The Cursed Blood
23 Pesadelo colorido
Notas iniciais
“Miiko sentiu pontadas agudas na cabeça.
–Estão me dizendo que trouxeram uma humana ao invés...
–Não, não, não – interrompeu Nevra – Trouxemos uma humana com a Marca.
Ela o pulverizou com o olhar, mal-humorada e desesperada; já tinha problemas demais para resolver, não precisava de uma humana correndo perdida por ai num período daqueles.
–Se ela é humana, é impossível que tenha a Marca! – exclamou, os nervos á flor da pele, sem conseguir tirar da cabeça o relato de terem visto o Dragão Branco na Costa de Jade, e impaciente por não poder ir até o local.
–Isso quer dizer que não é humana. – murmurou Nevra num perigoso tom que indicava o quanto tal afirmação era óbvia.
–Mas também não tinha nenhuma característica eldaryana. – rebateu Ezarel de braços cruzados, apoiado num dos pilares da Sala do Cristal.
–Ainda negando isso? – perguntou Nevra, provocando-o – Quem diria que você se preocuparia com uma garotinha...
–Pensei que me agradeceria por insistir em trazer aquela bruxa por quem você...
–Chega! – Nevra esbravejou, obrigando todo o salão a mergulhar num silêncio pasmo; até mesmo Miiko esquecera de todos os problemas por um instante e mostrou-se surpresa diante daquela reação.
Ezarel sorriu.
Valkyon revirou os olhos.
Nevra deu as costas.
Miiko foi a única a permanecer sem reação.
–O que...? – ela começou a perguntar, confusa, sem saber a qual Guarda dirigir-se especificamente, não conseguindo entender o que acontecia com aqueles três.
Nevra sentia o corpo trêmulo; repreendia a si mesmo por ter deixado Ezarel atingi-lo daquele jeito. Precisava de algum jeito colocar na cabeça que, agora, aquela garota era sua inimiga.
Precisava, de qualquer jeito, esquecer aquela noite.
–Capitão! Hou... – alguém entra gritando e afoito, consequentemente batendo com força no peito de Nevra.
–Ora, ora, se não é minha Louise quem temos aqui. – falou sorrindo e bagunçando os cabelos da garota, esta que o fuzilou com o olhar antes de cumprir sua tarefa:
–Capitão, dois sentinelas reportaram atividades estranhas com magia de nível beta a duzentos metros do portão principal.
Nevra engoliu em seco. Ela estava ali?
Ezarel e Valkyon tiveram uma rápida troca de olhares, preocupados; Valkyon, como sempre, logo mostrou tal sentimento ao aproximar-se da Mensageira, o outro, apenas revirou os olhos e fingiu que aquilo não o interessava, quando na verdade seu coração de elfo bombeava freneticamente o sangue por suas veias.
–Já tomaram alguma atitude? – perguntou Miiko, aproximando-se também.
A outra negou com a cabeça, os cabelos longos, castanhos e lisos acompanhando o movimento.
–Identificaram Chrome como um dos envolvidos, e como ele é da sua guarda, acharam melhor esperar por ordens suas.
–Quem são os outros? – Miiko perguntou, tentando retomar o controle sobre a situação.
Os olhos castanho-esverdeados da garota fixaram-se nela, endireitando a coluna e colocando as mãos atrás das costas.
–Alguém de estatura média vestindo capa e máscara, ambas pretas; e, bom... Uma garota usando umas roupas familiares às usadas no mundo humano e...
Nevra não ouviu o restante, aquilo já fora o suficiente para convencê-lo a agir pessoalmente, de modo que saiu correndo porta afora.
–Mas o que...? – a Mensageira ficou ali, parada, sem saber agora como agir.
Valkyon imediatamente foi atrás de Nevra, e Ezarel, depois de hesitar, fez o mesmo.
Miiko grunhiu, sentindo que perdia cada vez mais o controle sobre as coisas ali, fato que piorava ainda mais seu humor.
–Mande-os enviarem suporte à esses três loucos; avise à enfermaria para se prepararem que, provavelmente, receberão mais feridos. – Louise já ia saindo, mas Miiko ainda não havia terminado: — E procure Ykhar e Kero, avise-os que quero que escolham três Analistas e os mandem para a Costa de Jade, atrás de informações sobre a aparição do Dragão Branco.
