácil, que as pessoas conseguiam se vestir melhores no frio, que aquilo era algo bem divertido. Pois bem, era. E não era. Com vinte e dois anos, morando com uma outra pessoa que não era minha mãe e tendo que batalhar para viver, as coisas se transformavam em um peso enorme. Mas eu estava em outro país, com outros sonhos, com uma vida inteiramente minha, com responsabilidades só minhas. E essa cidade era o meu sonho desde quando era uma menina.
–Bom dia, Janie. — Falei vendo-a tomando o café.
–Bom dia Alice. Eu estou tão apressada.
–Eu também. Eu estou indo, vou só tomar um gole de café.
Saí de casa e, novamente, estava frio. Odiava frio. E, embora a vida toda sentisse que o amava, foi só chegar na Europa, percebi que era apenas ilusão. Me agasalhei melhor e caminhei até a parada onde já haviam algumas pessoas.
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–Sr. Wood, o senhor vai precisar de mais alguma coisa? — Perguntei após terminar de limpar toda a casa. Ele morava com o marido em um charmoso apartamento no centro de Londres. Nicholas Wood era um roteirista super conhecido no meio do teatro. Suas peças haviam sido encenadas por uma grande parte de atores de toda Hollywood, algo que o deixava orgulhoso. Conseguir trabalhar em sua casa era uma sorte, sabia disso. Havia lido sobre um emprego no jornal e fui escolhida. Ele costumava dizer que havia gostado do meu rosto, e que era sempre divertida com meu sotaque.
–Não, minha querida. Eu sei que tem que atravessar a cidade para chegar em casa. — Ele olhou pela janela. — O tempo está péssimo. Não quero atrapalhar sua vida.
–Então tudo bem. Preciso arrumar minhas coisas lá dentro.
–Ah, ia esquecendo. Na sexta será o aniversário de Jerome. Eu decidi fazer uma recepção aqui em casa, um jantar. Chamaremos apenas alguns amigos íntimos, você sabe como ele é.
–Sim, senhor. — Sorri. Gostava do marido do Sr. Wood. Era uma canadense simpático que gostava de um wisky.
–Pois então, eu pagaria uma diária para que você nos ajudasse. Preciso apenas de alguém para organizar o buffet, colocar as mesas em seus lugares e o resto. Você usaria uma roupa comum e desfrutaria de nossa companhia.
–Por favor, sr. Wood, sabe que eu não posso negar uma diária. Acontece que, como é jantar, não teria como voltar para casa.
–Sem problemas, você dormiria aqui. Temos quartos de hóspedes. A não ser que tenha outro compromisso.
–Não, não senhor. Eu estou até procurando uma forma de ganhar um dinheiro a mais. Seria uma boa ajuda.
–Então fica combinado, na sexta você pode chegar um pouco mais tarde.
Saí da casa do Sr. Wood sentindo grata por mais um dinheiro entrar em conta. Não poderia negar que precisava e que, a cada dia, o dinheiro estava indo mais pelo ralo.
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O curso de inglês era a alegria da semana. Era apenas duas vezes por semana e sempre pela manhã. Sentia que, ali, eu estava bem, estava progredindo. Embora tivesse começado o curso de psicologia no Brasil, havia trancado para ir em busca de um sonho em um país desconhecido de língua desconhecida. Fazia sentido me empolgar com algo.
Embora ficasse cansada, sempre quando saía da escola de línguas, passeva pela cidade como turista. Sempre levava alguns sanduíches e água na bolsa, comia enquanto andava pelos parques, visitava exposições, museus, olhava para cada lugar. Conhecia todo buraco divertido em Londres, os melhores bares e pubs, os melhores becos e os piores também. Embora nunca tivesse dinheiro para visitá-los, era reconfortante falar para as pessoas onde eram os melhores lugares para se divertir.
Com esses passeios, conheci um casal brasileiro que tinha uma cafeteria bem modesta. Eles moravam em Londres já há dez anos. Evitava falar português para que não perdesse a manha do que estava aprendendo, mas era inevitável. Era maravilhoso falar nossa lingua.
Sempre largava os passeios quando estava morrendo de frio e o dia já estava escurecendo. Pegava o metrô na estação e depois ia andando para casa, isso sempre me fazia bem.
