The Color of the Hero
2 Parte II
Notas iniciais
Eles haviam decidido tirar o dia para o descanso de tudo aquilo.
Tomar sorvete numa sorveteria perto da praia no dia 16 de agosto... Parecia algo meio surreal, mas que todos concordaram. Dali, seriam os convidados especiais de um show de Momo, que ocorreria no maior parque da cidade durante um festival de verão.
Se sentando em pequenas mesas brancas colocadas fora da loja para aproveitar a vista para o mar, todos pareciam se divertir.
– Acho que vou pegar mais sorvetes... — Haruka sorria como nunca, e comia como sempre.
– Haha, acho que vou também... Mais desse de calda de framboesa. — Ayano sorria.
– Podem ir, acho que já está bom para mim. — Takane sorriu também.
– E você, Shintaro? — Ayano perguntou.- Quer que eu traga algo?
– Ah, tudo bem... Pode trazer outro desse para mim?
– Hm, com morangos, certo? Tudo bem. — Ela disse. — Vamos?
Haruka levantou com ela e seguiram até o balcão um pouco distante.
– Então, o que vai ser daqui pra frente vocês dois depois daquilo? Vai se confessar? — Takane foi direta.
Um arrepio passou pela espinha de Shintaro.
– O que Ayano te contou? — Ele fez sua melhor tentativa de cara ameaçadora.
Um sorriso sombrio se alargou na menina.
– Então houve mesmo algo...
– Sua...- Shintaro não conseguiu pensar num nome bom o suficiente.
– Shintaro.
O tom de voz sério da menina o surpreendeu. A menina mexia concentrada em sua taça de sorvete de abacaxi.
– Sim?
– Você sabe por que eu me enviei justo para você quando aquilo tudo aconteceu?
Novamente, o garoto foi pêgo totalmente de surpresa.
– Hã, eu não...
– Foi por causa da Ayano.
– Hã?
Takane suspirou, aparentando cansaço.
– Naquele dia, eu tinha conversado sobre garotos com a Ayano. Nós também falamos de você. Naquele dia, quando eu perguntei, ela tinha me dito que ela não era adequada para você. Que você precisava de alguém mais egoísta que você, que te obrigasse a reagir. — Ela disse rapidamente. Então hesitou por um instante. — Quando tudo parecia desmoronar para mim, eu... Não sei, eu lembrei do que ela me disse. Então eu pensei que, bem, eu poderia realizar pelo menos esse desejo dela. — Ela ainda mexia no resto do sorvete, que a essa hora parecia mais com um milkshake. — Mas... Nós dois sabemos que não foi bem isso que aconteceu.
– Eu te recomendo ouvir bem o que eu vou te dizer agora, Takane, por que você nunca me verá repetindo isso de novo. — Shintaro disse firme, atraindo o olhar surpreso da garota pela primeira vez. — Você foi... O mais perto de um amigo que eu tive, nesses últimos dois anos... Você era meu contato com algo real. Me irritando, mexendo nas minhas coisa, ferrando com a minha vida, me humilhando, me fazendo te odiar...
– HEY!
–...Mas você estava lá. E eu te agradeço por isso. Eu... sei que não foi fácil pra você também.
Takane mexeu novamente no sorvete, mal-humorada.
– Você é realmente péssimo com elogios, mestre. — Então ela soltou um suspiro, sorrindo. — Sério que você não suspeitou de nada, mesmo eu te chamando assim? Você é mesmo burro.
– Ei...
– ...Mas eu entendo o que quer dizer. Mas isso não muda o fato. Só isso não foi capaz de te fazer se recuperar. Não de verdade. Mesmo que você tivesse se esquecido dela, de certo modo, a ausênsia dela o fez se isolar de tudo. Ela nem percebe... Ela é quem faz você fazer todas essas coisas... Pelo simples fato de ela... Existir nesse mundo.
– Sim. — Shintaro sorriu por um instante, brincando com a taça vazia. — Ela é assim.
– Por isso, eu acho que você tem que falar com ela logo. Ou alguém pode roubá-la de você. Isso seria divertido. — Takane riu.
– Você é um saco.
– Mas estou falando sério. — E quando disse isso, parecia mesmo estar. — Eu... Meio que aprendi... Que nunca se sabe quando vai ser tarde demais. Mesmo agora... Eu quero fazer o que eu puder fazer agora mesmo. No momento de agora. — Ela pareceu decidida. Shintaro ficou surpreso.
– Takane, você e o...?
– Takanee! — Haruka gritou do balcão com os braços cheios de taças de diferentes sorvetes e vários picolés.- Tem certeza que você não quer um? Tem aquele que você gosta de pistache!
