The Chosen
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Na tarde do dia seguinte, enquanto eu quebrava minha cabeça para resolver uma questão de matemática, eu recebi uma ligação.
– Daniel? – falou uma voz feminina do outro lado da linha.
– Mãe? – perguntei. – O que foi?
– Faça suas malas, filho. Nós vamos sair hoje a noite mesmo... – outra voz falou com ela, interrompendo-a – Nós vamos visitar a casa do seu tio Michael.
Tio Michael era o irmão caçula da minha mãe. Ele morava a seis horas da minha cidade, no meio de uma floresta. Tá, deixe-me melhorar isso. Era uma vila de pescadores, só que meu tio não é muito fã do mar, então ele se “escondeu” na floresta. Ele mesmo construiu sua casa, que para ser sincero era uma bela casa de madeira. Só que depois de alguns anos, ele meio que pirou. Minha mãe disse que ele teve uma espécie de crise de comportamento, por viver muito longe das pessoas, ou seja, ele ficou esquizofrênico. Algumas vezes nós íamos visitá-lo, só que Michael nos tratava como se não nos reconhecêssemos. Raramente ele dizia alguma coisa direcionada a nós, sempre falava consigo mesmo.
Uma vez, ele me contou uma história muito doida sobre “suas aventuras”. Ele disse que já tinha ido a milhares de lugares diferentes, experimentado tudo quanto é tipo de comida, tido as melhores sensações do mundo sem nunca gastar um centavo ou sair de casa. Foi nesse dia que me convenci de que ele era doente mental.
Quando minha mãe chegou em casa, eu já estava pronto para sair, com a mochila nas costas. Davi estava terminando de preparar o lanche para a viagem, caso não parássemos em algum lugar para comer, o que eu duvidada muito, mas como convencer meu pai do contrário? Impossível.
– Mãe, o que foi que aconteceu? – perguntou Augusto, puxando sua blusa para chamar sua atenção.
Ela respirou fundo antes de responder.
– Ele morreu, querido.
Meu sangue gelou assim que ela disse aquelas palavras. Tio Michael morto? Eu não sabia o porquê, mas uma sensação de angústia impregnou em mim. Então me lembrei do anel. Subi correndo as escadas e fui para meu quarto. Abri a gaveta da escrivaninha e lá estava ele. Devido a escuridão do quarto e uma pequena luminosidade vinda do corredor, pude perceber que algo bem pequeno e brilhante emanava do anel. O aproximei e reparei pela primeira vez uma pedrinha quase invisível presa nele. Ela brilhava em um tom parecido com roxo.
– Daniel! Vamos, filho! – meu pai me gritou lá de baixo.
– Já vou!
[...]
Nossa que pena, seu tio morreu. Sinto muito.
Tudo bem. Ele não era muito próximo da família mesmo.
E você está indo para o funeral dele?
Não. Na verdade, estou indo para a casa dele. Minha mãe tem que ver umas papeladas lá... Essas coisas de quando você morre.
Hum... Então você vai faltar amanhã?
É, e provavelmente só volto no domingo.
Deve ser horrível ficar numa casa numa floresta.
Nem me fale. Vou ter que sair, o sinal tá piorando. Bjs.
(Sofia desconectou-se)
Quando você vai parar numa casa velha, grande e abandonada no meio de plantas e bichos, acaba descobrindo que há mais contras do que prós nessa alucinante aventura. Aqui vai uma lista: 1- Sem sinal no celular; 2- Teia de aranhas e, consequentemente, aranhas (sou aracnofóbico); 3- Ratos corroendo restos de alimentos orgânicos; 4- Mosquitos; 5- Falta de energia constante; 6- Seu pai tentando te motivar apontando todas as coisas boas que se tem por lá enquanto você tenta fazer uma lista de defeitos; 7- Seu irmão caçula se achando “o Charles Darwin”; 8- Sua mãe reclamando da poeira; 9- Coisas quebradas; 10- Tédio.
Já era sábado quando eu resolvi fazer alguma coisa diferente naquela casa. Minha mãe tinha saído até a vila para cuidar de algumas dívidas que tio Michael tinha deixado pendente. Meu pai a acompanhou, sobrando assim eu e Augusto.
– Hey, tá a fim de fazer alguma coisa interessante? – perguntei, me encostando na porta do seu quarto.
– Defina interessante. – disse, me olhando com curiosidade.
– Essa casa é enorme. Já pensou que poderia haver um quarto secreto ou sei lá.
