The Chosen
3 Capítulo 3
Notas iniciais
– Então quer dizer que você acha que seu tio morto não está morto? – Sofia perguntou, perplexa.
Fiz que sim com a cabeça. Olhei no meu relógio de pulso e notei que faltavam cinco minutos para o sinal bater.
– Como seu tio pode estar vivo? – Eric perguntou.
Tá, agora ele me pegou de jeito. Como, ou melhor, por que eu tenho essa estranha sensação de que meu tio está vivo e que por trás da morte forjada dele há inúmeras coisas que ninguém gostaria de lidar? Respirei fundo. Inconscientemente, minha mão foi até o meu bolso, a procura do anel. Por falar nele, aquela minúscula pedrinha incrustada na superfície interna dele tinha mudado de cor. Agora, estava transparente, parecendo um diamante.
– O que sua mãe acha disso tudo? – Sofia perguntou.
– Minha mãe não tem que achar nada. – disse, decidido. – Quero mantê-la longe dessa confusão.
Eric riu de deboche.
– E você, Sr. Sherlock Holmes, vai descobrir tudo sozinho?
– Foi por isso que eu pedi para minha mãe contratar um detetive particular. – expliquei. Todos olharam para mim com um ar de curiosidade.
Quando Laura me contou que a porta do quarto estava trancada e do nada ela se abriu, eu soube no mesmo instante que havia alguma treta ali. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi uma briga. Meu tio, provavelmente, ficou bêbado, disse coisas que não devia e pum! Briga. Só que isso levava a um impasse: a cena acontecera no quarto dele, dentro da casa acabada e mal habitada. Como isso poderia acontecer então?
O que o detetive particular disse era que o salitre do ar (região litorânea) tinha danificado a tranca e que havia grandes chances de ter enferrujado e, de tão desgastada, se tornou frágil. Minha mãe conseguiu acreditar, porque era mais fácil e menos doloroso para ela do que, por ventura, imaginar que seu irmão tinha sido sequestrado e morto violentamente e que seu corpo estava perdido. Eu, é claro, não concordei totalmente. Tá, não concordei nem um pouco. Para mim, alguém invadira a casa durante a noite e abrira a porta. Então, você me pergunta: mas, por que um assassino/sequestrador iria querer que suas provas fossem descobertas? Essa é fácil. Ele quer que isso aconteça para, assim, conseguir atrair mais pessoas para sua armadilha.
– Espera ai! – exclamou Eric. – Você não acha que foi longe demais com essa história?
Sofia me olhava boquiaberta, sem reação.
– Eu ainda não terminei a história. – olhei para meu relógio – E nem vou conseguir. Já está na hora de ir para sala.
– Daniel. – Sofia me chamou, de repente mais séria. – Então você acha que... uma espécie de “gangue” fez isso com seu tio?
– Sim. – soltei o ar dos meus pulmões.
– Mas, por que eles fariam isso? – Eric indagou.
– E essa é a pergunta de um milhão de dólares. – disse, com um ar de derrotado. Fiz um movimento com a cabeça indicando para irmos indo para sala.
– Será que não eram dívidas? – Sofia opinou enquanto subíamos as escadas.
– Não. Minha mãe fez questão de pagar todas as dívidas quando tivemos lá.
– Isso daria um ótimo enredo para um livro ou filme. – comentou Eric antes de nos dividirmos: Eu e ele para uma aula e Sofia, para outra.
Para o meu deleite, a primeira aula era cálculo. Maravilha². Nossa, que piada sem graça. Aproveitei o tempo relativamente livre para ler um livro que eu estava empacado desde a semana passada. Era um romance bem água com açúcar e super dramático chamado Romeu e Julieta. As professoras de literatura e artes mandaram os alunos lerem, porque no meio do ano ocorreria uma peça teatral sobre o livro. Eu me pergunto onde foi parar a criatividade das escolas de hoje em dia. Foi então que, salvando esses cinquenta minutos de bobagens sobre números, eu achei o diário de tio Michael dentro da minha mochila.