Sem dizer uma palavra, a Mensageira curvou-se levemente e saiu para cumprir com que lhe fora dito.
–Jamon! – chamou Miiko e o troll imediatamente prostrou-se ao seu lado.
Ela virou-se para ele, mordendo o lábio inferior, esperando que aquela decisão não causasse um alvoroço maior ao invés de evita-lo.
–Suspenda as atividades de todas as guardas amahã.
Os pequenos olhos da criatura gigante arregalaram-se.
–Mas por...? – com um único olhar ela o silenciou.
–Faça rápido; não deixe mais ninguém saber que a partir de agora temos entre nós a herdeira da Casa de Éter.”
(Nevra)
Cheguei à borda da floresta no minuto seguinte ao sair da Sala do Cristal, o coração martelando no peito.
Ela estava mesmo ali?
Não sabia se isso deveria me fazer rir ou a amaldiçoar. Queria vê-la mais do que nunca. Mas também queria matá-la mais do que tudo.
Parei onde estava; planejava retomar o controle de meus pensamentos antes de continuar e evitar fazer algo imprudente numa situação daquelas.
Foi quando ela apareceu, cambaleando, de entre as árvores. O cheiro de sangue vindo dos seus ferimentos no ombro e pescoço era forte, fazendo-me perguntar como não o sentira antes; o uniforme escolar estava todo amarrotado e sujo, e os cabelos castanhos, desgrenhados.
–Micaela! – gritei e fui até ela, segurando-a pelo braço antes que essa ao menos chegasse a olhar em minha direção.
–Nevra? – os olhos da garota fitaram-me, arregalados, fazendo-me distanciar dois passos dela, atordoado.
Lilás.
Os olhos dela estavam lilases.
Micaela desviou o rosto, este contorcido numa expressão de dor estranha à um rosto tão jovem.
Ouvi seus batimentos cardíacos oscilarem. Percebi quando a pressão do sangue correndo em suas veias diminuiu. E esses sinais foram o suficiente para fazerem-me esquecer de qualquer coisa estranha daquele momento.
Segurei-a em meus braços antes que seu corpo (um tanto frio) encontrasse o chão.
Seus batimentos fracos e respiração difícil eram os únicos indícios de que ainda estava viva; o sangue dos ferimentos parecia estancado. Ela estava com hemorragia? Sendo isso ou não, ela precisava urgente passar pela enfermaria.
Passei um de meus braços atrás de seus joelhos e coloquei o outro à suas costas, erguendo-a no colo, apertando-a contra meu peito; nenhum desses movimentos causou alguma reação nela. Sem dúvida estava completamente inconsciente.
–Hey! – Ezarel chamou quando virei-me para voltar à H.Q.
Revirei os olhos.
–O que foi dessa vez? – perguntei entredentes, voltando-me para ele.
Valkyon vinha logo atrás.
–O que aconteceu? – o elfo perguntou, apontando com o queixo para a garota em meus braços.
Grunhi mal-humorado e passei por eles, sem me importar em responder. O estado deplorável dela já dizia, por si só, parte do que tinha acontecido, e a falta de compreensão no rosto dele me irritava ainda mais. Será que não sentia culpa? Não percebia que Micaela estava machucada por nossa incompetência naquela missão?
Às minhas costas, percebi Ezarel tentar me parar, mas foi barrado por Valkyon.
–Micaela é prioridade agora.
Agradeci mentalmente a ele por evitar uma discussão naquele momento.
(Micaela)
Eu não sabia direito mais o que estava acontecendo. A primeira vez em que abri os olhos por mais de cinco segundos, tudo o que pude ver era o azul intendo do céu; o chão amadeirado balançava ás minhas costas, e meu corpo, frio e pesado demais para que eu conseguisse movimentá-lo. Pouco tempo depois, voltei a mergulhar na escuridão.
Essa sequência se repetiu, ora eu estava consciente ora não, mas minha incapacidade em absorver o pouco que eu captava não mudava.
Até que senti uma respiração ofegante ao meu lado.
–Hm...? – murmurei, grogue, meus sentidos lutando para se manifestarem.
–Calma... Quase lá... – falou uma vos masculina, bem próxima à meu ouvido esquerdo.
