The Curse - Romania Selection Interativa
7 Capítulo 6 - A New Beginning
Notas iniciais

Flashes coloridos tingiam sua visão, clarões indecifráveis dançando diante de seus olhos numa graciosa e desconcertante cegueira.
“Postura correta” as vozes rígidas lhe diziam, ecoando baixo no vazio. “Queixo erguido, caminhada suave e natural”.
Explosões de vozes irromperam sua mente então, os sons ensurdecedores a faziam querer se encolher e gritar por silêncio. Críticas cortavam seus ouvidos, explodiam como diversos e dolorosos tiros, os quais ela não podia conter. Não havia como se esconder ou como fugir da desaprovação explícita ali, era apenas esmagador.
Um sorriso aberto demais era um erro fatal, um passo em falso e sentia que seu mundo inteiro poderia desmoronar.
“Seja perfeita” dessa vez era a sua própria voz, um único sussurro decifrável na gritaria. “Erros não são permitidos”
A jovem acordou afobada de repente. Suspirou aliviada ao notar que fora apenas um pesadelo e olhou para a janela, reparando que o sol começava a se mostrar, iluminando o céu elegantemente com tons delicados entre o rosado e o alaranjado.
Ela respirou fundo, estava suada, os cabelos loiros grudavam em sua nuca e costas.
O pesadelo não era tão inusitado assim, ela sempre tinha sonhos parecidos em vésperas de grandes sessões de fotos como a que faria em cerca de quatro horas. Sabia que eram talvez um reflexo de seu medo de acabar errando em algo, todavia, era hora de se arrumar e colocar a confiança em seu devido lugar.
O relógio ao lado da cama apitou, avisando que eram precisamente seis da manhã.
Foram ouvidas as batidas usuais e pontuais na grande porta de madeira, juntamente com uma voz feminina de sinos:
— Laiane! Acorde! Precisa se preparar!
Laiane rolou os olhos azuis, pensando que a mãe deveria se poupar, desde que ela sempre acabava acordando antes do horário.
— Estou de pé — avisou, levantando-se e se espreguiçando rapidamente antes de ir se banhar.
Laiane se preparou psicologicamente para a rotina em dias de eventos assim. Logo seu cabelo seria puxado, seu rosto preparado e seu corpo encolhido em roupas de marca. Ela estava acostumada, havia crescido nesse mundo em que a perfeição era requerida arduamente, ainda assim, certas vezes podia ser um tanto estressante.
Se perguntava se um dia seria diferente, e então se repreendia pois não tinha tempo para fantasiar.
Após tomar seu banho, ela foi se trocar. Resolveu usar algo simples e elegante para tomar café da manhã, um belo vestido azul claro rendado que lhe batia um ou dois dedos acima do joelho, pérolas no pescoço e lindos sapatos fechados e prateados, com saltos pequenos de no máximo cinco centímetros.
Ela prendeu os fios loiros, os deixando comportados em um tipo de coque. Então ela alisou o vestido em suas curvas e caminhou para fora do quarto exalando a confiança usual.
Seus passos eram suaves, sua postura era elegante e o tecido dançava em seu corpo enquanto ela caminhava pelo corredor antigo de sua casa, repleto de pinturas de seus ancestrais e objetos antigos e caros que sua mãe comprava para decorar o lugar.
Ela ouvia as vozes de seus familiares cada vez mais altas à medida que descia as escadas e se aproximava da cozinha. Cosmim, seu pai, falava algo sobre o trabalho com seu irmão mais velho, Vasile, enquanto sua mãe já cedo gritava ao telefone com sua irmã, Juliana, provavelmente a punindo pelo leve e quase imperceptível escorregão que a jovem deu durante seu desfile anterior.
Apenas o de sempre. Pensou Laiane.
— ANNE! — ela ouviu um berro vindo atrás de si, nas escadas.
Passos rápidos e baixos soaram à medida que uma figura pequenina aparecia em sua visão. Cabelos loiros como os dela e olhos verdes, com o mais lindo e inocente sorriso estampado em seu rosto. O garotinho agarrou as pernas da irmã, a abraçando com força como fazia sempre que ela precisava sair para um evento como aquele, afinal, ficaria fora por cerca de dois dias.
Laiane sorriu e o pegou no colo, o abraçando com força.
— Bom dia, Mihai — ela cumprimentou o irmão, beijando-lhe a bochecha.
— Laiane! O que acha que está fazendo ai parada perdendo tempo? Vá tomar o seu café ou vamos nos atrasar — a voz fria de sua mãe parecia lhe cortar os ouvidos.
Lenna Cantemir era definitivamente a mulher mais amargurada que Laiane conhecia. Apesar de, obviamente, ela ser uma atriz estupenda para parecer tão gentil e quase dócil diante das câmeras.
Mihai fez um biquinho adorável em uma expressão da mais pura tristeza por ter que deixar a irmã. Os dois eram muito próximos, o pequeno era o único não contaminado pelos segredos e mentiras pesadas que a família carregava; Laiane fazia de tudo para que ele continuasse crescendo dessa forma. Ela se sentia basicamente uma mãe para ele.
