The Chosen One
14 Dizendo Adeus
Aquela manhã eu acordei me sentindo muito bem e tinha decidido tirar o dia para ficar com o Justin, mas ele não parecia ter a intenção de fazer o mesmo.
Quando eu cheguei ao pavilhão do refeitório, Justin estava sentado nos primeiros degraus ao lado de uma menina muito bonita que eu ainda não sabia o nome, mas já vira algumas vezes. Ele ria muito enquanto ela continuava a gesticular e falava e ria também.
Ele não percebeu quando eu me aproximei. Ou fingiu que não.
- Oi Justin. – Eu disse com cautela.
Ele parou de rir no mesmo instante e me olhou de cenho franzido.
- Oi Alethia. – Ele respondeu em tom sério.
- Hm, a gente se vê na praia mais tarde... Tinho. – A menina riu ao dizer o apelido dele.
Eu só tornei a falar quando ela já estava suficientemente longe:
- Você sempre disse que odiava esse apelido e agora já sai divulgando?
Justin suspirou antes de responder.
- Você resolveu falar comigo?
- Eu nunca parei de falar com você.
- Mas nunca tinha tempo pra mim, o que não faz diferença no meu ponto de vista.
O curioso disso tudo é que ele dizia tudo com calma e serenidade, mal levantava o tom.
- Desculpa, eu só estava tentando fazer amigos.... Achei que você, antes de mais ninguém ia entender isso e...
- Certo. Eu tenho que te ver fazer amigos enquanto você me exclui da sua vida?
- Eu não te excluo de nada...
- Ok! Não vou brigar com você. Eu tenho um ótimo dia pela frente e você não vai estragar.
- Eu pensei que nós poderíamos fazer alguma coisa juntos hoje.
- Não sei se vai dar.
- Porque não?
- Porque, você, antes de mais ninguém deveria entender que eu só estou tentando fazer amigos.
- Aquela menina não quer ser sua amiga.
- Nem o Lucas quer ser seu amigo.
- Lucas é um ano e meio mais novo que eu.
- Que diferença faz?
- Toda!
- Só no seu mundo.
- Justin!
E ele meu as costas.
Eu me sentei no lugar que Justin deixava vago no degrau e tentei não ficar brava. Ele estava certo. É difícil admitir, mas ele estava.
Quando todo mundo já estava no refeitório, eu decidi entrar, mas nem toquei na comida direito.
O dia foi chato, nem Lucas conseguiu me fazer rir.
O sol já estava se pondo atrás do pinheiro de Thalia quando Sarah me encontrou nos campos de morango.
- Telefone pra você, Alethia. – Ela disse timidamente.
- Telefone? Quem é?
- Sua mãe.
Eu hesitei e perdi o fôlego por um minuto. Engoli seco e olhei ao redor e finalmente levantei.
Sarah me acompanhou.
- Você é tão linda, sabia? – Eu disse enrolando uma mecha de seu cabelo loiro prateado.
Ela apenas curvou os lábios pra cima.
Sarah me deixou as portas da Casa Grande e se foi.
Quíron me esperava na sala quando entrei a passos trêmulos, o telefone pousado na mesinha.
Ele sorriu me incentivando.
Eu engoli seco outra vez e umedeci os lábios enquanto caminhava para o telefone. Minhas pernas e braços tremiam e quando eu chamei a mulher, por um rápido momento eu imaginei que ouviria a voz de Annabeth.
- Filha! – Era uma voz mais rouca que a de Annabeth e cheia de preocupação. – Está tudo bem?
- Ta. Ta tudo bem... Mãe.
E de repente eu senti uma pontada forte na cabeça enquanto um filme passava em alta velocidade pela minha cabeça. Entre as cenas que eu consegui processar com clareza estavam minha festa de aniversário de três anos onde uma mulher me abraçava e soprava as velas do bolo em forma de coração comigo, uma volta em uma roda gigante, quando ela parou bem no alto... Eu tinha seis anos e ria para a tal mulher, um sorvete caindo no chão e a mulher lamentando comigo e a última foi quando eu disse a ela que estava apaixonada pelo Justin. Nós estávamos sentadas no sofá da sala de um apartamento que eu não conhecia e ela ria e me abraçava.
