The Diarist

2 Capítulo 2


–Olá. — Orlando falou sorrindo enquanto chegava próximo a mim, Jerome e Nicholas. Percebi que estava atônita olhando para ele e ele também olhava para mim com um olhar divertido. Desviei e olhei para o outro lado.
–Orlando! Que bom vê-lo, chegou bem na hora dos parabéns! — Nicholas falou sorrindo e lhe dando um abraço.
–É sempre bom vê-lo. — Ele então abraçou Jerome. — Meus parabéns. Desculpe o atraso, tive alguns imprevistosmas fiz questão de vir.
–QUe bom que veio. — Jerome falou sorrindo.
As pessoas começaram a gritar pedindo pelos "parabéns".
–Com licença. — Jerome pegou nas mãos de Nicholas e o puxou para a mesa do bolo. Fiquei no mesmo local, ao lado de Orlando que sorria animado. Começamos a bater os parabéns e Annie passou pelo meu lado e paralisou ao ver Orlando.
–Annie, pega bebiba. — Pedi percebendo que ela iria falar qualquer coisa.
Ela então balançou a cabeça e saiu, atônita.
–Eles são maravilhosos. — Orlando comentou, a princípio pensei que não era comigo.
–Hum? — Perguntei olhando para ele. Havia entendido, mas algo me fazia pedir para que ele falasse novamente.
–Eu disse que eles são maravilhosos. — Ele então olhou para mim e sorriu.
–Ah... Sim, eles são. — Bebi um gole de vinho.
–...E o primeiro pedaço vai ser para o homem da minha vida... — Jerome sorria e entregava o pratinho com o bolo para Nicholas e as pessoas começaram a gritar em apoio.
–Acho que não nos apresentamos... — Orlando virou-se pra mim e estendeu a mão. — Orlando. Orlando Bloom.
–Eu sei... — Falei inconscientemente e ele levantou o cenho. — Alice Moraes. — Aceitei sua mão e sorri.
–Você não é daqui, é?
–Não. Você é bom, percebeu de cara.
–Eu vivo em uma ponte aérea pelo mundo, mas o inglês daqui eu conheço bem.
–Ah, — comecei a rir — Isso, pois é... Sou do Brasil.
–Sério? Eu já conheci alguma coisa de lá. Que cidade você é?
–Rio de Janeiro.
–Ah, é uma linda cidade, cidade maravilhosa mesmo. Conheci um lugar legal chamado... Bahia.
–Sim. Eu fui lá uma vez.
–Adorei tudo. — Ele riu um pouco. — Engraçado, você é a segunda pessoa que conheço de lá só essa semana.
–Sério?
–Sim. Foi uma moça... Enfim, que estranho.
Annie chegou com a bandeja e alguns coqueteis. Havia cerveja também, devolvi meu copo de vinho e peguei a cerveja. Orlando pegou uma também.
–E você, Alice, faz o quê?
–Você conheceu nossa Alice? — Nicholas chegou rindo me abraçando e olhando para Orlando. — Essa moça é a melhor pessoa que conheço!
–Sr. Wood, por favor... — Falei me sentindo um pouco sem graça.
–É verdade, ela quem organizou tudo isso.
–Não é totalmente verdade, Sr. Wood...
–É sim, tanta gente incompetente que a gente contrata e paga horrores... E você... Merece um aumento. Ta combinado, Alice, você receberá o dobro da sua diária hoje!
–Obrigada, Sr. Wood.
–Por favor, meu nome é Nicholas. Não quero que trabalhe mais, aproveite a festa. Acho que vocês já devem se conhecer. — Ele olhou para Orlando que bebeu um gole de cerveja ainda rindo.
–Sim. — Falei um pouco sem jeito.
–Aproveitem a festa que agora eu vou aproveitar o meu marido.
Nicholas saiu deixando um mal estar entre mim e Orlando.
–É... Eu sou a diarista do Sr. Wood.
–Pelo jeito muito competente para ele pagar o dobro.
