The Clock And The Room
1 Contos ~ O relógio
Notas iniciais
Eu espero que gostem.
O relógio sussurrava tic-tac, tic-tac. Ela olhou em volta, buscando por ele, mas só havia branco. Sem paredes, portas ou janelas pintadas de preto. Não existia mais nada. O mundo era branco e apenas branco. Ela tentou abrir os olhos, mas já não havia olhos para abrir. Buscou pelo celular no bolso do jeans, mas não havia bolso nenhum.
Tic-tac, tic-tac. O tempo continua correndo, era o que dizia o relógio.
Não havia nada, ela não era nada. Ergueu um braço inexistente e pintou o cenário infinito com vermelho. Uma prova fria de que aquela era apenas mais uma de suas alucinações. Ainda assim, ela não queria voltar ao breu quarto. Ela queria morrer em meio ao branco esquecimento, sim.
Tic-tac, tic-tac. O tempo corre. Ele corre rápido. Ela estava ficando para trás. É.
Ela queria morrer logo.
Seu corpo tremia como um todo. Ela estava encolhida numa postura desconfortável, apesar da cama macia onde se encontrava. Seus olhos estavam fechados, e ela tentava buscar algo que a desconcentrasse da dor. Ah, a dor.
O que ela fizera para merecer aquilo?
A porta do quarto abriu-se com um rangido gentil, o rapaz que entrou por ela carregava um copo com suco e um prato com comida. Parecia realmente muito bom. Ela virou o rosto para longe, tentando ignorar a recém descoberta dor em seu estômago.
– Meu amor, vai ser melhor se você comer...
Ela quase vomitou ao ouvir a voz dele. Apertou os olhos com força, tentando ignorar a presença dele no quarto escuro. Ele puxou-a pelo queixo e forçou-a a encará-lo. Seus olhos – que talvez devessem expressar preocupação ou carinho – eram terrivelmente frios.
– Eu disse para comer. – O tom era de ordem.
Um sorriso gentil abriu-se no rosto dele. Por um segundo odiou-se por ser tão fraca. Ela ergueu a mão e puxou o prato para mais perto. Num ímpeto de rebeldia, ela lançou-o pelo quarto, fazendo-o quebrar-se do outro lado. Ela nem mesmo piscou. Abaixou o braço, retornando-o para seu lugar em volta das pernas.
Ele não falou nada, não precisou. Só avançou sobre ela, a mão no bolso da calça. Em menos de um minuto, ela estava deitada no colchão, os olhos fechados, o corpo tremendo. As lágrimas lentamente começaram a descer pelo rosto pálido. Ele guardou o canivete dentro das roupas e saiu.
Ela abriu os olhos e observou, em silêncio, enquanto os lençóis se manchavam com seu sangue novamente. Em sua mente, o relógio sussurrava constantemente. Tic-tac, tic-tac.
Há quanto tempo ela já estava naquela situação? Dois, três dias? Não fazia diferença. Ela acabaria morta de qualquer forma. Sua mente apagou-se num transe. Ela não dormia, com medo de que ele se aproximasse durante o sono, mas nada a proibia de esquecer tudo aquilo por alguns momentos. O quarto pintou-se lentamente de branco, apagando de sua mente o vermelho nauseante, e o negro opressivo.
Tic-tac, tic-tac. Que o tempo corresse. Ela já não estava mais com pressa.
Ele voltou muito tempo depois. Ela encolheu-se mais contra si mesma, voltando a sentar-se num dos cantos da cama. Era interessante como os cortes pareciam ainda mais longos, ainda mais fundos e ainda mais dolorosos quando ele estava por perto. Fechou os olhos.
Ele sentou-se ao seu lado, encurtando a distância entre eles e arrancando dela qualquer rota de fuga. Seu corpo, assim como sua voz e sua atitude, era gelado. Sentiu quando ele passou o braço por cima de seus ombros, e quando ele virou seu rosto e colou seus lábios. Não reagiu ao toque, assim como não retribuiu o beijo. Manteve os olhos fechados por saber que ele estaria observando-a. Era sempre assim.
Ele soltou-a e ela voltou a seu canto na cama. Abriu os olhos.
– Eu te amo Bia.
Ela trincou os dentes, sentindo-se irritada. Porque continuava resistindo, afinal?
– Esse não é meu nome.
Ele soltou uma risada.
– Claro que é. Beatriz, sempre foi.
– Já te disse que meu nome é...
– Cale-se.
O tom gelado dele a fez parar. Fazia diferença como ela a chamava? Era ela quem ia morrer não Beatriz. Não, sua irmã estava neste momento em sua casa, com seus pais. Provavelmente vendo TV e se preocupando com onde sua pobre irmã estaria. Enquanto ela pagava o preço por ter nascido sua gêmea idêntica.
