The Devil Within
2 2 - Espertinha
Notas iniciais
Senti um braço pesado passar por meu ombro e eu mandei um breve sorriso para o dono, Marcus bufou rolando os olhos um tanto irritado
— Sério, Daphne? Você não vai falar nem ao menos um “Boa tarde” para seu namorado? – Voltei meus olhos para os dele antes de olhar preguiçosamente ao redor, como se estivesse à procura de algo, e sorrir debochada para Marcus;
— Eu irei, assim que ele aparecer. – Ele estreitou os olhos para mim e tentou prender um sorriso, mas não conseguiu fazê-lo. Nunca conseguia.
— Você levou outro fora dela, Mark? – Jane perguntou, parando do meu outro lado e quase tropeçando em solo plano – Porque você não desiste logo?
— Porque ela negando deixa tudo mais interessante. – Ele deu seu sorriso matador a Jane e eu juro que a ouvi sugar o ar antes de disfarçar com uma tosse, mexi meus ombros para que ele retirasse seu braço pesado;
— Espaço pessoal, Joey Tribbiani*. Espaço pessoal. – Minha amiga riu abafada enquanto ele bufava, cruzando os braços como se estivesse magoado. Arqueei uma sobrancelha para aquilo – Você pegou o papel de alguém sensível e irritadiço, não foi?
Um sorriso brincalhão despontou em seus lábios bem desenhados, ele era estudante de artes cênicas. Malditos atores gostavam de quebrar corações.
— É o principal, queria contar no seu apartamento assustador comendo pizza, mas bem, nada escapa desses seus olhos águia, escapa?
Sorri convencida, tirando meus óculos para o limpar em meu casaco, esse idiota sabia como fazer elogios.
— Escapa se ela não colocar os óculos, você vai dar de cara numa placa, Daph. – Desviei a tempo, ouvindo meus amigos rirem com minha rapidez e calma – Você é um demônio, garota.
— Ah, você ainda não conheceu o demônio. – Murmurei mal-humorada novamente, colocando meus óculos e suspirando.
Segui meu caminho para a sala do professor Michaels, um velho que mais gostava de falar de seus famosos filhos, do que da história da Arte.
E não demorou para que ele o fizesse, fazendo muitos alunos – eu inclusa -, resmungarem e se curvarem sobre suas pernas. A pior parte era que as provas daquele maldito eram difíceis, mas ele mal falava do assunto e aquilo fazia com que eu me odiasse por não ter ficado dormindo, podendo ter apenas perguntado a algum dos alunos quais temas ele havia falado e ter estudado em casa, no conforto de minha cama e com um achocolatado de acompanhamento.
Tudo culpa do maldito demônio, me acordando cedo e me irritando. Se ele não me irritasse, eu não sairia cedo de casa...
— Isso, culpe o demônio. – Me sobressaltei ao ouvir sua voz ao meu lado, alguns colegas de turma me olharam indagadores antes de voltarem a fingir interesse pelo o que o professor dizia, algo sobre um dos filhos dele estar viajando pelo mundo como crítico de arte.
Olhei de esguelha para a direita, confirmando que ele estava sentado na cadeira ao lado, com os pés descalços apoiados na cadeira da frente.
— O que faz aqui? – Perguntei de dentes rangidos e com o lado da boca, tentando não parecer tão estranha quanto meus colegar de classe já achavam
— Estava entediado, a virgem que eu ia sacrificar não era mais tão virgem assim. – Brincou, fazendo-me rolar os olhos.
— Pensei que não conseguisse sair do apartamento.
— Mas é claro que eu consigo, eu apenas fico por conta da companhia. – Estreitei os olhos para o professor, levantando meu dedo médio e fingindo coçar a bochecha direita, John riu alto e eu me encolhi, esperando que alguém virasse ou que o professor me expulsasse de sua aula. Ele detestava risadas, pois ele era um velho amargo. – E você vai se tornar ele em alguns anos, ou melhor, em alguns dias.
Arregalei os olhos e finalmente o olhei diretamente, repreendendo-me mentalmente e voltando os olhos para frente
— Você...
