The Crush
3 Capítulo 3
Eu e a moça (que eu havia apelidado de ruiva um) caminhávamos pelos corredores da escola, até entrarmos em uma das portas que eu nunca havia visto, onde havia um elevador que parecia não ter muitos anos de uso. Ela aperta o botão com o número 4 com suas grandes unhas pintadas de um vermelho vivo, penso diretamente que ela é um membro da Audácia e logo depois que vejo suas roupas escuras, justas e rasgadas com tachinhas e uma cicatriz em seu lábio inferior, tenho certeza que ela é, mas mesmo assim pergunto, embaraçada:
-Você é da Audácia?
Ela volta seu rosto para mim e dá um sorriso irônico:
-Não deu pra perceber ainda, encheridinha? –ela responde, ainda com o sorriso estampado. –E você é de onde? Da Erudição? Da Franqueza?
Rio diante da perspectiva dela.
-Errou feio, ruiva um. Sou da Amizade. –respondo. –Quer dizer, até fazer o teste.
-Você vai sair da Amizade? É uma das melhores facções! –ela retruca, se virando completamente para mim.
Dou uma gargalhada.
-Só se você gostar de usar roupas alegres, cantar e sorrir o tempo todo. Essa vida não é pra mim.
Ela ergue uma das sobrancelhas e me diz, rindo:
-Então pra onde a senhorita Amizade vai ir? Vai virar Careta, nunca mais vai mentir ou vai passar o dia estudando?
Eu sorrio novamente e olho para o teto.
-Quero ir para a Audácia.
Ela volta seu corpo para frente e a porta do elevador se abre. Escuto os sons de seus saltos batendo no chão de granito e tento alcançar seus passos, fazendo a sola de meu tênis soltar uns barulhinhos profundamente irritantes. Ela me guia novamente por um corredor (este desconhecido e com muito mais portas), até que paramos em uma porta com um grande “9” dourado e é nessa que entramos. A sala era coberta, inclusive o chão, de espelhos de tamanhos variados. Uma cadeira reclinável de dentista acoplada a um monitor que mostra apenas linhas retas coloridas. Ela me diz para me deitar confortavelmente e esperar até que alguém traga o soro. Enquanto ela tecla, fico de frente a um grande espelho e me observo por alguns instantes. Eu era alguém muito pequena para ter dezesseis anos. Minhas bochechas estavam coradas e minhas unhas, roxas de frio, meus olhos estavam mais brilhantes do que nunca. Finalmente me deito e a ruiva coloca eletrodos em minha cabeça e depois na dela, que ela diz servirem para me monitorar na simulação e saber qual será o meu resultado. Logo depois um rapaz com o cabelo loiro escuro em forma de topete entra com uma pequena caixa.
-Essa aí é a Jillian? –pergunta ele.
-Uh-hum. –murmura a ruiva.
Ele fica de frente para mim, cruza os braços e nossos olhares se cruzam. Ele parece que fica um tanto quanto confuso e depois sorri pra mim, dizendo:
-Eu sou o Norman. Fiquei sabendo que você quer se juntar a nós, Jillian. Seria uma boa notícia, pelo menos. –ele sorri mais uma vez. –Boa sorte, docinho. –ele pisca pra mim e saí.
Viro-me e encaro a expressão da ruiva, que me lança um olhar de aprovação, como se eu tivesse acabado de passar no primeiro teste.
-Parece que o Norman gostou de você, Srta. Amizade. –diz ela, sorrindo. –Pelo menos é uma boa notícia.
Sorrio para mim mesma.
-De que facção ele é? –pergunto.
-Audácia. Ele mexe com os computadores, é muito inteligente e é muito corajoso. Quase foi um dos líderes da Audácia, mas negou dizendo que tinha medo que o poder subisse a cabeça. –ela ri. –Se fosse eu, não pensaria duas vezes, mas não, eu tive que ficar como tatuadora e etc. É um bom trabalho, mas, sabe, é... Sei lá. Ah, e se queira saber, se você for mesmo para a Audácia, vai ver muito o Norman, já que ele é um dos treinadores. Fique feliz, porque, cá entre nós, ele é bem gato, não acha?
Olho para ela e solto uma risada.
-É, ele é gato. –digo.
A ruiva pega o conteúdo da caixinha e o analisa. É um tubinho com um líquido transparente que só de olhar, me dá tonturas.
-O teste vai começar. –diz ela, batendo no vidrinho e entregando-o para mim. –Beba.
-Vai doer? –pergunto.
-Só beba Srta. Amizade. É meio estranho alguém que quer ir para a Audácia perguntando se vai doer. –diz a ruiva. –B-E-B-A L-O-G-O.
Eu pego o vidrinho e tiro a tampa. Eu olho para mim no espelho pela última vez e digo:
-Vamos lá então. –e bebo o líquido.
