The Color of The Rose
1 Capítulo Único
Notas iniciais
– Shizu-chan, quero experimentar um jogo novo. – sussurrou aquela voz diabólica e pecaminosa languidamente em meu ouvido, acentuada pela lâmina gélida sendo pressionada à minha garganta.
Em seguida, a amaldiçoada língua do informante traçou uma tentadora linha da base do meu pescoço até minha orelha, mordiscando o lóbulo para depois enterrar os dentes na pele com força, embora eu não tenha sentido nada além de uma vaga fisgada de dor e um arrepio que percorreu meu corpo todo até se focar em um determinado lugar.
– O que pensa que está fazendo, seu maldito? – meu tom não saiu como pretendia, mais apreensivo do que alarmado ou irritado.
Senti a breve risada dele no meu pescoço, local cuja pele geralmente intocada então se ocupava de lamber e chupar, deixando uma trilha de saliva.
– Não acha que nossa brincadeira de sempre está começando a ficar meio maçante? – a voz do moreno se arrastava em um tom sedutor que vibrava por meus órgãos e despertava um calor perigosamente enlouquecedor na parte mais baixa de meu abdome.
– Que brincadeira, pulga? Para com essa história de jogos doentios e vai arranjar outro hobby... – foi minha melhor tentativa de rebater a pergunta, mas acabou soando como uma péssima desculpa para não responder diretamente — o que não deixava de ser verdade, visto que não sou um bom mentiroso.
– Exato. – a afirmação não poderia trazer nada de bom, vindo do informante; o que foi comprovado com a risada maliciosa que a seguiu – Estou testando um novo hobby, Shizu-chan. – e com isso, senti um aperto leve no volume entre minhas calças que me fez inclinar a cabeça imediatamente para verificar se aquilo estava mesmo acontecendo.
– Izaya... perdeu de vez a cabeça? – embora estivesse acusando o outro disso, me sentia como se fosse eu quem estivesse prestes a perder a cabeça com aquela mão quente então esfregando provocantemente o tecido esticado das minhas calças e aquele hálito quente em meu ouvido.
– Achava que era você quem queria ter a honra de fazer isso comigo. – senti na pele sua boca se abrir em um sorriso nada inocente – Agora só vou concedê-la de um jeito diferente. Claro, se não me desapontar.
Ao fim da provocação, me despedi de toda razão e sanidade que ainda conseguia manter perto daquele inseto e ataquei seu pescoço com selvageria digna do apelido desprezível que Izaya me dera. Mas não me importava naquela hora; só ansiava por mais contato, mais fricção, mais calor.
Foi naquela noite desprovida de estrelas, em uma fábrica abandonada nos arredores de Ikebukuro, que transformamos ódio em desejo, banhado por uma mistura indescritível de dor e prazer; por várias horas em que nossos corpos se corromperam de um pecado bem diferente da ira.
Até hoje, não faço ideia do que vi naquela pulga.
Disseram-me um dia que o tempo faz milagres. Ou foi cirurgia? Sei lá. Também não me importo. O cara que me disse isso também não deveria se importar, já que provavelmente ainda está no hospital.
De qualquer forma, ainda me pergunto, enquanto encaro a inédita cratera na parede da minha cozinha, como eu vim parar nessa situação. Mas não vale a pena a dor de cabeça, então me conformo em fechar os olhos e tragar mais do calmante entre meus dedos.
Isso vale tanto para o cigarro na minha mão esquerda quanto para as mechas escuras entre meus dedos da mão direita. Se bem que se eu fosse fazer alguma comparação, estaria mais para “vício”, já que os cigarros não me fazem ter vontade de quebrá-los ao meio. Bom, não voluntariamente, pelo menos.
Não é sempre, entretanto, que essa praga deitada com a cabeça no meu colo me faz perder a linha. Agora, por exemplo, é um desses momentos nos quais por um breve instante tenho uma ínfima pista para minha grande pergunta, para a qual posso apenas sentir a resposta — sim, sentir, porque tentar chegar a uma conclusão concreta eu já desisti há tempos. Mas reconheço que não sou a pessoa mais brilhante, e não me adianta nada esses microssegundos ou sei lá como se chama um segundo muito pequeno.
É nessas horas, enquanto observo como as mechas negras de um cabelo de veludo escorrem pelo meio dos meus dedos a cada carícia ao compasso do ronronar do corpo estirado no sofá ao meu lado, que prezo o silêncio absoluto do ambiente. Sem nenhuma palavra complicada para atrapalhar, só o calor de Izaya sob minha mão e sobre minha coxa, respirando silenciosamente em um ritmo lento, indicação de que a maior encrenca da minha vida está atualmente no sétimo ou décimo sono, para meu deleite.
Olhando assim, nem parece que é a mesma pessoa que corre de mim pelas ruas de Ikebukuro desde o ensino médio, arremessando aquelas malditas facas que ninguém sabe de onde vêm. Se bem que tenho 99% de certeza que assim que o filho da mãe acordar vai me provocar com alguma palavra complicada de novo e rir da minha cara.
Mas de novo, me pergunto: quando foi que comecei a acreditar naquele 1%?
Talvez tudo tenha começado um dia, quando, após mais uma de nossas noites irracionais juntos, Izaya, recuperando a respiração, olhou janela afora, onde a lua regava a silhueta dos arranha-céus de Ikebukuro em meio à jovem madrugada...
– Ei, Shizu-chan. – virou a cabeça, me olhando com um tom de sorriso que nunca vira antes – Acha que deuses alguma vez na vida se sentem solitários?
Estava prestes a juntar as sobrancelhas e responder alguma coisa estúpida, mas qualquer que tenha sido a intenção foi perdida ao ligar o tom melancólico — seria arrependimento aquele sentimento subentendido no seu timbre? — à aparência abatida daqueles tons escarlates em meio ao mar castanho-escuro.
