The Crow & The Butterfly
2 New home
Estávamos na frente da casa nova agora. Uma casa branca, larga e pelas minhas contas uns três andares, com um extenso jardim e vários anõezinhos, que pela expressão de emoção da minha mãe, havia sido um belo presente de Ben. E entre um selinho e outro, o casal feliz ia à frente, vendo os detalhes da decoração do jardim, que logo estaria todo branquinho, admirando o banquinho de madeira branca que haviam posto em um ponto qualquer perto da varanda e a filha depressiva e emburrada pelo sono ia atrás.
Demoraria um pouco para acordar e começar a falar o que estava achando, mas no geral eu havia gostado, o problema era só que meu padrão de vida era uma casa pequena, alugada e com apenas um andar, e agora eu estava na entrada principal, onde enormes pilastras de gesso em estilo romano me intimidavam, enquanto Ben, de modo gentil, me empurrava para frente, para que eu pudesse olhar o resto.
A sala combinava com todo o resto da casa, pomposa, cheia de moveis caros e com cores claras, alternando cores pasteis e monte de flores, nas almofadas, sofás e poltronas. Mais a frente tinha a escada, que após alguns degraus se dividia em duas menores, mas ainda sim, maiores do que eu já havia pensando que pudesse haver em uma casa.
Meu coração palpitava de alegria, é claro que eu estava amando aquele lugar, luxo nunca seria um problema para qualquer ser humano no mundo, mas...estava mesmo certo aproveitar tudo isso e se acostumar a viver bem, da noite para o dia? Não tinha como aquele sentimento de culpa, como se estivéssemos explorando Ben, saísse de mim. Aquilo me incomodava.
– Vai.
Escutei Ben atrás de mim.
– Pode ir baixinha, não precisa ficar encarando com cara de boba. – ele comentou amoroso. – essa casa agora é nossa.
Nossa. Há quanto tempo eu não ouvia isso? – Não estou acostumada. – comentei.
– Então venha, vou te mostrar uma coisa que eu e sua mãe pensamos para você.
Curiosa, segui Ben escada acima. Subimos a da esquerda, que dava para um enorme corredor e varias portas claras, com maçanetas escuras, mas não demorou muito para Ben fazer uma curva, em um corredor estreito e meio escondido, seguindo até a única porta que ficava no final. Nada me vinha na cabeça até o momento em que ele me colocou na frente da porta e pediu para que a abrisse.
A porta era enorme e escura, naquelas madeiras antigas, com entalhes de folhas e galhos, como se fosse uma porta para outro mundo. Aquilo me animou e puxei as duas maçanetas com força para fora. E diante de mim, agora havia a mais bela e perfeita biblioteca.
– Não acredito.
Perdi o fôlego, não respirando por meros segundos, com as duas mãos tampando um grito abafado e infantil de felicidade, por um instante eu havia me esquecido de todos os meus temores e angustias para me tornar uma criança e corri para dentro.
Tinha dois andares, com várias prateleiras, ainda vazias, escadas para ir para o andar de cima, que apenas margeavam o andar debaixo. Tive uma vontade súbita de encher aquele lugar com os mais variados livros, de todos os estilos e formas, conteúdos que me agradassem e conteúdos novos para aprender ainda mais. Minha mãe sabia que meu sonho era ter uma biblioteca, e provavelmente Ben havia gostado disso, e juntos, resolveram que me dariam uma.
No centro, havia uma escrivaninha pequena, provavelmente para estudos ou pesquisas e um sofá e duas poltronas vermelhas, com uma mesinha da mesma altura e um abajur rústico, do jeitinho que eu sempre quis. Corri até lá, me jogando no sofá e abraçando uma das almofadas. Tinha cheirinho de canela e flores do campo.
– É tudo tão maravilhoso. Obrigada Ben. – falei emocionada, largando a almofada e correndo para abraçá-lo. – Muito obrigada.
