The Deaths Letter
1 Capítulo Único
Dia de correspondência. Naquela tarde, era dia de correspondência. Nunca recebia absolutamente nada, mas, quem sabe hoje, eu não receba?
Saio, a passos atrapalhados, na direção da porta. Caminho lentamente em direção a nossa caixa de correio, levemente pintada em azul. Que cor horrível! É o que sempre penso ao vê-la. Enfim, eu a abro.
Algumas cartas misturadas e um pacote cheirando a velho. Hum, interessante. Enquanto o asfalto queima meu pé, leio os nomes. Anthony – não sou eu -, Ester — e, novamente, não sou eu -, Lisa – fala sério! – e... Jesse.
Uma carta. Eu recebi uma carta. Estava mais do que na hora. Só não esperava... Um envelope.
No envelope não há remetente, apenas meu nome e endereço escritos a mão. Quem quer que o tenha enviado tinha certeza que eu reconheceria a letra. Ou talvez, o assunto.
Abro-o devagar. Uma folha, mais ou menos uma página e meia escrita, está dentro. E também um CD. Não há nome. Depois o vejo.
Na carta, em uma grande letra bem desenhada e redonda, está escrito:
Morte.
Assusto-me. O que? Quem escreveria isto?
Tenho imaginado como ela seria. Dolorosa? Reconfortante? Não, fácil. Tão simples quanto adormecer. A questão verdadeira é: Será que eu consigo?
Heidi.
Bem, isto é o que veremos.
Silêncio. Paz. São palavras muito associadas, não? Só há paz quando há silêncio. Em todos estes anos a última coisa que o silêncio me proporcionou foi paz. Eu nunca estive em paz. Nem sequer enquanto dormia.
Pois bem. Você deve estar se perguntando: O que ela quer dizer com silêncio? A escola era uma bagunça. A sala que dividíamos era uma bagunça. Nunca havia silêncio. E eu digo: Não é deste tipo de silêncio que estou falando. Sabe como é estar vazio por dentro? Não ter nada para te preencher? Não há pensamentos, não há idéias, não há palavras, não há vida! É deste tipo de silêncio que eu falo. Do vazio da alma.
É exatamente assim que me sinto. Vazia. Dias duram eternamente sem que ninguém possa mudar essa realidade. Noites correm, destruindo os sonhos alegres, transformando-os em pesadelos tortuosos. Nada muda.
Se eu apenas recebesse um único bom dia, quem sabe, eu não me sentiria assim. Não, esqueça. Talvez o seu bom dia não fizesse bem a mim. Depende de quem o deseja. Há pessoas que dizem bom dia da boca pra fora, acordam mal-humorados e apenas dizem por que é assim que é, educação. Às vezes queria que ela não existisse. As pessoas deviam desejar bom dia, não apenas descartá-lo.
Minha vida era apenas ruínas. Não aquelas antigas e bonitas, representando um povo antigo e extinto, não, minhas ruínas eram minha alma, destruída e esquecida.
Mas, porque alguém se importaria? Quem eu sou para que alguém se importe? Eu mesma não sei responder. Afinal, quem sou eu verdadeiramente? Eu nunca pude me conhecer. A sociedade não deixa. Minha pobreza me sufoca. Minha aparência me trai. Minha mente é ilusória. Meu coração é pequeno e fraco. Por isso é que eu não sou aquilo. Como se diz mesmo? Ah, é. Popular.
Óculos fundo de garrafa, roupas baratas, cabelo sem brilho, olhos sem vida, aparência sem graça. Eu sou apenas isso? Não, eu era mais. Atrás dos óculos eu tinha olhos verdes. Minhas roupas eram sim, baratas, mas eram legais, porque eu era diferente, e é bom ser diferente, para variar, a sociedade é muito ditadora, estereótipos vagando por aí, se passando por pessoas. Meu cabelo sem brilho era ruivo e cheio. Mas era meu. Meus olhos sem vida eram tímidos, mas eram assim porque ninguém se aproximava. Minha aparência sem graça era porque eu costumava tropeçar. Nunca fui tão ruim. Mas para eles, eu era horrível.
Na escola, eu sentava sozinha, lanchava sozinha, conversava sozinha e em casa, permanecia sozinha. Meus pais trabalhavam muito, não tinham tempo para mim. Eles tinham de pagar meu colégio caro e estúpido, por isso, era apenas eu. Durante todo o tempo fui apenas eu.
Fui eu quem viu o cachorro da vizinha ser atropelado por Steve, aquele garoto bêbado, uma série acima da nossa. Fui eu quem viu Kelly ser estuprada pelo namorado que queria avançar no relacionamento, mesmo ela dizendo que não queria. Fui eu quem viu Alex vendendo drogas na esquina da praça. Fui eu quem apanhou por ter visto isso tudo. Fui eu quem me levou ao hospital todas às vezes. Fui eu quem chorou todas as noites pelos apelidos e brincadeiras de mau gosto pelas quais eu passava. Fui eu quem foi esquecida por tudo e todos. Menos por você.
