The Cure
3 Say yes
Nojo de si mesma.
Era só isso que Heather sentia quando era tocada por aquele homem. O homem que já havia a abusado de todas as formas possíveis e ainda a obrigava a dizer que sim antes de todos os atos só para dizer que com o sim dela, não seria estupro.
Mas ele sabia que era, ela sabia que era também. O sim sempre vinha obrigado, por pressão, isso quando ela não tinha uma arma na cabeça só pelo sim, era óbvio que ela não gostava de ter aquelas mãos tocando-a como se ela sentisse o mesmo desejo que ele sentia.
— Geme para mim, Heather. – ele pedia. – Geme meu nome.
E toda vez que ela desobedecia uma ordem dessa, apanhava.
— Geme, vadia. – ele gritou e Heather foi obrigada a gemer e ainda ter que ver a cara dele de satisfação.
Ela só queria sair dali, queria chorar, preferia morrer a ter que passar por aquilo sempre que Hernandez queria e o pior de tudo, era que ela não podia fugir dele, porque ele jurou matar a mãe da Heather se qualquer dia, ela tentasse fugir dele ou o denunciasse.
Depois que foi surpreendida por ele na rua, Hernandez a levou até o seu carro, onde a obrigou a dizer que sim e, mais uma vez, fez sexo com a Heather, se é que aquilo era mesmo sexo. Só ele se satisfazia e ainda era contra a vontade dela, aquilo não era sexo, era abuso, era estupro e Heather só pedia pela morte toda vez que aquele homem a tocava.
— A cada dia, você fica mais gostosa, não tem como resistir. – ele sussurra no ouvido dela quando havia terminado.
Heather fecha os olhos e segura o choro, ela odiava chorar na frente dele.
— Você me disse que não me perseguiria mais. – ela diz e ele ri.
— Como eu conseguiria fazer isso, meu amor?
— Não me chame assim. – ela quase grita e ele aperta o pescoço dela.
— É de vadia que você gosta de ser chamada, não é? – ele pergunta, rindo. – Eu vou te perseguir quando eu quiser, vou te comer quando eu quiser, você é minha, Heather. Só minha. – Hernandez diz, antes de beijar a boca dela.
[...]
Heather já havia perdido a noção do tempo. Não sabia a quantos minutos estava chorando naquele banheiro, mas essa era a única coisa que ela conseguia fazer e não estava se importando com o tempo que estava perdendo ali, ao invés de estar trabalhando.
Ela poderia ter conseguido agir normal, mas Liam fez questão de perguntar o que havia acontecido, então isso a fez chorar. Ela sabia que não era uma preocupação verdadeira, era só curiosidade, ele nunca a viu daquela forma, sendo assim, era óbvio que perguntaria o que estava acontecendo.
Ninguém nunca se preocupava verdadeiramente com ela, ninguém além de sua mãe, que no momento estava nas mãos de um traficante, estuprador que prendia as mulheres e as faziam de escravas sexuais ou as colocavam para trabalharem em um de seus bordeis.
Heather foi a única que havia conseguido sair de lá. Por sorte, ou azar, Hernandez havia simpatizado com ela e por isso, não a colocou para trabalhar em um bordel, mas abusou da Heather dos dezesseis aos vinte anos dela, que foi quando ela fez um acordo com ele. Heather poderia sair de lá, ir viver sua vida, trabalhar… mas nunca, em hipótese alguma, deveria se relacionar com alguém, porque ela pertencia ao Hernandez, era só dele.
Hernandez arranjou apartamento e emprego para a Heather, mas metade do seu salário ia para ele e quando ela queria se livrar dele por um mês inteiro, ela simplesmente teria que dar o salário completo e se virar sem dinheiro. Várias vezes ela já havia feito isso, mas acabou acumulando dívidas que quase se tornaram impagáveis e teve que continuar sendo a escrava sexual do Hernandez.
