The Circus
11 O Colapso de um Império Podre
Notas iniciais
✦ Capítulo 11 — O Colapso de um Império Podre
O ar dentro da jaula Rosie era denso, saturado pelo cheiro de feno úmido e pelo bafo quente e rítmico da elefanta. Do lado de fora, a chuva havia diminuído para uma garoa persistente, uma cortina de fumaça líquida que isolava o circo do resto do mundo. Lá dentro, a luz de uma única lanterna de querosene, colocada estrategicamente no chão, projetava sombras agigantadas contra as paredes de madeira, fazendo com que o grupo reunido parecesse uma assembleia de espectros planejando uma rebelião no inferno.
Edward estava debruçado sobre um mapa puído, suas mãos, ainda marcadas pela fúria do confronto matinal, traçavam rotas ferroviárias com uma precisão febril. Ao seu lado, Bella permanecia encolhida, o xale apertado contra os ombros. Seus olhos, embora claros, carregavam o brilho de quem ainda espera que o teto desabe.
— O trem de carga passa pelo desvio de Silver Creek às duas da manhã — Edward sussurrou, a voz cortante e técnica. — Se conseguirmos levar a Rosie até a rampa de carregamento antes do comboio principal partir, o maquinista é um velho amigo. Dez dólares e ele não faz perguntas até cruzarmos a fronteira do estado.
— Dez dólares é uma fortuna, Edward — Seth murmurou, limpando o suor da testa nervosa. — E se o Charlie perceber? Se os capangas dele interceptarem a gente no desvio?
— Ele vai estar bêbado demais ou ocupado demais tentando recompor o que sobrou da tenda principal — Bianca interveio, a voz carregada de uma determinação fria. Ela estava encostada em uma viga, os braços cruzados, a postura de quem já tinha deixado aquele lugar em pensamento há muito tempo. — Eu preferia morrer de fome em uma vala na estrada do que continuar apodrecendo aqui, vendo aquele homem tratar a gente como gado. Eu vou. Com ou sem dinheiro.
A declaração de Bianca pairou no ar como um desafio. Edward assentiu e então olhou para o canto mais escuro da tenda.
— Emmett? Você conhece os atalhos pela floresta melhor do que qualquer um. Preciso de você guiando a Rosie.
Houve um silêncio pesado. Emmett, o homem que fora a coluna vertebral de força daquele circo por décadas, não se moveu. Ele estava sentado em um caixote, as mãos imensas e calejadas repousando sobre os joelhos. Seus olhos, normalmente benevolentes, estavam opacos, perdidos em algum ponto do passado que ninguém mais conseguia ver.
— Eu não vou, rapaz — a voz de Emmett saiu como um trovão cansado, profunda e final.
— O quê? — Edward franziu a testa, dando um passo à frente. — Emmett, você não pode ficar. Depois do que aconteceu hoje, o Charlie vai descontar em quem sobrar. Ele vai te destruir.
O velho soltou um riso curto, um som seco que não tinha humor algum.
— Meu corpo ficou preso nesse circo antes mesmo da minha alma, Edward. Eu sou parte das vigas, da serragem... eu cheiro a esse lugar. Sou velho demais para recomeçar em um mundo que não tem tendas. Eu morro aqui, onde nasci.
Bella, que estivera em silêncio até então, levantou-se lentamente. Suas pernas ainda tremiam, mas ela atravessou o círculo de luz até parar diante de Emmett. Ela se ajoelhou na palha, ignorando a sujeira, e segurou as mãos gigantescas do velho entre as suas.
— Você ficou comigo quando ninguém mais ficou, Emmett — Bella disse, a voz subindo com uma força que surpreendeu a todos. — Quando meu pai me trancava, era você quem trazia comida e silêncio. Quando eu achei que ia morrer de nojo de mim mesma, você foi a única coisa sólida que eu encontrei.
— Pequena, eu...
