A simulação acaba. Estou de volta á sala de testes, encolhida na cadeira. A ruiva retira cada um dos fios e me encara:

-Bem vinda á Elite, garota. Bem vinda á Audácia. –diz ela, sorrindo.

Aperto sua mão e sorrio ao ver o resultado nas mãos dela: o teste deu Audácia.

-Você pegou a faca: Audácia. Você atacou o cachorro: Audácia. Você brigou com a voz: Audácia. Você mentiu-e mentiu muito bem: Audácia. –diz ela. –O que lhe interessa se eu o conheço ou não? –ela imita minha voz. –Fique aí que eu vou buscar sua ficha.

Eu me olho no espelho e vejo a porta se abrindo. Penso em como a ruiva foi e voltou tão rapidamente, mas então Norman entra.

-Como foi seu teste? –ele pergunta, do meu lado.

-Foi normal. Nada de extraordinário. –digo.

-Você vai ir mesmo para a Audácia? –ele pergunta, se sentando no encosto da cadeira.

Eu sorrio e aceno com a cabeça. Escutamos o som do salto da ruiva e ele diz:

-Ela está vindo. Eu te vejo depois, Jillian. –e sorri para mim. De novo.

Ele passa pela porta e a fecha e eu fico com a lembrança de seus dentes brancos e perfeitos, do jeito que olhava pra mim e de seu sorriso fantástico. Paro de pensar nisso. Foco, foco. A ruiva entra na sala com uma ficha e a preenche enquanto fico olhando para minhas mãos. Eu iria mesmo ir para a Audácia amanhã, na Cerimônia. Eu estava bastante feliz com meu resultado, mas não podia conta-lo para ninguém.

-Agora que eu sou da mesma facção que você, posso saber seu nome? –pergunto.

-Sarah. –ela diz. –Mas há muito tempo não me chamam assim. Na Audácia, eles apenas me chamam de Red. Sabe, temos uma coisa em comum.

-Sério? –pergunto, rindo.

-É. Eu também era da Amizade e a achava uma droga. Quando o dia da Cerimônia chegou, eu escolhi a Audácia. Mas às vezes, eu sinto falta de ficar em casa, só rindo e cantando, em vez de ficar socando a cara das pessoas ou fazendo tatuagens. –ela ri. –Você já pode ir.

Me levanto e Sarah me acompanha até a porta onde Norman nos espera. Ela pisca o olho para mim e eu abaixo a cabeça e encaro meus tênis.

-Quero que a leve até o térreo. Não quero que ela fique com os outros, tenho medo que ela solte a língua e conte sobre seu teste. Peguem a escada, ela tem que começar ralando. –ela ri. –Boa sorte, Jillian e até amanhã.

-Será um prazer levar a Srta. Amizade. –Norman sorri. –Tchau Red.

-Obrigada, Norman, te devo uma.

Escuto alguns gritos vindos de outras salas e rio. Me imagino gritando lá dentro como se fosse uma idiota e Norman do lado de fora, me escutando. Sinto meu rosto queimando e Norman me observa, dizendo:

-O que aconteceu Srta. Amizade? Está nervosa?

-Não é nada. –digo, respirando fundo. –De que facção você é?

-Da Audácia. Eu treino os novos recrutas e cuido do complexo pelos computadores. Se você for para a Audácia, eu vou treinar você, até que seus ossos virem pó. –diz Norman, de uma maneira que eu ainda não havia visto.

O rapaz antes risonho agora parecia mais misterioso do que nunca. Nós já estávamos no térreo quando ele disse:

-Eu te vejo amanhã. Vou vir para ver quem são aqueles que eu tenho que treinar, e vou ver pra que facção você vai, Srta. Amizade. –ele beija minha face. –Até amanhã.

Eu coro. Saio rindo da escola e pego logo o ônibus, pensando em todas as coisas que aconteceram hoje. Por enquanto, tudo era um mar de rosas. Chego em casa e entro correndo, pulando o pequeno portão de PVC e tiro a chave da mochila. Nenhum de meus pais está em casa, então ligo a tv e coloco minhas músicas no último volume e me jogo no chão, afinal, meu último dia tem que ser mais legal que os outros. Então, escuto algo vindo do quintal e me levanto rapidamente. Só dou uma olhada pela janela e me deparo com uma pessoa pulando o muro. Corro para a cozinha e pego a maior faca que minha mãe usa para cortar frango nos domingos de manhã. Me dirijo com os pés descalços e a faca em mãos, para a janela, onde a pessoa se revela ser um rapaz de cabelos loiros claríssimos, brancos, que parece ser maior que eu. Caminho rapidamente e em silêncio, deixando a faca escondida. Aproximo-me mais dele, que agora está de costas para mim, limpando a poeira dos joelhos. Encosto levemente a faca em seu pescoço e é aí que eu reconheço o cabelo de topete para o lado, parecendo uma onda branca e os olhos claros: Mike, um amigo de outra escola.

