The Dead Boy
1 One-shot
Notas iniciais
“Como você falhou ao nascer, é natural que morra.”
― Bleach #35: Higher than the moon, Kubo Tite
Tudo era frio e escuridão dentro da pequena cabana.
Ele sentia o medo se agarrando a seus ossos como uma doença ― aquela que levara embora sua mãe mais precisamente. Os gritos dela ainda o assombravam à noite, assim como a memória do sangue escorrendo de seus ouvidos por conta da intensidade da voz dela perfurando seus tímpanos.
“O corpo humano é uma coisa engraçada”, dissera o velho Oda-sensei, o médico de sua vila, enquanto encaixava o cachimbo na boca rodeada por rugas. Seu nariz era grande e curvado como um gancho; nos olhos não havia sentimento algum, como se ele vagasse por outra dimensão. “Você não acha, menino?”
O sangue havia secado no extenso caminho que percorrera das orelhas até suas clavículas e toda vez que se movimentava, mesmo que um pouco, podia sentir a crosta grudenta em sua pele.
Como um par de mãos sufocando-o.
A fogueira... a fogueira ardia violentamente, cegando-o.
Havia mais corpos além do da mãe e sua vila era pequena.
Sim, pouco terreno para tantos cadáveres. Eles não tinham escolha...
Mas aquilo fora há muito tempo, tanto....
Retornando ao presente, ele estremece diante do silêncio mortal pairando no ar. Seu pai segurava sua mão com tanta força que ele pensou seriamente em gritar, mas o pavor era grande, tornando sua voz nada além de um sussurro.
― Papai? ― chamara, tateando pelo vazio até encontrar o familiar rosto suado e cansado do genitor.
― O que? ― este respondeu. ― Você está bem, Shiro?
― Estou com medo, papai.
O velho sorrira no escuro, trêmulo, e afagara seu cabelo, ainda que estivesse segurando sua mão naquele aperto de ferro.
― Vai ficar tudo bem, vamos ficar bem, Shi-...
A lâmina trespassou a fina parede de bambu da cabana e cortou ao meio o peito do homem, fazendo-o vomitar um jorro de sangue, sujando tanto seu yukata quanto o do menino, que se encontrava congelado de pavor.
Ele queria, decididamente, gritar.
Sentiu, no entanto, a mão torta do homem a lhe cobrir a boca com violência.
Um feixe de luz penetrava no ambiente pelo buraco provocado pela katana que atingira seu pai, era pequeno, mas o suficiente para que ele pudesse ver o sangue vermelho e brilhante como fogo que se espalhava rapidamente pelo tecido rústico de sua vestimenta.
Ah, sim, ardia como o maldito fogo, consumindo tudo ao seu redor, destruindo tudo ao seu redor...
Os lábios rubros do homem se moveram, lentamente.
“Silêncio, Shiro.”, ele dizia, sem palavras. “Silêncio.”
E ele realmente ficara quieto.
Com o sangue quente engolindo por inteiro a vida de seu pai como as chamas haviam engolido a carne da mãe, ele ficara em completo silêncio.
Por muito tempo.
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Escuridão e frio.
Mais uma vez.
“Você teme a morte?”
indaga uma voz em sua cabeça.
Ele sente o frio nas articulações, congelando-o. As sinapses em seu cérebro parecem falhar. O coração demora um pouco mais para bater.
TUTUM.
TUTUM.
TU...TUM.
“Você teme a morte?”
repete a voz.
“Você teme a morte, menino?”
Todos haviam partido. Fazia tempo.
TU...
TUM.
Não lhe restava nada além de memórias feias e palavras empoeiradas.
Tudo o que ele pedira fora um túmulo quente...
Um túmulo quente para um pobre morto descansar.
TU...
“Você...”
Escuridão.
Não peça por socorro, por favor.
É feio babar.
“... teme...”
A mulher morrera gritando.
O homem morrera calado.
Porém, morrer é o principal.
“... a...”
