The Diarist
3 Capítulo 3
Com o fim do curso de inglês, passei a procurar outros trabalhos, mas nenhum podia me aceitar duas vezes na semana. Passei a sondar Jerome e Nicholas para que me contratassem, mas eles não tinham necessidade do meu trabalho todos os dias da semana.
Passei a procurar trabalho colocando currículos nas casas e mandando e-mail para companhias próprias de trabalho. Também procurava no jornal, mas as pessoas não confiavam muito em brasileiras.
Em um desses dias frios em que procurava emprego no surbúbio, entrei em uma loja de conveniência para comprar alguns bomboms e qualquer coisa para comer. E para escapar um pouco do frio, sentei em uma mesinha e pedi um café.
–Alice?
Pude ouvir meu nome e me virei, dando de cara com Orlando. Ele havia acabado de entrar na lojinha.
–Orlando? Oi.
–Oi... — Ele caminhou até a minha mesa. — Como vai?
–Eu estou bem. — Sorri. — Senta.
Ele sentou e a garçonete chegou com a cardeneta de pedidos e se assustou ao perceber quem havia sentado ali.
–Um expresso apenas. — Ele pediu com um sorriso simpático. Eu já tomava um cappuccino bem quente.
–O que faz aqui?
–Minha irmã cuida de uma instituição de caridade aqui perto. Eu vim visita-la e visitar as crianças.
–Ah, que legal... — Tomei mais um gole de café. — São crianças orfãs?
–Sim. Que foram abandonadas quando pequenas. E a gente também dá apoios a famílias que não podem cuidar.
–A gente?
–Sim... — Ele então mostrou um sorriso tímido. — Minha irmã cuida, mas eu quem fundei. Eu fui embaixador da UNICEF, mas também tenho alguns projetos aqui. E como semana que vem volto a Nova York por alguns dias, quis fazer uma visita.
–Que lindo, Orlando... — Sorri bobamente. — Eu confesso que sabia algumas coisas de você. Afinal, você é muito conhecido, sabe disso. — O café chegou e depois que a mulher saiu, continuei. — Gosto dos filmes que você participa, sou fã de o senhor dos aneis e tudo mais, mas não sabia que era envolvido nas causas humanitárias.
–Quando a gente tem muito, a gente também quer doar tudo que podemos.
–Isso é muito bonito da sua parte.
–Mas e você? O que faz aqui?
–Eu moro aqui perto. Já até estava voltando para casa, estou em busca de uns trabalhos.
–Mas você não está com Nicholas e Jerome?
–Três vezes na semana. — Falei tomando mais um gole. — Preciso arranjar mais um que contrate por três dias. Terça, quinta e sábado.
–Mas você também quer ser diarista?
–Sim. Não... — Falei me atrapalhando. — Qualquer coisa. Eu só preciso complementar mais. São tantas coisas pra fazer e tem sido muito difícil.
–Olha, eu... Eu acho que posso te ajudar.
–Como assim?
–Bom, eu estou sem ninguém em minha casa. E como provavelmente ficarei durante muitos meses aqui em Londres...
–Você está falando sério? — Perguntei atônita.
–Bem, eu... Eu estava a procura mesmo. Ia falar com o Nicholas. Eu estava procurando alguém que ficasse todo dia, mas acho que três dias pode me ajudar.
–Você... Nossa... — Falei sem acreditar ainda. — Caramba, você realmente não sabe o bem que está fazendo a mim. Sério, Orlando.
–Eu quem agradeço. Não tive muita sorte com a últma garota. E você trabalha pro Nicholas, isso já é uma recomendação e tanto. E contanto que você possa passar o sábado inteiro lá em casa...
–Minha nossa senhora! — Falei sem acreditar. — Tudo que quiser. Sério mesmo!
Ele me olhou rindo um pouco.
–Não te vi tão feliz assim, Alice. — Ele disse rindo.
–É que é uma das poucas vezes que fui feliz nesse lugar. — Falei finalmente com um sorriso idiota no rosto. — Quando começo?
–Quando quiser. Me dê seu número que passo para o meu contador. Ele cuidará do contrato e todas essas coisas.