A loira sorriu e beijou sua testa.
— Não se preocupe, eu voltarei logo — ela lhe prometeu. — Não ficaremos separados por muito tempo. Pode me fazer vários desenhos e olharei todos quando voltar.
Os grandes olhos verdes de Mihai brilharam. Ele amava desenhar. Desenhava absolutamente tudo o que via e Laiane o estimulava a continuar desenhando. A prática, desde sempre, fora uma maneira que a mais velha achara para afastar o jovem garoto do veneno da família. Com os lápis nas mãos, ele podia se afastar de tudo e permanecer inocente como toda criança deveria ser. Ele era uma das únicas coisas nos Cantemir que fazia Anne sorrir.
— E não esqueça de praticar piano — lembrou ela, beijando a testa macia do irmão.
O pequeno assentiu, agora conseguindo sorrir levemente.
Laiane teria certeza de que ele se ocupasse enquanto ela estivesse fora, dessa forma ficaria mais tranquila sobre deixá-lo. Ela o colocou no chão e bagunçou seus cabelos, indo se sentar à mesa.
Tentou não prestar atenção na conversa que o pai e o irmão levavam, na verdade pouco a interessava qualquer coisa haver com ambos. Laiane não era próxima dos pais e nem dos irmãos, somente com Mihai ela mantinha uma relação realmente forte e com laços fixos. Já se passara o tempo em que Laiane era ingênua o suficiente para cair na grande teia de mentiras que a família formava, se passara o tempo em que ela podia olhar para seus irmãos com algo além de nojo e para os pais com algo além de indiferença.
Após comer, Lenna levou a filha para o carro e elas logo estavam a caminho do estúdio em que tiraria as fotos. Lenna não parava de falar repetitivamente como ela deveria agir, como deveria andar e que expressão deveria usar no rosto. Desde que a sessão era com outras modelos, sua mãe queria fazer com que ela se destacasse ali no meio, que fosse, de certa forma, única.
Laiane apenas assentia, gravando as partes mais importantes e repetindo-as a si mesma para não esquecer.
Ao chegarem, Laiane já foi empurrada escadas acima para dentro do provador, onde vestiu o que lhe mandaram. Um belíssimo vestido preto com detalhes dourados, ele tinha alças finas, deixando os ombros e boa parte das costas totalmente nuas, desde que seus cabelos foram presos e arrumados em ondas suaves. Um batom vermelho marcante destacava seus lábios e em seus olhos uma maquiagem preta realçava os olhos azuis. Ela estava definitivamente estonteante, a loira trajava roupas não tão diferentes das outras modelos, mas ainda assim conseguia se ressaltar entre elas.
Ela estava prestes a começar a sessão de fotos quando um dos fotógrafos se aproximou dela com algo em mãos. Era um envelope e chamava muita atenção por um simples fato: o selo imperial.
Sua respiração chegou a falhar e seus olhos se arregalaram com as inúmeras possibilidades que sua mente criou naquele momento.
— Srta. Cantemir, essa carta é para… — antes que o fotógrafo pudesse continuar, Laiane pegou a carta rapidamente e a abriu ansiosa.
“Congratulações por sua entrada na Seleção da Romênia. Boa sorte, e que o amor esteja sempre ao seu lado!”
O coração da loira parou por um momento.
Céus, seria esse o início de um novo começo? Era tudo o que ela precisava! Era a chance de sua vida! Se ganhasse a Seleção e assim também o coração do príncipe, quem sabe Mihai pudesse viver no palácio?
As mais incríveis formas de futuro brilharam diante dos olhos de Laiane, essa com certeza era uma oportunidade irrecusável.
***
No meio da multidão colorida e animada de Constanta, uma figura cinza fazia contraste. Era uma menina de longos e ondulados cabelos castanhos cor de ouro, que se escondia em uma manta surrada. Seus olhos verdes pálidos combinavam com a atmosfera cinza do dia; céu repleto de nuvens e o mar de repulso. A jovem moça se movia apressada entre as pessoas, atarefada e com seu tempo escasso. Ela deveria cumprir suas obrigações e voltar logo para casa, ou estaria fadada a uma desagradável punição. Com isso em mente, ela ia o mais rápido que podia, logo estando com tudo o que precisava em mãos.
Contudo, sua atenção foi atraída por uma linda melodia, funcionando com um freio forte para seus pés. Ela ouvira esse maravilhoso som em seu pequeno quarto na mansão dos tios, sua única companhia era um pequeno rádio onde fazia questão de ouvir somente músicas de balé. Sua mãe fora uma incrível e famosa dançarina em vida, então isso a fazia se sentir talvez mais próxima dela, como se ainda estivesse viva.
A jovem não pôde evitar, antes que pudesse se conter ou advertir a si mesma, ela já se encontrava adentrando o grande estúdio de balé e empurrando delicadamente as enormes portas antigas de madeira. Lá dentro as paredes eram de um cinza pálido e havia um corredor e logo após ele, uma grande escada. A música vinha de lá, ela tinha certeza, e apenas se deixou ser guiada pela melodia harmoniosa, subindo as escadas e dessa vez também ouvindo uma voz acompanhando o belo som. Não estava cantando, estava… instruindo.
