The Chosen One
29 There's Certain Things That Should be Left Unsaid
Quando meu corpo bateu na água foi como se milhares de agulhas estivessem atravessando minha pele ao mesmo tempo.
Meus braços escorregaram dos corpos de Justin e Gállates havia muito tempo. O braço de Justin fora o último a me deixar quando eu comecei a cair sozinha.
Meu cérebro estava entorpecido, meu coração ainda batia como se pretendesse pular fora do meu peito e eu só reagi quando meus pulmões queimaram implorando por ar. Então eu abri meus olhos. E eu não vi absolutamente nada. A água era realmente escura. Não suja ou barrenta. Escura. Sabe quando você está usando o guache preto e vai lavar o pincel? Aquela água era duas vezes mais escura. Eu congelei de medo. Eu sabia que estava bem no fundo porque a pressão da água me segurava lá, mas mesmo assim eu não tinha pé. E eu realmente precisava de ar. Eu fiz o melhor que pude para pegar impulso pra subir, o que não funcionou muito bem por falta de apoio. Não muito acima alguma coisa roçou no meu braço. Eu deveria ter me esquivado como meus instintos me disseram pra fazer, mas eu segurei antes que a correnteza levasse. Minha esperança era que fosse um dos outros. Mas não era. Era um braço, definitivamente, mas olhando para cima, aonde um fraco feixe de luz chegava, eu vi um rosto em decomposição. Meu grito foi cortado pela água que começou a entrar por minha boca e nariz, tarde demais eu percebi que não havia quantidade suficiente de oxigênio naquela água pra mim. Eu comecei a me debater tentando chegar á superfície, mas á água não parava de entrar, mesmo que eu tentasse prender a respiração, rapidamente meu cérebro voltou ao estado entorpecido e minha visão se encheu de pontos brancos. Morrer não é uma coisa fácil. Não quando você nem dar seu último suspiro, não quando você está sentindo a água tomando conta do seus pulmões, e quando seu coração está tão acelerado que você sente que ele vai parar a qualquer momento.
Gállates
Minha “aterrissagem” só não foi mais dolorida por que as copas das árvores amorteceram minha queda, mas eu não saí ileso. Eu bati minhas costas em um galho especialmente grosso. Fora os arranhões pelo caminho até o chão.
Eu me sentei meio tonto, apoiado no tronco da árvore da qual eu acabara de cair e precisei fechar os olhos um tempo para recuperar o equilíbrio. Quando consegui manter-me sob controle eu olhei ao redor. Era uma clareira muito bonita. Rodeada de árvores grandes, de troncos saudáveis e copas em brilhantes tons verdes sob um céu claro e limpo. Seria um lugar bonito e de certo modo até seguro, a não ser pelo rio negro alguns metros a frente. O rio me dava calafrios só de ver o movimento da correnteza. Ele parecia feito de petróleo visto de longe como eu estava. Ele transmitia uma doentia sensação de morte, como se ele fosse realmente feito de morte.
- Isso não é normal. – Eu disse. Como podia uma floresta tão viva ladear aquele rio?
Eu foquei em encontrar os outros. Alguns metros para esquerda Lucas saiu do rio puxando a mão de Jean. Thalia estava caída alguns passos atrás segurando o braço esquerdo que parecia machucado. Leon estava caído bem longe dos outros, na outra margem do rio com Sarah e nenhum dos dois parecia bem. E Justin apareceu atrás de mim como um fantasma, com cortes por todo o rosto e braços.
- Cadê a Alethia? – Perguntamos ao mesmo tempo um para o outro.
- Ela estava com a gente, ela devia ter caído por aqui! – Justin disse preocupado.
Creio que nós tivemos o mesmo pensamento, pois com uma troca de olhar e nos pusermos a correr ao redor da clareira gritando por ela, mas foi Lucas quem respondeu.
- Aqui! – Ele gritou.
Quando voltamos para a margem do lago, Lucas se jogara dentro do rio e sumiu nas águas escuras. Então ele emergiu com Alethia nos braços, mas ela estava desacordada.
