The Crooked Man

4 Capítulo 4 - Lugar morto.


Notas iniciais
O que era pra ter saído ontem saiu hoje. Antes tarde do que nunca...

Reino Unido — Inglaterra/1842

Olhei em volta, precisava de um lugar para me esconder. Debaixo da cama de casal? Não. Atrás da porta? Não. Ao lado da pequena estante? Não. Nem cortina havia para cobrir a janela e a visão tenebrosa que ela proporcionava. O som constante, como passos, estava se aproximando. Comecei a apalpar as paredes, em busca de qualquer coisa. Ele estava subindo a escada. Me desesperei e me coloquei em frente a porta.

Ergui o lampião mais a frente, como se adiantasse alguma coisa. Paralisei por um instante; eu estava nervoso e suando, no entanto, nenhuma gota ousava cair. O som cessou. Que poderia ter acontecido? Não sabia que estava aqui? Até onde eu vi, esta era a única porta que a escada indicava. Então, quando penso que aquela sessão de susto já estava acabando, ouço pequenos barulhos de arranho. Parecia estar atrás da porta, numa distância baixa.

Me virei e fixei a parede. A escritura havia sumido. Dei um pulo para trás, em choque. Jurava que vi algo escrito em vermelho naquela parede, como sumiu assim rápido? Bruxaria? Magia negra?

Sem me lembrar de que poderia haver algo ameaçador do outro lado, me pus de fora daquele quarto maldito e, antes de chegar na escada, caí. Meu pé se enroscou em algo que me levou ao chão. O lampião se apagou e caiu escada abaixo. Ainda caído olhei para trás e vi uma figura preta e pequena ronronar. Um gato. Me levantei de forma lenta e dolorosa, para logo depois raciocinar e ligar os pontos. Era um gato desde o início...

Olhei para o nada e comecei a rir de minha idiotice e desespero. O animal me olhava curioso, com a cabeça pendida para o lado. Me agachei levemente e continue a sorrir.

– Olá amiguinho, de onde você veio?

Ele lambeu a pata e passou por debaixo de minhas pernas. Desceu as escadas, passando por cima do lampião que derrubei ao tropeçar. Eu, naturalmente, o segui. O gato foi até o local de entrada, a cozinha, e se pois em frente um pequeno monte de cacos brancos. Era uma caneca quebrada.

– Então foi isso o que caiu mais cedo, não é? — Me abaixei e fiz carinho em sua cabeça — Você é um bichinho bem bagunceiro então.

Ronronou, como se me entendesse.

– Que acha de morar aqui comigo?

Então passou a se acariciar em minhas pernas.

– Acho que isso é um sim. — sorri para ele — Como vai se chamar? — ponderei uns instantes, com a mão no queixo — Que tal Hugo? Gostou? Ótimo. Era o nome de meu pai, que sempre vestia vestes negras, que o seu belo pelo me faz o favor de lembrar.

Meu novo amigo ronronou acho que pela quinta vez e se deitou perto de onde eu havia deixado minha mala e meu chapéu.

2 Horas depois.

Hugo estava ainda na mesma posição, acho que dormindo. Eu tomei a liberdade de levantar todas as cadeiras e acender o lampião novamente. Estava sentado de frente para a mesa, tragando um charuto enquanto ouvia os fortes trovões e o barulho da chuva forte indo contra as paredes e janelas. O vento murmurava e eu estava num devaneio sobre o andar de cima.

Eu tinha certeza de que não voltaria lá, mas as circunstâncias estavam começando a me obrigar. Onde eu iria dormir? Aquele era o único quarto. Depois de um bom tempo pensando, me pus de pé e subi para o quarto, levando o lampião junto. Não acho que Hugo fosse se importar. Abri a porta sem medo dessa vez, pois já estive ali antes e sabia tudo o que de pior poderia acontecer.

Parando pra pensar, morar lá não era tão ruim, somente a aparência e as mobílias deixavam a desejar. Todavia, aquele quarto era praticamente perfeito. A cama de casal, que eu não havia prestado muita atenção antes devido ao desespero, era linda. A cabeceira muito bem feita e o colchão demonstrava ser confortável.

A instante, de madeira muito bonita e bem cuidada, parecia nunca ter sido usada. Coloquei o lampião em cima dela e dei uma olhada pela janela. Chuva, raios, trovões. A quantia de água no lago parecia continuar padrão. O mato balançava e as árvores pareciam querer sair e começarem a voar. Menos a árvore torta. Ela continuava perfeitamente intacta e sem querer se mover. Firme como rocha.

Olhando mais atentamente pelas pequenas rachaduras, observei que em um dos campos de cereais, havia um velho espantalho. Não tão velho, já que nem me lembro dele da minha juventude. Quando aqui ainda era a rota principal que ligava a cidade à zona rural, havia muitos trabalhadores por todo o canto, não era necessário a presença de espantalhos. Mas agora que, por algum motivo, isso mudou, alguém quis preservar o trigo e parece ter esquecido de voltar.

Percebendo naquele instante, eu não sabia o porquê de terem interditado esta rota e abandonado por completo as residências ao redor. Apesar da casa ser medonha e assustadora mesmo por fora, não vejo um motivo justificável para que tantas pessoas ficassem com tanto medo a ponto de irem embora. Não há lugar melhor para encontrar minérios se não aqui. Pelo menos era isso que minha mãe dizia. Ela era uma mulher chique e muito bem cuidada, porém, sabia sobre mineração e recursos melhor que ninguém. Foi graças a ela que consegui conhecimento o suficiente para trabalhar na fazenda.

Eu precisava começar a tomar decisões e por um rumo na minha vida. Arranjar um novo emprego, arrumar a casa, conhecer pessoas. E, principalmente, esquecer ela. A vida iria ter que desistir uma hora ou outra de tirar tudo o que tenho. Qual o objetivo disso? Se divertir com a desgraça dos outros é ruim, mas parece que Deus está indo contra os próprios princípios. Que ele tenha piedade com minha alma.

No dia seguinte eu daria uma passada na cidade. Tem coisas que quero comprar e dúvidas a tirar. Talvez, eu também vá visitar o espantalho, com o Hugo de preferência. É bom saber que você não é a única alma viva em um lugar morto.

Notas finais
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