The Darkness is Coming
6 O desespero tece o fio da esperança
Jack fazia questão de saber o que estava acontecendo em sua ausência, com o seu nome e sua pessoa para que a maioria dos Guardiões fizesse uma reunião sem chama-lo ou muito menos informar depois de terminada. Eles apenas debateram e não o chamaram, era isso que deixou Jack tão irritado ao ponto de avançar o “tumor” dos pesadelos.
Ele olhou o reflexo em um lago congelado, tirando o moletom azul e vendo metade de seu peito ser consumido por uma mancha preta e mostrando o contraste de sua pele pálida incomum.
Sentia raiva, ela se acumulava dentro dele e dela parecia que isso o afastava da razão do quão errado era sentir aquilo. Por quê? Ele era o guardião da diversão, um garoto jovem que pregava peças e divertia as crianças, não um adolescente revoltado com complexo de imortalidade juvenil de que nada o machucaria.
Sim, Jack entendia os adolescentes por ele ter tido a sua juventude interrompida. Era um garoto "interrompido", não por ter perdido a inocência, mas por não ter tido ela e concluído.
Nem mesmo os guardiões queriam que ele lidasse com problemas de adulto. Fosse por preocupação ou cautela, Jack não queria saber, só queria poder estar com todos, aproveitar o máximo que restava com eles para que seus últimos momentos em consciência sã não fossem os piores.
Por isso colocou o moletom novamente e tentou o seu melhor para voar e tomar rumo com o vento, cambaleando para o seu destino final.
Um antigo vilarejo abandonado, suas defesas pareciam com sono. Tudo aquilo longe da cidade grande, da poluição e toda ambição cabível no homem. Era um lugar cheio de neve, mas os humanos chamavam aquele lugar "Sibéria" e ali era o lugar onde Norte nasceu e cresceu, a tal Rússia.
Ele pensava o quão engraçado era imaginar Norte como uma figura paterna quando não se lembrava de nada, mas aquele vilarejo o fazia lembrar de algo. Jack acabou vendo as memórias dos seus dentes, do nascimento até o dia em que ele caiu no lago congelado para salvar sua irmã, mas aquele vilarejo onde Norte uma vez cresceu e se tornou o Grande Norte fazia Jack sentir algo não relacionado as memórias.
O Jack Frost "nasceu" em Wisconsin, perto de Michigan, mas parecia que ele tinha nascido na Rússia de alguma forma.
O vilarejo de Papoff Noelen a muito tempo teve defesas que afastavam até mesmo os mais gananciosos, o espirito da floresta que tentava os homens de má fé, o grande urso e a muralha de espinhos que seguia sempre erguida e nunca dava passagem.
Claro que Jack não precisava passar nos testes, ele simplesmente passava andando e o vilarejo se mostrava um pouco largado, sem tantas pessoas como antes, mas o atalho que Jack precisava para não sair voando com tanta dificuldade estava ali.
Algumas crianças o cumprimentavam e riam, mas ele seguia seu caminho até a Troncuda, a gigantesca árvore que antes era o lugar onde Norte aprendeu suas façanhas como aprendiz de um velho mago.
A Troncuda era uma árvore que se conectava com a grande árvore no polo, uma extensão do magico e que ainda deixava Jack maravilhado.
Adentrando o lugar, ele seguiu uma das portas que levava a um dos corredores para o polo, ele teria que ser rápido para não perder o seu frio e ficar mais fraco, além de que, o corredor não era tão iluminado e a escuridão prolongada prejudicava o "tumor".
Aquela doença era estranha. Jack havia lido o livro-inseto de Norte sobre como o Breu virou aquela coisa horrenda e cruel, para poder lidar "melhor" com o que estava por vir. Mas o que ele encontrou foi a origem escrita e contada pelo próprio Homem na Lua e o quão sádico e dominado pelas trevas Breu se tornou, pela perda da família, pela perda da sua honra, perder a esperança. Por perder tudo e sucumbir, afinal, o que restava para ele?
Naquele dia em que leu o livro, entendeu o motivo de Breu querer Jack ao seu lado. Não era apenas para se tornar mais forte contra os guardiões e trazer a nova Era das Trevas, era para não sucumbir sozinho.
Breu foi uma vítima, mas Jack não sabia se sentia empatia por alguém que matou quando estava dominado pelo mal. Não sabia dizer se aquilo seria o Breu ou os pesadelos sussurrando em seu ouvido.
Chegando ao polo, respirou fundo ao sair e dar de cara com a fábrica de brinquedos. A produção ainda estava a todo vapor e Jack não conseguiu muito menos sorrir ou ter uma ideia de congelar algum brinquedo, ele queria apenas tirar satisfações com Norte.
Seguiu do elevador, usou sua magia para chegar mais rápido e encontrou Sandman agitado e flutuando, mas ao ver Jack, se alarmou e tentou ir a uma direção contrária, mas Jack impediu o homenzinho.
— Ei, Sand — Jack o chamou, flutuando na frente do homenzinho de areia, sorrindo para ele, mas desmanchando ao ver a preocupação clara — Parece que você viu um pesadelo, o que aconteceu? — Perguntou preocupado, ponderando a cabeça um pouco para o lado.
A areia formava algumas figuras no topo de sua cabeça e Jack apenas suspirou, mas resmungou de dor com a ardência em seu peito, apertando o moletom e recuando um pouco. Ele foi acudido por Sandman que estava ao seu lado, dando tapinhas em seu ombro, mas não estavam completamente sozinhos.
A neta do mal encarnado estava ali graças a um duende enxerido que a chamou. Karma estava ajoelhada na sua frente e só então Jack notou que estava sim, também de joelhos no chão e não só a garota, mas Sand também o olhavam preocupados.