Mas quem diabos eles eram?
Ele não se lembrava de seus nomes; não se recordava de seus rostos.
“... morte?”
TUM.
― Não ― ele sussurra. ― Não mais.
“Por quê?”
― Porque eu sempre estive morto. ― ele responde. Escuridão. Frio. Vazio. Não mais. ― Agora percebo: todo o tempo estive morto e esperando que você viesse me buscar.
“Você conhece meu nome?”
― Sim.
“Acha-se digno de pronunciá-lo?”
― Não.
“Deseja o poder?”
― Sim.
“Então se torne digno.”
― Como?
“Diga.”
Seu coração acelerou.
As mãos tremeram.
Todo o pesar que estivera carregando nos ombros por todos aqueles anos... se fora.
Ele pronunciou o nome.
Houve um estremecimento momentâneo da escuridão.
Não mais.
Uma luz dourada brilhou.
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Ele abriu os olhos na escuridão.
Estava sentado de pernas cruzadas, na pequena cabana de um cômodo na qual certa vez vivera com o pai e a mãe.
Fora há muito tempo, ele ainda se lembrava disso, sim, lembrava...
A mãe fora levada por uma doença violenta, uma criatura peçonhenta e maligna que rastejara por dentro de seu corpo, roendo seus órgãos, sugando seu sangue e destruindo pouco a pouco sua sanidade.
O pai se fora em silêncio, protegendo-o. Até o último minuto, com a vida escapando de um rasgo extenso em seu peito... ele permanecera em silêncio.
― Foram eles? ― indagou para a escuridão. ― Foram eles, não é? Foram eles... que o mandaram até mim?
Durante breves segundos não houve resposta, até que ele escutou o som de passos correndo ao longo do piso de madeira da cabana e risadinhas abafadas de crianças.
Um corpo sem peso parou diante de si.
Os outros continuaram, aleatórios.
― Todos os dias desde que a mulher partiu, ela suplicou a nós por você. ― uma voz infantil, muito semelhante à sua, respondeu ― Quando o homem acompanhou-a, fez o mesmo. Disseram-nos para protegê-lo. Disseram-nos que precisava de uma luz.
Uma pequena chama dourada brilhou nas trevas, revelando uma criança baixa, com no máximo um metro de altura, careca e usando um cachecol vermelho por cima de um kimono branco. Ele não soube identificar se era um menino ou uma menina.
― Achei que ajudasse apenas crianças mortas. ― ele se viu sussurrando, de repente amedrontado. Apavorado. Sua mãe lhe contara histórias... mas Oda-sensei sempre afirmara que as histórias ouvidas na cama, antes de dormir, não valiam de nada.
A criança estendeu a mão até seu rosto e afagou-o, gentilmente.
Suas palavras, no entanto, eram desprovidas de qualquer afeto.
― Você está morto. Lembra?
Todas as crianças correndo ao seu redor e que não passavam de sombras pararam, rapidamente. Aguardavam uma resposta.
Com passos fluidos como a água, elas se aproximaram.
Formando suas próprias chamas douradas, elas se revelaram, mostrando que eram idênticas à primeira criança, aquela que o abordara.
― Somos seis, mas você nos deu um único nome. ― a primeira criança disse, apática como uma estátua de pedra. ― Você nos nomeou com nosso verdadeiro nome.
― Vocês são seis, mas sua consciência é única. Eu sei. ― ele retrucou, desejando poder retirar aqueles dedos de sua pele: eram como línguas ásperas e pegajosas. ― Eu sei.
― Nós sabemos também. ― falou a segunda criança.
― Todos, nenhum. ― diz a terceira.
― Estamos aqui. ― quarta.
― Sabemos. ― quinta.
A sexta permaneceu em silêncio.
Era a única cujo rosto não podia ser visto com clareza.
― Queremos nomeá-lo também. ― a primeira criança tornou a falar, ainda tocando-o. ― Você revelou nosso nome; agora, faremos o mesmo com você.