Ela odiava ter que passar por isso e muitas vezes, já havia tentado suicídio, mas nunca conseguia. Ela não sabia se isso era algo bom, porque costumava pensar que se a vida não quis deixá-la ir, era porque coisas boas poderiam vir, ou se era simplesmente azar, o azar que teve a vida inteira e continuaria tendo enquanto pertencesse ao Hernandez.
— Você ouviu dizer que o Liam se separou da Lydia? – Heather ouve a voz de duas mulheres que haviam entrado no banheiro. Ela colocou seus pés em cima do vaso sanitário e prestou atenção na conversa.
— Sim. – a outra respondeu. – Eu adorei, mal posso esperar para pegar esse homem.
— Você acha que consegue?
— Você acha que não? – ela ri. – É óbvio que logo, logo o Liam vai procurar uma distração e eu farei questão de ser. Aquele homem é tudo. – a outra amiga ri e concorda com ela.
— Já tive cada sonho com ele.
— Imagine na realidade como deve ser. – ela suspira.
Ouvir conversas como essa, lembrava a Heather de que nunca – em 23 anos – havia transado de verdade com ninguém. Sempre foi abusada pelo Hernandez.
Um dos capangas do dele, gostava dela, sempre a ajudava, cuidava da Heather e sempre conversou com ela. Ele foi o único que ela beijou de verdade, mas quando o Hernandez descobriu sobre isso, quase o matou e o expulsou, demitindo o Joshua. O único homem que quase fez a Heather se interessar.
Por isso e muitos outros motivos, ela não se interessava por ninguém, nem se dava ao trabalho de se arrumar para não chamar a atenção, só que mal sabia ela, que sua beleza era tão natural que qualquer um ficava encantado por ela. Mas ela ignorava todos, até porque o Hernandez faria questão de matá-lo.
— Eu só consigo imaginar quão grande… — a mulher se cala quando vê a porta de um dos banheiros abrindo e logo vê a Heather saindo de lá. As duas riem e não demoram para sair de lá, continuando o assunto quando estão longe da antipática e antissocial.
Heather lava o rosto e passa só um pó por ele, tentando disfarçar o horror que havia ficado o seu rosto após tanto choro.
Ela respira fundo, olha-se no espelho mais uma vez e sai do banheiro, ela sabia lidar muito bem com aquela situação, até porque não era a primeira vez e nem seria a última.
[...]
Heather desliga o computador e começa a arrumar sua mesa e sua bolsa quando termina todo o trabalho que tinha para fazer. Ela sempre fazia tudo e independentemente do havia para fazer, ela sempre terminava no horário certo e estava pronta para voltar a sua vida triste e chata.
Ela estava pronta para levantar-se e sair da sala, quando Liam entra e a vê, indo direto para a sua mesa.
— Como está? – ele pergunta e Heather continua séria, mas responde, afinal, ele era seu chefe.
— Estou bem. – é a única coisa que ela diz.
— Desculpe-me pela forma que te tratei hoje. – Liam pede e se aproxima mais da mesa dela. – Eu nunca pedi tantas desculpas como hoje, mas é que tive um péssimo dia. – ele diz, sorrindo, mas Heather continua séria. – Posso te pagar um café como desculpas, caso queira. Estou devendo a duas dúzias de pessoas já. – ele ri, por fim.
— Senhor Harris, gosto que o nosso contato aqui é só profissional e espero que continue assim. – ela diz antes de levantar-se e sair do escritório, deixando Liam confuso com tal atitude.
Era obvio que a Heather odiava tratar as pessoas assim, mas ela se recusava a ter um “círculo de amizade” no local de trabalho, mesmo que seja seu chefe, ela não queria contato mais íntimo com ninguém, seja lá quem for a pessoa.
Uma amizade levaria a perguntas pessoais, perguntas pessoais levariam Heather ao passado dela, o passado que ela nunca esqueceria, mas não tinha nenhuma vontade de contar a alguém o que aconteceu com sua família e com ela.
Sendo assim, ela preferia continuar sendo vista como antipática e afastar as pessoas do que começar a dar espaço para elas e acabar destruindo o muro que criou em volta de si mesma para poder escapar de todos.
Estava ótimo assim e ninguém mudaria isso.
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