-Mike? O que diabos está fazendo aqui? –pergunto, tirando a faca de seu pescoço.

-Obrigada pela calorosa recepção. –ele responde, ironicamente. –Vim te visitar antes de irmos para facções diferentes.

Sorrio e o abraço. Convido-o para entrar e ele me conta sobre as peripécias de sua irmã, Erika, e sobre como a mãe o aliena para que continue em sua facção, a Franqueza.

-E você vai ceder? –pergunto.

-Provavelmente... Não. –diz Mike, sorrindo. –Estou entre duas e você?

-Você não fez o teste ainda? –digo, me esquivando da pergunta feita a mim.

-Já fiz sim. –diz.

-Então você já deveria ter uma facção, não é?

-Não necessariamente. Eu fiz o teste, mas o resultado foram duas facções. Disseram... –Mike olhou para todos os lados, como se estivesse sendo vigiado. –Disseram que eu sou Divergente.

Eu acho que ele está brincando, mas sua expressão não me diz outra coisa; realmente é sério. Meus olhos se arregalam de surpresa. Tento falar alguma coisa, mas o que saem são apenas esboços de palavras. Já havia ouvido falar sobre Divergentes e em como eles eram um perigo para a sociedade e para si mesmos, em uma roda de amigos da festa de minha Tia. Eles diziam que a maioria deles morria ao ser descoberto. E Mike estava contando isso para mim. Ele confiava em mim.

-Mike, você sabe como isso é perigoso, não sabe? Não pode ficar espalhando isso aos quatro ventos. –seguro sua mão e sorrio.

-Eu sei bem. Mas eu confio em você, esperava que pudesse me ajudar. –diz Mike, preocupado.

Eu fico sem saber o que fazer. A Divergência não é uma doença, não é uma coisa que pode ser curada, tratada ou retirada. Mas pode ser disfarçada.

-Primeira coisa: quais foram às facções que deram no seu resultado e o que falaram a você? –me levanto e tento parecer o mais confiante possível.

-Abnegação e Franqueza. –respiro aliviada. Pelo menos não é Audácia. –Só falaram que eu deveria ir para casa e que não deveria contar isso pra ninguém. Nunca. Então, vim pra cá, porque sei que posso confiar em você. –diz Mike, sorrindo.

-E qual das facções você vai escolher? –não sorrio. Minha expressão é dura.

-Acho que a Abnegação. –responde.

-Realmente vai ser mais difícil de ser descoberto lá, elas são tão simples e comuns que ninguém nunca desconfia delas. –suspiro lentamente e me jogo no sofá, ao seu lado. –Escolha-a. Mesmo. Vai ser melhor pra você. Só nunca, nunca na sua vida, conte do seu “problema” para alguém, ok? Eles irão te caçar até que consigam sua cabeça como troféu. Pronto. Assunto resolvido. Não foi tão difícil, não é?

Mike sorri (uma coisa que ele sempre faz e que está realmente me irritando nas atuais circunstâncias) e começa a passar seus dedos entre meus cabelos, desembaraçando-os. Eu me sinto bem. Eu estou bem. Ele me puxa para cima e coloca minha cabeça em seu colo e murmuro como é bom ele estar aqui comigo.

-O que aconteceu, Jillian? Algum problema sobre a Cerimônia de Escolha amanhã? –ele pergunta.

-Não, é só que... É muita pressão. Eu devo escolher a minha facção e ficar com minha família ou devo escolher outra e ser feliz, mas então terei traído minha família e... –suspiro. –Acho que vou ficar na minha facção mesmo. –minto. –Vamos nos separar.

-Não importa. Eu venho te visitar. Eu vou estar sempre com você, Jillian. Não interessa onde nem quando. –diz Mike, olhando dentro dos meus olhos, como se pudesse ver através de minha alma.

Fecho meus olhos e logo depois, sinto seus lábios beijando minha testa, o que na Amizade, é um símbolo de proteção e realmente, me sinto protegida do resto do mundo. Consigo ver todos que amo ao meu redor, felizes e sorrindo. O mundo não tem mais facções, nem guerras, nem testes, nem Cerimônias de Escolha. Tobias, Will e Mike estão aqui e corremos para as casas dos vizinhos para roubar suas frutas e rimos á toa. É perfeito e nada mais importa. Era só um sonho.