– Sou eu ou você que tem doze anos? – perguntou, irônico.
Revirei os olhos.
– Ótimo! Quer ficar no tédio, fique, mas eu vou procurar algo pra fazer.
E foi isso o que eu fiz, por incrível que pareça. Acabei achando o quarto do meu tio e a porta estava aberta, o que me surpreendeu. O rangido que ela fez preencheu o ambiente por um momento. Os raios solares que atravessavam as janelas refletiam as minúsculas partículas de poeiras planando no quarto abandonado. Dei um passo para frente, fazendo a madeira ranger. Mas será que tudo nessa casa range?! A cama estava desarrumada quase que de uma maneira agressiva. Os travesseiros estavam rasgados, com as penas espalhadas pelo colchão. As mesas de cabeceiras estavam ocupadas por papeis e mais papeis, uns amassados, outros rasgados. Por curiosidade, abri uma das gavetas e achei um diário.
Pelo menos parecia com um.
– O que você está fazendo?
Deu um pulo de susto.
– Caramba, Augusto! – falei entredentes – Não me dê um susto desses!
– O que você está bisbilhotando? – ele perguntou, adentrando no quarto.
– Nada – guardei o diário atrás da minha camisa. – Só... Procurando por alguma coisa interessante.
– Você já disse isso. – respondeu, analisando o cômodo.
– E você disse bem gentilmente que não estava a fim de vir comigo.
– Mudei de ideia. E você conseguiu o que queria?
– Não exatamente...
– Nossa, essa quarto tá uma bagunça! – reclamou – Parece que um furacão passou por aqui.
– É. – murmurei.
– Olha só esses papeis! – ele veio até mim e me afastei um pouco imediatamente, para esconder o diário. Começou a desamassá-los. – Será que tem alguma coisa escrita neles? E olha pra esses travesseiros! Todos rasgados!
Então, iniciou-se a tagarelice sem fim do meu irmão de “olha isso!”, “que coisa estranha!”, “esse quarto fede!”, “tio Michael era muito estranho!”, “que nojo, sangue!”... Sangue?!
– Sangue?! – praticamente gritei. – Onde?!
– Ali, olha! – ele apontou para o outro lado da cama.
Fui correndo em direção à mancha de sangue na ponta do lençol. Peguei-a e cheirei. Era sangue mesmo.
– Rápido! Vá ligar para nossa mãe!
[...]
– Agora, meninos, eu preciso que vocês digam a verdade para mim: Vocês tocaram em alguma coisa? – questionou o policial com aquele ar todo sério e tenso, para nos meter medo.
Eu olhei para Augusto e ele olhou para mim ao mesmo tempo. Minta, minta, minta, minta!
– Não, senhor. – ele foi o primeiro a dizer, de cabeça baixa.
Eu também neguei. O policial nos examinou mais uma vez, olhando-nos nos rosto, certificando-se de que não estávamos mentindo.
– Ótimo. – disse, e depois saiu.
– Eu não devia ter mentido... – lamentou meu irmão.
– Não, não! – exclamei, me abaixando para ficar da sua altura. – Presta atenção, tem alguma coisa muito estranha acontecendo e ter falado aquilo foi a melhor coisa que você pôde fazer, tá bem?
Ele assentiu com a cabeça, entendendo o que eu disse.
Depois que a perícia do local foi realizada, os policiais tiveram uma conversa séria com meus pais que eu, claro, não pude ouvir. Só foi lá para as noves horas da noite, quando a confusão já havia passado e a cara de choque dos meus pais, não, que eu pude perguntar sobre o ocorrido.
– Então, o que foi que os policiais disseram? – indaguei a minha mãe, que lia na sala.
Ela abriu e fechou a boca, aparentemente escolhendo as palavras certas.
– Eles falaram que, provavelmente, houve um atentado... Eles recolheram o sangue para fazer o teste de DNA... – sua voz começou a falhar, sinal que choro estava por vir. – Mas, eu estou confusa...
– O que foi, mãe?
– Como você abriu a porta, Daniel? – ela perguntou, drasticamente séria.
– Eu... A porta estava aberta... Por que... Você não sabia?
– Ai meu Deus... – gemeu de horror baixinho, sua expressão ficando cada vez mais pálida.
– Mãe? O que está acontecendo? – engoli em seco.
– Quando nós chegamos aqui... Não é possível! Como...
– Mãe!
– A porta estava trancada, filho. Desde que nós viemos para cá.
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