— Estou bem... — Resmungou, se levantando e ainda cambaleando, sendo acudido novamente por Sand — Já disse, estou muito bem... Vim apenas conversar com Norte.
— Ele está ocupado — Karma falou, o cenho franzido levemente e ele reparou o olhar que ela e Sand transmitiam — Ele disse que se quisesse falar com alguém, que Sandman iria ajudá-lo já que um grande mago veio do de uma montanha do Himalaia para cá conversar com ele — Contou e Jack rolou o olhar, ele sabia quem era o sujeito.
— O assunto se diz ao Norte e apenas ele, ou seja, preciso falar com o bom velhinho — Sorriu forçado e Karma abriu e fechou a boca, o que deixou Jack satisfeito com seu feito, seguindo caminho e tropeçando no chão.
Ótimo, os poderes de Karma começaram a surtir efeito, mas ao se levantar, viu o olhar de surpresa dela e não satisfação por tê-lo feito cair. Aquilo era realmente desconfortável e Jack não gostava dela por conta disso, não sabia se o poder dela se estendia para atos do passado e afetavam em um futuro próximo, mas se fosse assim, ele estava pagando por seus erros ao ter falhado na páscoa com o Coelhão.
A pior tortura que era, acabar com a simbologia e data de um guardião.
— Me desculpe... — Ela falou, se aproximando e segurando o braço de Jack para que levantasse, mas Jack afastou a mão dela de si, temendo que por ser herdeira da escuridão, acelerasse o tumor de pesadelos dele.
— Sai de perto de mim — Falou, ríspido e ele arregalou o olhar — Não quero sua ajuda, me entendeu? — Soltou, não a deixando falar e ele andou até a sala do Norte.
Ignorando a ardência em seu peito. A raiva fazia com que ela crescesse mais, o medo fazia com que ela o fizesse delirar e ouvir os pesadelos em sua cabeça, no pior dos casos, os medonhos.
Adentrou a sala com tudo e viu uma figura de um senhor de longo chapéu pontudo e longa barba. Parecia que a conversa dos dois acabou chegado ao fim e Jack adentrou assim mesmo, vendo a feição curiosa do senhor, mas ele não ficou por muito tempo e se despediu de Norte, deixando ambos guardiões sozinhos finalmente.
— Notei que ignorou o aviso de Karma, garoto — O sotaque forte deixou Jack tenso, Norte parecia cansado e pelo suspiro que deu, era algo sério — Veio ouvir de mim algo que o desagradou, não é?
— Está tão na cara assim? — Sorriu forçadamente, vendo o velho Norte se sentar em sua cadeira e massagear a têmpora — Olha, não gosto dessa conversa da mesma forma que você não gosta, mas fiquei sabendo que teve uma reunião e por não terem me chamado, o assunto foi sobre mim.
— Você acha que tudo é sobre você? — Norte falou.
Aquilo doeu como uma estaca de gelo caindo no chão, o tom sério do outro o magoava.
— Não é isso...
— Então seria o quê? — Rebateu, encarando Jack e levantando da cadeira — Jack, essa reunião foi dias trás e não chama-lo era para não causar mais estresse.
— Você nem sabe como essa coisa cresce em mim, Norte — Resmungou, apertando o cajado — Eu só queria saber porque a Fada largou o meu aquecimento de voo e porque o Coelhão deixou de se encontrar comigo n'Toca pra vir aqui e depois ir no domínios da Mãe Natureza e não venha falar que deveria perguntar a eles — Ergueu o dedo — Eles vieram ao seu chamado e eu não, Norte.
— É algo complicado, Jack... Mas eu quero ajudá-lo, só preciso que continue com a Fada o máximo que puder — Pediu e Jack torceu o rosto em uma careta — Você vai precisar ficar com ela e quero que peça desculpas a Karma — Falou e Jack deu uma risada.
— Nem pensar! — Fez outra carreta — Eu voltarei... Mas que queria me reunir com todos, uma pequena reunião amistosa e não algo secreto — Pediu e Norte concordou — Mas eu ainda queria saber sobre o que foi a reunião...
— Era sobre a sua cura, Jack — Contou e Jack arregalou o olhar — A Fada trouxe informações das Irmãs do Voo e Coelhão tentou algo com os chocolates, mas queríamos misturar conhecimentos para o seu caso, afinal, nós nunca curamos o Breu dos pesadelos porque ele é um ser não humano e dominado por uma entidade poderosa demais para lidar, já você, foi humano e agora está sofrendo o mesmo de maneira devagar.
— Se era sobre minha cura, por que não me chamaram?
— Preferíamos não deixá-lo com esperança — Contou — Coelhão é o guardião da esperança e me disse uma vez que ela é algo muito perigoso.
— Todos tem de ter esperança, velhinho — Zombou e Norte suspirou.
— Muita esperança acaba levando os melhores homens a própria queda, Jack — Falou — Breu é um exemplo.
— Eu não vou ser como ele — Declarou, saindo da sala e fechando a porta com força.
Quase derrubou Karma com uma bandeja, essa sorriu para ele e um peso ficou nos ombros de Jack. Ela era errada e correta de várias formas, mas maldosa não era.
— Trouxe um chá gelado de pêssego, o meu favorito já que não estamos na época — Ofereceu a xícara na bandeja e Jack não respondeu — Sand disse que você não bebe coisas quentes, queria levar algo para a sala do Norte enquanto conversavam.
— Nossa conversa acabou... Mas eu aceito o chá... — Sorriu fracamente, pegando a xícara e mantendo ainda uma distância de Karma.
Ele não queria se estressar ainda mais.
Fale com o autor