– Todos se sentem sozinhos alguma vez na vida, eu acho. – tragava um cigarro, do qual naquele momento puxei uma longa inalada e soltei a fumaça resultante acima de minha cabeça – Principalmente os deuses, se ficam sozinhos lá em cima.
O silêncio se fez desconcertante enquanto Izaya parecia analisar o que havia acabado de lhe fornecer. Depois de alguns minutos, deu uma leve risada e fechou os olhos, abraçando forte seu travesseiro.
– Shizu-chan responde algumas coisas interessantes, hm~? – me fitou com um olhar de canto de olho; aquelas orbes de cor exótica parcialmente nubladas pelas pálpebras pesadas do moreno.
Em vez de responder alguma coisa que provavelmente encorajaria seu lado irritante, apenas ri pelo nariz e apaguei meu cigarro, virando para o outro lado para dormir.
Trazendo-me de volta do meu devaneio, sinto o corpo perto de mim se remexer e baixo o olhar castanho-amarelado para dar de cara com aquelas íris com a cor do pecado.
– Que milagre, Shizu-chan ainda não me jogou pela janela! – Izaya cantarola, abrindo um sorriso típico de zombaria, mas que não contém sequer metade da malícia desde que começamos a namorar — ou o que quer que isso seja.
– Você é mais suportável de boca fechada, pulga. – nem minhas ameaças têm a mesma intensidade mais, acho que o tempo realmente faz milagres.
– Mas Shizu-chan, como vou poder te beijar de boca fechada? – o moreno sorri provocativamente, se espreguiçando como um felino.
– Verdade, é a única coisa pra que serve essa boca dos infernos. – resmungo, reajustando minha posição rígida no sofá devido à posição imóvel de algumas horas.
– Ambos sabemos que tenho várias... utilidades para essa boca... – aponta para a referida parte do corpo, traçando os próprios lábios com a língua.
Não me orgulho do ruído que produzo em seguida, uma mistura de irritação com desejo, quando prendo o pulso suspenso da praga com uma mão e o puxo até mim pela outra mão na parte de trás de sua cabeça. Depois de tantas vezes, nossos lábios já se encaixam quase que imediatamente após se chocarem. Nenhum de nós tem força suficiente, nem eu com esta força ridícula, para se afastar do magnetismo da nossa atração. Talvez tenha sido exatamente por perceber isso que tenhamos concordado em firmar esta relação.
Quando nossos pulmões começam a protestar por ar, nos separamos; a única trilha sonora sendo as respirações ofegantes se sobrepondo uma à outra. Em algum momento do beijo escaldante, Izaya pusera seus braços ao redor do meu pescoço, enquanto minha mão que mantinha seu pulso refém deslizara até sua cintura, inconscientemente puxando-o para mais perto de mim.
– Shizu-chan realmente não consegue se controlar perto de mim, né? – agora seu sorriso se espalha carregado de luxúria, todos os desejos ocultos do informante implícitos em seu tom de voz, ao passo que venho os desvendando mais profundamente – Eu devo ser um pedaço de mau caminho!
Não posso evitar rir da exclamação.
– Você não é só um pedaço, pulga, – sorrio, um olhar provocante devolvido ao moreno – é o caminho todo!
O informante também ri, não daquele estoque de risadas falsas que leva consigo em reuniões de negócios ou encontros com suas cobaias, mas sim um riso que aprendi a reconhecer como genuína diversão nos últimos meses. Um riso de alívio, de liberdade, de sinceridade — algo que confesso nunca ter esperado poder vir de um cretino como Izaya.
Sim, o mau caminho completo.
E eu estou completamente perdido nele.
Desde quando, porém, só posso supor. Talvez naquela noite em que arrebentei a linha entre a luxúria e o afeto.
– Agora eu te peguei, pulga maldita!
Usei a mão que mantinha firmemente fechada em punho ao redor de um pedaço da gola da camisa daquele verme para prensá-lo contra a parede imunda do cais onde fomos parar em meio a mais uma das nossas típicas perseguições, que desde certa noite sempre acabavam em sexo.
– Que gentileza, Shizu-chan! – a risada de Izaya ecoou pelos deques vazios sobre o mar que se agitava calmamente, alheio à situação acima da madeira e alguns metros adentro da porção de terra.
– Por que diabos eu usaria gentileza com um verme? – estreitei meus olhos à figura debochada à minha frente, inconscientemente aplicando mais força no punho que o mantinha prensado à parede.
– Nossa, Shizu-chan... – Izaya estalou a língua como se me repreendendo, o que lhe rendeu um olhar ainda mais fulminante vindo da minha parte – Você trata todas as suas parceiras assim ou eu sou especial?
Minha expressão, conhecendo o moreno, deveria estar um misto de ardente irritação e leve embaraço, pela risada ensurdecedora que chacoalhou seus ombros depois de alguns segundos de uma troca de olhares com diversas intenções e emoções.
Mesmo que minimamente, entretanto, eu começara a sacar os joguinhos do informante e, em vez de rebater com um dos infinitos insultos que pareciam se materializar em minha mente sempre que pensava no maldito, acabei por deixar um sorriso sutilmente atiçado esticar meus lábios rachados pela respiração ofegante.
– Perdão, Izaya-kun, não sabia que você era tão delicado a ponto de precisar ser tratado com gentileza. Permita-me consertar essa terrível falha.
Se não estivesse tão — vergonhosamente — instigado pela provocação do informante, provavelmente teria rido da breve expressão de puro espanto que ele exprimira antes de assumir uma posição apreensiva. Contudo, Izaya não tentaria escapar, fosse por orgulho ou curiosidade, e eu tinha plena consciência disso ao soltar sua camisa de gola V preta e lançar meus lábios à pele alva de seu pescoço.
Como protesto, senti o corpo refém estremecer e enrijecer, pronto para pelo menos tentar me rejeitar. Porém, essa resistência foi logo perdida quando atribuí uma função para cada mão minha e passei a distribuir carícias por seu corpo esguio lentamente, me demorando e deliciando com cada porção de pele que deslizava maciamente pela palma de minhas mãos.
