The Crooked Man
8 Capítulo 8 - "Revolucionários."
Notas iniciais
Reino Unido — Inglaterra/1728
Naqueles tempos nada parecia ser tão complicado. Fazia cerca de 300 anos desde que a guerra do reino inglês e do reino francês acabou. Foram praticamente cem anos de sofrimento e fúria, quatro períodos de puro sufoco. Diversos castelos e muitas residências foram destruídas e depois reparadas. Muitos diriam que são marcas de honra e glória, no entanto, há quem diga que foram momentos tenebrosos.
Apesar da vitória francesa, a Inglaterra conseguiu se restabelecer e adquiriu um bom domínio nos mares. Eram frotas explorando por todas as partes, a fim de encontrarem mais territórios para que possuíssem e aumentassem seu império. Foi aí que o inesperado acabou por acontecer. Enquanto a maioria das pessoas duvidavam da existência de quaisquer terras além das que já tinham conhecimento, os ingleses estavam desembarcando em um novo lugar... a tão proclamada América do Norte.
Minérios e recursos foram encontrados para serem extraídos e exportados para a terra da rainha e colonias criadas com a escravidão dos índios. Conservadores não gostaram nada disso, achavam que do país de onde nasceram deveriam tirar os "frutos" e não de um lugar desconhecido e habitado. O velho fazendeiro Hanks era um deles. Sempre discutindo e espalhando por aí mentiras de desacato ao reino.
Não era muito alto, usava sempre roupas adequadas, tinha uma pequena barba grisalha e simétrica que cobria os dois lados do rosto e quase sempre era visto com uma enxada em mãos. Sujeito ignorante e muito rico. Teve a ideia de criar uma revolução para que a exportação entre continentes fosse encerrada e continuasse sendo um dos mais importantes produtor de recursos para o país. Pegou uma mochila de viajante e foi rumo às cidades vizinhas espalhar sua ideologia. Atraiu alguns nomes importante, como: Thomas Foxworth, Edina Noir, Christopher Banks, John Lexus, Stuart Mackenzie, e Isabelle Northwood. Entre vários outros plebeus com ambições próprias.
O grande grupo, loucos para uma confusão, partiram e criaram uma sede perto da pacata cidade de Biggin Hills. Muitas casas de madeira foram construídas e várias plantações foram feitas. Fizeram trilhas com cascalho e ao lado posicionavam paus e amarravam tochas para iluminarem à noite. Em poucos tempos, se tornou um enorme vilarejo, ou uma pequena cidade, não muito maior que a vizinha.
A esposa de Hanks era espirita e dizia ter contato com o demônio.
– Escutem, pois tenho algo a dizer! — gritava para que a multidão em torno da grande fogueira acendida no centro. — Obrigada, agora ouçam: Estamos em número avassalador, mas não podemos competir com os soldados e suas armas. Mal temos certeza se a rainha e os sábios aceitarão nossa proposta.
– Precisam aceitar! — falou alguém entre os primeiros. Era John Lexus, jovem e alto com suas vestimentas pretas e chiques — Não podem simplesmente nos descartarem, nós que sempre tivemos a bondade de vender nossos recursos.
– Ora, será que não entende? — dessa vez foi Christopher Banks quem tomou a palavra. Homem de idade, corpulento e rechonchudo, tinha a pele bronzeada e pouco cabelo lhe restava na cabeça. — Eles querem independência para tomar as decisões por si próprio, assim como os gregos faziam antes da democracia.
Múrmuros foram ouvidos e conversas aleatórias se iniciaram. Só se calaram quando um estrondo rompeu o céu. Primeiramente pensaram que havia sido um trovão, todavia, perceberam que foi a espingarda que o velho Hanks usava que disparou.
– Querem calar a boca e escutarem o que minha mulher tem a dizer, bando de porcos?!
Ninguém ousou contraria-lo. Margareth, sua mulher, sussurrou um agradecimento e voltou sua atenção para as pessoas.
– Pensei durante noite passada e cheguei numa conclusão... — silêncio, todos aguardavam para verem qual seria o plano de ação que os aguardavam. Somente as chamas de fogueira eram ouvidas e parecia que o calor finalmente estava se elevando. — Iremos usar a influência divina para termos melhores resultados.
Pronto, todos caíram em risadas. Gargalhavam e choravam com o pensamento de ironia em mente. Hanks não gostou nada disso, tanto que deu três tiros no meio das pessoas para que a confusão se extinguisse. Seis corpos caíram no chão com a boca escancarada e com os olhos vidrados. Os que estavam à sua volta ficaram sujos de sangue e de olhos arregalados, num medo desproporcional.
– Vão calar a boca agora, sim ou não? Ratos imundos!
Até Margareth ficou um pouco tremida com a atitude repentina do marido. A única pessoa alheia àquilo tudo era Edina Noir, conhecida por ter um coração duro feito pedra e inflexível.
– O que quis dizer com influência divina? Vai usar a bíblia para termos uma conexão com Deus? — Indagou Stuart Mackenzie, um homem negro de cabelo curto e roupa social cinzenta. Ajeitou o óculos que usava por cima do nariz quadrado e olhou de canto para o velho fazendeiro, para checar que nada acontecesse a si próprio.
– Não, não Deus.
– Ora mulher, não pode estar se referindo ao diabo, o que seria de nós?! — rugiu Christopher Banks, levantando os braços.
– Eu tenho os meus próprios métodos, senhor Banks, sei o que faço e quais são as consequências, portanto, posso garantir que nada de mau acontecerá a ninguém enquanto eu estiver lúcida. — ela soava determinada e ao mesmo tempo misteriosa, o que não aumentou nem diminuiu o desconforto das pessoas.
– Como assim lúcida? — questionou Isabelle Northwood. Todos continuavam atentos para preservar o corpo inteiro e porque estavam em estranha curiosidade.
– Quando o processo de comunicação espiritual se inicia, preciso forçar minha mente para que tudo fique sob controle. Se eu desmaiar ou for usada como ligação entre esse mundo e o outro, posso não responder por mim e ficaremos vulneráveis às forças malignas. — Margareth tentou explicar do melhor jeito possível, porém, não conseguiu passar nem um pingo de confiança.
Depois de alguns segundos em silêncio e de muito desconforto da maioria dos "revolucionários", o fazendeiro Hanks decidiu que seria a hora de tomarem uma atitude.
– Muito bem, está decido, começaremos amanhã. Vão para suas casas e façam preces aos seres infernais, para que nos ajudem neste momento decisivo e importante. — falou e deu dois tiros para o alto, como se para dar sinal de que a reunião acabou. Num piscar de olhos, todos começaram a ir para suas casas e apagaram suas lamparinas, somente as tochas nos paus ao lado das trilhas eram plenamente visíveis.
Era engraçado a tamanha ingenuidade daquela gente. Tanta que nem perceberam o olhar abaixo da noite que estava sobre elas. No meio das árvores um vulto negro se movimentava lenta e precisamente, observando e tirando suas próprias conclusões. A fogueira foi apagada, como um favor do destino para ele que se mantinha em segredo.
Estava perto, muito perto.
Um, dois, três passos e... ele entrou no vilarejo. Sem que ninguém visse, sem que ninguém percebesse, sem que nenhuma janela o refletisse.
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