Sorri um pouco e pedi licença para olhar a cozinha. Quando entrei, vi as mulheres fofocando entre si e olharam para mim. Caminhei até a lavanderia e sentei em uma cadeira, tirando o sapato e levando as mãos a cabeça. Estava atônica. Havia trocado algumas palavras com o Orlando. Havia algo atraente nele além de seu sorriso. O seu olhar era convidativo.
–Alice... Você conversou com ele? — Annie apareceu sorrindo, dando pulinhos. — E como ele é?
–Simpático. — Disse sorrindo e voltando a posição normal. — Parece ser alguém agradável de conviver.
–Alice? — Um rapaz apareceu do nada na lavanderia. — O Sr. Wood estava te procurando. Parece que alguém precisa de um remédio para dor de cabeça.
–Pode deixar que eu levo. Obrigada.
Coloquei os saltos novamente e fui até a mini famárcia que eles tinham em casa. Peguei um remédio para dor e voltei ao salão. Avistei Nicholas e caminhei até ele.
–Aqui está.
–Phillip está acostumado com festas menos movimentada.
–Tenho certeza que sim.
–Alice. — Jerome chegou e me deu um abraço caloroso. -Está aproveitando a festa?
–Sim, sim.
–É bom mesmo. Tudo está uma maravilha.

+++

Com o tempo as pessoas começaram a sair, algumas caregadas, outras muito bêbadas falando bem alto, outras agradecendo pelo convite. Era fim de festa e o buffet estava organizando tudo para se retirarem. Sentei na varanda enorme da casa e tirei meu salto, estava com os pés doloridos. Embora estivesse ali como convidada, tinha que prestar contas e trabalhar também. A glória era poder sentar, tirar o salto e descansar um pouco.
–Muito cansada? — Ouvi uma voz extremamente sexy se aproximar e olhei. Era Orlando com um copo na mão, um cigarro no outro e um sorriso no rosto.
–Bastante.
–Se importa se eu ficar um pouco aqui? Quero terminar de fumar esse cigarro.
–De modo algum, sinta-se a vontade.
Ele então sentou e deixou o copo de lado enquanto dava uma tragada enorme em seu cigarro.
–Noite espetacular.
–Com certeza. — Falei sentindo toda uma ressaca em minhas costas. — Ao menos os dois se divertiram feito uma praga.
–Olha, eu nunca tinha visto o Nicholas tão bêbado e divertido. — Ele riu um pouco. — Foi bom ter vindo.
–Você chegou tarde, não foi?
–Sim, minha vida é um pouco complicada. Mas tinha que vim, prometi ao Wood que viria e não poderia desmarcar. Ele é tão feliz com Jerome, não poderia deixar de prestigia-lo. — Ele então me ofereceu um cigarro. Neguei, agradecendo. Mas pedi um gole de sua cerveja.
–Gostei, você largou tudo por uma cerveja.
–Normalmente é isso que bebo no Brasil. Meu paladar não é tão aguçado para vinhos, sou bem ignorante nesse aspecto. Mas uma cerveja gelada em um dia quente...
–Ah, eu só finjo que sei um pouco. Mas também sou bem ruim. — Ele falou rindo e olhou para minhas mãos.
–Que bom, ao menos não me sinto sozinha no mundo. — Rir um pouco fazendo com que ele esboçasse um sorriso.
–Quer dizer que você é uma diarista? — Seus olhos se encontraram com o meu.
–É isso. Trabalho aqui três vezes por semana. Hoje vim para ajudar o Sr. Wood com o aniversário.
–Foi tudo muito bom e organizado, você parece ter jeito para isso.
–Trabalho para eles desde praticamente quando cheguei do Brasil. Sete ou oito meses.
–E tem gostado de Londres?
–É uma experiência boa, tem sido, de certa forma, divertido. Mas aqui todas as coisas são caras e qualquer oportunidade para ajudar no aluguel já é algo bom.
–Você mora sozinha? — Ele deu mais uma tragada no cigarro.
–Não. Eu e uma amiga americana. Dividimos as contas e o apartamento no surbúbio. Não é muita coisa, mas eu estou bem.