De início, me limitei a tocar seu abdome por debaixo da camisa, o contato entre a pele gélida do informante e minhas mãos enlouquecendo minhas terminações nervosas sob a pele, enquanto beijava e roçava os lábios pela linha de sua mandíbula e pescoço, satisfeito ao ouvir o suspiro fragmentado e a respiração crescentemente irregular do inseto que insistia em me provocar e tentar me manipular.
– Shizu-chan, já chega... – a voz se arrastava como um gemido, indicando exatamente o contrário, o que me chamou a atenção e me fez afastar minha boca de seu pescoço para fitá-lo. E foi aí que congelei.
Aquelas orbes escuras, escarlates de luxúria e de perigo iminente, estavam reduzidas a estreitas faixas, nubladas por espessos cílios negros como as mechas que caíam soltas e sedutoramente dispostas pelo rosto corado do homem à minha frente. Como eu pudera reduzir aquele desgraçado arrogante a um poço de prazer e desejo com tão pouco tempo e esforço era um mistério pelo qual me amaldiçoava por não ter descoberto e utilizado antes.
Antes que pudesse falar qualquer coisa ininteligível ou redundante, porém, meu corpo respondeu por meu cérebro e em um instante monocromático — não precisava de nenhuma cor além da escuridão daquelas pupilas dilatadas perante a mim — tudo pareceu estático ao nosso redor no trajeto de meus lábios até os de Izaya.
O primeiro contato foi um choque. Um choque de opiniões internas, um choque de princípios, um choque entre nosso acordo sem necessidade de discussão de que um beijo era algo muito íntimo e o calor de dois pares de lábios derretendo-se e fundindo-se um ao outro arrancando qualquer objeção que pudesse restar em qualquer uma de nossas mentes.
Mais por instinto fui também o primeiro a recuar, mesmo que vagarosamente, e revelar minhas íris cor de âmbar que nem tinha notado esconder detrás de minhas pálpebras.
– ...Talvez você ainda tenha salvação, apesar de tudo... – Izaya murmurou, apresentando-me um sorriso malicioso e talvez provocativo, mas com o rubor ainda vivo em suas bochechas e a luxúria ainda ardendo na brasa oculta de seus olhos, pouco efeito teve senão me fazer travar nossos lábios mais uma vez, mais desesperada e intensamente do que antes.
Dessa vez, deslizei uma mão até a lombar de Izaya e puxei-o mais para perto, ao que fui correspondido por duas mãos agarrando meu colarinho e puxando-me para si. Trocamos saliva e carícias bruscas pelo que pareceram horas, e depois seguimos nossos próprios caminhos de volta às vidas proporcionalmente normais que vivíamos.
Com esse marco na nossa relação caótica, descobri ser o beijo o melhor e mais eficiente meio de calar o informante quando me sentia prestes a perder a paciência com ele – algo que tenho certeza que a praga gostava de presenciar e exatamente por isso abusava de meus limites. O moreno parecia sempre relutante de início, fosse irritado por ter sido interrompido ou alguma outra razão para a qual eu sinceramente não poderia ligar menos, mas depois de alguns movimentos rítmicos e lentos de nossos lábios, cedia ao calor úmido de uma mistura de nicotina e café.
Com cada desencontro de lábios, nossas respirações ofegam mais intensamente. Quando Izaya parece prestes a desmaiar por carência de ar, tomo a oportunidade para atacar seu pescoço com a língua, arrancando um lânguido gemido da garganta sob meus lábios.
Em apenas alguns movimentos habilidosamente fluidos, o informante desliza para meu colo, uma coxa de cada lado do meu quadril. Já inscrito em meu cérebro como reflexo, minhas mãos deslizam para sua cintura, deslizando vagarosamente até os estreitos quadris que só eu sei o que são capazes de aguentar.
Mal consigo distinguir o puxão insistente em minha camisa em meio aos devaneios de minhas mãos pela pele nua debaixo da camisa daquela pulga malditamente sedutora, enquanto meu rosto se encontra enterrado no pescoço esguio, região que parece exalar mais forte aquele cheiro único — antes insuportável — do informante. Quando detecto o gesto, entretanto, reconheço sua urgência e entrego-lhe a minha, removendo minha camisa cinza em um piscar de olhos para deixar o moreno ocupado enquanto livro a pele tentadoramente pálida do tronco de seus confins.
Com ambas as camisas aleatoriamente rendidas ao chão, volto a rechear os sentidos de Izaya pelo roçar de dentes na pele de seu pescoço e clavícula. Não demoro muito em meio a gemidos e ofegos a sentir os dedos finos e gélidos que até então se ocupavam em queimar a pele fervente de meu próprio tórax com o contraste de temperatura descer até o zíper de minhas calças jeans. Identifico um gemido de antecipação ecoando do fundo de minha garganta antes de ordenar minhas mãos a fazer o mesmo no informante e descobrir que elas já estavam fazendo-o.
Prestes a livrar o baixo abdome de Izaya de sua prisão, sinto duas mãos sobre as minhas e afasto meu rosto para fitá-lo com um misto de impaciência e confusão em meus olhos nublados pelo prazer.
– Vamos acabar... fazendo uma bagunça...aqui... – a respiração irregular torna suas frases curtas e corridas, o que, de alguma forma, me excita mais ainda, mas entendo o recado e não demoro a levantá-lo pelas coxas deliciosamente esculpidas e nos dirigir a passos desesperados ao quarto.
Deito Izaya na cama e prontamente me posiciono entre suas pernas depois de remover a peça (atualmente) indesejada de roupa e jogá-la descompromissadamente por cima do ombro. Ouço uma risada divertida do homem abaixo de mim quando nem me incomodo em olhar para trás para avaliar a área de aterrissagem para as calças, o que, pela risada do informante, não pode ter sido muito apropriada. Mas não há espaço para pensar nisso quando tenho um moreno irrecusavelmente sexy voluntariamente se entregando a mim preso debaixo de meu corpo.