― O que quer dizer com isso? Meu nome é Shirotenshi Kei! Como meu pai antes de mim e meu avô antes dele! O nome de um guerreiro!
― O nome de um fracasso. ― a segunda criança retrucou.
― Sua família perdeu tudo antes que seu bisavô plantasse a semente em sua esposa. ― prosseguiu a terceira.
― Você não é nada além da sombra de um fracasso. ― disse a quarta.
― Nada, nada ― entoou a quinta.
― Nomes são perigosos ― declarou simplesmente a sexta criança, com uma voz estrangulada.
Ela o perturbou mais que todas juntas.
― Você não é o branco. ― a primeira criança finalmente retirou os dedos de sua pele; no entanto, seu toque ainda o queimava. ― Você é a escuridão.
Uma raiva súbita e ensandecida dominou-o, se pondo no lugar do medo.
― Me disseram que me dariam a luz... e agora me dizem que sou as trevas? ― rugiu, socando o chão próximo aos pés da primeira criança.
― A escuridão é tudo. ― retrucou a segunda ou terceira criança... ele já estava cansado de tentar identificá-las.
― A escuridão é tudo ― repetiu outra.
― Tudo, tudo. ― entoou a que estava do lado desta.
― A escuridão não passa da cegueira, da ignorância! ― o menino discordou, frustrado. ― Disse que me iluminaria... Mentiu?
Silêncio.
As chamas se apagam.
― É preciso estar sentado contra a luz para se ver o que realmente acontece. ― declararam as crianças ― Caso contrário, a luz o cegará. Sua mãe. Ela tinha um nome para lhe dar, mas seu pai não permitiu. Ela lhe contou a história certa vez, lembra?
Ele lembrava.
― Diga seu nome, menino morto ― pediu a primeira criança.
Após suas palavras, o mundo inteiro pareceu prender a respiração.
O mundo inteiro aguardava seu renascimento.
Em voz baixa, ele pronunciou seu nome. O verdadeiro.
A porta da cabana deslizou suavemente sobre suas dobradiças enferrujadas, até que a luz do mundo exterior adentrou o local, iluminando-o.
As crianças haviam partido.
Uma katana de cabo roxo com três ramificações douradas havia sido depositada diante de si, entretanto.
Assim que a tocou, ele pôde sentir seu poder.
Sorriu.
― Não, não uma katana... ― ele comentou consigo mesmo, deslizando o dedo através de uma das ramificações ― Uma zanpakutou. Correto?
“Como aquelas que os shinigamis ganham quando se graúdam.”
disse uma voz suave em sua cabeça.
Uma voz que era seis.
― Odeio shinigamis. ― o menino disse com desprezo. ― Quando pedimos ajuda para nossa aldeia eles simplesmente nos ignoraram. Gostaria de poder abri-los ao meio...
“Shirotenshi não podia. Mas você não é mais Shirotenshi.”
― Está errada, Ashisogi. ― ele se ergueu, prendendo a lâmina no cinto.
Ao caminhar para fora da cabana, sentiu a luz iluminando a pintura em seu rosto suavemente. Oda-sensei falara que, há muito tempo, os homens pintavam seus corpos para a incutir medo no inimigo ao lutarem numa guerra.
Do seu ponto de vista, aquela pintura era sua verdadeira pele.
“Estou?”
― Sim. Eu nunca fui Shirotenshi.
Um grupo de shinigamis surgiu vindo da estrada principal que dava à sua vila. O primeiro a vê-lo fez uma careta de desprezo e indicou-o com a cabeça para os colegas.
― Nossa, você é tão feio que parece um Hollow! ― zombou o homem de cabelo espetado enquanto ele e seus amigos o rodeavam. ― Melhor cair fora daqui antes que a gente te corte ao meio!
― Ei, olha isso no cinto dele! ― disse outro, um moreno e alto, estendendo a mão na sua direção.
