The Demi-full Goddess

2 Capítulo 2 - Quase salvos por um lápis


Notas iniciais
Conheçam alguns dos nossos personagens! Prestem atenção, todos são muito importantes...

– Sente-se, senhorita. — O Diretor Mails indicou a cadeira em frente a sua mesa. Me sentei obediente, enrolando a gravatinha entre os dedos. Mails é um típico diretor de colégios como vemos nos filmes: careca, baixinho, barriguinha de pochete e os óculos de grau sobre o nariz roliço; agora, apertava o botão de uma caneta várias vezes. Ele sorria convidativo, mas eu já tinha visto aquela feição vezes demais para acreditar que ele era de fato simpático. Sempre gostei de joguinhos, então iria tentar fazer o de sempre.

– Para que me chamou aqui, senhor? — respondi com a voz mais doce possível. Ele mantinha o sorriso e, quando falou, sua voz soava soturna.

– Onde estava ontem depois do horário de recolher?

- Depois do horário eu estava no dormitório, oras! É o correto, não é? eu o estava fazendo, eu dormi cedo até e...- Então ele colocou em cima da mesa a coisa que eu mais temia, me cortando no meio da sentença. Meus olhos se arregalaram e parecia que minha voz tinha se escondido dentro do bolso de minha calça; mas tentei parecer normal ao falar novamente: — O que é isso? — O diretor riu.

– É o que você esqueceu ontem, não foi? — eu bufei, descruzando as pernas.

– Não esqueci nada; não estive no jardim ontem a noite e nunca vi uma maçã brilhando assim — apontei a fruta dourada em cima da mesa. O barulho do "click click" da caneta ia ficando mais intenso.

– Sim você esteve no jardim. Senti seu cheiro por lá, senhorita — Quando ele viu minha expressão, rapidamente acrescentou: — Um cão lhe farejou. E tenho certeza que as marcas dos dentes na maçã combinariam perfeitamente com a sua arcada dentária.

– Nenhum animal chegou perto de mim — eu tamborilava os dedos nervosamente na borda da mesa de madeira, as pernas balançando freneticamente. Mails percebeu isso e se limitou a suspirar.

– Isso não vem ao caso. Vamos terminar logo com isso? Sinto que te prendendo aqui irei lhe causar um ataque epilético. Basta dizer que foi você. Todos sabemos que pegar dos frutos é extremamente proibido, mas só quero saber como chegou até a árvore — balancei várias vezes seguidas a cabeça negativamente, no ritmo dos "clicks".

– N-não, eu não tenho epilepsia. Sou hiperativa, é diferente. E eu achei isso caído no jardim mais cedo.

– Creio que a senhorita afirmou que não tinha pego na fruta.

– Não peguei — rolei os olhos. Nunca tive muita paciência, e ele estava me testando. Eu realmente não tinha pego, mas sabia quem tinha o feito; e claro, não deduraria. Meus punhos já estavam cerrados em meu colo. Deve ter sido de propósito quando ele começou a apertar insanamente a caneta, explodindo minha mente em meio a clicks irritantes.

– Sim, eu sei que pegou. — BAM! Foi o som que fez quando bati com força os dois punhos sobre a mesa de Mails.

– EU..NÃO...PEGUEI...ESSA...MERDA! — com uma das mãos agarrei a maçã e só faltei enfiar no nariz do diretor — TÁ VENDO, AGORA EU PEGUEI ELA!! E AGORA QUERO VER VOCÊ ACHAR A MINHA ARCADA DENTÁRIA OU A DE QUALQUER OUTRO NESSA DROGA DE FRUTA! — mirei a janela da diretoria que dava para a rua e arremessei a fruta, ouvindo o estalir dos cacos de vidro que antes eram uma janela; lá embaixo, alguém gritou e um carro cantou pneu por um segundo. Voei sobre a mesa e puxei a caneta de sua mão, atirando-a numa parede perto. Acho que ela ainda deve funcionar. O gorducho estava imóvel, agora com as mãos entrelaçadas e com o mesmo sorriso sínico no rosto. Passei a mão por entre os cabelos enquanto me sentava e cruzava as pernas novamente, suspirando aliviada pelo breve descarrego. Eu tenho esses acessos as vezes; sou uma calmaria assustadora, mas tem horas que viro o demônio. Eu sabia que iria vir algo terrível daqueles olhos que se pudessem, me desintegrariam com um piscar por conta daquele...Desabafo. Ele somente anunciou com a voz falsamente alegre:

– Parabéns, Amy, acaba de conseguir uma classe extra!

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O porão da detenção era assustador. Só não parecia uma câmara de tortura pois não comportava instrumentos para tal prática. Para lá iam as crianças dos pequenos delitos, obrigadas a fazer a pior coisa do mundo para adolescentes: ficar quieto. Quanto pior o que você fez, maior seria seu tempo ali. Dependendo da gravidade da sua situação você era levado para outros cantos de punição; ouvi dizer que a pior era pomar a árvore mais distante do quintal do Orfanato. Ninguém nunca voltava. Bizarro.