–Eu comecei assim também, vim pra Londres morar sozinho. Até hoje não acredito que eu era aquele rapaz novo. Conquistar tudo isso é gratificante.
–Eu admiro e as vezes me dá uma vontade de voltar pra casa, mas aí eu seria uma perdedora. Não gosto de me sentir assim.
–Não acho que você seria uma perdedora.
–Mas eu me sentiria assim.
Ele ficou um pouco em silêncio.
–E o que veio fazer em Londres?
–Não sei ainda. Estudar inglês, conhecer uma nova cultura, sei lá... Não existe algo que realmentre me prenda aqui, só um sonho de criança.
–Um sonho... Tem valido a pena?
–As vezes eu acho que sim, mas as vezes bate a saudade de casa, sabe?
–Eu imagino, você parece ser nova. Não deve ser fácil. Eu adoro quando estou em Londres e posso ver minha família. Agora que estou com um espetáculo, estou aqui bem mais. Mas tenho ficado pouco em Londres. Principalmente por causa do meu filho que...
–Você não vai roubar nossa diarista, vai? — Jerome chegou abraçado a Nicholas. Orlando começiu a rir.
–Não faria isso, seria um crime.
–Seria mesmo! — Nicholas falou divertido e sentaram ao nosso lado. — Ah, eu estou morto. Mas foi tudo tão bom.
–Foi mesmo. — Jerome encostou a cabeça no ombro do marido. — Eu nunca pensei que pudesse me divertir tanto.
–Foi legal mesmo. — Orlando completou dando a última tragada e jogando apagando o cigarro em um cinzeiro. — Quase não deu para chegar. Tive um problema antes de vim e não podia sair sem resolve-lo.
–Ainda é sobre aquela história? — Nicholas perguntou rindo.
–Sim. Ainda. — O riso dele ficou um pouco triste. — Mas estou bem.
–E você, Alice? Se divertiu?
–Bastante. — Falei animada. — Deu trabalho mas foi legal.
–Nós já separamos um quarto para você, pode ficar a vontade para ir quando quiser e acordar a hora que quiser.
–Muito obrigada. Eu vou mesmo. — Falei levantando e Orlando levantou comigo.
–Você pode ficar. — Jerome falou sorrindo.
–Eu agradeço, mas estou cansada mesmo. — Olhei para Orlando e sorri. — Obrigada. Boa noite, gente. Foi tudo maravilhoso.
Saí da varanda e fui para um dos quartos. Após um banho demorado, percebi a casa silenciosa. Deitei na cama e fiquei pensando sobre a noite até cair no sono profundo, sonhando com o Brasil e minha mãe.

+++

O frio havia piorado. A semana estava quase impossível, rezava todos os dias para chegar nos locais com aquecimento interno. Os meus passeios pela cidade haviam sido suspensos por causa de uma previsão de neve a qualquer momento. Nicholas estava mais agitado que nunca, sua peça estava a todo vapor. Jerome trabalhava intensamente para a revista de moda que fazia parte. O tempo que tinha em suas casas era longo e sempre estava sozinha. As vezes o motorista chegava e ficávamos jogando conversa fora. Mas sentia falta de conversar com os dois.
Numa dessas semanas corridas, resolvi ligar para Nicholas perguntando se ele almoçaria em casa. Sabia que sua resposta era sempre "não", mas queria ter a certeza.
–Querida, as coisas estão bem agitadas por aqui. Porém acho que posso tirar um tempinho para comer sua comida.
–O que gostaria de comer?
–Nada em especial, me surpreenda.
Desliguei o telefone e pedi para que Gerard, o motorista, comprasse algumas coisas para o almoço. Escolhi um bom vinho e decidi que faria uma boa macarronada com massa fresca. E o molho também. Daria um pouco de trabalho, mas valeria a pena. Comecei a preparar tudo para que desse tempo de ficar pronto até ele chegar. Tinha esquecido de perguntar se Jerome viria comer, mas não era problema, eu faria uma boa quantidade para que eles comessem e repetissem sem nenhum problema.