— Não. — Bella o interrompeu, os olhos brilhando com uma urgência feroz. — Agora é a minha vez. Você não é parte deste império podre, Emmett. Você é o que sobrou de bom nele. Se você ficar, o Charlie vence. Ele terá matado a última parte de humanidade que ainda resta aqui. Por favor... não me peça para ser livre sabendo que deixei meu coração para trás em uma gaiola.
As lágrimas finalmente venceram Emmett. Uma única gota escorreu pelo rosto sulcado como o leito de um rio seco. Ele olhou para Bella, depois para Rosie, que encostou a tromba suavemente em sua nuca. O gigante desmoronou em silêncio, assentindo levemente. O plano de fuga estava completo.
Longe dali, escondida sob a aba da lona lateral de uma tenda, Marlena assistia a tudo. Seu rosto estava inchado, uma mancha roxa decorando a maçã do rosto onde Bella a golpeara. Mas a dor física não era nada comparada à agonia de ver o grupo reunido.
Ela vira a forma como Edward olhava para Bella enquanto ela falava com Emmett. Vira a reverência, o amor puro e sem adornos. E, naquele momento, a última corda que prendia a sanidade de Marlena arrebentou.
Ela não era parte do plano. Ela não era parte do futuro. Para eles, Marlena era apenas a vilã, o obstáculo, a podridão que seria deixada para trás para queimar junto com as lonas de Charlie.
— "Toda a luz para ela..." — Marlena sibilou, o rosto contorcido em uma máscara de loucura e mágoa. — "Todo o amor para a santinha."
Ela recuou para a escuridão do pátio, os passos vacilantes. O amor que sentia por Edward, que sempre fora uma doença possessiva, transformara-se agora em uma necrose emocional. Se ela não podia ter o calor daquele grupo, se ela seria descartada como um figurino velho e rasgado, então não restaria ninguém para contar a história.
Marlena caminhou em direção ao vagão de Charlie. Ela sabia exatamente onde ele guardava o querosene extra para as lâmpadas de cena. Sabia que o mestre do circo estava em um torpor de ódio e álcool, pronto para ser manipulado uma última vez.
O império de Charlie Swan era feito de medo e madeira seca. E Marlena estava prestes a entregar o fósforo que faltava.
— Se eu vou queimar no inferno — ela murmurou, rindo sozinha enquanto as primeiras chamas imaginárias já dançavam em seus olhos — Eu vou garantir que todos vocês segurem a minha mão.
O plano de fuga estava em movimento, mas a destruição corria mais rápido. E, naquela noite, o circo não iria apenas fechar as cortinas. Ele iria desmoronar em cinzas.
O vagão de Charlie Swan exalava o odor de uma tumba recente. O mestre do circo estava afundado em sua poltrona de couro descascado, segurando uma garrafa de gim com a força de um homem que se agarra ao único mastro de um navio que naufraga. Seus olhos injetados fitavam o vazio, revivendo repetidamente o golpe que Bella lhe desferira, não o tapa físico, mas a acusação de que ele era um monstro e o afastamento.
A porta rangeu. Marlena entrou como uma aparição de pesadelo. Ela não usava o batom carmim que era sua armadura; seu rosto estava nu, marcado pelos hematomas da surra e pelas manchas de uma maquiagem borrada por lágrimas calculadas. Ela não caminhava com a altivez de uma estrela; ela se arrastava, os ombros encolhidos, o robe de seda sujo de lama nas barras.
— Saia daqui, Marlena — Charlie grunhiu, a voz arranhada pelo álcool. — Eu já perdi o bastante hoje.
— Eu também perdi, Charlie... — ela sussurrou, desabando aos pés dele, as mãos agarrando os joelhos do homem. — Eu perdi tudo. A minha dignidade, o meu lugar nesta tenda... e agora, eu perdi o meu futuro.
Charlie olhou para baixo, o desprezo lutando contra a curiosidade mórbida.
— Do que você está falando, sua idiota?
Marlena soltou um soluço dilacerante, escondendo o rosto entre as mãos. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som da chuva batendo no teto metálico, antes dela lançar a granada que mudaria o curso daquela noite para sempre.