– Mudei de idéia! Estou indo! — A garota se levantou sorrindo para o garoto.
Antes de ir, deu uma última piscada para o garoto no casaco vermelho.
– Espero que tenha aproveitado minha presença constante nos últimos dois anos! Daqui para frente, você está por conta própria! — Ela sorriu, antes de sair correndo.
O garoto riu sozinho.
– Aquela... — ele balançou a cabeça.
– Com quem você está falando? — Ayano perguntou enquanto colocava uma taça cheia em frente a Shintaro.
O garoto se assustou. Não tinha visto essa chegar.
– Ah... Com ninguém.
Ayano inclinou um pouco a cabeça antes de olhar na direção que o garoto se virou.
Então sorriu.
– Eles realmente ficam bem juntos, né?
Takane parecia meio contrariada com a quantidade de sorvetes que Haruka segurava, enquanto ele quase deixava cair alguns, ele, por sua vez, sorria pacífico como sempre, fora do tom nervoso da menina, colocando os sorvetes na mesa mais próxima. Enquanto ela se agitava, ele inclinou um pouco a cabeça a analisando. Então, quando ela parou para encará-lo, sorriu e colocou um picolé azul em sua boca, deixando a menina extremamente vermelha, e finalmente ficando quieta pela vergonha, enquanto o garoto sorria, alegre por deixá-la mais "feliz".
– Sim. — Shintaro sorriu ao responder.
*
O Show de Momo era a apresentação do final da tarde, logo antes dos fogos de artíficios.
O parque era um dos lugares mais interessantes da cidade. Havia um grande campo aberto com uma grande concha acústica onde o show aconteceria, mas era apenas uma pequena parte do parte. O parque também contava com uma pequena reserva com muitas árvores, uma área de lazer com pista de skate e um espaço com lojas pequenas, vendendo desde lanches a souveniers.
Muita gente andava pelo parque de um lado para o outro, incluindo adolescentes, adultos e muitas famílias.
Shintaro estava meio que feliz pelo poder de ocultamento de Kido, por que ficaria meio desesperado com aquela quantidade de gente notando a estrela do show caminhando por ali, ao seu lado.
Ainda faltava algum tempo para o show.
Momo se despediu e disse que tinha que se encontrar com um produtor para conversar e começar a se arrumar para o recital.
– Ei, o que vamos fazer enquanto isso? — Hibiya perguntou. Como o festival ainda não começara, as barracas ainda não estavam prontas.
– O que vocês querem fazer? Ainda temos algumas horas... — Kido foi quem perguntou.
– Hmmmm... Que tal um jogo, líder? — Kano jogou um braço sobre Kido e ria de um jeito malicioso enquanto perguntava.
– Um jogo? — Ayano foi quem perguntou.
– Um jogo com todos, isso parece divertido... — Foi Mary quem falou.
– Mas que tipo de jogo você fala? — Takane perguntou.
– Hmmm... Que tal pique-esconde?
– Hey, Kano, não é meio claro que a Kido vai ganhar? — Seto foi quem o cortou.
– E isso não é um pouco infantil? — Hibiya disse.
– Olha quem fala... Você é tipo um mascote.
– Hey! Temos a mesma idade, sabia?
– Meninas amadurecem mais rápido — Hiyori cruzara os braços e desviara o olhar superior, deixando Hibiya um tanto contrariado.
– Vamos, crianças, não briguem... — Era Ayano quem falava.
– Não se ela procurar... — Kano sorriu.
– Hey, não vá decidindo as coisas assim, seu... — Antes que Kido terminasse o que tinha para dizer, ao cruzar seu olhar diretamente com o de Kano, ela ficou vermelha e se calou.
– Huh?
– ...
– Acho que isso foi uma confirmação da líder!- Kano comandou.
– Hoe, Kano...! — A líder foi ignorada.
– Está tudo bem para todos, pique esconde então?
Houve alguns murmúrios contrariados, mas no fim, todos concordaram.
A ideia parecia tão boa a Shintaro como qualquer outra. Ele se esconderia em algum lugar mais fresco e silencioso, de preferência com bom sinal wi-fi, e não sairia de lá até o começo do show.
– Então está resolvido! — Ayano foi quem disse.
Kido começara a contagem até 100. Cada um parecia ter um canto do parque em mente, e sumiram com agilidade.
Shintaro foi para a pequena reserva e encarou bem seu desafio.
Qual foi a última vez que subira numa árvore?
Não, essa era a pergunta errada.
Alguma vez subira numa árvore?
Seu corpo sedentário talvez não fosse o mais adequado para a tarefa, mas tinha uma boa vista do alto, dificilmente alguém o encontraria, e mais importante: As chances de conseguir um sinal de Wi-Fi eram mais garantidas.