- Alethia! – Justin disse em voz baixa, por alguma razão ele ficou pálido e congelou ao vê-la.
- Sai da frente! – Eu disse esbarrando em seu ombro de propósito enquanto corria até a margem do rio.
Lucas me passou Alethia e eu a deitei no chão. Não demorou muito para que os outros estivessem ao nosso redor.
- Ela não está respirando! – Jean disse com o rosto próximo do rosto de Alethia.
- Certo, curso de primeiros socorros da escola... – Justin disse.
Lucas foi o primeiro a reagir. Ele ajoelhou-se ao lado da cabeça de Alethia e colocou a mão na nuca dela e ergueu o pescoço dela, com a outra ele tampou o nariz dela. Ele inspirou profundamente e então começou a fazer respiração boca-a-boca nela. Thalia rasgou a gola da camiseta de Alethia. Lucas repetiu o movimento seis vezes.
- Voltou? – Ele perguntou rapidamente e voltou à respiração boca-a-boca para não perder o ritmo.
- Pulso fraco. – Jean disse.
- Circulação. – Justin disse e olhou pra mim.
- Thalia pega um braço, Jean o outro, Justin e eu ficamos com as pernas. – Eu disse.
Então nós começamos dobrar e esticar os membros de Alethia para estimular a circulação.
Então Leon e Sarah apareceram ao nosso lado. Leon se ajoelhou ao lado de Lucas e abriu os olhos de Alethia.
- Pupíla dilatada. – Leon disse.
- O que isso quer dizer? – Perguntei.
- Parada cardíaca.
Imediatamente Jean soltou o braço de Alethia e começou a fazer massagem cardíaca. Lucas parou a respiração boca-a-boca e olhou para Jean.
- 101, 102, 103, 104, 105. – Jean disse para manter o ritmo da respiração enquanto comprimia o tórax de Alethia.
Jean fez a compressão cinco vezes. No final da última Lucas fez mais uma respiração boca-a-boca.
Jean repetiu o movimento 15 vezes, Lucas, três. Então, com um estremeção e uma sugada de ar ruidosa, Alethia voltou a respirar.
Só então eu percebi que todos nós estávamos com os olhos marejados. Jean e Lucas se deixaram cair para trás enquanto respiravam aliviados, Thalia, Justin e eu largamos os membros de Alethia e todos se afastaram pra que ela pudesse respirar.
Justin
Minhas mãos tremiam tanto que nem fechadas em punho eu conseguia controlar.
Agora ela estava recobrando os sentidos e olhava vagamente para cima. Ela sorriu ao focar o céu. Ela estava pálida, e pelo pedaço de pele que eu peguei em sua perna, ela estava fria também.
Ela tentou se levantar, mas Gállates aparou. Eu deveria ter feito com os outros que foram atrás de suas coisas e começaram a colocá-las sob o Sol para secar, mas não, eu tinha que ficar lá e olhá-los. Depois de tudo o que Alethia me dissera, eu queria ver o que aconteceria agora.
- Gallátes? – Alethia chamou com sua voz fraca.
- Eu estou aqui. – Ele disse passando a mão pelos cabelos molhados dela.
- Oi. – Ela disse com um sorriso pequeno, virando o pescoço para vê-lo.
- Oi. – Ele respondeu com um sorriso duas vezes maior que o dela. – Como você está?
- Viva não é?
- É.
- Então eu vou ficar bem.
- Sim você vai.
- Eu achei que não ia te ver nunca mais.
- Mas eu to aqui. Sempre vou estar.
- Eu adoraria te abraçar sabe, mas todo o meu corpo está doendo. Se importa se eu ficar te devendo?
- Claro que não, sua boba.
- E os outros?
- Estão todos bem.
- Que bom. Posso dormir um pouco? Eu me sinto como se tivesse sido pisoteada por uns milhares de touros.
- Acho que não. Você está fraca demais ainda. Espere pelo menos até Jean achar a mochila dela e trazer Néctar pra você.