Aparentemente, minha remoção das calças da pulga tinha convenientemente incluído suas roupas de baixo, facilitando o acesso quando os calcanhares de Izaya se entrelaçam atrás de meus quadris quase que simultaneamente a suas mãos em minhas mechas tingidas, me trazendo para si em um beijo urgente e desesperado. Em questão de segundos, me livro do resto de minhas próprias roupas e tateio meu criado-mudo em busca do material para a sessão mais eficiente de descarga de stress desde que paramos de tentar nos matar (marco que fico incerto de afirmar, visto que acredito que velhos hábitos nunca desaparecem).
É meio complicado me concentrar em gentilmente deslizar meus dedos lubrificados para dentro do informante com tanto o calor envolvente de sua boca ao redor de minha língua quanto meu membro dolorosamente pulsante roubando minha atenção. Felizmente, não demora muito até que o moreno interrompa a fusão de nossos lábios para ofegar pesadamente em meio a baixos gemidos que preveem a perda de sua sanidade em breve.
E a minha, também, através de suas próximas palavras.
– Shizu...-chan...chega...dentro...logo...
Talvez seja pelo fato de que eu conquiste a proeza de fazer o famoso informante de Shinjuku, conhecido por manipular tão bem as palavras a ponto de convencer uma garota de 15 anos a se matar, perder completamente a coerência delas até que só consiga formular ordens compostas por uma só palavra; ou talvez pelo fato de que, neste momento, eu seja o absoluto foco da atenção mental e corporal de Izaya; mas quando dou por mim novamente, me encontro impiedosamente estocando a entrada do desgraçado mais enlouquecedor (em todos os sentidos) da face da Terra.
Embora o calor constrito e úmido ao redor de minha ereção seja o alvo primário de meu sistema nervoso periférico, tenho suficiente sanidade para notar um pequeno gesto em meio a gemidos descuidadamente altos e gaguejos impudicos revezados de meu apelido e primeiro nome.
Izaya abraça minha cabeça contra seu peito como se sua vida dependesse disso. Como se quisesse me manter para sempre perto de si, e como se eu não soubesse que ao menos uma ínfima porção desse pensamento era realmente verdade, contrariamente ao que normalmente afirmava o informante, atualmente gemendo e gritando debaixo de mim.
A praga sempre fora sinônimo de confusão e minha intuição nunca falhara em relação a isso, mas, embora haja muito mais por baixo das camadas de falsidade e arrogância estabelecidas teimosamente pelo informante, ele é mais fácil de “ler” do que pensa.
Claro, esse fato é imensamente aumentado perto de mim e bem mais óbvio para alguém que o conhece há muitos anos. Acho que a razão pela qual se demora a perceber isso é que as pessoas superestimam Izaya no sentido de que ele é um filho da puta sem coração e calculista — o que não nego que ele seja. Mas, acima de tudo e contrário às afirmações e convicções do próprio verme, Izaya é só humano. Tem emoções, mesmo que reprimidas e profissionalmente escondidas, comete erros e é frágil como qualquer pessoa neste planeta. Mesmo assim, o maldito parece não entender.
De qualquer forma, embora um manual pudesse e muito vir a calhar, me acostumei a lidar com ele de modo que transformo minha raiva borbulhante em retaliação verbal. Certamente, no começo não tinha muito sucesso e acabava cavando a própria cova, mas logo peguei o jeito e até tive êxito em irritá-lo, o que fez com que revelasse um fragmento do que julgo ser sua verdadeira personalidade.
Outra coisa que julguei inesperada em meio às minhas descobertas sobre Izaya foi seu desejo reprimido por calor humano.
Sempre imaginei que fosse sensível ao frio, visto que usa aquele maldito casaco o tempo todo, mas nunca imaginei que Izaya fosse especialmente carente de calor humano. Não só pela temperatura em si, mas talvez o conforto que o coração de outra pessoa bombeando sangue quente estivesse também lhe envolvendo.
Remeto essa descoberta em particular a uma determinada noite a um tempo atrás.
Depois de ter nossos corpos violentados com os espasmos do orgasmo, desabamos na cama encharcada de suor. O ritmo errático de nossas respirações era prova do erro que insistíamos em cometer para comprometer nossa relação de ódio e indiferença; um jogo que ficava cada vez mais perigoso a cada minuto a mais que passávamos lado a lado após o sexo e a cada degrau de afeto que nossas carícias avançavam.
Habituara-me a desfrutar dos momentos de silêncio após acabarmos nossas ‘atividades’ até que o informante abrisse a boca para verbalizar algum insulto ou provocação que provavelmente incitaria uma raiva incontrolável em mim, o sinal de que era hora de ir embora. Ultimamente, porém, esses momentos vinham durando cada vez mais, chegando até uma hora de silêncio rompido apenas pela respiração de nós dois.
E, dessa vez, depois de um tempo incontável que passei com os olhos fechados, esperando o corpo esfriar para tomar um banho e dar o fora do apartamento da pulga, o moreno resolveu finalmente dar o sinal ao abrir a boca para falar.
Entretanto, o que saiu da boca dele, longe de me deixar irritado, me deixou pasmo.
– Shizu-chan me abandona logo depois de me tomar para si. – Izaya suspirou, virando o rosto para o outro lado de modo que não consegui olhar estupefato para ele – Faz eu me sentir tão promíscuo!
Embora seu tom fosse de brincadeira e provocação, algo em sua postura lhe entregava. E, por algum motivo, senti o peito apertar ao perceber algumas implicações que o simples fato de ter sequer um grão de verdade naquela frase trazia. A primeira, e mais urgente, era que Izaya queria prolongar minha companhia. A segunda, e menos precisa, era que o informante tinha sutilmente aberto uma brecha em seu orgulho para fazer uma tentativa lastimável de pedir mais uns instantes de calor. A terceira já era algo totalmente abstrato, e que somente iria ter a chance de comprovar mais tarde.