Baques leves tomavam meu corpo de vez em quando. Aos poucos, finalmente, consegui perceber o que estava acontecendo.
O garoto com orelhas de lobo, que me encontrara na praia, carregava-me (com muito esforço) em suas costas. Eu era um pouco maior do que ele, então meus pés arrastavam-se pelo chão.
Alguns minutos passaram, ele seguindo em frente por uma trilha na floresta comigo pesando em suas costas. Eu não disse nada, mas ele tentar manter-me equilibrada daquele jeito, segurando-me pelo pulso, levava pontadas de dor até meu ombro ferido; e a dor em minha garganta não facilitava em nada a situação;
De repente, ele para.
–Droga...
Obriguei meus olhos a focarem no que estava á nossa frente, meu coração indo parar no estômago.
O encapuzado estava ali. A lança de prata apontada, creio eu, em minha direção.
Minha garganta queimou, como se relembrando da dor de ter aquele metal tentando perfura-la.
Delicadamente, o garoto colocou-me no chão, logo em seguida dando alguns passos á frente, os braços abertos.
Ele estava me defendendo?
Por que?
Ergui meu corpo até conseguir ficar de joelhos, sem saber o que eu pretendia fazer. Ali, eu era mais inútil do que nunca.
Abri a boca para pronunciar-me sobre sua atitude; ele não tinha que se machucar por minha causa.
Não tinha que enfrentar uma figura tão maior e sombria por minha causa.
“Não fala nada”, ordenou Amanda em minha mente; a voz fria paralisando minhas ações. Engoli em seco. Mas eu não podia deixar aquilo continuar.
Estendi meu braço, agarrando a terra, planejando puxar a perna daquele garoto até fazê-lo entender que o melhor era fugir.
“Falei para não fazer nada!”, ela quase gritou, uma sensação de dormência atravessou todo meu corpo por um instante e senti que voltaria a desmaiar. Mas antes que isso acontecesse, consegui retomar o controle. E percebi que já estava há uns dois metros de distância do garoto, apoiada com muito esforço numa árvore. Minha respiração, ofegante. Minha visão, turva.
–Como...? – perguntei para mim mesma em voz alta, sem conseguir me lembrar de como havia chego até ali.
–Haa! – algo puxa a barra da minha calça. Era aquela pequena tartaruga, fitando-me num misto de medo e preocupação.
Encarei-o, apavorada. O que ele fazia ali? Pensei que já teria voltado para sua família, ou sei lá aonde vivia.
Praguejei baixinho.
–Não se mova! – aquele garoto falou com a voz trêmula. Pude perceber o encapuzado parar de se aproximar, mas algo me dizia que isso não adiantaria.
Eu tinha que fazer alguma coisa.
“Não, não tem”, falou Amanda “É você quem ele quer, se fizer algo imprudente, ele sentirá prazer em te matar”.
Foi com essas palavras que uma ideia me surgiu.
Agarrei aquela tartaruga e a ergui, colocando-a dentro de um buraco oco na árvore.
–Não saia daqui. – falei, a voz rouca e horrível, totalmente irreconhecível.
“Micaela...” Amanda tentou advertir e a sensação de dormência começou a me atingir outra vez.
–Não! – exclamei, sabendo que, se eu deixasse aquilo me dominar, eu cairia em inconsciência outra vez. Meu corpo vacilou para o lado com o esforço.
Ambos, garoto e encapuzado, viraram o rosto em minha direção. Fuzilei aquele homem com o olhar, em desafio.
E corri.
Adentrei naquela mata estranha, o ar arranhando meus pulmões, o cansaço tentando me derrubar junto daquela estranha sensação de dormência. E mesmo assim, continuei.
Por que, exatamente, eu fazia todo aquele esforço?
“Porque é idiota!” gritou Amanda e tombei para frente, dessa vez sem conseguir levantar.
–Cale a boca. – grunhi, agarrando qualquer coisa sólida que ajudasse meu corpo a ficar de pé. E ele ficou, protestando com dores agonizantes, mas obedeceu á minha força de vontade.
“Você vai se matar... E pior, vai ME matar junto!”