- Tudo bem então, mas posso pelo menos sair do Sol?
Gállates levantou-se e estava se preparando para pegar Alethia no colo quando eu me manifestei.
- Quer ajuda?
- Não, obrigado.
Gállates pegou Alethia nos braços e levou-a para a sombra de uma árvore especialmente robusta na borda da clareira, então colocou-a sentada, sentou-se atrás dela e Alethia recostou-se no peito de Gállates, sentada entre as pernas dele.
- Assim está ótimo. – Ela disse sorrindo.
E eu continuava lá, no meio da clareira, os olhando. Isso não estava certo. Ela não devia estar nos braços de outro. Eu sei que fiz por merecer ver essa cena, mas mesmo assim. Eu não deveria estar com ciúmes. Isso não está certo. Definitivamente não estava certo doer tanto quanto doía.
O mais difícil de admitir disso tudo é que eu tive que sair do campo de visão dos outros e me esconder atrás de um tronco para chorar.
- Dói não é? – Alguém perguntou acima de mim.
Ergui meus olhos, ainda choroso e vi Lucas olhando pra mim com piedade nos olhos.
- Tire essa piedade dos seus olhos, eu não preciso dela. – Eu disse mais grosseiro do que pretendia.
- Quando você brigou com ela, me usando de desculpa, eu disse pra você que você estava cometendo uma burrada, não disse? Aí está, dito e feito.
- Você veio aqui só pra dizer algo que eu já sei?
- Ok, desculpe. Mas eu sou seu amigo, eu preciso dizer pra você que você fez uma burrada enorme.
- Lucas, por favor.
- Desculpe. Mas agora que a burrada já tá feita, não adianta se esconder pelos cantos e chorar. Você precisa enfrentar isso como um homem, não como um garotinho sofrendo de primeiro amor.
- Mas ela é meu primeiro amor, dá pra considerar? – Perguntei secando minhas lágrimas com as costas da mão.
- Ah cara, é sério isso?
- É.
- Você nunca gostou de uma menina do parquinho, uma vizinha, uma garotinha da escola, uma prima?
- A Alethia era tudo isso. – Eu disse, me dando conta disso pela primeira vez. – E depois ela virou a amiga gostosa do meu amigo, a menina adorável da sala do lado, a animadora de torcida que me fazia querer jogar só pra fazer gols pra ela. E foi com ela que eu pensei em filhos e casamento pela primeira vez na vida.
- Ah droga. – Lucas disse sentando-se ao meu lado.
- O que foi?
- É mais sério do que eu pensava.
- É. Com certeza. Agora você pode, por favor, se retirar, pra que eu possa voltar a chorar pelo meu primeiro amor?
- Você gosta mesmo dela. – Lucas disse. Não era uma pergunta.
- É. Eu sempre a amei. O sentimento mudou de forma, mas a vida toda foi amor. Definitivamente foi.
- Cara, isso não é normal. Quero dizer, sabe aquele mito de que todo humano passa a vida tentando achar sua metade? Então, eu acreditava bastante nele, até agora.
- Pode continuar acreditando – Eu disse. – É só que eu não tive que perder minha vida procurando minha metade, ela nasceu na casa da rua de trás.
Lucas riu. Então nós ficamos em silêncio um longo tempo.
- Eu errei tanto com ela.
- Imagino. – Lucas rebateu.
- Ei!
- Foi mal! Anda, vamos voltar, Jean e Thalia acharam bananas e cocos.
Alethia
Quando eu acordei o céu estava muito escuro, já devia ser muito tarde. Tinha uma fogueira acesa no meio da clareira, ela iluminou apenas alguns rostos, como o de Jean, Thalia, Lucas e Sarah, apenas Gállates e eu estávamos mais afastados. Eu podia ouvir sua respiração leve em meu pescoço, ele estava dormindo pesadamente. Havia muitas coisas perto da fogueira: roupas, cascas de banana e cascas de coco.