Pela primeira vez recebi o abraço de Ben com um carinho especial, como o de um pai mesmo, mas ainda era cedo para tentar chamá-lo assim, ele poderia se acostumar, já que era o que ele tanto queria, e eu poderia magoá-lo depois, se esquecesse desse pequeno detalhe.
No meio do abraço, mamãe apareceu, toda emocionada e ainda de modo infantil, o soltei e saltitei até ela, que me recebeu com um enorme abraço. Aquele era um bom momento familiar e eu precisava aproveitar os momentos em que não me sentia miserável com minha própria vida social.
– Desculpe interromper, mas acho que está na hora de você conhecer seu quarto também, não é Aysha? Ou achou que este aqui seria seu quarto? – mamãe comentou brincalhona, me soltando e fazendo cafuné.
– Mas essa é a sua biblioteca, todos seus livros ficarão aqui. Foi uma surpresa que eu e sua mãe pensamos em lhe dar, por bom comportamento e boas notas.
Tirando que eu só conseguia fazer isso mesmo depois de um tempo, já que eu não tinha mais nada para pensar, acho que até foi bom ter sido deixada de lado, eu tinha uma biblioteca agora, e eles não.
Mamãe saiu, falando que ia fazer o jantar, e Ben me levou para uma prateleira que estava cheia de livros e puxou o segundo da prateleira do meio, fazendo a estante toda se mover, como naqueles filmes de suspense com passagens secretas. Fiquei boquiaberta quando vi que a passagem dava para o meu quarto, que graças a Deus era normal, apesar de ser enorme.
Uma cama no meio do quarto, com colchas roxas claras e brancas, criados mudos dos dois lados, um armário creme ocupando uma das paredes, uma porta que provavelmente era o banheiro e uma escrivaninha próxima a minha janela, que depois de fuçar descobri que era uma sacada, com vista para a casa do vizinho.
– Bom, vou deixar você curtir um momento sozinha no seu quarto, espero que tenha gostado baixinha. – Ben disse por fim, calmamente, saindo pela porta.
Sentei na cama e passei a olhar meu quarto. A janela estava aberta, o vento gélido, anunciando o inverno, balançavam as cortinas, enquanto minha melancolia ia voltando aos poucos, e meus olhos iam passando de caixa em caixa, ainda embaladas. Eu estava com uma preguiça de tirar minhas coisas dali.
Me joguei na cama, sentindo a maciez do edredom e puxei um travesseiro, o abraçando. Não sabia ao certo o que era aquilo, um misto de felicidade, curiosidade e tristeza. Era mesmo como deixar sua infância para trás e admitir que agora você deveria crescer, ou no mínimo aprender a viver de outra forma.
Fechei os olhos e resolvi apenas sentir a brisa fresca. Os raios de sol já estavam fracos lá fora e o quarto ia ficando, pouco a pouco, escuro. Eu não estava cansada, tinha dormido a maior parte dos dias durante a viagem, mas ainda sim eu me sentia exausta, com vontade de ficar ali, naquela calmaria e silencio. Eu nunca havia sido uma menina de muita animação ou inquieta, e agora eu poderia ser quem eu quisesse, poderia fazer amigos diferentes, conhecer lugares, sentir coisas novas. Eu poderia fazer tanta coisa que aquela idéia me assustava um pouco.
Abri novamente os olhos e o quarto já estava completamente escuro. Levantei e acendi a luz, fechando a porta da sacada por estar temendo de frio, jogando o travesseiro para o outro lado da cama e indo na direção das caixas, sentando no chão e iniciando meu trabalho.
Eu precisava organizar tudo aquilo.
Algum tempo depois, quando eu estava na ultima caixa, escutei algumas batidas na porta e ouvi mamãe me chamar para o jantar. Pedi um tempo a mais para tomar banho e agradeci mentalmente Ben por ter me dado uma banheira. Depois de pronta para dormir, desci para jantar e os dois começaram a me encher de perguntas sobre o que eu iria fazer primeiro, já que amanhã era meu primeiro dia de férias oficial na nova cidade, que eu deveria conhecer os vizinhos e essas coisas.