Perto de meio dia, ouvi alguém entrando pela porta e imaginei que poderia ser Nicholas. Ainda estava um pouco suja por causa da massa fresca que havia preparado.
–Alice?
–Aqui! — Gritei enquanto terminava de colocar o macarrão no pirex para servir. O molho estava pronto e bem aquecido. — Já estou indo, Sr. Wood.
–Pode chamar de Nicholas, por favor. — Ele apareceu na cozinha e levou a mão a boca. — Por Deus, Alice, o que aconteceu com você?
–Eu estou bem, — Falei rindo. — Sempre fico assim quando resolvo cozinhar massa fresca.
–Oh, minha querida Alice. Você veio mesmo do país das maravilhas. Eu adoro massa fresca, mas o nosso convidado também.
Mal havia entendido o que ele havia dito e Orlando apareceu na porta da cozinha.
–Orlando? — Perguntei enquanto tentava me limpar automaticamente.
–Oi, Alice. Como vai?
–Eu estou ótima...
–Acabei trazendo ele, sempre almoçamos juntos. Jerome não vai poder vim comer, mas você pode servir a mesa.
–Sim senhor.
–Alice, não me chame de senhor. Eu me sinto um velho.
Comecei a rir e os dois saíram. Comecei a repassar pela mente o que deveria fazer. Comecei a servir a mesa e quando ia sair, Nicholas soltou:
–Sente-se conosco, Alice. Não vai comer sozinha quando se tem companhia em casa. E você sempre come comigo e Jerome.
–Obrigada. — Agradeci. — Mas gostaria de tirar esse avental sujo.
–Sem problemas.
Após tentar me limpar um pouco, sentei à mesa. Começamos a comer.
–Que delícia de macarronada. — Orlando falou fechando os olhos. — Essa massa está no ponto. Como consegue?
–Minha mãe trabalha em um bom restaurante italiano lá no Rio. Ela me ensinou algumas coisas. Sempre gosto de fazer quando estou feliz.
–Feliz? Está feliz, Alice? — Nicholas perguntou interessado.
–Sim. O meu curso de inglês já está na etapa final. Estou empolgada para terminar.
–Você está feliz porque está terminando ou porque vai se livrar das aulas? — Orlando perguntou divertido.
–Os dois. — falei sinceramente.
–Fico feliz que seja sincera, Alice.
Continuamos comendo e falando qualquer coisa. Logo depois servi a sobremesa, que era um browne com sorvete de creme, e ficamos rindo sobre como os franceses adoravam fazer bicos para falar "Petit Gateu".
–A temporada está acabando. — Orlando comentou do nada. — Não vejo a hora de ter algumas férias. Tenho trabalhado feito um cão nos últimos meses.
–Eu e Jerome pensamos em viajar assim que essa temporada acabar. Algum lugar com praia, sol e calor. Pensei na cidade de Alice.
–Pode ter certeza que serão bem recebidos no Rio. — falei sentindo orgulho de minha terra. — E voltará vermelho como um camarão.
Os dois começaram a rir e percebi que estava me divertindo.
–Ai Alice... Você não existe. — Nicholas falou limpando as lágrimas.
–Eu vou rouba-la de você, Nicholas. Cozinha bem e é bem humorada...
Fiquei vermelha na hora. Senti o olhar de Orlando sobre mim.
–Nem tente, Sr. Bloom. Essa moça foi um achado.
–Bom, vou retirar tudo da mesa.
–E nós precisamos ir. — Nicholas falou levantando. — Alice, no último dia da peça, gostaria que fosse com Jerome.
–Irei sim, pode deixar.
–Bom, a comida estava ótima, Alice. Obrigado. — Orlando pegou em minha mão e beijou. Senti um arrepio correr pelo meu corpo.
–Por nada... — Disse num fio de voz.
Eles saíram poucos minutos depois e fiquei sozinha, desolada, pensando em todas as possibilidades daquele homem ter algum interesse em mim.