Jean havia me dado um pedaço de Ambrosia antes de eu ter pegado no sono, então eu já estava me sentindo forte. Então me levantei cuidadosamente para não acordar Gállates. Eu me aproximei da fogueira e vi que ainda havia frutas, o que era uma coisa boa porque eu estava morta de fome. Enquanto eu comia a primeira banana, uma coisa me chamou a atenção: Justin e Leon não estavam na clareira.
Eu tentei prestar atenção nos sons ao meu redor e um farfalhar de folhas atrás de mim me deu uma pista de pra onde eles poderiam ter ido. Deixando para trás a casca da banana, eu segui os ruídos das folhas e o som dos pequenos gravetos estalando. Graças aos deuses eu fiz isso silenciosamente; Alguns bons metros floresta adentro eu consegui finalmente vê-los e ouvir a conversa.
- ... Acho que sim. – Justin dizia. E essa, é? – Ele perguntou mostrando a Leon uma frutinha na palma de sua mão.
- Não tenho certeza. – Leon respondeu – Pode ser que sim. Pra quem vai ser?
Justin hesitou um longo tempo antes de responder.
- Sarah. Eu acho. Ela nunca esteve nos meus planos. – Então ele fez uma pausa e riu de um jeito meio macabro – Ou Gállates. Mas talvez ainda não seja o tempo dele. Eu sinto que com ele o buraco é mais pra baixo. E eu não sei se só isso o tiraria do jogo. – Então ele fez outra pausa e ergueu os olhos para Leon, com certa curiosidade. – Mas e você, han?
Leon riu de um jeito melancólico antes de responder:
- Estou durando mais do que você esperava, não estou?
- É, você está. – Justin concordou.
- Eu já estou doente. Muito doente. O que você quer mais?
- Quero que você caia morto o mais rápido possível. – Justin disse seco.
Nenhum dos dois riu, nenhum deles deu sinal de que estava brincando. Isso fez meu coração acelerar. Os dois deram as costas um pro outro e começaram a andar em silêncio.
- Você sabe que não precisa ser assim, não é? – Leon perguntou um tempo depois quebrando o silêncio tenso.
Justin parou, olhou para Leon e balançou a cabeça negativamente.
- É um caminho sem volta, Leon. Uma vez que você aceita a morte como opção, a escolha está feita.
- Eu ainda estou vivo! Você pode desistir ainda!
- Não posso!
- Nunca é tarde demais pra se arrepender, Justin!
- Eu me arrependi no momento que vi você com aquele copo e não fiz nada pra te impedir de beber. – Justin disse. Sua voz quebrou no final. Eu reconheci aquele tom. Ele estava à beira do choro.
- Você não está fazendo isso só porque Hades quer, não é?
Justin assentiu. O momento de ânimos exaltados terminara.
- Por isso eu não posso desistir. – Ele disse.
- Você sabe que não pode manipular uma profecia, não sabe?
- Quem disse que eu não posso?
- O simples fato de você não saber a profecia em questão por completo. – Leon disse, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Olha, Leon, eu sei o bastante.
- 3 linhas de sabe-se lá Deus quantas, Justin! Você não sabe se elas são do começo, do meio ou do fim da profecia. Você pode estar interpretando errado, já pensou nisso?
- Ninguém que dizer as outras linhas, e eu tenho que fazer isso o mais rápido possível. Não tenho tempo para estar errado.
- Mas e se você estiver?
- Vai dar tudo errado e todo mundo morre.
- Simples assim?
- É claro que não é simples, mas é o que vai acontecer. Com vocês pelo menos, se eu falhar, nem quero imaginar o que me espera.
Mais uma daquelas pausas longas. Eles voltaram a caminhar e eu voltei a segui-los.
- E a Alethia? – Leon perguntou.
- Que tem ela?
- Você vai matá-la também.
- Não.
- Não? Porque?
- Porque eu quero ver até onde ela agüenta seguir sozinha.
- Isso é arriscado.
- Porque?
- Uma vez que forem só vocês dois, ela não vai se deixar ficar pelo caminho, ela vai confrontar você. Você sabe que quanto mais sozinho, mais forte.