— Eu consigo escutar cada um de seus pensamentos. – Senti que ele sorria largo, o que aconteceria se por um acaso eu o fizesse beber água benta? Será que ele queima de dentro para fora e cala a boca? – Hm, não. Mas irá ser extremamente doloroso, isso eu posso lhe dizer.
— Então é claro, como meu filho está em Roma no momento, porque não falar um pouco sobre Michelangelo? – O professor falou em um tom irritantemente pomposo, aposto que o filho estava viajando para se livrar de ficar ouvindo os gritos irritantes e estridentes do pai.
— Sabe, eu conheci Michelangelo. – O demônio comentou como se apenas tivesse dito o que comeu ovos com bacon no café da manhã – Ele era um sujeito estranho. Mas Leo o superou, sabia que ele trepava com Mona Lisa? – Gargalhou alto, eu ainda tentava me recuperar ao descobrir que ele havia conhecido dois pintores e escultores fuderosos – Ele era amante dela, mas ela era chata e irritante. Mais que você, o que já diz muito.
— Deveria me sentir ofendida? – Perguntei em um murmúrio irritado, era injusto que ele havia conhecido tantos artistas!
— Hm, estou cumprindo meu papel como demônio e estou corrompendo-a. – Arqueei uma sobrancelha, ouvindo uma risada baixa e sem humor – Inveja. Sinto-a perfurando minha pele, claro que eu preferiria que se um dos pecados fosse voltado a mim, que ele fosse a lúxuria.
— Hm, trepar com um demônio e dar à luz ao anticristo? Não obrigada. – Uma nova série de gargalhadas tomou conta daquele ser estupido, dando-me vontade de rolar os olhos
— Acho que nunca a vi sorrir, Senhorita Daphne. – Comentou depois de alguns minutos de silêncio, gemi em desgosto, esperava que aquele momento tivesse se prolongado. – Eu já a vi de muitas formas, mas aparentemente, sorrindo não foi uma delas.
— O que quer dizer com “muitas formas”? – John riu mais uma vez e deu de ombros daquele jeito irritante que só ele conseguia
— Eu quero dizer muitas formas, você toma banho de porta aberta.
— Eu sabia que você estava olhando! Você fica desaparecendo com meu condicionador, não fica? – Exclamei irritada, recebendo olhares intrigados e curiosos, guardei minha vergonha em uma caixinha com cadeado no fundo do meu ser, tentando não gritar
— Não, quem faz isso é Jerry. Ele gosta de te ver irritada e com o cabelo ressecado. – Sorriu largo e eu fechei os olhos, respirando fundo e contando até dez.
— Quem. Caralhos. É. Jerry? – O seu sorriso continuou estampado
— Ele é tímido, e não é um demônio se é isso que está se perguntando. É uma alma penada, não faz nenhum mal, é apenas brincalhona. – Um arrepio subiu por minha espinha, bem, ainda eram seres sobrenaturais, mesmo que eu vivesse com um demônio. – Acredite, eu sou mais perigoso que ele. – O sorriso macabro voltou a estampar seu belo rosto, eu achava incrível como ele conseguia passar de brincalhão e estúpido a macabro e sombrio em milésimos de segundos.
Mas bem, ele era um demônio no final das contas.
— Vade retro, Satana.** – Resmunguei, ele rosnou e fechou os olhos, balançando a cabeça diversas vezes, como se para espantar algo de seu rosto.
— Favor, não repetir tais palavras, senhorita Daphne. – Prendi a gargalhada com seu comum tom educado.
— Quais? Vade Retro? – O som que saiu de sua garganta me fez arquear uma sobrancelha, era o mesmo que ele fez por repetidos dias nas primeiras semanas que eu me mudei para o apartamento, quando eu experimentei colocar crucifixos na parede para me livrar dele. Mas aparentemente, aquilo apenas o irritava e o deixava um pouco menos civilizado. – Por Deus, John. Está tudo bem com você?
Seus olhos estavam mais negros do que nunca e tinham uma ponta de terror, mal pude ver suas íris.
— Por favor, Daphne. – Pediu de dentes trincados, suspirei e soltei uma última flecha. Não devia tê-lo feito, pois aquilo era literalmente irritar um demônio.
— Jesus Cristo, está b-
— PARE
Seu rugido ecoou pela sala e as lâmpadas em cima do professor explodiram, fazendo-me sugar o ar assustada enquanto alguns gritaram pelo susto, o professor incluso.
