The Crooked Man
9 Capítulo 9 - Sono pendente.
Notas iniciais
Reino Unido — Inglaterra/1842.
Eu tinha voltado para casa com duas sacolas cheias de correntes e troncas. Precisei esfriar a cabeça, então acompanhei Annie até sua casa e depois tomei a liberdade de saborear alguns drinques de cerveja no bar tumultuado. A polícia local não conseguiu fazer a identificação do corpo, disseram que o rosto estava desfigurado e que o resto estava muito podre por se tratar de alguém antigo. Tudo que fiz foi pegar Hugo e fazer algumas compras para me proteger.
O espantalho, pelo menos o que eu pensei ser um, não ficava muito longe de onde eu morava. Se alguém o colocou na estrada para Biggin Hills é porque esteve andando por lá, e sei que ninguém teria coragem o suficiente para isso. Me restou a opção de acreditar que a criatura que vi anteriormente era a responsável, tanto pelo assassinato quanto o deslocamento do cadáver. Não sou burro, preservar minha vida era um fator importante.
Coloquei as trancas na porta principal e acorrentei as janelas para que não fossem abertas. Andei por todo lugar, checando se não haveria algum lugar por onde ele pudesse entrar. Eu estava com um pressentimento ruim e nenhuma medida de segurança que eu tomava me parecia ser o suficiente. Perambulei pela cozinha, sempre sob a vista do olhar felino de meu amigo que se encontrava deitado num canto perto da mesa.
As cores cinzentas e gastas das paredes de madeira não eram muito reconfortantes, tampouco ter que ouvir os múrmuros do vento do lado de fora. Eu já havia subido e descido as escadas mais de quatro vezes, com as mãos para trás e a cabeça baixa, angustiado. Nem as chamas aconchegantes da lareira na pequena sala à direita do corredor me deixaram relaxado. Eu olhava para aqueles papéis com caligrafia estranha espalhados pelo chão e um pouco de dor de cabeça começava a surgir.
O meu relógio de pulso com couro de cor amendoado e um sistema retrô marcavam duas horas da manhã. Eu volte à cozinha e olhei para o gato que dormia. Que inveja eu tinha. Inveja de poder simplesmente me deitar e adormecer. No entanto, um nervosismo sem precedentes tomava conta de mim e nada podia ser feito. Me sentei, ou melhor, me estirei numa das cadeiras e olhei e olhei em volta, atento. Não havia nada com o que me preocupar ali dentro e mesmo assim a temerosidade apertava meu peito. Fechei os olhos e tentei pensar na bela face de Annie, como um porto seguro. Estava dando certo, até que alguns sons me fizeram levantar num sobressalto.
Barulhos na grama do lado de fora me fizeram ficar alerta e ainda mais nervoso. Eram passos, e não pareciam ser sorrateiros. Seja quem fosse do outro lado, não estava preocupado se eu soubesse ou não de sua presença. O som cessou por um instante. Tudo o que eu ouvia naquele momento era o maldito vento que sempre quis se fazer presente nos meus momentos de exaustão.
Blanc!
Estavam esmurrando a porta. As trancas balançavam e a maçaneta entalhada girava nervosamente, como um sinal de desespero. Os empurrões e os golpes não paravam, ficavam mais frequentes e logo a madeira iria ceder. Me precipitei para perto da porta e joguei meu peso contra ela, na tentativa de mante-la no lugar. Tudo estava muito violento e usei toda minha força para que aquilo acabasse logo. Puis minhas mãos na maçaneta, indo na direção contraria, e fixei meu olhar na parede, enquanto eu dava meu limite. Ouvi um miar e percebi que Hugo estava acordado, afinal, não era de se estranhar já que os barulhos de impacto eram alto e muito bem perceptíveis.
Então... parou.
Fiquei mais três ou cinco minutos na porta, para garantir que não era um truque e a pessoa lá fora realmente tenha desistido. Ouvi os sons no gramado novamente, agora estavam mais altos altos. Segui o que eu ouvia com o olhar, até ter dado um giro de 360º com meu corpo. Tinham rodeado a casa, talvez procurando alguma brecha. Após isso, ouço a madeira da casa rangir pelo lado de fora e percebo que a altura em relação ao ranger ia ficando mais alta. Estavam subindo até o telhado, mas como?
Ouço os sons de passo no teto e chego à conclusão que conseguiram. Um agudo "crack" vai até os meus ouvidos e fico desesperado sabendo o que aquilo significava: quebraram a janela do andar de cima e agora, provavelmente, estavam dentro da casa. Procurei, em desespero, as chaves das trancas no meu bolso, mas me lembrei que estavam no meu casaco, que tive a infelicidade de deixar em cima da cama, lá em cima.
Ouvi um rugido abafado acima de mim e paralisei.
Me lembrei da outra noite e tive a certeza naquela hora de que o meu perseguidor era aquela coisa. Isso não fez com que meu medo diminuísse, nem um pouco. Tomei Hugo em mãos e corri em disparada, sem rumo. Cheguei até a sala vazia e escorreguei em um dos vários papéis que tinham por lá espalhados. Larguei o gato e, ainda no ar, tentei me apoiar em algo. A primeira coisa que minhas mãos desesperadas encontraram foi o quadro do lago acima da lareira, este que logo foi para o chão com meus movimentos.
Fiquei de pé e olhei para a parede, onde ficava o objeto. No lugar de parede estava uma passagem escura com a entrada em formato de quadrado e com o fundo não visível. Fiquei olhando aquilo perplexo, até que um outro rugido e o bater da porta de cima me fez voltar à realidade. Peguei meu amigo e o coloquei lá dentro, que foi sem pestanejar. Levantei o quadro, e peguei o isqueiro do bolso da minha calça. Entrei na passagem recoloquei a pintura atrás de mim, para que a coisa não percebesse. Fiz isso em tentativas tão rápidas que bati minha cabeça na parede várias vezes. Acendi minha pequena fonte de luz e engatinhei até onde podia. Digo isso porque caí, em algo parecido com um túnel.
Meu impacto foi numa distância de quatro metros em direção ao chão gelado. Eu levantei atordoado e, ainda com o isqueiro em mãos, vi que me encontrava em uma sala parecida com um porão, isso se se já não fosse o porão. Não era muito grande nem muito pequeno. Tentei andar, todavia, minhas pernas e braços estavam ralados, já que o chão não tinha azulejo nem madeira, apenas pedra. Simplesmente caí e fiquei sentado.
Vi algo se enroscar nos meus pés e me inclinei para acariciar Hugo.
– Acho que conseguimos escapar por hoje, amigão — sussurrei com um vestígio de sorriso no rosto — Não vai ser hoje que vamos ser pegos.
Outro rugido abafado, dessa vez parecia ser frustrado.
Olhei para o teto de modo selvagem e contraindo o rosto. Quanta raiva e medo eu havia acumulado até aquele momento. Tudo o que eu queria era poder por as mãos naquele monstro terrível e fazê-lo engolir algumas e mortais balas de revólver. Arregalei os olhos e abri um sorriso. Revólver... armas, claro. Por que eu não tinha pensado nisso antes? Eu poderia tentar machuca-lo, no mínimo, estar mais bem preparado.
– Dessa vez... — balbuciei, olhando para uma porta que tinha perto de onde eu caí, e não sabia o destino — Não vai ser eu quem será caçado...
Foi tudo o que eu me lembro de ter acontecido, até apagar a ultima quantidade restante de fogo e cair no sono pendente, com um belo gato lambendo meus machucados superficiais.
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