Bom, eu não sabia se era realmente dele, porque, na sua capa de couro marrom com uma aparência velha e desgastada, não havia nada. Analisei-o melhor, virando-o do outro lado. Huuummm! Agora, sim, tinha algo escrito. Na verdade, estava tatuado símbolos incompreensíveis em relevo. De repente, senti uma pequena pressão na minha cabeça. Olhei para trás e vi que Eric mantinha um contato visual sugestivo comigo. Claro, só podia ser. Peguei a bolinha de papel do chão e a desdobrei.
“O que você está fazendo?”
Respondi assim: “Posso dizer o que não estou fazendo, que é prestar atenção na aula.”.
Joguei de volta. Em menos de um minuto, sinti a bolinha de novo.
“O que é isso que você está segurando? Parece um caderno.”
Meu sangue gelou e minha vontade na hora foi de meter o diário na mochila e nunca mais tirá-lo de lá, mas, se eu fizesse isso, Eric iria perceber esse meu instinto imediato e questionaria mais tarde o que foi aquilo que eu escondi. Por causa disso, discretamente, coloquei o livro de Romeu e Julieta por cima do diário, como quem quer apenas organizar sua mesa.
“Romeu e Julieta”.
E foi o fim da nossa conversa.
No intervalo, evitei meus amigos, me escondendo na biblioteca. E, sem sobra de dúvidas, levei o diário do meu tio Michael, junto com minhas coisas na mochila. Mas, por mais que eu tentasse, esforçadamente, resolver os enigmas que, ultimamente, vem preenchendo minha vida, estes pareciam tentar, esforçadamente, me deixar com problemas. Um deles era como abrir esse maldito diário. Não tinha nenhum botão, fechadura, corda... Nada. Se você olhasse para ele, teria a impressão de que era um diário comum, mas, quando tentasse abri-lo, perceberia que a capa não desgrudava. Sim! Dava a impressão de que uma força maior e mais forte do que qualquer coisa o selava.
Foi então que me lembrei do que estava escrito na capa do lado de trás. Decidi pesquisar o que era. O problema da internet é que você não sabe em que site confiar. Cada um dizia uma coisa diferente. O primeiro alegava que aquela frase era dos egípcios, que falava sobre uma maldição. O segundo dizia que era latim, mas não especificava a mensagem. Já outro, esse eu cheguei a achar engraçado, falava que não passava de uma simpatia para conseguir emagrecer. Depois dessa, eu desisti, até porque o sinal bateu. Peguei meu diário, subi as escadas rapidamente e entrei na sala.
– Onde você se meteu, Daniel? – Eric perguntou a mim assim que me viu.
– Eu estava na biblioteca... – ele me olhou com uma cara estranha, desconfiado. – Fazendo umas pesquisas... Merda! Esqueci minha mochila lá!
– Corre que dá...
Eu não ouvi a frase toda, porque, na metade dela, eu já estava nos últimos degraus da escada. Cheguei afobado, com o coração a cem por hora. Tinha que pegar a maldita mochila e voltar voando para a aula de biologia... Mas em que diabos de lugar eu a deixei? Fui procurar perto do computador que usei. Não estava lá. Eu tinha certeza de que colocara perto da cadeira!
– Algum problema? – o senhor que tomava conta da biblioteca me perguntou.
– Eu estou... – respondi, recuperando o fôlego. — procurando minha mochila.
– Por acaso é aquela ali? – ele apontou para uma toda preta, idêntica a minha, porque era a minha.
– É essa mesma, obrigado.
– Que bom que você achou o que estava procurando. – disse, sorrindo.
– É, sorte a minha. – respondi, já saindo da biblioteca. Porém, mesmo com o corpo físico fora daquele lugar, minha mente ficou presa naquele instante, mais especificadamente, naquelas palavras.
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