Fazia diferença qual delas sofria mais? Aquele homem não parecia se importar com qual delas ele estava torturando. Contanto que fosse o rosto dela. Ou o de Bia.
– Eu te odeio. – Ela sussurrou.
Talvez ela só quisesse que acabasse logo. Esperou por um golpe que não veio. Finalmente, lançou na direção dele um olhar de soslaio, percebendo o sorriso divertido que ele tinha no rosto. Louco. Era a única palavra capaz de defini-lo.
– Ei, você não acha? Amor, ódio, orgulho... São sentimentos que nunca deveriam ter existido. São sentimentos egoístas, eu não gosto deles.
Ela se remexeu. Ele passou a mão gelada pelo rosto dela, e então por seu cabelo, penteando-o com os dedos longos. Na época em que estava com sua irmã, ele tocava piano. Foi nessa época que ela começou com a música também.
Não que ela tocasse alguma coisa agora. A única música era o som incessante do relógio em sua mente – Tic-tac, tic-tac.
– É num momento desses que eu agradeço por te amar, sabe? Bem, eu também sou egoísta depois de tudo, não posso julgar ninguém. Mas não, você não é egoísta. Eu gosto disso em você. – Ele soltou uma risada. – Eu vou acabar sendo um pouco mais egoísta, Bia.
Ela fechou os olhos, e escondeu o rosto entre os joelhos novamente. Era nessas horas que ele saia do quarto, geralmente.
Ele ergueu-se, realmente, mas não saiu pela porta. Chamou por ela.
– Bia, olhe para mim.
Ela respirou fundo e ergueu o rosto, encarando-o com a mesma expressão gelada que ele usava contra ela. Imitá-lo era sua única forma de defesa.
Ele abriu um sorriso debochado e agachou-se na cama, aproximando seus rostos. Puxou-a para mais perto, segurando-a pelos cabelos. Suas expressões – as de ambos – continuaram tão vazias quanto antes.
– Você tem ficado cada vez mais parecida comigo... Quem sabe afinal nós não fomos feitos um para o outro?
Silêncio.
Ele deixou o quarto. Ela virou o rosto na direção da janela pintada de preto. Ela não podia fugir, não podia falar com ninguém, não podia fazer mais nada.
Tic-tac, tic-tac, o tempo sussurrou para ela. Ele corria muito rápido.
Quando ele se cansaria e a mataria, afinal?
Seu tempo passou, enquanto ela pintava aquele recém descoberto mundo branco com o vermelho que ele marcara em sua pele. Ela deixara de sentir a dor dos cortes há algum tempo já. Apesar de incomodar, já se cansara da dor. Agora ela queria alívio.
Ergueu-se, sem se importar se ele havia mesmo ido embora ou não. Saiu do quarto e foi para a cozinha do pequeno apartamento que ele alugara. Sabia que mesmo se procurasse, não encontraria nada ali que pudesse usar contra ele, ele era bem inteligente neste aspecto.
Abriu a porta da geladeira e pegou uma maçã, e então passou para a sala. Não havia televisão, nem nenhuma forma de comunicação com o mundo lá fora, ela já procurara.
Ele lhe trazia roupas limpas de vez em quanto, mas como ele parecia se incomodar com a imundice, ela fazia questão de usar a mesma roupa, apesar de tomar banhos duas vezes no dia. O blusão que era branco agora estava manchado de tons de vermelho. A calça jeans velha que ela gostava de usar já estava bem rasgada – antes ela lutava bastante contra ele –ela não se importava com aquilo também. Era a única forma de se rebelar ali.
Muito tempo se passou sem que ela contasse. Ela ouviu a porta da entrada abrir-se, mas não se mexeu em seu canto do sofá bege onde estava. Ele pareceu um pouco surpreso ao vê-la ali, mas sua face recompôs-se em um sorriso em questão de segundos. Um sorriso frio e cínico, como sempre.
– Boa tarde.
Ah, então era de tarde. Ela concordou com a cabeça. Ela não desejava a ele nada de bom, então não o cumprimentaria. Aliás, esperava que a tarde dele tivesse sido uma droga. E que ele tivesse ficado preso no trânsito.
Ele carregava duas sacolas. Em uma delas ela sabia que estavam as roupas que ela não usaria. A outra carregava um cheiro forte de álcool. Não mais forte que o fedor que vinha dele, porém.
– Urgh!
Ela torceu o nariz em desgosto. O ambiente encheu-se com o odor desagradável. Ela ergueu os olhos e encarou-o, em busca de uma explicação plausível. Pareceu um pouco atrevido, vindo de uma prisioneira, mas nada ali fazia sentido mais.
– Ah, desculpe por isso. O encanamento explodiu na casa dos meus pais, então eu fui arrumar.
Ela aceitou a desculpa sem problema nenhum. E mesmo se não aceitasse, nunca diria mesmo. Pelo menos não era ela a feder.
