The Circus
1 O que se perde, o que se encontra...
Notas iniciais
✦ Capítulo 1
A sala cheirava a formol, ferro e algo mais antigo, quase entranhado nas paredes, como se décadas de dissecações tivessem deixado ali uma presença invisível, silenciosa, impossível de remover. O som do ponteiro batendo contra o metal da mesa ecoava em intervalos regulares, seco, irritante, acompanhando a explicação arrastada do professor Tunner, cuja voz áspera parecia raspar por dentro dos ouvidos de quem era obrigado a escutá-lo. Ao redor, fileiras de alunos inclinados sobre cadernos, alguns atentos, outros apenas fingindo, todos presos àquela rotina que, por seis anos, moldara cada parte de suas vidas.
Edward Cullen estava ali entre eles, mas não completamente.
Sentado na terceira fileira, com o corpo ligeiramente curvado para frente e os dedos segurando o lápis com força além do necessário, ele tentava acompanhar a aula, ainda que seus pensamentos insistissem em escapar por frestas invisíveis. Foi nesse instante que ela entrou.
Rosalie Hale não fazia esforço algum para ser notada, e ainda assim era impossível ignorá-la. O som de seus passos era suave, quase inexistente, mas havia algo em sua presença que alterava o ar ao redor. Ela caminhou até o banco ao lado de Edward com naturalidade calculada, deslizando para o assento como se já soubesse exatamente o espaço que ocuparia, como se aquele lugar sempre tivesse sido dela. No movimento, suas coxas roçaram nas dele, um toque breve, quente, suficiente para fazê-lo prender a respiração por um segundo a mais do que deveria.
Ela se afastou logo em seguida, os dedos alisando a própria saia com delicadeza estudada, como se o contato tivesse sido um acidente insignificante. Mas Edward conhecia aquele tipo de gesto. Rosalie Hale raramente fazia algo por acaso.
Ele desviou o olhar, tentando manter a atenção na aula, mas a presença dela ao lado parecia expandir, preenchendo cada espaço entre seus pensamentos. Havia algo cruel em sua beleza, não no sentido direto, mas na forma como parecia sempre um passo à frente, como se soubesse exatamente o efeito que causava e escolhesse, com precisão, quando permitir ou negar qualquer aproximação.
Edward nunca passara de um espectador.
E, embora não admitisse em voz alta, havia algo quase constrangedor na forma como sua vida seguia intocada por experiências que pareciam tão comuns aos outros. Aos vinte e três anos, carregava consigo uma inocência que não combinava com sua idade, como se tivesse ficado para trás em algum momento que não soube identificar. Não era falta de desejo, disso ele tinha certeza , mas uma combinação estranha de princípios, hesitação e oportunidades que nunca se concretizavam.
Ao redor, conversas ocasionais e comentários mal disfarçados entre colegas sugeriam uma realidade muito diferente da sua. Alguns se vangloriavam de experiências duvidosas, outros exageravam histórias com convicção questionável, mas todos pareciam participar de um mundo do qual Edward permanecia à margem. E, ainda assim, algo dentro dele resistia à ideia de atravessar certos limites apenas para provar algo que, no fundo, não lhe parecia verdadeiro.
— E aqui vocês podem observar o espessamento do intestino delgado distal…
A voz de Tunner o puxou de volta. O professor gesticulava com o ponteiro sobre as entranhas expostas de uma cabra, cujo odor pesado se misturava ao ar já saturado da sala. Edward fez uma anotação automática, embora mal tivesse registrado o conteúdo.
Foi então que a porta se abriu.
O rangido rompeu a monotonia como uma rachadura súbita em vidro sólido. Todas as cabeças se voltaram quase ao mesmo tempo. O reitor Newton surgiu no vão, rígido, sério, carregando consigo uma tensão que não combinava com interrupções triviais. Ele trocou algumas palavras em voz baixa com Tunner, tão próximas que pareciam conspirar algo que não deveria ser ouvido.
Algo estava errado.
Edward sentiu antes mesmo de entender.
Seus dedos apertaram o lápis com mais força. Rosalie cruzou as pernas ao seu lado, ajustando a postura, mas ele já não percebia mais nada ao redor com clareza. Havia um silêncio diferente se formando, um tipo de expectativa que não vinha da curiosidade, vinha do pressentimento.
— Edward Cullen?
Seu nome soou alto demais.
O lápis escorregou de seus dedos e caiu no chão, rolando até os pés de Rosalie. Ele se levantou rápido demais, o movimento brusco denunciando o impacto que tentava esconder.
— Sim, senhor…
A própria voz lhe pareceu distante.
Os olhos da sala inteira estavam sobre ele quando atravessou o corredor estreito entre as carteiras. Sentia os olhares como peso físico, como se cada passo exigisse mais esforço do que o anterior. Rosalie se inclinou, pegou o lápis e o devolveu, deixando que seus dedos tocassem os dele por um instante. Um gesto pequeno, mas que, naquele momento, parecia vir de outro mundo — um mundo que já não lhe pertencia.