E eu sabia de tudo, lembrava de tudo... De toda a minha vida com essa mulher que estava do outro lado da linha, mas mesmo assim eu não sabia como era seu rosto.
E eu a amava tanto... E senti saudades de quando ela me levava chocolate quente na cama antes de dormir... Senti o gosto das panquecas que ela me fazia e dos biscoitos de nata e de quando ela me contava do seu dia no estúdio. É ela era uma atriz.
- Eu estava conversando com Quíron, ele me deixou visitá-la nesse fim de semana. – Anya Maria parecia empolgada agora.
E eu quis desligar o telefone e correr. Porque Percy e Annabeth ainda estavam em minhas lembranças. Eu me lembrava deles me abraçando e ambos soprando as velas comigo. Mas agora eu apenas via as lembranças de um ponto exatamente a frente de onde eu sempre estive.
Mas eu não consegui chorar apesar dos meus olhos arderem.
- Nos vemos no fim de semana então mãe. – Eu disse, murmurei um “eu te amo” e desliguei o telefone.
Eu corri até alcançar a praia e finalmente consegui chorar. Chorei um rio de lágrimas e parei, respirei e chorei de novo.
Quando o céu ficou cheio de estrelas e o mar recuou alguém se me encontrou.
- Vem, chega de chorar. – Justin disse me puxando pelo braço.
- Me deixa!
- Porque você está assim?
- Não sei. Agora vá embora.
- É sua mãe que vai vir te ver.
- Anya.
- Anya Maria Edwards. – Justin disse como se fosse a coisa mais obvia do mundo.
- Como é seu nome inteiro?
- Você não sabe?
- Você sabe que não.
- Justin Richard Drew Deverraux.
- De onde você é?
- França. – Justin respondeu puxando o “r”
Eu quase sorri.
- Sua mãe é linda.
- Eu sei.
- E te ama.
- Eu também a amo.
- Qual é seu filme favorito dela?
Eu sabia a resposta.
- “4 in the Morning”.
Justin sorriu e assentiu.
- Porque você está chorando?
Eu pensei e não cheguei a resposta alguma. Então eu fiquei em silêncio.
- Eu sabia.
Justin sorriu de canto e me deu um abraço rápido antes de sair me puxando pelo pulso de volta ao Acampamento.
- E como foi seu dia? – Perguntei quando paramos na frente do chalé três.
- Ótimo. – Ele disse. – Eu disse que ia ser bom sem você.
- Vai começar?
- Não vou começar nada, só comentei.
- Ta bom, Justin. – Eu disse já cansada daquela história. – Depois a gente se vê.
- Não vai jantar?
- Perdi a fome. – Eu disse já de costas pra ele.
- Depois a gente se esbarrar.
- É quem sabe.
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E a semana pareceu passar rápido demais.
Justin não tornou a falar comigo e eu achei melhor deixar tudo como estava. Talvez o mau humor dele passasse e ele resolvesse aceitar o pedido de desculpas que eu fiz aquela manhã.
No fim da tarde, eu fui retirada da quadra de vôlei por Argus que veio me dizer que minha mãe havia chegado.
Não sei bem como me senti, apenas andei e não me lembro em que pensava, nem o que sentia, mas sei que não conseguia respirar direito.
E lá no topo da colina estava Quíron ao lado de uma mulher de longos cabelos loiros, a franja cobria um pouco os amendoados olhos cor de mel. Ela tinha uma pele pálida e olheiras arroxeadas, talvez ela tivesse trabalhado demais e dormido pouco essa semana... Ela vestia uma jeans simples, uma camisa de botões branca com os dois primeiros botões abertos, uma bota dessas de campo. Um grampo em formato de borboleta brilhava refletindo o sol em seus cabelos que dançavam sob a brisa fraca.