Entre uma desculpa ou outra, eu ria, sorria e dizia que ia pensar nas propostas, mas que ainda tinha que terminar de arrumar algumas coisas, o que não deixava de ser mentira, mas também não era um empecilho para eu ver a nova cidade. Vendo que eu estava pouco confortável com a conversa, os dois resolveram deixar pra lá e assim que terminei de comer me retirei, voltando ao meu confinamento particular.
Sentei novamente no chão, tirando uns livros da caixa e separando para colocar mais tarde na biblioteca. No meio de algumas coisas sem importâncias achei um álbum de fotos grande e um ursinho de pelúcia que eu tinha jurado que tinha jogado no lixo. Taquei pela janela o ursinho, irritada, e abri o álbum, já que não me lembrava muito dele.
Me arrependi profundamente de ter aberto. Ali tinham fotos dos meus colegas e eu, todos pequenos, incluindo meu ex-namorado depois de alguns anos. Comecei a lembrar de varias coisas, das brincadeiras no parque, os dias de pescarias com os pais, um dos poucos eventos que meu pai foi comigo antes de sumir. A ultima pagina do álbum só haviam duas fotos, uma acima da outra, éramos nos pequenos na de cima e na debaixo todos nós mais velhos, tentando fazer a mesma pose da foto antiga.
Uma lagrima caiu sobre a foto e todos os meus temores voltaram.
– Droga. – falei baixinho, jogando o álbum para debaixo da cama. – Vocês não vão mais me assombrar, amanhã será um novo dia, e depois outro, e outro e outro! Vocês são passado! – berrei. – me deixem em paz, droga!
A única coisa boa era que eu não havia gritado alto o suficiente para que eles me ouvissem. Levantei e fui até a sacada, jogando meus braços sobre as altas barras de metal, debruçando meu corpo e tirando os pés do chão, balançando eles freneticamente para ver se eu me acalmava, mas nada.
Ainda tomada por impulso, sai do quarto e desci as escadas, abrindo a porta de vidro que separava a pequena e aconchegante salinha de T.V, onde eles estavam.
– Vou dar uma caminhada.
Apenas escutei minha mãe pedindo para que eu tomasse cuidado om o frio e sai da casa, parando alguns passos depois. Para onde eu iria? Olhei em volta e só haviam casas e mais casas luxuosas ou no mínimo fofas no estilo “não quero aparentar ter muito dinheiro.”. Eu simplesmente não conhecia aquele lugar, mas por impulso resolvi sair.
– Olá?
Escutei uma voz feminina próxima.
Olhei para o lado, observando uma menina tão branca quanto eu, de cabelos avermelhados e olhos castanhos curiosos, se envolvendo em seu cardigam azul violeta.
– Sim? – perguntei confusa.
– Eu disse Olá, diga Olá também! – ela comentou animada, estendendo a mão. – Você é a nova vizinha certo?
– S-sim. – respondi incerta, pegando na mão dela. – Sou Aysha.
– Melanie, muito prazer Aysha.
Ela parecia ser muito simpática, o que ajudou a me soltar, mas eu ainda era um pouco difícil de fazer amizade, então ela que manteve o curso da conversa e de modo bem sutil, foi demonstrando ser uma menina amigável e de boa índole.
– Quantos anos você tem?
– Acabei de fazer 17, e você?
– Ah! Então estaremos na mesma classe este ano! – ela comentou animada. – Apesar de que espero isso. São duas classes, não sei se terei essa sorte.
E entre uma cara emburrada e animada, Melanie conquistou minha amizade em apenas duas horas. Estávamos sentadas no jardim, entre minha nova casa e a dela. A brisa fria da cidade passava por nós sem força, levando minhas idéias malucas e pensamentos idiotas para longe, enquanto eu me acostumava gradativamente com a voz fofa e infantil da minha nova amiga.
– Você veio de onde?