–Sim, claro... — peguei minha bolsa, uma caneta e papel. Anotei telefone e endereço. — Aqui está. Tudinho aí. Parece coisas dos céus mesmo.
–Talvez seja, você me parece ser uma ótima pessoa.
–Bom, agora tenho que ir. Já está escurecendo e mais frio a cada hora. — Levantei e Orlando fez o mesmo.
–Onde você mora? Quer carona? Eu também vou.
–Não se preocupe, é aqui pertinho. Posso ir andando.
–De forma alguma. — Ele chamou a garçonete pedindo a conta. — Eu posso te levar. Estou aqui e de carro, não vou deixa-la ir sozinha.
Ia reclamar, mas ele não deixou que fizesse. Saímos da loja e caminhamos lado a lado até o seu carro. Entrei pela porta de carona e percebi, pela primeira vez, que Orlando era rico. Muito rico. Incalculávelmente rico.
–Posso ligar o aquecedor, se quiser. — Ele falou enquanto entrava pelo outro lado.
–Ai Deus sabe como é tudo que quero! — Falei tremendo de frio. Ele começou a rir e ligou o carro. — Pode pegar essa venida voltando.
Ficams alguns minutos em silêncio.
–Que dizer que você vive aqui e em Nova Iorque?
–Sim. Na verdade estou mais tempo lá do que aqui. Não sei se sabe, mas fui casado. Tenho um filho chamado Flynn, e agora ele está morando lá com a mãe. Mas gosto de Londres. É a cidade que sinto amor, foi aqui que construí algo de verdade.
–Mas lá tem um filho que você ama. — Falei rindo. — Deve ser duro.
–Você tem filhos, Alice?
–Não. Ainda não.
–Desculpa ser inconveniente, mas quantos anos você tem?
–Vinte e dois anos.
–Você é bem nova mesmo. — Ele falou sorrindo. Fiquei em silêncio novamente.
–Você pode dobrar na próxima.
Chegamos em frente a minha casa e tirei o cinto de segurança. Orlando fez isso e rapidamente saiu do carro, dando a volta no mesmo e abrindo a porta pra mim.
–Obrigada. — Agradeci sem jeito. — Eu falei que era perto.
–Por isso que não foi nenhum problema. Bruce deve ligar para vocâ amanhã, ta bem?
–Obrigada mesmo Orlando, nem sei como agradecer.
Sem saber como agir, o abracei com um impulso que depois me fez se arrepender.
–Er... — Ele então, claramente sem graça, se afastou. — Não precisa agradecer. Nos vemos na quinta.
–Sim...
Orlando voltou para o carro, deu a partida e sumiu segundos depois.
+++
–Sr. Nicholas?
–Oi Alice?
–Eu...
–Se for falar sobre Orlando, ele já veio falar comigo querendo saber se haveria algum problema...
–Eu achei que... Bom, que não teria problemas e...
–Alice, querida... — Ele sorriu e caminhou até onde eu estava. — Está tudo bem. Na verdade eu já queria conversar com você há alguns dias. Eu e Jerome estamos pensando em nos mudar para o interior. Já estamos conversando isso há algum tempo. O Orlando chegou em um momento certo pra você. Você seria contratada por tempo integral, moraria lá e voltaria para casa aos finais de semana se quisesse.
Fiquei em silêncio.
–Não fique chateado conosco, Alice. Eu já estava atrás de alguém para lhe direcionar.
–Sr. Nicholas, eu não estou chateada, eu só não posso acreditar que não havia dito nada.
–Eu achei melhor. Não queria que aceitasse qualquer trabalho. Sei que você é inteligente e capaz, mas aqui na Inglaterra o seu futuro seria trabalhar no café. Em casa você ganha melhor e é bem tratada.
–Obrigada. — Agradeci e sorri, pegand em suas mãos. — Vocês tem sido ótimos patrões, tenho aprendido mais sobre amor e tolerância com vocês. Foram os únicos que me acolheram quando cheguei, me deram um voto de confiança mesmo eu sendo nova e estrangeira.