Me peguei sorrindo de leve, não conseguindo decidir se me irritava ou se me encantava com a falta de honestidade do moreno. Pensando bem, Izaya não tinha ninguém com quem ser verdadeiramente honesto por livre e espontânea vontade (ou confiança); então era até compreensível que tivesse dificuldade em se comunicar com o coração.
Ao invés de responder algo que provavelmente arruinaria o momento, lacei um braço por trás dos ombros do informante e outro ao redor de sua cintura, rolando-o para mim. Senti seu corpo todo se contrair em tensão, como se preparasse para um possível ataque e uma possível defesa. Embora um sentimento de vaga mágoa tivesse atravessado minha mente, logo se dissipou ao notar Izaya se acomodando em meu peito.
Em poucos minutos, o perigoso informante de Shinjuku se encontrava adormecido no peito desnudo do seu suposto pior inimigo. Era uma vista surreal; aquela praga que sempre parecia deslizar por entre meus dedos sempre que a pegava respirava silenciosamente em cima de mim, peito inchando e murchando com cada ciclo de ar.
Quando dei por mim, estava com uma mão naquele cabelo escuro como a noite. Surpreso com a inesperada maciez da textura, passei a estabelecer um ritmo com meus dedos acariciando aqueles fios finos. Logo o processo tornou-se tão automático que pude me concentrar no absurdo da situação.
Izaya Orihara estava dormindo no meu peito, totalmente desprotegido e despido, tendo alguns minutos antes me pedido para ficar. Se aquilo não era progresso, era milagre. A guarda do informante nunca tinha estado tão baixa, e logo com seu arqui-inimigo!
Foi nesse período de devaneio e aflição que minhas teorias sobre um lado do informante que não conhecia se solidificaram. E pouco a pouco, derrubaria todas aquelas máscaras para achar o verdadeiro Izaya, uma pessoa talvez mais parecida comigo do que sequer pudesse imaginar.
– Shizu-chan, mexa-se, preciso ir. Nem todas as pessoas têm o luxo de ficar vadiando em casa. – a voz do informante vibra na caixa torácica abaixo de minha bochecha, comprometendo o calmante compasso das batidas de seu coração em meu ouvido.
– É meia noite, Izaya. Você não vai a lugar algum. – o sono pode ter turvado minha consciência, mas esse tipo de coisa tinha começado a soar comum aos meus ouvidos.
– Daqui a pouco Shizu-chan vai me botar em uma coleira. – sinto o peito debaixo de mim chacoalhar em uma risada breve e fraca, e não posso negar que considero a ideia; algo que Izaya parece imediatamente captar: – Nem pense nisso, Shizu-chan. Não sei que tipo de fetiches você tem, mas eu não sou alguém que se deixa capturar, sabe?
Não preciso olhar para saber que o maldito está sorrindo debochadamente, muito provavelmente me desafiando a tentar agradá-lo.
– Ah, é mesmo? – levanto o rosto para sorrir preguiçosamente de canto para o informante, travando os tons de nossas íris em um olhar polissêmico – É verdade, é difícil apanhar uma pulga... – traço uma lambida vagarosamente da clavícula à mandíbula do moreno sobre a pele alva ocasionalmente marcada por tons roxos e vermelhos de possessividade – ...mas às vezes ela pode pular no lugar errado... – me delicio no gemido reprimido que derrama dos lábios finos quando meus dentes beliscam a pele sensível do pescoço dele – ...e acabam sendo pegas...
– Mas elas podem...hn...se safar a...ah...qualquer momento... – passei a achar divertido como a capacidade cognitiva de Izaya lentamente se esvai à medida que se entrega às sensações, evidente nos doces sons de rendição entrecortando suas frases.
– Hmmm...será mesmo? – sussurro no ouvido de meu amante, denominação que nunca na vida nem em reencarnações consideraria atribuir ao verme.
Sei que Izaya não sabe lidar com demonstrações de puro afeto e por isso se sente desconfortável ao deparar-se com tais, embora se delicie com elas. É para provar meu argumento, sabendo desse pequeno detalhe, que lentamente deslizo uma mão que se encontrava até então enrolada ao redor da esbelta cintura pela pele de veludo até o rosto do informante, acariciando uma bochecha com o polegar. Sorrio ternamente quando as sobrancelhas delicadas daquele homem diabólico se juntam em aparente desconforto, se opondo ao movimento de seu próprio pescoço para pressionar seu rosto contra minha mão sutilmente, pálpebras fluidamente escondendo aquele mistério escarlate em meio à escuridão dos olhos castanhos.
Nunca fui muito bom com metáforas, mas se tivesse que comparar aqueles olhos a algo, provavelmente seria a uma flor. Qual, não sei bem, mas provavelmente uma bem misteriosa, magnífica e mortal. Infelizmente, não sou desses de saber o suposto significado de cada flor.
Porém, sei que para conseguir enxergar a verdadeira essência dessa flor, teria que passar por camadas e camadas de espinhos e falsas pétalas, ao que o núcleo dela valeria todo o esforço que todos desistiram em investir para desbravar aquele enigma, labirinto de verdade e ilusão defensiva.
Fazia semanas desde que Izaya desaparecera do meu campo de visão.
Foi na época em que comecei a apreciar mais os momentos passados ao lado da pulga ao invés dos passados dentro dela. Tentei manter a discrição, mas, de novo, nunca fora meu forte. E o informante não era exatamente uma pessoa lenta.
– Shizuo, está tudo bem? – há quanto tempo Tom-san me chamava, já não tinha mais certeza.