- Não com ela. Alethia não sabe seguir sozinha.
- Você a subestima demais. – Leon disse. – Ela vai acabar de surpreendendo, você vai ver.
- Ela não vai não.
- Você quer ser o único a chegar não é?
- Claro.
- Você não vai conseguir matá-la depois, vai por mim.
- Eu não vou matá-la porque ela vai ficar pelo caminho por conta própria. Assim como Lucas.
Leon balançou a cabeça negativamente nas costas de Justin.
- Não. O Lucas não. Ele é mais esperto do demonstra ser.
- Tanto faz, se ele não morrer por falha própria, eu o mato. –Justin disse frio, dando os ombros.
- Você está me causando calafrios.
Justin riu.
Eu finalmente me dei conta de que tremia, que minha respiração estava desigual. Eu me obriguei a dar as costas para a conversa. Eu não via mais a luz da fogueira, enquanto caminhava tentei ouvir qualquer crepitar de fogo que pudesse me levar de volta, mas não foi tão fácil achar a clareira quanto eu pensei que seria, mas mesmo assim consegui chegar.
Eu estava suado frio quando me sentei perto da fogueira, aos pés de Lucas. Eu cobri meu rosto com as mãos e comecei a pensar em tudo o que ouvira. Meu cérebro trabalhava a mil por hora tentando raciocinar sobre aquela conversa. Eu não podia acreditar que Justin estava fazendo aquilo. Justin envenenara Leon. E o pior era que Leon continuava tentando ajudá-lo. Eu olhei para todos os adormecidos ali e comecei a chorar. Justin ia matá-los um por um. Não. Eu não posso deixar que ele faça isso. Mas o que eu vou fazer? Matá-lo primeiro? Não. Tinha essa coisa de aceitar a morte como opção, não sei o que isso quer dizer, mas não parece uma solução. Eu não posso cometer o mesmo erro que ele. Eu olhei para Sarah, ela era a próxima. Decidi manter um olho nela e um em Justin a partir daquele momento. Mas eu precisava ser cautelosa, preciso aproveitar o fato de Justin me subestimar. Mas e se ele estivesse certo? E se eu falhar e ele conseguir matar alguém? Será que terei força para proteger os outros? Eu considerei acordar Lucas e contar a ele tudo o que eu ouvira, mas eu não podia. Não depois de lembrar o quanto ele acreditava em Justin.
Então eu ouvi passos na clareira. Justin e Leon estavam de volta.
- Alethia? – Justin chamou em voz baixa.
Eu não consegui olhá-lo. Pela primeira vez em toda a minha vida eu estava com medo dele.
Ele chamou meu nome outra vez.
- Hm? – Respondi sem olhá-lo.
- Como você está?
- Bem. – Eu disse tentando não parecer assustada.
Ele deu a volta e se ajoelhou na minha frente. Eu tive que olhá-lo.
- Você estava chorando?
- Um pouco de dor cabeça, só isso.
- Mas de resto?
- Estou bem, não se preocupe.
- Você me deixou seriamente assustado hoje. – Ele disse e sorriu de canto.
Eu desviei o olhar e ele fez uma coisa que eu não esperava: ele me abraçou.
Eu não retribui, fiquei estática enquanto tentava segurar a nova enxurrada de lágrimas. Como ele podia parecer tão bem com tudo isso?
- Está com fome? Leon e eu trouxemos umas frutinhas.
- Não. – Eu disse rapidamente. – Estou bem.
Eu não conseguia ficar olhando pra ele, então eu me levantei e fui me sentar ao lado de Gállates.
- Gállates? – Eu chamei o sacudindo.
Ele acordou rapidamente, meio assustado.
- Tudo bem, Galena? – Ele perguntou com um sussurro esfregando os olhos.
- Sim. – Eu respondi no mesmo tom – Mais ou menos.
- O que foi? – Ele me olhou sério.
Eu vi que Justin nos olhava.
- Me abraça, por favor?
Gállates sorriu de canto e passou um braço por meus ombros e o outro ao redor da minha cintura.