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–Quer dizer que você vai para o aniversário do chefe?
–Sim.
Janie estava servindo a comida e ficou desconfiada com o pedido.
–Mas vai receber, não é? Você vai trabalhar.
–Claro. Diária comum. Eu não poderia ir de graça, não acha?
–Seus chefes são tão legais. — Ela então bufou e eu comecei a rir. — Não fica rindo, você tem uma sorte danada. Sério mesmo, não ganho nada naquela cafeteria chata.
–Podia trazer um café pra mim. — Falei enquanto me servia da macarronada.
–Não me dão um gole de café, Alice. Você devia ver como são mãos fechadas. Mas eu preciso desse trabalho. Acho que vou arranjar um trabalho de diarista como você.
–Você? Não sabe arrumar nem uma cama.
–Que calúnia! — Ela começou a rir e acabei rindo com ela.
–Seria bom ganhar um pouco mais, porém é tudo que tenho por enquanto.
Fiquei um pouco em silêncio.
–Mas e aí? Com que roupa vai?
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O vestido que estava usando era de Janie. Usávamos quase o mesmo número. Era sempre tinha uma roupa para casa ocasião. Esse era branco, um pouco colado. Os sapatos eram saltos que ela também havia me emprestado. A maquiagem era minha, porém Jerome precisou me maquiar, pois eu não sabia muito bem como era que poderia me maquiar para uma ocasião daquelas.
Havia levado um presente também. Era um livro da Jane Austen que ele adorava, porém era um de uma edição especial.
–Eu te amo, Alice Moraes, eu, definitivamente, te amo. — Ele me abraçou ao ver que havia lembrando dele.
O Sr. Wood estava e louco. Haviam errado o pedido dos canapés. Tive que resolver todos os problemas relacionados a comida e uma moça chamada Annie que ele havia contratado, estava com a decoração. Porém eu tive que ficar nos dois lugares quando a moça derrubou alguns pratos.
–Eu vou enlouquecer. — o Sr. Wood falava enquanto eu pedia um copo com água para acalma-lo.
–Sr. Wood, se acalme. Eu tomo conta de tudo. Mais tarde você terá comida suficiente para receber seus amigos, as mesas estão em seus lugares, todos terão pratos e a noite será inesquecível.
ELe pegou em minha mão e me olhou com um rosto pedindo ajuda. Retribuí saindo do cômodo. Iria resolver aquilo da forma que fazia no Brasil, com a cara e a coragem.
Pedi para listarem os pratos e darem um jeito de comprar o que faltava, conferi toda a comida, limpei o salão onde os pratos haviam sido derrubados, corri para não deixar nenhuma comida faltar e pedi para começarem a aquecer os pratos de entradas. As mesas estavam em seus lugares e tudo estava limpo e bonito quando o relógio marcou oito da noite e as pessoas começaram a chegar. Havia vinho, champangne para todos e ninguém ficaria sem um copo na mão.
Ao perceber que todos estavam alegres e satisfeitos, pedi para Annie ficar circulando pela sala enquanto sentava um pouco na cozinha. Todos os convidados pareciam ser importantes e conhecidos, embora a maioria fosse atores de teatros e poucos conhecidos na TV, vi alguns famosos como Keira Knightley e Kate Winslet, mas a maioria eram desconhecidos para mim.
Os murmúrios na cozinha eram muitos. As moças que serviam diziam que Orlando Bloom estaria na festa, pois era um ator que estava na atual peça de Wood. Sabia quem ele era, havia assistido alguns filmes. Se ele realmente viesse, seria o único que gostaria de ser apresentada. Mas durante as primeiras horas não havia sinal dele e achei que pudesse ser algum tipo de fofoca.
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Eram dez da noite, os convidados já estava alegres e falando alto, Jerome e Nicholas estavam alegres e agradecidos por tudo ter dado certo, o bolo estava na mesa e já iam cantar os parabéns quando alguém adentrou a sala. O alvoroço na porta não deixava mentir que ele era muito esperado. Ergui a cabeça para tentar vê-lo melhor. Era Orlando Bloom. Sorria para todos e seus olhos bateram em Jerome e Nicholas. E em mim, que estava ao lado deles. Senti todo meu corpo adormecer. Era ele que havia chegado e eu estava há poucos metros, sendo observada por ele.
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