The Cog Workers
1 Um par de chaves de grifo
Notas iniciais
[Thomas]-Ei, não é justo!
[Olaf]-O que foi dessa vez?
[Thomas]-A Sarah está pegando todos os grampos para construir a boneca dela.
[Sarah]-Não é uma boneca, seu idiota. É uma estatueta!
O barbudo saiu de dentro da locomotiva dourada e limpou as mãos sujas de carvão no avental:
[Olaf]-Ei meus amores, não é hora de brigar. O papai tem que entregar o Carro Imperial ainda hoje. E eu nem terminei a locomotiva. Sarah, coopere. E Thomas, deixe de ser um chorão.
[Thomas]-E-eu não sou nenhum chorão! É culpa da Sarah.
[Sarah]-Vê? Está sendo um chorão agora.
[Olaf]-Certo, vejam... -o homem estendeu a eles um bolso de couro preto gasto — Por que não vão comprar maçãs para fazermos torta assim que eu acabar com esse monstro aqui?
[Sarah]-Hmm, as tortas do papai são as melhores! -a garotinha de aparentes 14 anos saltou da mesa em que estava sentada e ajustou os suspensórios ao nível correto
[Thomas]-Será que aquele forno que construímos vai funcionar bem dessa vez? -o jovem um pouco mais novo tinha um olhar cauteloso e cabelos desgrenhados por conta do excesso de preocupação
[Olaf]-Fiquem tranquilos, meus amores. Agora vão até a praça e me tragam maçãs e farinha. Papai vai trabalhar a todo vapor para fazer logo as tortas de vocês.
Os dois passaram pela portinhola de ferro que dava caminho à rua. Mesmo usando trajes "neutros", a jovem Sarah despontava sua beleza tal qual qualquer dama de vestido que passava pomposa pelas calçadas da capital Silverblock. Seus traços chamativos, olhos verdes e cabelos vermelhos-escuro denotavam beleza mesmo "corrompidos" pelos traços de graxa que a pobre jovem tinha espalhados pelo rosto e corpo. Já seu irmão, mais novo e um pouco mais alto, tinha cabelos castanhos como os que o pai um dia teve. Seus olhos eram tão verdes quanto os de Sarah. O garoto tinha um porte franzino, franja sobre os olhos e uma bela marca de óleo quente no pulso esquerdo que recebera da irmã num deslize durante uma brincadeira na oficina do pai. Assim que chegaram à praça, foram parados por um guarda desavisado:
[Policial]-Ei, qual é o significado disso?
[Sarah]-Disso o que, seu guarda?
[Policial]-Vocês roubaram esse bolso?
[Thomas]-Isso é do nosso pai. Vamos fazer tortas!
[Sarah]-Sim, se quiser pergunte ao dono da mercearia. Eles nos conhece.
[Policial]-Isso não me parece muito confiável. Vocês são pivetes e querem me passar a perna para deixá-los livres!
[Sarah]-Não somos pivetes, seu estúpido!
[Thomas]-Ei Sarah, não fale essas coisas assim!
[Sarah]-Que foi, franguinho? Vai dar razão a esse idiota por nos chamar de pivetes e insistir na ideia?
O homem, enfurecido, sacou o porrete do cinto e ergueu o braço:
[Policial]-Vou lhe ensinar boas maneiras, pirralha!
[Thomas]-Sarah, não!
Impulsivamente, o garoto atirou o saco de moedas no olho do agente, que urrou de dor:
[Policial]-Gaaaaargh! Moleque, você será o próximo. Assim que eu estrangular essa jovenzinha... Hmm, e que bela jovem, hein.
[Neil]-Eu sugiro que pare com isso e que jamais ouse olhar para a pequena Sarah com tamanha malícia. -um homem de cartola e segurando uma bengala apareceu, encarando o guarda com raiva
[Sarah e Thomas]-Vovô!
[Neil]-Olá, crianças. Vieram comprar mais maçãs?
[Sarah]-Sim! O papai vai nos fazer tortas hoje.
[Policial]-Argh... Muito bem, vocês se safaram dessa vez. Mas vou logo avisando para não cruzarem meu caminho outra vez. -ele saiu batendo os pés
Assim que o curvado homem de beca azul sumiu no horizonte, os garotos soltaram o velho:
[Neil]-Vocês estão bem?
[Sarah]-Que hora perfeita pra se aparecer, vovô.
[Neil]-Aquele não é um bom homem. Ele tinha desejos sombrios nos olhos. Venham, vamos para a loja.
Os garotos seguiram o velho até a enorme mercearia, toda trabalhada na melhor madeira para decoração. Também possuía um dos melhores sistemas de aquecimento e energia que Olaf, o pai deles, produziu:
[Neil]-Vocês querem beber alguma coisa?
[Thomas]-Não queremos abusar, vovô. Só viemos pelas maçãs e pela farinha...
[Neil]-Certo, certo. Aqui está. -um saco de maçãs frescas foi dado para Sarah e um pacote de farinha de trigo para Thomas — E eu sei que vocês gostam, então quero que levem alguns caramelos para saborearem.