E ela sorriu ao me ver. E seu sorriso alcançou os olhos e os fez brilhar.
E eu sorri e corri para os braços dela que estavam abertos me esperando.
Nos abraçamos bem forte e a única coisa que eu me lembro de sentir foi o quanto eu gostava daquele abraço e o quanto eu me senti segura ali nos braços dela.
Anya afagou meus cabelos e disse em meu ouvido o quanto esteve preocupada desde que eu saí de casa.
- Ta tudo bem mãe, eu cheguei aqui inteira não foi? – Eu disse me soltando de seus braços.
Mesmo quase chorosa, ela sorriu.
Quíron nos conduziu até a Casa Grande onde disse que podíamos ficar a vontade e depois ele saiu para ver os campistas.
Minha mãe me puxou pelas mãos até o sofá e me olhou enquanto eu tentava não olhá-la.
- Como você está? – Ela perguntou cautelosa.
- Na verdade bem pouco confortável com tudo isso.
- Com tudo isso o que?
- Você deve saber.
Ela parecia confusa agora.
- Saber do que?
- Você conversou com... meu pai... esses dias?
- Não. Eu já falei pra você que a última vez que eu falei com Poseidon foi quando ele nos deixou.
Eu suspirei e depois nós ficamos em silêncio. Eu me sentia meio desapontada, queria que ela parasse de ser tão amável e bondosa comigo. Queria que ela não me conhecesse.
- Quer conversar? – Anya perguntou.
- Não.
- Sabe, você mudou muito.
- Mudei?
- Você era doce e sorridente, nada podia estragar seu humor... Você me abraçava o tempo todo. Agora você sequer olha pra mim. Quíron disse que a maioria dos campistas não muda de comportamento, mas você... – E aí a voz dela morreu.
- Eu sinto muito. – Eu disse. Mas eu não sentia nada.
Queria acordar desse pesadelo terrível, queria que tudo isso não estivesse acontecendo.
Eu estava odiando essa “experiência”.
Eu me levantei e sai da sala sem dizer nada e caminhei sem rumo, sem prestar atenção no caminho, mas eu vi que Anya não veio atrás de mim.
Já estava escurecendo, eu acabara de pisar na areia quando tudo começou.
Eu ouvi passos estalando na areia morna e quando me virei Justin estava próximo demais.
Sua expressão não era das mais amigáveis. Na verdade ele estava queimando de ódio. Eu nem consegui abrir a boca para perguntar o que tinha acontecido.
- Porque você fez isso? – Justin perguntou em voz alta, quase gritando.
- Fiz o que? – Perguntei surpresa.
- Alethia ela é sua mãe!
- Porque você está tão bravo por isso?
- Porque você não pode fazer isso!
- Fazer o que? – Perguntei alcançando seu tom de voz.
- Olha, Percy e Annabeth estão MORTOS! Você não é nada além de meia-irmã de um morto! Você tem que tirar eles da cabeça!
- EU NÃO CONSIGO! – Eu gritei.
- Esse é seu problema.
- Justin que aconteceu com você?
- Eu achei que você era diferente... Você sempre me pareceu diferente, mas vendo por esse ângulo, eu sempre estive errado.
- Errado em quê?
- Você é uma fraca! Você não sabe encarar as dificuldades! A única coisa que você faz é fugir! Fugir, fugir e fugir! E isso é um saco sabia?!
“Você fez um caos e depois fugiu por causa de uma maldita sala empoeirada. Você fugiu quando foi derrotada e fugiu quando tinha de enfrentar seu destino!”
Eu senti minha boca se abrir de surpresa a cada palavra que Justin gritava. E mais do que surpresa eu estava com medo. Ele nunca havia gritado comigo antes.
- Você precisa entender que a sua vidinha de princesa acabou! Você não pode sair por cima de tudo porque isso não é uma competição de cheerleaders e isso não é uma coisa passageira! Você precisa esquecer o que aconteceu e eu vou te dar um ponto de partida: Comece por mim.
E ele deu as costas, a passadas fortes moendo a areia sob seu tênis.
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