– Ah, desculpa. Tá tudo certo, só estou com um pressentimento... – esperava que meu chefe não me perguntasse mais nada, o que parece que compreendeu, visto que simplesmente assentiu com a cabeça e continuou caminhando até chegarmos na residência do nosso próximo cliente. Lá, parou e virou-se para mim:
– Sempre que quiser desabafar, ou quiser conversar sobre alguma coisa, pode me procurar, Shizuo-kun. – pousou uma mão em meu ombro e me fitou com uma expressão serena e acolhedora. Alguém como Tom é tão mais gentil e decente que alguém como Izaya, mas a paz que sentia com ele não era a mesma que sentia com o verme, e isso me trazia uma sensação de que logo passaria dos limites do lado seguro daquele relacionamento (no sentido figurativo, claro, porque com o informante nunca existia um lado “seguro”).
– Obrigado, Tom-san. – optei por sorrir sutilmente, me sentindo mal por deixar minha vida pessoal interferir no trabalho que meu atual chefe tivera a gentileza de me oferecer.
Seguimos então o dia normalmente, sem trocar muitas palavras entre nós. Segundo ele, minha aura tornava as atividades do dia mais fáceis. Não sabia se deveria ficar ofendido ou agradecido, mas quando acabei sendo dispensado pelo dia mais cedo do que o normal, assumi a segunda opção.
Entretanto, desde o meio da tarde, aquele cheiro maldito de certa pulga passara a invadir minhas narinas de modo que era impossível ignorar. Por pura decência, esperei até que meu turno acabasse para ir ao encontro do verme. Surpreendentemente, não foi difícil encontrar a praga, visto que a intensidade do cheiro aumentava uniformemente, o que indicava que se encontrava parado. O que esperava, porém, estava longe de ser o que encontrei.
Com certeza, Izaya estava parado. Mas não por opção, como imaginei que estaria, enchendo a cabeça de alguém de porcarias ou navegando na internet. Até porque um beco úmido e escuro era um lugar bem estranho para fazer qualquer uma dessas opções.
Encontrava-se minimamente consciente quando me aproximei, encarando a figura sentada no chão imundo recostada à parede de um prédio com sentimentos indefinidos.
– Lugar engraçado para descansar, pulga. – o mero fato de não ter partido para cima do moreno à primeira vista provava que algo não estava certo, mas o que estava definitivamente errado era a inércia do homem que tinha capacidades físicas malditamente aguçadas o suficiente para escapar de mim em nossas não mais tão frequentes perseguições.
– Shizu-chan...? – sua voz me deixou inquieto; estava baixa, rouca e fraca além dos limites de seu caráter – Não consegue... ficar longe de mim... né? – poderia ter rosnado alguma resposta à provocação e calado a boca do moreno naquele momento, se não fosse pelo movimento discreto das mãos finas unindo os dois lados do característico casaco escuro sobre seu peito, um gesto que chamou minha atenção por seu silencioso desespero.
– O que aconteceu, pulga? – involuntariamente me aproximei, o que fez com que as sobrancelhas finas do informante se juntassem em uma carranca.
– Fique... longe de mim... – percebia então, mais de perto, que sua respiração estava pesada.
– Essa fala é mi—
Estanquei completamente quando senti outro cheiro mesclar-se ao de Izaya: sangue. Um cheiro que se encaixava ao seu gosto: metálico, agonizante, inquietante. Tirei os óculos escuros, que haviam se tornado inúteis desde que o sol se pusera uma hora atrás, e me agachei perante o informante.
E não era pouco. A coloração escura de suas roupas disfarçava os tons escarlate, abrigadas pelo véu da noite sem estrelas de Ikebukuro, mas de perto percebia-se as manchas úmidas em suas calças e mangas.
Desprezando as ameaças e súplicas do informante, agarrei ambos lados do zíper do casaco e os separei com lamentável violência para revelar uma imagem que nunca esqueceria.
– Merda, Izaya, o que aconteceu? – entrava em um frenesi ao analisar a extensão dos ferimentos atrás da camisa negra retalhada por pequenos cortes que misturavam-se a hematomas de tons alarmantes, ocasionalmente causando um gemido ou sibilo reprimido do moreno.
– Shizu-chan... está com uma expressão... interessante... repulsivo... – as fisgadas repentinas da cabeça do informante, anunciando que sua sanidade lutava contra a escuridão, me apressaram a levantá-lo do chão gélido.
Fiz uma tentativa de mantê-lo em pé sozinho passando seu braço por cima de meus ombros, sem muito sucesso. Por fim, acabei puxando as pernas dele para segurá-lo no colo, enfrentando certa resistência.
– O que... está fazendo... Shizu-chan? – Izaya murmurou, tentando soar intimidante e falhando miseravelmente.
– Te levando pro Shinra. – respondi, começando um ritmo de passos largos até o apartamento de tal médico.
– Não, Shizu-chan... – sua voz era fraca, mas decidida – Nós nos odiamos. Você me quer morto e... o sentimento é recíproco... – ofegava levemente, eu conseguia notar que ele lutava para conseguir formular palavras coerentes com o que sentia – Não tente... ser humano... seu monstro...
– Izaya? – chamei, ignorando o insulto, mas não obtive mais resposta nem resistência – Merda!
Meu pressentimento devia se referir àquele momento. A partir do momento em que eu escolhi seguir o caminho de ajudar — e talvez até salvar — meu suposto inimigo, negava tudo o que sempre tinha afirmado até então: “eu odeio Orihara Izaya”. O sentimento de repulsa ainda estava lá toda vez que o informante exibia aquele sorrisinho arrogante, como se soubesse de tudo neste mundo. Mas outra emoção surgiu para combater o ódio, por mais que me recusasse a aceitar. Teria sido bom ter ignorado-o para que esse tipo de sentimento nunca tivesse desabrochado, já que era indesejado por ambas partes.
Mas a vida não segue um roteiro.
Chuva.
Chovia muito há semanas. Olhando janela afora em meu apartamento, só conseguia ver o borrão das luzes ofuscantes de Ikebukuro somadas ao som incessante da tempestade aparentemente infinita.