[Sarah]-Obrigada vovô, o senhor é o melhor!
[Neil]-E digam para o pai de vocês que o velho Neil precisa de um ajustezinho na loja.
[Thomas]-Claro vovô, pode deixar!
Os dois saíram sorridentes e mastigando os caramelos que ganharam. Sarah decidiu tomar um caminho diferente para voltar à oficina, e Thomas a advertiu para tomarem a rota normal. Sem dar-lhe ouvidos, a menina seguiu pela rua íngreme. Ao chegar na base da ladeira, foram surpreendidos por um homem de tapa-olho à paisana:
[Policial]-Eu avisei, não avisei?
[Sarah]-Ah cacete, você só pode estar de brincadeira...
[Thomas]-Correr agora, xingar depois!
Os dois saíram em disparada na rua perpendicular. O homem pôs-se atrás deles, e com uma incrível velocidade. Alguns metros a frente, Thomas tropeçou em uma caixa de ferramentas que estava na porta de uma loja:
[Vendedor]-Ei moleque, o que está fazendo?
Mais a frente, corria a desesperada Sarah. Suas pernas já doíam e pediam para que a jovem parasse. Num movimento bruto, o homem a derrubou e a prendeu com as mãos:
[Policial]-Ihihihi... Mas que pitelzinho temos aqui. O que essa blusa folgada esconde?
Com um canivete, ele rasgou a blusa da menina e exibiu seus seios brancos:
[Thomas]-Chefe, quanto quer pelas chaves de grifo?
[Vendedor]-Elas custam 100 libras cada. Mas já que vocês as sujou, eu quero apenas 100 pelas duas.
[Thomas]-Eu já volto.
Thomas apanhou as duas chaves de grifo que havia espalhado pelo chão e pôs-se a correr, ignorando a luxação na perna esquerda. Quando ganhou velocidade, saltou:
[Thomas]-Ding dong, que horas são? É hora do chá, seu filho da puta!
Num movimento cruzado, o garoto cravou as chaves nas laterais do rosto do homem, causando um belo estrago. Assim que o policial caiu desacordado, Sarah rastejou para trás e cobriu os seios com os braços:
[Thomas]-Toma. -ele estendeu seu casaco
[Sarah]-Obrigada, Tom. O que deu em você?
[Thomas]-Ninguém toca em você. Só eu, principalmente se for pra jogar óleo no seu cabelo.
[Sarah]-Posso perguntar por que seu nariz está sangrando e você evita olhar pra mim?
[Thomas]-Peitos femininos.
[Sarah]-Mas eu sou sua irmã, seu tarado!
[Thomas]-É por isso que eu não vou olhar pra essa sua cara de monumento indígena.
A garota liberou um tapa que fez Thomas rodopiar e cair na calçada:
[Thomas]-Ai! Qual é?!
[Sarah]-Que insulto, seu pivete. Vamos pra casa logo, não vou aguentar esse casaco fedido por muito tempo.
Thomas voltou e recolheu os itens comprados que caíram pelo caminho:
[Sarah]-Vou ficar com isso. -ela girou a chave de grifo na mão — Gostei. Primeira vez em toda a vida que você acerta alguma coisa, hein.
[Thomas]-Por favor, Sarah... Não vamos brigar agora que temos armas. Você é capaz de me matar.
[Sarah]-Eu não faria isso. O papai ia ficar uma fera sem o carregador dele.
[Thomas]-Então eu sou uma ferramenta? Ótimo. Me peça pra massagear seus ombros outra vez e eu terei certeza de ter um alicate nas mãos para o trabalho.
Despontaram finalmente na rua da oficina. A medida que foram se aproximando, ouviram gritos e xingamentos:
[Euf]-A IMPERATRIZ ESTÁ IMPACIENTE, SEU BIGODUDO SARNENTO! -o som de coisas de metal caindo no chão era incessante
[Olaf]-Só falta mais um pouquinho. Por favor, eu não consigo trabalhar tão rápido com uma coisa tão grande como a Locomotiva Imperial.
[Euf]-Certo, cachorro da plebe. Eu vou enrolar a Imperatriz hoje. Tenho certeza que um belo baile vai fazê-la esquecer que tem um trem. Mas eu aviso: Ou amanhã, ou sua cabeça vai ser pendurada na porta dessa espelunca.
[Olaf]-Certo, como quiser. Agora, posso retomar a labuta?
[Euf]-Hmpf. Meninos, vamos?
A tropa de 5 "homens" saiu pela porta principal, enquanto os irmãos adentraram pela porta dos funcionários. Chegaram à oficina de fininho:
[Olaf]-Sarah.
A garota congelou no lugar:
[Sarah]-S-sim, papai?
[Olaf]-O que houve com sua blusa?
[Sarah]-N-nada, papai. Do que está falando?
O homem se virou, apesar do sorriso, parecendo preocupado:
[Olaf]-Quem atacou você?
[Thomas]-Eu dei um jeito nele. -o garoto bateu a chave nas mãos
[Olaf]-Quer dizer que você finalmente está despertando o Rayzen que há em você?