Ergueu-se e lançou a maçã para ele, voltando para o quarto escuro. Ele provavelmente interpretaria como um ato amigável, mas ela realmente esperava que ele acabasse engasgando. Como a branca de neve, sem qualquer príncipe.
Sim, ódio era um sentimento ruim, como ele tinha falado mais cedo.
Em silêncio, ela retirou peça por peça e seguiu para o banheiro. Tomou seu segundo banho do dia, limpou cada nova ferida, e as velhas. Seu corpo era coberto de cicatrizes agora. Antes, isso a faria se odiar. Agora era só mais um sinal de que talvez o fim estivesse próximo.
O tempo sussurrava. Tic-tac, tic-tac... Só um pouco mais.
Ela terminou o banho, mas não conseguia encontrar as roupas em lugar nenhum. Saiu do banheiro, e encarou a pilha limpa na porta. Tentou ignorá-la, mas o cheiro de fumaça chegou a seu nariz, e ela deduziu o que acontecera com suas próprias roupas.
Sim, hoje seria ainda mais difícil. Passou o vestido branco por cima dos ombros. Voltou para a sala, sabendo que o encontraria lá. O chão de madeira estava encharcado de um líquido que ela supôs ser álcool. Provavelmente ele havia derramado mais do que o necessário, porque as mangas de sua blusa estavam molhadas também.
Ele sorriu para ela, aquele mesmo sorriso vazio de antes. Ao seu lado havia um saco preto provavelmente com as cinzas de suas roupas. Ela correspondeu o sorriso desta vez, tentando ser tão cínica com ele quanto ele era com ela.
Sentou-se ao lado dele no sofá, sem se importar mais com a proximidade. Fechou os olhos.
Em sua mente o relógio tocava incessante. Tic-tac, tic-tac. Tudo acabaria logo. Logo, logo.
– Oh.
Ela acordou. Olhou em volta, buscando-o. Sentou-se no sofá, sem conseguir acreditar que dormira com ele ali. Ele estava sentado em uma cadeira de madeira, na direção oposta a dela, separados pela pequena mesinha de centro. Eles se encararam por alguns minutos.
Seus olhos expressavam decepção.
– Você está morrendo, não é? – Ele sussurrou.
Silêncio. Ela não negou, mas não confirmou. Ele sorriu.
– Você me odeia?
–... Você me forçou a isso.
Encararam-se. Ela tentou se lembrar de como as coisas acabaram assim, mas não conseguiu. Ele puxou algo do bolso, e por um momento ela encolheu-se para longe, com medo. Ele estendeu-lhe o objeto. As chaves da porta.
Tic-tac... Está acabando.
– Ei, você quer ir embora?
Ela encarou-o. Tentou controlar a surpresa, e franziu o cenho. Ele havia inventado um novo jogo agora? Pensou na pergunta. Tentou imaginar o mundo lá fora, mas simplesmente não conseguia se lembrar mais da sociedade de onde viera.
Tic-tac, tic-tac, o tempo passara. E ela ainda estava presa àquele apartamento. Ele nunca sairia de sua mente. Ela nunca sairia dali. Sua mente nunca permitiria isso.
– Não mais.
– Mas não quer ficar comigo.
– Você me forçou a isso também.
Ele riu. Puxou de dentro do bolso o canivete, girando-o entre os dedos.
– Bia, você quer morrer?
Ela hesitou, sem saber como responder. Ela queria morrer? Bia queria morrer? Provavelmente não. Seus pais também não iriam querer que ela morresse. – Ele sorriu ao vê-la pensar na pergunta. – Em contrapartida, ela desejava desesperadamente que aquela tortura acabasse.
Olhou para o canivete nas mãos dele. Ele o segurava com tanto descaso, como se ela realmente não fosse capaz de lutar mais. Como se, na cabeça dele, ela já estivesse desistido.
Sua mente parou de funcionar. Ela saltou sobre a mesinha de centro, avançando sobre ele e derrubando-o de sua cadeira. De alguma maneira, conseguiu arrancar de suas mãos o canivete.
Os olhos dela brilharam de raiva, os dele em um humor assassino.
– Pra mim já chega! – Rosnaram ao mesmo tempo.
A lâmina desceu sobre ele, mirando diretamente seu coração. Ao mesmo tempo, ele puxou de dentro do bolso da calça um isqueiro e com um clique veloz, ativou suas chamas, soltando-o sobre o chão molhado.
Ela ouviu o barulho que o fogo fez quando sugou o oxigênio no ar, usando-o como combustível. Não soube dizer qual dos dois gritou mais alto. Ela pela surpresa, ele pela dor — ou talvez pela vitória.
Morreriam juntos então.
Tic-tac, tic-tac. Seu tempo se foi.
Em sua mente, o som do relógio findou-se, enquanto o fogo apagava consigo a prova da loucura dele, e as cicatrizes dela, e pintava aquele maldito quarto de vermelho e preto.
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