— O Edward me usou, Charlie. — Ela levantou o rosto, os olhos transbordando uma agonia que parecia real demais para ser questionada. — Ele prometeu que me levaria embora, que eu seria a sua rainha fora desta lama... E agora eu descobri que as sementes que ele plantou estão crescendo dentro de mim.
Charlie congelou. A garrafa de gim parou a centímetros de seus lábios.
— O quê?
— Eu estou grávida, Charlie. — Marlena fechou os olhos, as lágrimas escorrendo sobre as marcas roxas em seu rosto. — Eu carrego o sangue daquele traidor. Ele me enganou... ele me usou para chegar na Bella, para destruir você de dentro para fora. Ele quer levar a sua filha e o seu circo, e agora ele me deixou com esse fardo.
O impacto da mentira foi atômico. Charlie sentiu a posse, o único pilar que sustentava sua sanidade, ser arrancado de sob seus pés. Edward não apenas roubara a lealdade de sua filha; ele profanara o que Charlie considerava sua propriedade privada. Na mente paranoica do mestre do circo, o veterinário era um vírus que infectara tudo o que era dele.
Marlena saiu do vagão minutos depois, deixando para trás um homem que não era mais um líder, mas uma fera encurralada. Charlie não gritou de imediato. O surto foi uma progressão lenta e aterrorizante, como o pavio de uma dinamite queimando centímetro a centímetro.
Ele deu um gole longo na garrafa, sentindo o líquido queimar a garganta e incendiar o ódio em seu peito. Cada batida da chuva parecia a voz de sua falecida esposa, sussurrando julgamentos. “Você destruiu tudo, Charlie... você é um monstro, Charlie...”
— Silêncio! — ele urrou para o teto vazio.
Ele se levantou, cambaleando. Com um movimento brusco, ele varreu a mesa principal. Pratos de porcelana cara, restos do jantar sabotado e as taças de vinho voaram contra a parede, estilhaçando-se em mil pedaços de vidro e memórias. O barulho de destruição parecia alimentá-lo.
— Traidores... — ele balbuciou, chutando a cadeira de veludo onde Bella estivera sentada. — Todo mundo nesse maldito circo me traiu!
Ele começou a caminhar pelo vagão, quebrando quadros de espetáculos antigos, rasgando as cortinas de seda que Marlena tanto amava. Sua respiração era um chiado animal. Ele via o rosto de Edward em cada sombra, o sorriso de Bella em cada fresta de luz. A humilhação de ser "trocado" por um veterinário e o peso da mentira de Marlena sobre o filho de seu inimigo agiam como um catalisador químico.
Ele parou diante de um espelho grande e ornamentado. O reflexo que viu não era o do grande Charlie Swan, o dono do maior espetáculo da região. Era um homem velho, suado, com os olhos injetados de loucura e a alma em frangalhos.
— Eu dei tudo a eles! — ele gritou para o próprio reflexo, a voz subindo até um tom inumano. — Eu dei o pão, eu dei a lona, eu dei a proteção! E eles me cospem na cara? Eles tentam fugir do meu domínio?
Com um urro de fúria, ele desferiu um soco contra o espelho. O vidro se partiu em uma teia de aranha, cortando seus nós dos dedos, mas Charlie não sentiu a dor. O sangue que escorria por sua mão era o único calor que ele ainda conseguia sentir.
O colapso estava completo. A paranoia, alimentada pela mentira de Marlena e temperada pelo gim barato, transformara o mestre do circo em um carrasco que não tinha mais nada a perder. Se o império ia cair, ele garantiria que as chamas fossem altas o suficiente para serem vistas do inferno.
Ele caminhou até o canto do vagão, onde guardava o latão de querosene e o seu revólver de cabo de madrepérola. Seus olhos brilhavam com uma lucidez perigosa.
— Se vocês querem ser livres... — ele sussurrou, limpando o sangue da mão na calça manchada — ...vão ter que aprender a dançar no fogo.
Lá fora, a noite estava prestes a se tornar o dia mais claro e mortal da história do Circo das Sombras. O rei estava louco, e a coroa estava em chamas.
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