Ela não se considerava uma garota curiosa, mas não podia evitar; passaram-se anos desde a última vez que vira alguém — além de ela mesma — dançar. A moça foi em direção a uma porta, a qual era parcialmente feita de vidro, facilitando a sua visão.
Encantada simplesmente não parece o suficiente para descrever como a jovem se sentiu ao ver filas de lindas bailarinas ensaiando graciosamente. Seus corpos se moviam exatamente como ela lembrava, suavemente, cada passo era feito com uma formosidade completamente inexplicável. Os olhos da garota fixaram, seguindo cada mínimo sinal de locomoção, gravando cada pequeno instante.
Ela nunca sequer pensara que poderia haver um estúdio de balé tão perto de si, tantos anos e anos passando nessa mesma rua e era apenas desconcertante pensar que somente havia o notado agora.
Uma das dançarinas chamou sua atenção, exceto que ela logo percebeu que não era uma dançarina e sim a professora. Era linda, ela precisava dizer. Sobrancelhas e lábios finos assim como o nariz, levemente arrebitado. Os cabelos eram de um loiro-palha, quase dourados, presos para trás em um bonito coque. Tinha uma postura correta e ombros perfeitamente alinhados. Os olhos eram de um azul esverdeado intenso, com cílios compridos e também loiros.
O que a jovem não esperava é que fosse ouvir uma voz e passos rápidos:
— CATALINA! — a voz berrava desesperada e a música cessou.
A jovem correu para se esconder em um dos corredores, espiando para ver o que acontecia e o porquê de tanta afobação. Se perguntava, principalmente, se poderia sair dali em silêncio antes que fosse notada.
Ela notou a professora saindo da sala preocupada e se encontrando com um senhor que segurava uma carta, uma carta familiar para a jovem.
— O que foi? — Catalina indagou assustada.
— Isso chegou para você! — o senhor disse com os olhos castanhos vidrados. — Veja! É uma carta do palácio! Tem o selo imperial!
Catalina pegou a carta rapidamente e a abriu apressada, ela precisou se apoiar na parede para processar as informações que ali continham.
— Eu fui chamada para a Seleção…? — indagou a si mesma, absolutamente perplexa e já ouvindo todas as dançarinas murmurando entre si com a mais nova fofoca.
A cena fez a jovem se pegar em um devaneio, perdida em suas próprias lembranças…
Estava em seu minúsculo quarto, ouvindo seu rádio com os olhos fechados e dançando como podia no pequeno espaço. Por conhecer o lugar e já saber onde ficava cada pequeno objeto, ela sabia bem como se mover sem derrubar ou esbarrar em qualquer coisa. Seu corpo parecia agir impulsivamente, ela prendia-se às memórias que tinha da mãe, lembrando-se de seus graciosos movimentos e os copiando como podia, se deixando levar. Aquele momento, aqueles curtos minutos de música, eram sempre o ponto alto de seus dias. Era quando podia se deixar relaxar por apenas alguns minutos, parte do que a ajudava suportar a rotina medonha a qual seus tios a confinaram após a morte de seus pais.
Assim que a melodia cessou, ela suspirou, ainda com os olhos fechados, apreciando o breve estado de calma em que se encontrava. Contudo, ela logo ouviu a sua porta ranger ao abrir levemente.
— Sara, querida? — a voz gentil da empregada e também sua amiga, Martha, soou baixa, mas eufórica.
— Sim? — indagou ela, já se aproximando da porta e puxando a senhora para dentro.
Os olhos amendoados de Martha brilhavam de animação.
— Trago-lhe uma notícia estupenda! Olhe, abra! — ela entregou a Sara um envelope meio amaçado com um selo bonito e vermelho. A jovem até então não sabia do que se tratava, não conhecia o selo imperial.
Ela lentamente abriu a carta, puxando dali o papel e lendo as palavras com cuidado. Ficou estupefata ao compreender o que estava escrito, apenas não podia acreditar.
Ela havia ouvido sobre a Seleção em seu rádio, havia pensado em como deveria ser maravilhoso participar de tal de evento, mas sequer suspeitava que estava inscrita. Deveria ser algum tipo de engano, não podia ser real.
— Eu te inscrevi na esperança de que se livrasse desse lugar horrível — esclareceu Martha, acabando com qualquer dúvida que a garota pudesse ter.
Por algus segundos, Sara apenas encarou a mulher. Tinha vontade de abraça-la e, ao mesmo tempo, vontade de sair pulando e dançando pela casa. Era uma mistura de euforia e choque. Em sua mente, mil palavras se formaram, porém nenhuma delas saiu de sua boca. Na verdade, não havia nada forte o suficiente para descrever como ela se sentia naquele momento.
Era o que ela sempre sonhou, por anos e anos, tudo o que ela desejou: a chance de um novo começo.
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