― Não toque nela ― o jovem ordenou, fazendo o shinigami recuar diante de seu sorriso homicida.
Aquele que parecia o líder e tinha uma cicatriz na bochecha bufou, dando um soco em seu rosto, fazendo-o desabar como um boneco de papel.
― Que idiota, vamos usá-lo de boneco de treino na academia. ― falou, indiferente.
― Vai se arrepender disso ― o rapaz caído sussurrou, ainda rindo. Devagar, se pôs de pé. ― Não sou um Hollow, não, não mesmo. Hollows só querem saber de estraçalhar e devorar, mas eu posso lhes dar um fim mais útil.
― Ah, é? ― indagou o homem de cabelo espetado com um sorriso de deboche ― E o que você vai fazer, magrelo?
O menino morto sorriu.
― Vou abri-los ao meio e ver o que tem dentro. Vamos descobrir juntos como suas coisinhas funcionam, o que acham?
O líder fez apenas um aceno de cabeça e os dois homens que o acompanhavam desembainharam suas respectivas zanpakutous.
― Matem esse doente. ― foi tudo o que disse.
“Dê a ordem.”
sussurrou a voz múltipla em sua cabeça.
― Ah ― ele sorriu ainda mais enquanto seu dedo deslizava pelo cabo de sua recém adquirida “amiga” ― Vocês magoaram meus bebês.
― Parceiro, você é bem doido, hein? ― comentou o homem moreno. ― Dá até pena de te dar uma surra.
― Que bom que você não vai precisar. ― o menino morto disse, tirando a própria zanpakutou do cinto e apontando-a na direção do homem. ― Ashisogi Jizou: Rasgue.
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― O que temos sobre ele?
― Absolutamente nada. Exceto que é um gênio.
Urahara parou na frente da cela, analisando o jovem pintado dos pés a cabeça como um guerreiro tribal.
― O que você disse que ele fez? ― perguntou, encarando os olhos dourados e maníacos do sujeito, aliviado por saber que havia uma barreira entre ambos.
― Encontramos três shinigamis do 11o esquadrão dissecados em uma cabana numa vila que foi devastada há alguns anos. ― respondeu o rapaz assessorando-o no momento.
― “Dissecados”? ― um calafrio percorreu sua espinha.
― Sim, Urahara-sama. ― o rapaz parecia enjoado ― Órgãos e partes do corpo dispostas em vidros como pedaços de animais... Achamos também várias anotações sobre as características físicas dos shinigamis e de suas zanpakutous. Foi extremamente difícil para os reforços mandados desacordarem-no e separá-lo de sua zanpakutou.
― Ele tem uma zanpakutou? ― Urahara estava surpreso.
― Sim, senhor! Os enviados descreveram-na como “tão perturbadora quanto seu portador”.
― Compreendo... ― o homem tornou a encarar o rapaz sentado na cela com um grande sorriso no rosto. ― Ele também tem melhorias físicas, pelo que veio no relatório...
― Sim, Urahara-sama. Existe...
― Lerei o relatório mais tarde, Ritsuka-san, deixe-me sozinho por enquanto. Obrigado pelo auxílio.
― Certo. Chame se precisar, Urahara-sama. ― disse, dando uma olhadela desconfiada e, em certa parte, apavorada, para o sujeito na cela.
― Então, seu nome é “Kurotsuchi Mayuri”, certo? ― indagou Urahara, analisando-o com cuidado.
O jovem lhe deu um sorriso de dentes amarelos que se abria até as orelhas mecânicas.
― Exatamente.
Notas finais
- Não sei se vocês sabem (eu não fazia a menor ideia XDD), mas a zanpakutou do Mayuri tem a ver com uma divindade budista chamada "Jizou Bosatsu" que é muito famosa no Japão. D: Dizem que essa divindade dá auxílio aos pais que perderam seus filhos.
Para saber mais, tem esse link aqui ó:
http://www.japaoemfoco.com/jizo-bosatsu-as-estatuas-guardias-das-criancas/
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