Suspirou, e, com muita dificuldade, alguns arranhões pelo corpo e muito cansaço, havia conseguido chegar ao primeiro galho. Pelo menos, dali a mais acima foi mais fácil.
Nessa hora, uma garota de cabelos castanhos passou por baixo da árvore.
– Onde? Onde? Onde? — Ele suspirou. Quem mais poderia ter deixado para pensar onde se esconderia só agora?
– Ei, Ayano!
A garota pulou assustada, então olhou para cima.
Sua boca caiu.
– Você? Como você chegou aí?
– Como terá sido?
– MAS VOCÊ?
– Mais baixo, a Kido está acabou de terminar a contagem. Está vindo para cá.
– Ah, meu deus! Onde? — Ela parecia um pouco desesperada.
– Vem cá. — Ele ofereceu uma mão.
– Tem certeza?
– Você tem uma média de 24 segundos para decidir.
A menina aceitou a mão.
Já sentada no galho, viu Kido correndo por debaixo deles, sem percebê-los.
– Exatos 24 segundos... — A menina murmurou.
Contraditoriamente, viram Kano correr atrás de Kido, mas não se prenderam nisso.
Shintaro conteve o sorrisinho superior.
– Afinal, por que aqui?- Ela se virou para ele.
– Sinal de Wi-fi. — respondeu, mostrando o celular.
Ela balançou a cabeça, como se finalmente entendesse.
– Você é você, afinal.
– Não faria sentido ser outra pessoa.
Eles ficaram lá pelo que pareceu algum tempo. Shintaro se encostou no tronco da árvore, e Ayano calmamente balançava os pés com cuidado, cantarolando e sentindo o vento passar pelo seu rosto.
Depois de um momento de silêncio:
– Ei... — Os dois disseram.
– Isso já está ficando muito estranho. — Ayano riu.
– Ah, diga... — Shintaro pediu.
– Não, você... Ah. — Ayano voltou a olhar para baixo. — Me desculpe.
– Hã?
– ...Por não dizer isso antes, mas... Obrigada.
– Do que está falando?
– Obrigada por ter ido me buscar. Por ter acreditado nisso. Já que, para me encontrar naquele lugar, o valor necessário era... — Ela suspirou. Então o encarou- Morrer no dia 15 de agosto. Quer dizer, eu sei que não foi apenas por mim, mas -
– Ayano! — Shintaro a interrompeu. A garota se virou para ele, surpresa. — Me desculpe. — Ele abaixou a cabeça.
– Hã?
– Me desculpe por tudo. Me desculpe pelo que aconteceu antes de você ir embora. Me desculpe por ser um babaca. Me desculpe por não ter te perguntado o que havia acontecido, me desculpe por ter te deixado carregar isso tudo sozinha. Me desculpe por aquela época...
– Shintaro...
– Eu...!
– Me desculpe. — O garoto levantou a cabeça para ver a garota que chorava.- Me desculpe por ter te deixado aqui sem falar nada. Me desculpe se eu te deixei sozinho, ou te fiz se sentir mal. Eu só estava tentando... — A menina olhava de uma mão erguida a outra, freneticamente, enquanto lutava com as lágrimas.
– Pare de tentar. — O garoto segurou ambas as mãos.
– Hã? — A garota o encarou.
– Pare de tentar lutar sozinha. Pare de tentar fazer o melhor para todos e de não se importar com você mesma. Você não consegue ver, Ayano? Todos se preocupam com você. Takane não perdeu só o corpo e o amor da vida dela, ela perdeu a melhor amiga também. Seus irmãos não perderam uma simples irmã mais velha, perderam uma segunda mãe. Eu... Eu perdi...
– Me desculpe...
– Pare de se desculpar! — Ele falou mais alto, então pareceu mal. — Desculpe... Só... Pare. Você... Você se sacrificou por todos nós. Você... É nossa heroína.
Ayano pareceu estática enquanto Shintaro abaixava a cabeça.
Então, levou as duas mãos ao peito de Shintaro e segurou com firmeza pelo casaco.
– Está ridiculamente quente, então por que está de jaqueta?
– ? — Ele se virou para ela surpreso, para ver seu rosto baixo coberto de lágrimas.
– Por que essa jaqueta? Por que a jaqueta que eu disse que combinava com você quando fomos fazer compras depois de estudar aquela tarde?
– Por que você achou que ela combinava comigo? — Quando olhou para ela, a frase escapou de sua boca.
– Por que vermelho é a cor do herói. Em todas as histórias, o vermelho é o herói. E eu achei que combinava com você. E eu estava meio que certa, por que você foi o meu herói. Você é. — Ela disse enquanto sorria, enquanto chorava.