- Melhor?
- Sim, obrigada.
- Você está com fome?
- Não.
- Você precisa comer.
- Eu comi uma banana.
- Uma só?
- Não acho que consigo mais comer. Mas, você está cansado, volte a dormir.
- Eu posso te fazer companhia se você quiser.
- Você ficou comigo enquanto dormia, pode dormir.
Ele não hesitou em fechar os olhos.
Eu encostei minha cabeça em seu ombro e fiquei olhando Justin me olhar.
Mas ele desistiu em seguida e foi dormir. Eu fiquei acordada o resto da noite pensando no que fazer a respeito de Justin.
Quando os primeiros raios de sol atingiram o solo, a maior parte dos adormecidos acordou por si só, mas alguns como Lucas, Sarah, Jean e Gállates precisaram ser cutucados.
- Porque tão cedo? – Lucas resmungou esfregando os olhos.
- Nós precisamos decidir o que vamos fazer, nós não estamos acampando. – Thalia respondeu colocando os cabelos no lugar.
- Nós temos que chegar até o outro lado daquele vale. – Justin disse apontando para um ponto exatamente a minhas costas.
Eu me virei e estudei o tal vale, ele parecia longe.
- Porque? – Jean perguntou.
- Bem, esse rio tem que nascer de algum lugar.
- E chegar até a nascente desse rio vai nos ajudar em quê? – Jean continuou.
- Não sei se você reparou, mas o rio é preto. – Justin rebateu.
- Ele tem razão. – Lucas disse. – Nada que faça um rio ser preto, é normal, nós temos que achar a fonte disso.
- Não que a gente tenha mais o que fazer, não é? – Gállates disse sarcástico.
Então nós juntamos nossas coisas, comemos mais uma rodada de bananas e coco e apagamos a fogueira.
- Sério, acho que meu estomago não agüenta outra rodada de coco e banana. – Lucas disse.
- Nem eu. – Sarah concordou.
- Com sorte nós achamos mangas lá pra cima. – Leon disse.
- Isso é sorte? – Lucas rebateu.
Nós optamos por caminhas ladeando o rio, assim não teria risco de nos perdermos na floresta. Conforme caminhávamos o barranco ia ficando mais alto, empurrando o rio cada vez mais baixo.
Eu me vi analisando os outros de novo. Parece que eu havia pegado o estranho costume de observá-los.
Aquele pedaço de madeira que Thalia costumava talhar ganhara a forma de um lobo ao qual ela agora finalizava. As calças de Lucas estavam deixando metade de sua cueca azul aparecendo devido o peso das peças e das ferramentas que ele colocara no bolso para que pudesse revisar com facilidade. Sarah despedaçava uma flor enquanto olhava para o horizonte. Eu comecei a divagar sobre o que Justin pretendia fazer com ela, quando Gállates moveu-se do meu lado e tomou o lado de Justin à frente do grupo. Eu estava muito atrás para ouvir o que eles falavam, mas eles gesticulavam muito e apontavam em várias direções e a conversa parecia boa. Por um único segundo o mundo ao meu redor foi desligado da minha atenção enquanto eu olhava os dois. Eu me senti bem, feliz por um instante. Creio que foi quando eles olharam um pro outro e sorriram. Eu senti meus lábios se abrindo em um sorriso também. Por algum sentimento que eu não sei de onde veio, eu senti e acreditei que nós deveríamos conviver juntos para sempre, Justin, Gállates e eu, naquela paz que eu estava vendo. Do que será que eles falavam?
Então Justin parou abruptamente, em um movimento tão simples que ninguém percebeu porque. Ele segurou o braço de Gállates, mas Sarah, que estava logo atrás dele, não foi avisada.
Minha atenção voltou ao foco tão rápido que eu me senti tonta. Havia uma falha no barranco, terra cedida. Sarah sumiu no barranco deixando para trás um grito longo e agudo.
- Não! – Seis vozes gritaram.
No segundo de choque meus olhos fora direto a Justin, que encarava o rio lá embaixo imóvel, enquanto Gállates passava por ele como um foguete.