Naquelas três semanas de chuva depois de chegar encharcado de sangue com meu inimigo pálido em meus braços na porta do médico clandestino, pensara muito na relação que tinha com Izaya antes e depois de nossa primeira noite juntos. Definitivamente não queria mais ver o infeliz morto, embora achasse que ele merecesse. O que mudara, entretanto, me deixava ultimamente irritado comigo mesmo: passara a gostar de um lado dele que não conhecia antes.
Shinra dissera, após analisar Izaya fisicamente e ajeitá-lo nos inúmeros aparelhos do quarto de hóspedes do médico, que os ferimentos eram graves, mas tratáveis, o que me deixou de certo modo aliviado. Eu deixara então o informante nas mãos de meu autoproclamado amigo de infância e voltara para casa, mas no próximo dia fora checar sua situação e o encontrara ainda desacordado.
No dia seguinte, Shinra me ligara para avisar que tinha recuperado a consciência, mas não fiz menção de aparecer por lá novamente.
Se Izaya estava fugindo por ter percebido a mudança em mim, deixaria por isso. Sabia que nunca poderíamos ter qualquer relação senão aquela de ódio e repulsa um pelo outro, e pretendia voltar a ela assim que tivesse a oportunidade.
Essa era minha resolução. Mas, como sempre, aquela praga estragou meus planos.
Fui trazido de volta da minha reflexão contemplando a chuva por várias batidas firmes na porta, e só então percebi de quem se tratava do outro lado dela pelo cheiro.
– O que raios você está fazendo aqui, pulga? Quer morrer? – tentei soar o mais frio possível, mas a arte de enganar nunca fora minha especialidade. Na verdade, era especificamente a especialidade do homem que se encontrava à minha frente, visivelmente irritado.
– Pelo jeito não é você quem vai fazer isso acontecer, né, Shizu-chan?!
Tão logo abrira a porta, já via a mesma sendo fechada atrás de um moreno apressadamente me empurrando apartamento adentro.
– Quem te deu permissão para invadir meu apartamento?! – rosnei, já fechando a cara em uma expressão que esperava transmitir a mesma intensidade de ódio de antigamente.
– O inimigo que você resolveu salvar há três semanas! – não lembrava desde quando o canivete estava prontamente apontado em minha direção a poucos centímetros da minha jugular, mas notei-o quando Izaya fez questão de ressaltar a ameaça com uma estocada dele para frente, o que desviei com facilidade.
– Ah, então você lembra? Que bom, porque só eu tenho o direito de te matar, desgraçado! – era uma péssima desculpa, mas a única na qual o informante teria a ínfima chance de cair.
– Não me vem com essa! – aparentemente, as chances eram mesmo muito pequenas – Ninguém que quer matar uma pessoa vai checar sua situação depois de tê-la salvado-- o que já é estranho o suficiente por si só! – sua voz estava incomumente alta e irritada, e as investidas com o canivete, imprecisas.
– Qual é o seu problema?! Eu faço o sacrifício de te ajudar pra não morrer em um canto na rua e você vem aqui como se tivesse sido eu a te deixar naquele estado! – também aumentei o tom – Chega, é agora que te mato!
Que diga-se de passagem: meu apartamento não é dos maiores. Então, quando começamos nossa luta rotineira, além de virá-lo do avesso, nossos movimentos eram limitados. Felizmente, fosse por familiaridade minha com o ambiente ou falta de prática por parte da pulga, acabei por prensá-lo à parede pelo pescoço.
– Vai, me bate. Me mata, como diz que quer fazer. Se conseguir. – o sorriso perturbador estava de volta, uma mistura de provocação e sarcasmo com um desespero extremamente fora de caráter.
– O que você tem, pulga? – mantive o aperto em seu pescoço firme, mas não doloroso.
– Não tente dar uma de pacifista agora, Shizu-chan. Você nunca vai ser humano, pare de se iludir com isso. – estreitou os olhos castanhos decorados com tons rubros e me desafiou descaradamente.
– Pacifista?! Eu sempre falei que detesto violência, seu desgraçado! A culpa é toda sua que eu use ela cada vez que te vejo!
– Exato! – senti que cavei a própria cova pela maneira como as íris castanho-avermelhadas se fizeram expostas em plena visão novamente, brilhando com um turbilhão de sentimentos que identificara em mim mesmo pouco tempo atrás – Então por que não estou morto ainda?!
– Porque eu não quero que você morra, seu merda!
Quando me dei conta do que tinha revelado, mandei minhas resoluções ao inferno e soltei a mão que estrangulava Izaya para segurar seu rosto e selar nossos lábios em uma tentativa de transmitir meus sentimentos de forma que o desgraçado aceitasse ao invés de fugir.
Não consegui ir muito longe, já que senti uma pontada de dor no peito e me dei conta de que o canivete estava enterrado em minha clavícula, alerta claro para me afastar — o que nem precisei fazer, já que o próprio informante me empurrara no processo.
– O que você pensa que está fazendo?! Eu sempre soube que era idiota, mas agora também é louco?! – esfregou as costas das mãos nos lábios, me encarando com uma expressão de raiva que nunca tinha visto antes.
– Cala a boca! – rugi de volta, cobrindo o espaço entre nós até que estivéssemos cara-a-cara novamente – Para de fugir, Izaya! Me encara direito!
De tão perto, nossos olhares não tinham nenhum obstáculo para não se cruzar. Não só tinha uma visão direta daquelas íris de cores tão misteriosas e perigosas como a intensidade de nossos sentimentos se refletiam em nossos olhos e entravam em um conflito silencioso, deixando o cômodo com uma pesada tensão pairando no ar.
– Izaya, eu sei que você percebeu até antes de mim, mas não disse nada. Aí você sumiu, apareceu todo ferrado e agora me ataca na minha casa. – estreitei os olhos em desafio – Eu não sou idiota o suficiente pra achar que isso tá certo, mesmo sendo você.
– O que você acha que sabe sobre mim, Shizu-chan? – o informante sibilou, com todo o veneno que conseguia rechear sua fala para afastar as pessoas que chegavam muito perto de quebrar suas máscaras — outra coisa que percebera em meio à nossa convivência peculiar.