John estava curvado e respirando entrecortado, eu pisquei uma vez e ele já não estava mais ali.
Anotado, não fazer mais algo do tipo.
***
— No meu apartamento? – Jane esganiçou, acenei com a cabeça e ela gargalhou alto antes de me olhar séria – Não.
— Porque não? – Minha amiga bufou e cruzou os braços, se encostando no murinho que havíamos marcado de nos encontrar para esperar Marcus.
— Meus colegas de apartamento são babacas, ficam achando qualquer coisa para me culparem ou para reclamarem. Se vocês forem lá eles vão me fazer pagar a parte deles por que eu trouxe visitas. – Suspirei, é, teríamos que enfrentar um demônio. – Mas porque você não quer que seja no seu? Sempre foi lá e é mais perto daqui.
— Hm... Nada em particular. – Será que eu teria que trazer uma oferenda? Será que ele aceita, no lugar de uma cabra, uma fatia de Pizza? A pergunta ficaria no ar.
— Olha só, já até me sinto famoso com minhas duas gostosas me esperando. – Olhamos para Mark debochadas, ele riu e nós começamos a caminhar até seu carro. Levaria, literalmente, alguns segundos para chegar do meu apartamento por conta do carro.
A pé levava seis ou sete minutos, duas músicas. Era como eu contava.
Marcus estacionou e eu respirei fundo, entrando no prédio e seguindo as escadas.
— Deviam colocar um elevador nessa droga. – Jane arfou ainda no terceiro lance de escadas, rolei os olhos, continuando a subir calmamente, tentando evitar o encontro com meu... “companheiro de apartamento”
— Ei, eu ouvi que explodiram lâmpadas na sala de Michaels? – Marcus me cutucou com seu cotovelo de modo brincalhão – Eu já disse para não ser tão satanista do lado de fora de seu apartamento.
— Bem, não é culpa minha que um demônio me persegue. – Eles gargalharam com meu resmungo, isso porque uma tarde, John havia propositalmente desenhado um pentagrama no teto de meu quarto e derrubado alguma coisa para chamar nossa atenção. Estávamos na sala, em nossas típicas conversas e fofocas sobre quem havia trepado com o professor de Marcus naquela temporada.
Claro que depois de algumas pesquisas, eu descobri que o pentagrama era um símbolo de proteção e equilíbrio.
Cada ponta era um dos quatro elementos, enquanto a última era o espírito. Era como uma forma de pedir proteção e equilíbrio ao espírito.
E foi mais um novo pentagrama que eu encontrei na sala quando abri a porta, Jane e Marcus simplesmente riram e se sentaram no sofá, como se não tivesse um símbolo místico cravado na parede
Coloquei as mãos na cintura e resmunguei para mim mesma, porém suspirei aliviada ao ver a quinta ponta virada para cima. Se ela estivesse de cabeça para baixo, bem, aí mesmo teríamos um problema.
Se o pentagrama estivesse invertido, seria o contrário de proteção, seria atração e louvar a Satã, Diabo, pata rachada, tanto faz.
— Espertinha. – Senti o soprar em meus cabelos e prendi um sorriso – Perdão pela sala, mas bem, eu já lhe avisei. Esse tipo de coisa me irrita.
— Vou me lembrar de não colocar uma cruz na parede, então.
— Daph, com quem está falando?! – Jane perguntou do sofá, eu estava na cozinha, pegando algumas latas de cerveja
— Com o meu demônio colega de apartamento! – O ouvi rir, sentado em cima da bancada que separava a cozinha da sala
— Ata, diga a ele para parar de deixar o ambiente frio, por favor. – Respondeu, como se pensasse que eu estivesse brincando.
— Você a ouviu. – John sorriu de lado e eu fui a sala com o demônio em meus calcanhares, não demorou muito para que a sala esquentasse um pouco.
Jane arregalou os olhos, trocando um olhar com Mark
— Devo me preocupar, ou chamar um padre?
— Hm... Não. Não vai funcionar, de qualquer maneira. – Abri minha cerveja e dei um gole, sorrindo para os meus dois amigos – Eu já tentei.
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