–E você cuidou muito bem de nós. O Orlando será bem melhor, acredite.
–Eu tenho certeza que não, mas espero que chegue perto. — Sorri.
–Muito bem, hoje você vai sair com Jerome para o salão se arrumar. Como hoje é o último dia do espetáculo, gostaria que estivesse maravilhosa.
–Muito obrigada. — Falei sorrindo.
+++
O contador de Orlando, que se chamava Bruce, me ligou confirmando todos os dados. Iria ganhar o dobro para trabalhar em tempo integral. Porém, teria que dormir na casa e me acostumar com outros empregados. Quem me apresentaria aos outros empregados e todos os cômodos seria a governanta da casa. Orlando mal ficava em casa, e quando ficava, não gostava de ser incomodado.
Não era exatamente um problema, mas agora precisava fazer novas amizades.
O espetáculo que Nicholas dirigia era fantástico. Falava sobre a vida de um drogado e suas escolhas, sobre o fim de sua vida. Mas era triste. No fim, estava chorando. Jerome me abraçou e chorou comigo.
Após toda a comemoração, saímos para comer em um restaurante ótimo no surbúbio de Londres.
–Gostou? — Orlando perguntou quando finalmente pudemos conversar. Ele estava ao meu lado na mesa.
–Achei fantástico. Chorei tanto. Não imaginei que estivessem com um projeto assim.
–Foi bem importante para mim. Foi profundo. Pela primeira vez fiz algo que me doía de verdade.
–Você foi fantástico. — Ele abriu um sorriso. — Sério.
–Fico feliz que tenha gostado. Vou sentir falta de todo o pessoal. Não tem nada melhor que ser aceito, que ver as pessoas apoiando aquilo que fazendo. Também não existe nada melhor que ver as pessoas chorando, sentindo na pele.
–Queria poder ter esse dom, sabe?
–Você já tentou?
–Na verdade eu nunca fui muito envolvida com o teatro. Sempre gostei muito de música.
–Sim. Eu toco algo, as vezes canto. É mais um hobbie mesmo.
–Ah não, querida Alice está dizendo que toca e canta? — Jerome ouviu. — Agora precisa tocar e cantar.
–Não Jerome, por favor...
–Ah não! — Nicholas começou. — Eu já te ouvi cantarolando na cozinha. Por favor, vamos arranjar um instrumento. O que você toca?
–Nicholas... Por favor...
–Toca, Alice. — Orlando falou sorrindo. — Aposto que esse momento você vai sempre se lembrar.
Olhei para ele e vi em seus olhos sinceridade. Era verdade que, provavelmente nunca me esqueceria desse momento. Para o bem ou para o mal.
–Eu toco violão. Mais ou menos. Eu toco algo do Brasil para vocês.
Em alguns minutos, estava sentada em um banco, com um violão de cordas de nylon, o afinando de ouvido e um público me olhando.
Havia ouvido uma versão linda de "Como nossos pais" uma vez. Toquei algumas notas e comecei:
Não quero lhe falar meu grande amor
De coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto é menor do que a vida
De qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens...
Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina, na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz...
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração...
Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória esta lembrança
É o quadro que dói mais...
Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...
Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando...
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem...
Hoje eu sei que quem me deu a ideia e
De uma nova consciência e juventude
Tá em casa, guardado por Deus
Contando vil metal...
Minha dor é perceber que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...
Quando gritei minha última nota, vi as pessoas levantando e aplaudindo. Jerome e Nicholas aplaudiam quase chorando. Orlando batia palmas, sorrindo para mim.
Agradeci e devolvi o violão para o garçom que me olhou com um sorriso camarada.
–Alice, minha flor, você nunca havia dito que cantava.
–Por favor, Jerome, eu não sou considerada uma cantora excelente.
–Mas você fez um show. — Orlando comentou. — Qual o nome dessa música?
–"Como nossos pais", é maravilhoso, ne? — Disse orgulhosa. — Você iria adorar a música original.
–Vou querer anotado depois. — Ele sorriu e senti uma dorzinha em meu coração. Seu sorriso era tão lindo.
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