– Do que está com medo, Izaya? – ignorei completamente sua investida anterior e amenizei o olhar, tentando aliviar sutilmente a pressão sobre o moreno.
– Medo? – me olhou com falsa incredulidade – Não é medo, Shizu-chan. Isso tudo não soa nem um pouco absurdo para você?! Nós nos odiamos, Shizu-chan! Desde que nos conhecemos, esqueceu?!
– As pessoas mudam, Izaya. – nunca pensara que diria aquilo para a pessoa que justamente achava que nunca seria nada além de um filho da puta – Vai me dizer que me vê do mesmo jeito que alguns meses atrás?
– Sim! Você é o mesmo protozoário idiota que estraga tudo sempre, e eu ainda te odeio!
Até poderia ter acreditado nas palavras de Izaya, mas seu tom alterado e expressão tão estranha a suas feições eram mais do que o suficiente para me revelar a verdade. Alguns longos segundos passados, pareceu-me que nem o próprio informante levou suas palavras a sério quando suspirou e levou uma mão ao rosto para suavemente massagear suas têmporas.
– Shizu-chan, realmente acha que vamos algum dia mudar nossa relação? – voltou a me fitar com uma expressão séria e quase melancólica – Vamos ser sempre assim. Eu te irrito, você me persegue, brigamos e, mais recentemente, transamos.
– Você é bem inteligente, Izaya. Sabe que não é a única saída. É só parar de ser teimoso e tentar. – sabia que o que ele sentia estava longe de ser só teimosia, mas pelo bem do orgulho que conhecia até bem demais, deixei por esse termo.
– Fico grato pelo elogio, Shizu-chan. – sorriu mais um deboche antes de continuar – Mas para nós, não há outra saída. Ou vai me dizer que inventou uma fantasia de brincar de “namorar”? Não me faça rir, Shizu-chan...
Embora fosse muito bom em esconder suas emoções, Izaya era mais transparente do que pensava, como eu já havia dito anteriormente. E, mesmo que eu não tivesse captado a sugestão na frase, sua risadinha nervosa lhe entregou.
– “Brincar”? Você acha que não seria possível de verdade?
– Você não pode estar falando sério...
– Estou falando muito sério, pulga.
Imaginava que o informante, tendo a mania de fugir de tudo e se afastar de qualquer emoção mais humana, fosse resistir, recusar, repelir. Entretanto, no absurdo dos nós entre nosso passado e nossas emoções, acho que nem Izaya conseguiu achar forças para não se entregar aos sentimentos.
E aí não tinha mais volta.
– Jeito estranho de observar alguém dormir, seu maníaco.
Não preciso abrir meus olhos para saber que a presença de uma fonte de calor sobre meu abdome está acompanhada da fria lâmina de um canivete. Aliás, outra cavidade na parede da sala é fruto da primeira vez em que isso aconteceu, mas agora a situação já é frequente.
– É frustrante. – explica, com uma voz monotônica – Fica cada vez mais difícil te matar.
Sorrio e finalmente revelo os tons amarelo-queimado de minhas íris para encontrar o intenso olhar da praga que assombra minha vida.
– Igualmente. – respondo, fitando-o por baixo de pálpebras ainda pesadas de sono.
– Realmente frustrante. – contempla minuciosamente a lâmina brilhante, revirando-a em seus dedos – Às vezes sinto falta do seu ódio apaixonado, Shizu-chan.
Como se para conceder o desejo de Izaya, em um movimento rápido e brusco inverto nossas posições, prendendo-o ao colchão com meu corpo entre suas pernas.
– Já disse que esse não é meu nome, pulga. – me inclino sobre a pele alva do peito do homem sob mim e mordo forte sua clavícula.
– Esse também não é o meu, Shizu-chan. – retruca, e consigo ouvir o sorriso malicioso em sua voz. Masoquista desgraçado.
– Diga meu nome, Izaya. – ordeno, raspando meus dentes pescoço acima na pele macia.
– Devo ter esquecido, Shizu-chan. – sinto-o estremecer debaixo de mim, e sei que ele está me provocando, mas como já disse antes, estou aprendendo a lidar com os jogos da praga.
Rio suavemente, o que faz o sorriso de Izaya desaparecer e uma expressão apreensiva tomar seu lugar quando afasto o rosto de sua garganta e trago minha face para alguns centímetros à frente da sua, de modo que tenho plena visão do mau pressentimento estampado em sua cara.
– Que tipo de pessoa esquece o nome do próprio namorado, hein, Izaya-kun?
– O mesmo tipo de pessoa que é inimigo mortal de seu namorado, Shizu-chan. – responde com um sorriso arrogante, mas hesitante em relação ao que, segundo o próprio Izaya, nunca consegue prever vir de mim. E, como gosto de manter minha reputação com ele, dou de ombros e concluo:
– Então eu devo ser mesmo muito estúpido para amar meu inimigo mortal.
Espio por baixo dos olhos que fechei em minha pequena atuação de indiferença para desfrutar da linda cena que encontro: as orbes castanho-avermelhadas isoladas em meio a olhos impossivelmente arregalados em um rosto cujo tom se assemelha aos tons escarlates das íris maquiavélicas.
Rio da minha conquista quando o informante desvia o olhar e fecha a cara em uma expressão neutra imprópria à cor de seu rosto, murmurando em um tom baixo e recatado:
– Eu te odeio, Shizuo.
E é no jeito em que Izaya encerra o assunto ao me apurar para sair de cima dele para que possa comer alguma coisa e se arrumar que sei que venci desta vez, mesmo importando pouco no final.
É naqueles sorrisos amargos e sinceros, naqueles olhares furtivos e orgulhosos, naqueles suspiros de contentamento e naquele embaraço inocente de momentos serenos que eu encontro a razão de amar essa praga.
É em meio ao mar de castanho escuro que eu encontro a sombra da cor da flor solitária em meio a tantos ramos rajados de espinhos.
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