The Chronicles of Kyra
1 Runaway from home
Notas iniciais
Gotas. Chuva. Temporal. Aguaceiro. Quase parecia que o mundo ia acabar. E, realmente, quase acabou para Kyra Lenvski. A pequena garota corria desesperada por entre as árvores e arbustos, furtiva, como a sombra da noite ao cair. O céu apresentava um crepúsculo melancólico, aproximando-se da total escuridão do fim do dia. O único som desse lugar era os passos pesados, porém rápidos de Kyra, e, os ventos secos e gélidos que insistiam em soprar por entre a vegetação e os cabelos frisados da menina. Esse ar entrava em seus pulmões, fatigando-a. O cenário era de absoluto repouso e uma calmaria cínica, de quem esconde uma tormenta por trás de um belo jardim. Kyra não reparava ao seu redor, o único instinto que a clamava era o da sobrevivência, e sobreviver, significava sair dali o mais rápido possível. Ela estava com medo, precisava fugir, se esconder e... Nunca mais voltar. Esse era o pensamento da garota, enquanto corria, e suas pegadas eram amortecidas pelas folhas caídas e mortas da estação de outono. A chuva parecia aumentar, com suas gotas volumosas e ríspidas caindo aos montes e deixando-a encharcada. Mas, por pior que estivesse o tempo, dentro de Kyra estava um desastre. Sentia como se uma tempestade tivesse a atravessado por dentro e destruído tudo o que havia de bom. Seus medos, inseguranças e fraqueza haviam feito-na sucumbir diante das iminentes ameaças: guerra, traição e poder. E ela não pôde contê-las. Enquanto avançava para longe do que um dia fora seu reino, jurou para si mesma que nunca mais voltaria ali. No momento de sua promessa, um relâmpago atravessou os céus e retumbou ao som do trovão no solo, gerando uma forte faísca no ar. Estava feito. Fechou os olhos e parou. Sentiu o cheiro de queimado adentrando ao seu corpo. E então começaram os gritos. Lamentações, choros, sofrimento, vindo de todos os lados e atingindo-na como facadas em suas costas. Ela não podia vê-los, mas conseguia sentir sua presença, cercando-a e sufocando-na. Ela não conseguia correr ou gritar para pedir ajudar, ninguém viria ao seu chamado. Ela estava tão perto, quase conseguiu sair, sobreviver. Sentiu o vento cada vez mais frio, a dor em seus pulmões a fizeram cair sentada ao chão. Abaixou a cabeça por entre os joelhos e tentou tapar os olhos com as mãos, mas estavam sujas de sangue e sentiu-se entorpecida. Além disso, as vozes continuavam a pertubá-la, dentro de sua cabeça, lendo sua mente e aterrorizando-a. Ela não sabia se chorava ou se eram as gotas de chuva descendo pelo seu rosto. Não conseguia mais raciocinar, estava perdida em seus medos. Espíritos algozes atormentavam-na. Ela não resistiu. Desmaiou, e apagou na total escuridão dos seus pesadelos.
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