– Da capital. Não é muito perto daqui. Dias de viagem de carro.
– Então acho que você irá se surpreender com as coisas daqui. O bairro em que moramos é pequeno e aconchegante, o centro fica logo aqui perto, você irá estranhar um pouco muita gente e grandes concentrações em praças nos dias de eventos, mas acho que se acostuma, afinal é da cidade grande. Alias, quer sair amanhã? Posso te mostrar algumas coisas se quiser.
Eu realmente pensei em recusar, mas ela estava sendo tão hospitaleira comigo, o que no caso era um milagre, que aceitei. Mas já era tarde e o pai dela chamou para dentro, e enquanto se levantava, recomendou o mesmo.
– Acho que vou ficar mais um pouco.
– Não, Aysha, é melhor entrar, as noites aqui são frias, seria terrível que você pegasse um resfriado e estragasse nosso passeio amanhã! – ela comentou animada. – Vê se entra logo e até amanhã!
Enquanto Melanie ia saltitando para dentro de casa, continuei na mesma posição, agora encarando meus All Stars pretos. O que mais deveria ter por essa cidade para explorar durante uma noite estrelada? Levantei e comecei a caminhar para um dos lados, sem destino e em linha reta, para não me perder. Casas e mais casas, algumas até maiores do que a minha, estavam por ali, uma após a outra. Uma padaria fechada do outro lado, alguns pequenos comércios juntinhos mais a frente também. Tudo parecia tão pacato que estranhei. Era mesmo uma cidade do interior.
Como estava sozinha, comecei a traçar uma linha imaginaria no chão, fazendo meus pés acompanharem, como se eu fosse cair se não seguisse a linha e não me mantivesse equilibrada. Senti vontade de sorrir quando pensei que esse era o meu verdadeiro eu, uma menina calma, infantil e cheia de esperanças, mesmo que estivesse com a maioria quebrada.
Um tempo depois de caminhada e eu estava na frente de um bosque, com um portãozinho pequeno e antigo, mas muito bem cuidado. Era tão bonito e calmo, que me atraiu e mesmo que o portãozinho estivesse fechado, era somente simbólico, qualquer um poderia passar por ele facilmente.
Pulei e segui o caminho de pedra, que dava para o meio do bosque, no meio de varias arvores grandes e alguns arbustos muito bem cuidados. Senti um arrepio, como se mais alguém estivesse ali. Apertei o passo, mas berrei quando olhei para o lado e vi uma lapide antiga entre dois arbustos. Aquilo era um cemitério?
Senti um frio na espinha e pensei em voltar, mas o caminho estava muito escuro e a sensação de que se eu voltasse teria alguém ali, ainda era muito grande, assim, mantive a calma e continuei o caminho, evitando olhar para os cantos, mesmo que eu percebesse a presença das lapides, não queria mesmo olhar para aquilo, a morte não me trazia muitas sensações boas.
O caminho continuou por longos minutos do mesmo jeito, era como se eu estivesse dando voltas, mas eu já estava começando a ficar preocupada, pois estava sem meu celular e se eu demorasse para voltar, provavelmente mamãe e Ben ficariam muito preocupados comigo.
Um burburinho começou a me incomodar. Tinham pessoas falando ou cochichando a essa hora em um lugar como este? Pensamentos assombrosos começaram a vir, e eu me abracei, sentido o ar mais gelado a minha volta, Melanie tinha razão quando disse que a noite esfriava e nem um casaco eu tinha trazido.
À medida que eu me aproximava, passos e risadas agora se diferenciavam das palavras mais baixinhas, mas era um tipo de risada e conversa diferente, não parecia animado, parecia que estavam debochando de algo. Cheguei a pensar que poderiam ser espíritos ou coisas assim, mas meu pouco ceticismo instintivo ajudou a dispersar tais pensamentos. Poderiam ser arruaceiros que estavam brincando com os mortos ou algo até pior, eu tinha que investigar, pelo bem da minha própria curiosidade e sanidade.
Fale com o autor