[Thomas]-Não é porque é a piolhenta da Sarah que eu deixaria aquele miserável fazer o que bem entendesse.
[Olaf]-Que ótimo, filho! E quem era esse homem?
[Sarah]-Um policial de bigodinho.
A expressão satisfeita do bigodudo tornou-se espanto extremo:
[Olaf]-P-p-p-p-poli-cial? Meu deus, o que foi que vocês fizeram?
[Sarah]-Estávamos indo para o vovô, e ele simplesmente nos parou e nos chamou de pivetes.
[Olaf]-E você foi mal educada com ele, não é?
[Sarah]-Não... -ela entortou os lábios em forma de bico para a direita
[Thomas]-Foi sim.
[Sarah]-Oi, tarados não devem dar opiniões aqui!
[Olaf]-Arh... Certo. Sarah, não se meta com gente do governo. Eles já estão causando problemas demais com essa locomotiva. E Thomas... Controle-se. É a sua irmã. E lembre-se que eu sou o pai dela.
[Thomas]-Mas eu não faria nada. E é a Sarah, pai. Quem quer a Sarah?
[Sarah]-Muitos meninos, caso seja do seu interesse.
[Olaf]-De qualquer maneira, vá pegar uma de minhas velhas camisas. E vê se usa aquela coisa que você me pediu para comprar.
[Sarah]-Tá bem, papai.
[Olaf]-Ao que interessa: Quem está afim de uma torta de maçã?
[Sarah e Thomas]-Obaaaaa!!!
[Olaf]-Mas antes, banho.
[Sarah e Thomas]-Aaaaaaawh...
De madrugada, após comer a terceira torta sozinho, Thomas acordou. Desceu da beliche e resolveu caminhar pela casa. Como estava curioso sobre o evento ocorrido mais cedo com os homens e seu pai, resolveu ir até a oficina, mais precisamente onde estavam os "destroços" deixados por eles. Haviam diversos papeis pelo chão, restos de vidro e todo tipo de parafuso que Thomas conhecia. Subitamente, um papel amarelo chamou sua atenção:
[Thomas]-Quê? "Dívida"? Pai...
O garoto tomou o papel nas mãos e o leu, incrédulo. E não era apenas um, mas vários com os mesmos dizeres. Todos eles aparentemente se referiam a um mesmo pagamento que já era protelado há quase um ano. E Olaf nunca mencionou nada sobre isso. Nem nunca deixou parecer que eles estavam passando por dificuldades. Thomas voltou ao quarto e puxou o cobertor de sua irmã:
[Sarah]-É bom que o motivo me convença, antes que eu corte seus braços com a serra do papai. -a jovem de olhos fechados estava nervosa
[Thomas]-É importante, sua burra. Por que acha que eu te acordaria assim?
[Sarah]-Talvez porque você seja um idiota, eu sei lá...
[Thomas]-Acha mesmo que eu perderia meu precioso sono pra acordar você?
[Sarah]-Não me importa. O que é?
[Thomas]-Vem comigo. Eu tenho que mostrar uma coisa.
A jovem ergueu-se e puxou o cobertor para por sobre os ombros. Caminhou ao lado do irmão até a oficina bagunçada:
[Thomas]-Você está descalça?
[Sarah]-Estou.
[Thomas]-Então fique aí.
Logo o garoto entregou a pilha de papeis amarelos. A mesma expressão brotara no rosto de Sarah:
[Sarah]-O papai está devendo?
[Thomas]-Não. Estão devendo o papai.
[Sarah]-É por isso que ele está tão atarefado com essa banana dourada da Imperatriz?
Thomas cuspiu pela janela:
[Thomas]-Quem ela pensa que é pra pedir prazo de 24 horas por uma maldita locomotiva?
[Sarah]-Eu não sei. Mas temos que cobrar isso dela.
[Thomas]-Perdeu o juízo, irmã? É A Imperatriz. Quem somos nós pra pisar no Palácio de Ouro?
[Sarah]-Eu não sei você, mas não é difícil me parecer com uma nobre. É só pegar um vestido na cidade e pronto.
[Thomas]-Sarah, deixe de ser demente. Você precisa PAGAR pelo vestido.
[Sarah]-Ah, eu devolvo logo depois.
[Thomas]-Do jeito que você é cuidadosa? Ha.
A garota corou:
[Sarah]-Não é bem assim também...
[Thomas]-Você usa as minhas roupas porque destruiria seus vestidos totalmente.
[Sarah]-Eu vou ficar de vestido numa oficina. Certo, Thomas. Certo. -ela expressou-se irônica
[Thomas]-De qualquer jeito, você é uma desastrada!
[Sarah]-Não grite comigo, pirralho!
[Thomas]-A pirralha aqui é você!
De repente, da porta surgiu uma figura enorme segurando um lampião:
[Olaf]-Crianças, do que estão brincando? -o pai enxergou a pilha amarela nas mãos de Sarah — Opa...
[Thomas]-Senhor Olaf Sherman Rayzen... O que tem a dizer sobre isso?
[Olaf]-E-eu posso explicar... Eu juro.
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