Lucas adiantou-se, mas Leon e Thalia o impediram.
Eu olhei para o declive, ele era grande. Mas era um deslizamento de terra, tinha como descer. Não sei se despencar desavisadamente incluía, mas dava pra sobreviver.
- Sarah! — Gállates chamou.
- Meu tornozelo! – Ela gritou de volta, sua voz longínqua e chorosa.
- Eu vou descer. – Lucas disse se adiantando outra vez.
- Calma aí herói, eu também quero salvar uma donzela em perigo. – Gállates disse se precipitando no declive da terra.
Bem, ele escorregou uns dois metros para baixo e rolou os outros 15.
- Tem certeza que não precisa de um herói? – Lucas gritou rindo.
- Há. Há. – A voz de Gállates chegou até nós.
Eu olhei para Justin e vi Leon ao seu lado.
- Isso é crueldade. – Leon sussurrou.
- Eu tinha que começar de algum lugar. – Justin respondeu no mesmo tom.
Eu tive vontade de socá-lo.
Foi pelo menos uma hora de aflição até que Gállates apareceu com Sarah nos braços. Ambos estavam com grandes ralados nos rosto e braços e as roupas barrentas, mas Sarah chorava por causa do tornozelo que agora apontava para o ângulo contrário.
Nem uma hora de caminhada e nós tivemos que fazer uma parada.
Leon improvisou uma tala com um pedaço de madeira e uma camiseta; Lucas fora o único com coragem o bastante para colocar o osso de Sarah no lugar. Não posso dizer como foi porque dei as costas, só o grito dela já me causou dor. Não pudemos fazer nada com os ralados porque não tínhamos água, então achamos melhor seguir. Sarah apoiou-se em Gállates e Lucas e nós voltamos a caminhada.
Nós ficamos em um silêncio incomodo por um longo tempo, a única a fazer barulho era Sarah com seu choramingo.
Nós devemos ter andado pelo menos seis dias e cinco noites.
Parávamos antes do entardecer para procurar comida e arrumar um lugar pra dormir. Terminamos a subida da primeira colina e tínhamos iniciado a descida. O tornozelo de Sarah melhorara, ela conseguia andar sozinha agora, mancando, mas conseguia. E aconselhei Jean a dar uma gota de néctar à Leon todos os dias, brigando, mas ele aceitava. E ele parecia melhor agora. Justin não parava de dar investidas silenciosas em Sarah; chutando seu tornozelo dolorido, esbarrando nela com força, dando frutas venenosas como frutinhas silvestres. Tudo isso seguido de “sem querer”. Pedi a Gállates que ficasse perto dela, ele não fez perguntas quando eu disse que era importante pra mim. Nem tudo ia tão bem. Nós estávamos fracos por causa da escassez da comida, então vivíamos com os nervos a flor da pele durante o dia. Eu e Jean quase saímos no tapa por causa do meu tropeção no qual eu caí em cima dela. Bem como Leon e Jean tiveram uma discussão, Thalia e Justin, Lucas e Justin. Não me lembro de nenhuma das brigas ter acabado com um pedido de desculpas, mas no final do dia tudo ficava bem quando estávamos em volta da fogueira. Uma noite nós cantamos; alguns até dançaram. E nós conversamos bastante também, o que era bem agradável. Eu me aproximei de Sarah nesse meio, ela era até suportável. Mas eu não troquei uma palavra com Justin, sempre me afastava dele, mas continuei a manter os olhos no que ele fazia, nas plantas que mexia e pra quem ele olhava quando ficava em longos períodos de silencio. Isso o quase deixou perturbado um dia. Bem, no final de todos esses dias o rio continuava preto, sem alteração a não ser pelo estreitamento conforme nos aproximávamos da nascente. Tivemos que nos virar bebendo e acumulando orvalho. Mas o que me chamou a atenção é que nada nos atacou, não vimos nenhum animal na floresta, em lugar nenhum apesar dela ser tão bonita e viva.
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