Depois que entrei, o velho inspetor Hastings — um corcunda magricela e carrancudo — trancou a porta do lugar atrás de mim. As pequenas escadas de madeira levavam até uma sala normal de aula: várias cadeiras azuis dispostas em fileiras, o grande quadro negro logo atrás de uma mesa longa e uma confortável cadeira para o professor. O único problema era a falta de alunos, janelas e adivinha? um professor. No lugar onde este deveria se sentar, estava um garoto de cabelos negros desgranhados, cada fio apontando uma direção. Tinha um corpo atlético e era alguns centímetros menor que Hugo; sua cabeça estava baixa, a medida que acompanhava seu iô iô descer e subir. O uniforme que ele usava estava rasgado, mas não um rasgado feio, sabe? Um rasgado proposital, para dar um estilo. Quando ele levantou os olhos, percebi que os dele brilhavam como prata. Seu rosto possuia traços bem delineados, um nariz fino e a mandíbula larga. Quando ele sorriu notei que eu babava. Sem dúvida o garoto mais lindo que eu já vira em minha vida. Mesmo eu só tendo vivido dentro do orfanato.

– E aí, bem vinda ao inferno... — Eu disse algo bem charmoso em resposta, do tipo:

–Ahm..uu..Uhum. — balançei a cabeça e pigarreei, olhando para o lado deslizei para a cadeira mais próxima. — Então...Faz quanto tempo que você tá aqui?

– 4 horas; mas eu devo passar aqui umas 8 vezes ao dia no mínimo. Preciso ficar de olho nela — ele fez um gesto com a cabeça, indicando o canto do quarto. Só aí notei ela. No Internato tem muita gente estranha, mas aquela garota me pareceu meio...doente. Não física mas psicologicamente. Enfim, maluca. Ah, você entendeu.

Ela estava de pé em frente à uma parede no cantinho da sala, com um lápis de cor ela tinha feito um grande quadrado como se fosse uma porta na parede e agora escrevia vários números aleatórios. Os olhos intensamente azuis vagavam por entre as numerações, seus lábios se movendo tão rápido quanto o olhar — ela fazia contas. Parecia ter um padrão dentre os valores, um padrão criado por ela (ou talvez ela só fosse uma louca fazendo "louquisse").

– Por que ela está aqui? Pintou com as cores erradas? — disse, sem desviar os olhos da menina. Ela parecia super concentrada, como se estivesse fazendo algo de grande importância.

– Não, acho que ela recortou a roupa das outras meninas de novo — Ele disse de modo breve. O garoto parara de rolar seu iô iô e já estava de pé, caminhando em minha direção com a testa franzida — Nunca imaginei que fossem mandar alguém como você.

– Pois é, realmente não sou do tipo que arruma encrenca e acaba sendo pega. — ele sorriu, apertando os olhos.

– Não era disso que eu...Ah, esquece! Não nos apresentamos ainda.

–Sou Amy — Estendi-lhe a mão. Ele a apertou suavemente e eu sorri meio boba.

– Sou Alexander. Alex. Ela é Claire. Mas enfim, preciso lhe explicar tudo rápido. — Ele puxou uma cadeira e a colocou de frente para a minha. Me recostei, de súbito desconfortável. Ele se inclinou na cadeira, susurrando e olhando para todos os lados, como se para ter certeza que mais ninguém ouviria — Claire não é louca, mas a magia daqui a afeta de um jeito muito estranho, como se fosse feita especialmente para bloquear sua mente. Nós temos que dar um jeito de sair hoje, mas não podemos deixar que as criaturas nos alcancem; talvez possa ser o fim. Hugo deve estar trabalhando agora, tem alguma ideia? — eu disse novamente a coisa mais inteligente que podia, um risinho irônico e:

– Que? — Alexander fechou a cara com meu espanto.

– Não pode ser. Ele não te... — bam! A luz acabou. Todos ficamos imóveis e calados, não sei o motivo mas senti um frio subir pela minha coluna. Pela primeira vez, uma delicada e calma voz resoou do canto da sala.

– Já era hora. Vamos. — Ela levantou e nos puxou repentinamente pela mão. Notei que mesmo com a falta de energia o quarto estava iluminado; as cores do lápis da menina na parede brilhavam e, quando ela tocou o grande retângulo, a parte desenhada da parede caiu, realmente como uma porta.

– O que é isso?! — sussurrei asperamente enquanto a garota já começava a andar em direção ao túnel.

–Não temos tempo, vamos!

– Vocês realmente não tem tempo — uma voz familiar soou atrás de mim, seguida por uma risada arranhada. Congelei; já sabia quem era. Me virei rápido para ele com um sorriso no rosto, já preparando uma desculpa brilhante.

– Senhor Mails! eu posso explicar. É que nós — Nessa hora ele cortou minha frase (mais uma vez) apertando a mão em torno de meu pescoço e enfiando as garras em minha pele. Sim, garras mesmo.

Notas finais
Fique ligado, o próximo capítulo vem em breve!
Desculpem-me se não ficou muito bom, mas é que estávamos sem tempo!
Beijos pra vocês, reviews para nós! ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.