— Venha conosco.
O corredor do lado de fora parecia mais frio.
Por alguns segundos, ninguém disse nada. Newton respirou fundo, como alguém que se prepara para romper algo irreversível.
— Filho… houve um acidente.
A palavra ficou suspensa no ar.
Edward não reagiu de imediato. Era como se o cérebro recusasse o significado antes mesmo de processá-lo por completo.
— Um acidente com um automóvel… — continuou o reitor, mais baixo — seus pais estavam nele.
O tempo se fragmentou.
— Eles… estão bem?
A pergunta saiu automática, quase infantil.
Newton apertou seu ombro com firmeza, mas havia tristeza em seus olhos, uma tristeza que respondia antes mesmo das palavras.
— Sinto muito.
E foi nesse instante que tudo deixou de fazer sentido.
Edward ouviu o restante como ruído. Sons desconexos, palavras que não se encaixavam, como se o mundo tivesse sido deslocado alguns centímetros para fora do lugar e ele já não conseguisse alcançá-lo. Sua mente tentou formar imagens , o rosto de sua mãe, o sorriso tranquilo de seu pai, mas elas vinham quebradas, incompletas, distantes demais.
Ele não chorou.
Não ali.
A delegacia tinha cheiro de madeira velha e tinta desgastada. As vozes eram baixas, respeitosas demais, como se qualquer som mais alto pudesse romper algo que já estava frágil. Quando pediram que ele confirmasse, Edward sentiu o corpo inteiro resistir.
Mas ele olhou e naquele momento, entendeu.
A casa estava exatamente como deveria estar.
E era isso que a tornava insuportável.
O rádio ainda ocupava seu lugar na bancada. O suéter azul de sua mãe repousava sobre a cadeira, como se ela fosse voltar a qualquer instante para vesti-lo. Na mesa, roupas dobradas com cuidado. Na pia, louças deixadas de molho, um hábito antigo, quase automático.
A vida não havia sido interrompida ali.
Ela simplesmente… parou.
Edward atravessou o espaço em silêncio, cada passo pesado, como se o chão exigisse dele mais do que podia dar. Parou no centro da cozinha, os olhos percorrendo cada detalhe, tentando encontrar algum sinal de que aquilo não era real.
Mas tudo era real.
Demais.
Seus joelhos cederam sem aviso. Ele caiu no chão frio, puxando o suéter contra o peito, como se ainda pudesse encontrar ali algum vestígio de calor. E então, finalmente, o silêncio se quebrou.
Dois dias depois, não havia mais nada.
A falência veio como um golpe seco, prático, quase cruel em sua simplicidade. A casa não era mais deles. A clínica não existia mais. O nome que antes ocupava uma placa com orgulho agora era apenas memória.
Edward voltou à universidade porque não havia mais para onde ir. Mas já não pertencia àquele lugar.
Diante da prova, o mundo parecia distante demais para ser compreendido. As palavras não faziam sentido, os números se embaralhavam, as linhas não levavam a lugar algum. O tempo passava, mas nada dentro dele se movia.
Quando se levantou, não houve hesitação.
Ele simplesmente… desistiu.
A estrada o levou sem destino.
Seus pés seguiam em frente, mesmo quando a mente já havia parado há muito tempo. A noite caiu lentamente, cobrindo tudo com um silêncio denso, quase acolhedor. E foi nesse vazio que ele continuou andando, como se cada passo fosse a única coisa que ainda o mantinha existindo.
Até que o som surgiu.
O trem.
Pesado, vivo, cortando a escuridão com força e ritmo.
Edward não pensou.
Correu.
O corpo reagiu antes da razão, movido por algo mais profundo do que decisão — desespero, talvez. Seus pés escorregaram, as mãos falharam, mas ele insistiu. No momento exato, saltou, agarrando-se ao ferro com toda a força que ainda possuía.
O impacto fez seus dentes baterem. O gosto de sangue surgiu imediato, metálico, quente. O vento chicoteava seu rosto, o barulho era ensurdecedor, e ainda assim… ele não soltou.
Porque não havia mais nada para onde voltar.
Quando conseguiu se erguer o suficiente para olhar, percebeu que não estava sozinho.
Quatro homens.
Cartas espalhadas. Uma jarra passando de mão em mão. Rostos marcados, desconfiados, iluminados por uma luz fraca que os tornava quase irreais.
O silêncio durou apenas um segundo.
— Ora… veja só o que temos aqui.
E, naquele instante, Edward percebeu que havia atravessado uma fronteira invisível — não apenas de lugar, mas de vida.
Ainda não sabia onde estava. Mas, pela primeira vez desde que tudo desmoronara…Ele também não sabia mais quem era.
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