Fingi que ela não existia e voltei a correr (ou melhor, tropeçar) pela mata densa; pontos pretos dançavam em minha visão, as cores do cenário misturando-se em uma confusão assustadora.
Aquelas plantas desconhecidas pelas quais eu passava seriam lindas, não fosse o fato de eu ter um psicopata em meu encalço.
Mais que nunca, eu queria sair dali.
Eu tinha sair dali.
Mais uma vez cai, e dessa vez deixei que meu pavor se transformasse em lágrimas, transbordando para fora de meu corpo exausto.
Não sei quanto tempo fiquei naquela cena deplorável, mas parei de chorar e toda a dor fugiu de mim quando ouvi passos se aproximando.
Arrastei-me, sentada mesmo, pelo chão, trêmula ao imaginar uma fim à minha vida naquele pesadelo colorido e desconhecido.
“Me deixe tomar o controle, mas pare com isso” implorou Amanda “Não acabe com suas forças desse jeito”.
Mas, para mim, era como se ela nem existisse.
O encapuzado surgiu de dentre as árvores, a lança apontada para meu peito.
Era um cenário simples de ser lido: ele, o caçador; eu, a caça encurralada.
“É sério, pare de se mexer”.
Nem foi preciso que eu desse ouvidos á ela, minhas costas bateram contra o tronco liso de uma árvore; minhas pernas ainda assim tentaram arrastar-me para trás, mesmo meu cérebro sabendo que era impossível.
Sabendo que era o fim.
“Me deixe logo tomar o controle do seu corpo!”
Com aquele pedido, aquietei-me.
Tomar o controle. Como assim?
“Desse jeito”
O formigamento estranho atravessou meu corpo; senti como se minha consciência tivesse caído no sono. Eu via, de uma maneira embaçada, o que estava acontecendo; já os sons pareciam todos abafados por um travesseiro. Era como se eu tivesse afundado no oceano. Sentia-me leve como nunca antes, a sensação gélida de ter água me circundando dominava. Mas meus membros moviam-se sozinhos.
Meu corpo levantava-se agora sozinho.
Minha boca mexia-se sozinha.
–Ainda precisamos dela, deixe-a ir. – foi o que meus lábios pronunciaram, mas as palavras eram completamente estranhas para mim.
Tomar o controle.
Então era disso que ela falava.
–Mas é você quem eu quero matar. “Amanda”.
Meus olhos foram arregalados por ela.
Meu medo foi intensificado pelo dela.
E, sem pensar, cansei daquilo, forçando minha consciência a voltar.
Não sei dizer como fiz isso, mas um puxão forte no estômago tornou todas as cores e sons nítidos outra vez.
Porém, aquela lança já estava vindo em minha direção. Eu ainda me lembrava da dor aguda de ter aquela arma tentando perfurar-me, e era uma sensação tenebrosa que eu não gostaria de experimentar outra vez.
E talvez seja por isso que meu desejo de “não morrer ali” tenha vindo á tona, fazendo com que eu erguesse meu braço automaticamente na direção da lâmina.
“Espera! Não faz...” Amanda ainda tentou me avisar, pena já ser tarde demais.
Minha pele ardeu, todo esse calor subindo para meu punho estendido. Vários círculos surgiram ao redor de minha mão, expandindo até quase um metro. Tudo foi tomado por uma luminosidade roxa forte; a pressão no ar aumentou o suficiente para que este escapasse de meus pulmões.
–Rejeitar. – a palavra saiu de minha boca sem que eu soubesse o que estava fazendo; a voz límpida e clara, demonstrando um poder que claramente não era meu.
Puxei meu braço para trás como se puxasse uma corda; aqueles círculos formados por runas estranhas praticamente explodiram, jogando-me para trás.
Um zumbido tomou meus ouvidos por alguns instantes; abri meus olhos, zonza, e consegui pôr-me de pé com algum esforço.
Silêncio.
Não havia mais ninguém ali a não ser as plantas.
“Sua idiota!” Amanda gritou, o que não ajudou a curar a dor que sentia na cabeça “Você não pode sair...”.
Parei de dar atenção ao que ela falava. Não tinha forças para aguentar mais nada.
Então, deixei aquele formigamento me dominar.
Deixei minha mente perder o controle para o corpo.
Deixei que Amanda tomasse as decisões a partir de então.
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