Você, uma vez, me viu sozinha. Sentada sozinha. Você veio até mim e me disse: Oi! Eu mal pude acreditar. Você estava falando comigo. Alguém estava falando comigo. Eu sabia quem era você. Jesse. Você era nadador competidor da escola. Era você quem ganhava todo ano o campeonato estadual de natação. Você era a paixonite de todas as meninas. Inclusive eu.
Oi. Foi o máximo que consegui falar. Você sorriu. E se sentou. E eu quase morri. Então, você disse:
Porque sozinha?
Sempre estive sozinha.
Até agora. Algumas semanas depois todos no colégio se perguntavam: o que ele, o garoto mais gostoso da escola, faz com essa coisa? Sim, eu consegui! Alguém me notava. Alguém sabia meu nome!
Todo sábado à noite, íamos ver as estrelas. Juntos. Toda sexta à tarde, víamos o sol se por. Todo domingo de manhã, estávamos juntos na igreja. Deus não me abandonou. Não. Foi cedo demais.
Enquanto eu pensava que tudo havia se esclarecido, que finalmente a inveja e fofoca na escola haviam terminado, ele veio aqui em casa. John.
Ele veio destruir minha vida. O pouco que ainda restava para ser destruído.
Ele veio. Bateu em minha porta. Eu abri. Se ao menos eu soubesse o porquê dele ter ido até lá. Nunca teria aberto a porta.
Pois não?
Ele me agarrou e me beijou. A força. Ele era muito mais forte do que eu e também mais pesado. Puxou meu cabelo e mordeu meus lábios. Quis chorar. Obrigou-me a ir para um canto do nosso quintal. Perto de uma árvore. Como se estivéssemos nos escondendo. E então me lembrei. Era sexta. Era tarde. Você viria para minha casa, me buscar para irmos ver o sol se pôr.
Era isso. Era nosso último dia.
Você chegou. E viu a porta fechada. Sempre que vinha me buscar eu deixava a porta aberta e me sentava num degrau em frente a ela. Era nosso ritual. Você foi me procurar, no quintal, porque uma vez eu estava me escondendo de você, queria que você me achasse. Você pensou que era uma brincadeira. E então nos viu. Ele ainda me beijava. Eu não conseguia chorar. Não havia mais lágrimas.
Você gritou comigo. Você chorou. Bateu nele. Me xingou. Você me disse coisas horríveis e... Me deixou. Sozinha.
Durante uma semana aguentei. Viver novamente no escuro. Viver novamente em completo silêncio. No vazio do meu ser. Durante uma semana as garotas riram de mim, zombaram da minha incapacidade de rejeitar um garoto, ainda mais depois de experimentar um. Os garotos me chamaram de vadia e você... Não me olhava mais nos olhos. Você não vinha mais falar comigo, você não me desejava bom dia, você não sorria mais para mim, você não vinha me beijar, você não me defendia mais dos outros, você não acreditou em mim.
E eu cansei. Em casa as coisas nunca melhoraram. Meus pais passaram a brigar, e a cada briga que tinham descontavam em mim. A escola nunca foi acolhedora, porém agora ela era insuportável.
Eu faltei. Durante uma semana, eu faltei. Cortei meu cabelo, na altura das orelhas. Eu o pintei de preto. Eu cortei minha pele. Deixei marcas horríveis. E no fim da semana, estará terminado.
Obrigado por trazer luz a minha vida. Obrigado por levá-la embora. Você era a coragem que me faltava. Você era o único que poderia me proporcionar isso.
Obrigado por não acreditar em mim.
Eu te amo.
Eu chorava. Eu estou chorando. Eu não conseguia acreditar nela. Eu não podia. Ela... Eu pensei que ela estava me traindo. Eu não sabia. Mas, agora eu sei. E posso mudar isso.
O mais rápido que pude, vesti um casaco, peguei as chaves do carro e, enquanto me dirigia à porta, me lembrei: O CD.
O que será que havia dentro? Peguei-o e pus num rádio velho que fica na sala. Uma voz disse: Não. Aqui não. Tente o outro.
É a voz dela. Está fraca e cansada, sem dúvida, mas ainda assim é ela. Tirei o CD do rádio e pus no DVD. Quem sabe...
Então abriu. Uma foto. Na foto Heidi sorri. Está olhando para o lado, onde eu estou, segurando com uma das mãos a máquina, e com a outra, pegando na sua cintura. Lembro-me de quando a tiramos. Era minha foto favorita. Enquanto eu a apreciava, a foto mudou. Agora, estava escuro. A fundo da foto se parece com um quarto. E bem no canto da foto havia alguém... Caído no chão.
O quarto é de Heidi e posso ver seu cabelo curto e preto, seu corpo magro e pequeno, os olhos abertos e...
Sem vida.
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