Shintaro apanhou algo de cabeça baixa. Então pôs o cachecol vermelho na garota.
– Você esqueceu isso na minha casa ontem. — Ele disse ainda de cabeça baixa enquanto a garota parecia surpresa. Então ele levantou a cabeça e sorriu enquanto a olhava. — Tem razão. Vermelho é a cor do herói.
A menina arregalou os olhos para o garoto, antes de sorrir.
Foi basicamente sem pensar, quase por instinto ao vê-lo sorrindo daquele jeito.
Ao vê-la com aquela expressão doce com olhos marejados.
Os dois se inclinaram ao mesmo tempo, não devagar, nem rápido demais. Shintaro pôs suas mãos por cima das de Ayano, que puxaram o cachecol um pouco sobre a cabeça dos dois, como se estivessem escondidos durante o beijo doce.
Quando se separaram devagar olhando um para o outro, de repente se tornaram muito vermelhos enquanto entendiam o que acabara de acontecer.
Nesse momento, ouviram o assobio.
– Oh la la, parece que vocês dois estão bem aí... — Kano disse, saindo de trás de uma árvore abaixo deles.
– Eu disse que seria hoje, eu ganhei — Takane sorriu, aparecendo de uma mais próxima.
– Eu realmente achei que meu irmão seria mais lerdo que isso — Momo parecia em dúvida.
Todos os membros da Mekakushi Dan pareciam estar ali, e iam aparecendo aos poucos.
– V-você n-não devia estar se preparando para o show?- Shintaro gritou/gaguejou.
Momo riu.
– Eu já estou pronta, o jogo já acabou há tempos, eu pedi para a líder me buscar e viemos buscar vocês. Só que ninguém achava vocês dois, então demos um tempo a vocês.
– Tempo muito bem aproveitado, devo dizer. — Kano riu. — Como era a música? Shintaro e Ayano, debaixo de uma árvore, se beijan-
– Idiota, eles estão em cima. — Hibiya observou, desviando olhar, com a face vermelha.
Ayano, o pimentão em pessoa, se apoiou rapidamente no galho atrás dela, o que acabou por não ser uma boa idéia, considerando o musgo.
– Kyaaaah — Disse enquanto caía.
– Ayano! — Shintaro gritou enquanto segurava sua mão, deslizando junto.
– AYANO! SHINTARO!- A Dan inteira correu enquanto ouvia o barulho dos dois corpos caindo ao chão.
– Onii-chan, você está bem? — Momo perguntou.
– Nee-chan?
Os dois haviam caído sentados, a expressão dos dois era de dor. Shintaro logo se virou para a garota.
– Ayano, você está bem?
– Eu... ai... Estou. — Ayano esfregava a lateral da coxa.
As crianças foram se acalmando aos poucos ao ver que apesar de com pedaços da floresta nos cabelos e roupas, e bem doloridos, os dois estavam bem.
Então uma risada geral se espalhou.
– Fala sério, vocês dois... — Kano gargalhava ruidosamente.
– Vocês querem me matar- Takane parecia aliviada.
– Sério, dá pra namorar com mais calma, sabe? — Momo advertiu.
– Hey, não é assim...! — Ayano se defendia, vermelha.
– Com vocês como amigos, fica difícil... — Shintaro murmurava.
– Hey! — Ayano se virava para ele, enquanto todos riam ainda mais.
Em resposta, Shintaro apenas sorriu para ela, e Ayano reparou nos dedos entrelaçados dos dois, enquanto ouvia os risos das pessoas que ela mais amava.
Então ela entendeu que estava tudo bem.
Ouvir os risos de todos assim, estava bem. Ver aquele garoto sorrindo assim para ela, estava bem.
Estava tudo bem em ouvir a voz de Momo cantando, e curando um pouco os corações de todos, de tudo que eles tinham passado.
Em ver, apesar de estarem estranhos o dia inteiro, Kano provocando Kido, que o socara, e então, enquanto ele reclamava, apoiara a cabeça em seu ombro na hora dos fogos.
Em ver Hibiya, Momo, Hiyori brincando com os fogos, e Seto ajudando Mary a cuidar do pássaro que havia decidido que o cabelo da Medusa era um bom ninho para sua família.
Em rir enquanto Takane acertara todas os alvos da barraca de tiros, e dava, muito vermelha, o dinossauro de pelúcia gigante a Haruka, que a abraçara com força, provocando uma hiperventilação e quase desmaio a garota.
Em sentar com Shintaro vendo tudo isso, e apoiar a cabeça em seu ombro, e que esse era só o primeiro dia do resto da vida deles, que tinha tudo para ser longa e feliz.
Sim, estava tudo bem.
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