Pisco os olhos algumas vezes e apago. Quando acordo, estou no refeitório da escola, mas não tem ninguém nas mesas ou de pé. Em uma delas, tem dois cestos: um com uma faca e outro com um queijo. Fico pensativa sobre qual dos dois pegar, mas como isso é uma simulação, provavelmente a faca serviria para alguma coisa. Uma voz feminina aparece logo trás de mim quando pego a faca que diz:
-Boa escolha.
Agora uma porta se abre e a mesa some, mas a faca continua em minhas mãos. Eu a aperto forte e aguardo o que quiser sair daquela porta. Escuto um latido vindo da porta e logo depois, aparece um dogue alemão, preto e branco, me mostrando os dentes.
-Mate-o. –diz a voz.
-Não. –respondo, sem mexer um músculo.
-Mate-o. –repete.
-Não. –digo, soltando a faca no chão e a chutando para longe.
O cachorro se aproxima mais de mim e eu vejo seus olhos brancos, sem nenhuma pupila, apenas a íris e isso me assusta. Ele para em frente a minhas pernas e levanta a cabeça, me encarando. Não olho diretamente para ele, porque eu estaria o desafiando. Apenas respiro fundo e aponto minha mão para frente, que treme. O cachorro encosta o topo de sua cabeça na minha palma e depois, a lambe.
-Pegue a faca e mate-o. –diz a voz.
-Não aceitou ainda que não vou mata-lo? Por Deus. –reclamo, passando a mão na cabeça dele.
-Mate-o! Agora! –ela grita.
-Nããão. N-a-o-til. –digo e ela já percebe que estou teimando.
-Última chance: mate-o. –ela diz, calmamente.
-Última vez: não. –digo, acentuando o não.
-Se é assim que deseja... –e outra porta se abre e uma garotinha vestida de branco sai de lá.
Quando a vejo, sinto seus olhos se voltando para o dogue e grito “não!”, mas ela não me escuta e continua em direção a ele, e o cachorro avança contra ela, a derrubando. Ele morde e arranha o bracinho dela, que já está sangrando. Corro até a faca e a agarro. Caminho até o cachorro, ocupado demais com sua vítima indefesa e o arrasto de cima dela, mas ele é pesado demais para mim, por isso ele pouco se afasta e volta. O indefeso deu, rapidamente, seu lugar para a fera, que pulou para cima de mim, me derrubando, juntamente com minha faca, que rolou pelo chão. O dogue arranha meu pescoço e meu rosto, que ardem. Eu tento alcançar a faca e vejo a garotinha sentada no canto, me olhando, abraçando os joelhos. Sinto pena dela, mas sinto mais de mim mesma. Agarro o cachorro pelo pescoço e o arrasto, junto comigo até a faca. Meu dedo maior a toca, mas não consegue puxá-la. Arrasto-o mais um pouco, até que finalmente a pego. O cachorro ainda tenta me morder, mas sem sucesso. Cravo a faca em uma de suas pernas dianteiras e o chuto, fazendo-o parar do outro lado da sala, sangrando até a morte. Me levanto e pego a garotinha no colo, entrando na mesma porta que ela saiu. E estou novamente na sala de testes. A garotinha desapareceu. A sala não tem mais nenhum espelho ou luz, só uma porta que leva ao corredor. Pisco os olhos e estou em um vagão de trem, com todos os lugares ocupados. Agarro-me a uma das barras de metal para me estabilizar e olho pela janela. Uma chuva grossa cai lá fora e eu fico feliz que minha simulação não é lá. Vejo meu reflexo na janela e minha situação não é boa. Meu lábio está cortado como o da ruiva um, meu pescoço está arranhado, igual ao meu rosto. É só uma simulação, penso, é só uma simulação, não estou realmente machucada, nada disso é real. Um homem com as mãos estranhas está sentado na minha frente, lendo um jornal. Ele murmura um “finalmente!” e me pergunta:
-Você conhece o sujeito? –seu hálito cheira a cigarro, mas de uma maneira mais pútrida. Ele aponta para a manchete no jornal “Assassino brutal foi preso.” Fazia algum tempo que eu não via essas palavras e isso me fez estreitar os olhos para ver se era isso mesmo que estava escrito.
Me lembro da pergunta do homem e balanço a cabeça.
-Nós temos boca para falar, menina. Agora, me responda: conhece o sujeito ou não?
Olho mais uma vez para a manchete. Um sujeito com um rosto comum e com um pouco de barba aparece na foto e eu tenho a leve sensação que o conheço, mas não me parece uma boa ideia contar para o homem tal detalhe.
-Não. Não o conheço. –digo.
-Você está mentindo, não está? Consigo ver em seus olhos. Você o conhece? –ele grita.
-Não. Não o conheço.
-Você está mentindo.
-Eu não minto. Eu sou da Franqueza, não posso mentir, é errado. E além do mais, o que lhe interessa se eu conheço ou não?
-Se o conhecesse poderia me salvar. Poderia me salvar!
-Mas eu não o conheço. –digo tranquila. –Sinto muito.
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