The Challenge
8 Você não é meu amigo invasor de banheiro.
Notas iniciais
Matthew Avery estava longe de ser a solução dos meus problemas.
Ele estava mais para um problema novo.
Acordei pela manhã com os livros caídos no chão do meu quarto e completamente descoberta, o que explica o frio que passei a madrugada inteira. Rex já estava sentado de frente com a porta e olhava fixamente para ela. Será que agora além de pensar que era um cachorro, meu gato agora pensava que podia abrir portas apenas com o poder da mente? Coloquei minhas pantufas antes de pisar no chão gelado e abri a porta, o animal de pelos pretos saiu como um relâmpago pelo curto espaço que abri.
– O que você acha que está fazendo? – Perguntei quando cheguei na sala e de lá vi suas costas nuas na beira do fogão. Ele por acaso nunca sentia frio? Qual a necessidade de expor aquelas costas tão bem delineada àquela hora da manhã?
–Fritando ovos. Sam me disse que você gosta de ovos mal passados pela manhã – Respondeu desligando o fogo esse virando para mim. – Você está bem? – Ele perguntou depois que eu acabei engasgando com minha própria saliva. Oh céus! Aquele cara extremamente errado tinha o corpo ainda mais atraente que a cara. Assim, com o peito nu eu observei que ele tinha uma tatuagem em cima do peito esquerdo, ela parecia ser alguma escrita japonesa. A tatuagem era o de menos se comparar com o resto. Os cabelos desalinhados e a barba a fazer davam a ele a aura proibida que definitivamente ele não precisava, só o sorriso torto e olhar profundo já diziam que ele era muito proibido, que ele era errado. Matthew não era do tipo musculoso, ele era magro, mas a sua massa corpórea era definida. Ele estava com a mesma calça de ontem, e abaixo da linha do quadril. Maldita linha! Os ossos grandes e largos todos a amostra.
O errado nunca tinha sido tão tentador, não para mim.
Eu tinha minha vida planejada, e em nenhum dos planos existia um Avery semi-nu na minha cozinha.
–Ruiva, você está babando – Ele disse rindo – E eu acho que não é pelos ovos.
Salafraio!
–Sam? — Questionei. Foi à única coisa que saiu da minha boca. – Intimo demais não acha?
–Que foi ruiva, está com ciúmes? — Falou tirando os ovos mal passados – do modo que eu amava – da frigideira e colocando em um prato com duas torradas industriais.
–Me poupe Avery. – Debati – Você não deveria estar na universidade? – Perguntei e abri a geladeira para pegar o leite. O tempo estava gelado demais para sucos.
– Você não deveria estar na universidade – Repetiu a minha pergunta e dei de ombros ignorando o ignorável.
Eu estava faminta e acabei me rendendo aos ovos mexidos dele. Os ovos estavam gostosos,mais até do que eu gostaria de assumir. Depois de alguns gritos por ele ter dormido no meu sofá e não ter tirado sua muamba dela ainda acabamos tomando café juntos. Aquilo jamais se tornaria um hábito.
Já se passava das oito da manhã. Samantha já havia saído para a lanchonete. Meu tornozelo já tinha melhorado, pelo menos eu já conseguia apoiar meu pé no chão sem que minhas juntas reclamassem. Depois que meu novo colega de teto rumou para seu quarto sem móveis eu troquei de roupa e comecei a organizar a cozinha. Ele podia muito bem saber fritar alguns ovos, mas com certeza desconhecia o significado da palavra organização.
Depois de quase uma hora eu finalizei a limpeza da casa. Não tinha nada demais a não ser os rastros das patas de Rex, um pouco de pó nos moveis pertences de Sam perdidos pela casa.
–Nathaly? – Ouvi uma voz masculina me chamar após passar em frente a porta de seu quarto. — Pode vir aqui?
–Virei sua empregada? – Questionei-o encostando no umbral da porta encarando o ser que estava sentado no chão ao lado de suas malas com alguns papeis nas mãos.
–Qual é, eu não mandei. Pedi.
–Que seja – Dei de ombros – Fale.
–Acho que você vai querer guardar esses papeis. – Ele falou e esticou o braço que segurava os papeis.
–O que é isso – Perguntei ao te-los na mão.
–São recibos.
Eu segurei os papeis e olhava fixo para o valor que ele tinha pago. Eu não conseguia entender, se ele tinha tanto dinheiro pra que raios ele estava morando aqui? Com certeza, só o dinheiro daquela lata velha que ele dirige compra esse apartamento. Aquele cara era um mistério, mistério tal que não estou nenhum um pouco afim de desvendar.
– Você é louco! – Disse ainda parada na porta olhando os papeis – É muito dinheiro, por quê? – Falei e mudei o foco dos meus olhos, agora eles encaravam Matthew.
–Por que eu sou louco – Respondeu olhando nos meus olhos. Primeiro eu não entendi e depois de quebrar aquele contato eu fiquei com vergonha e apenas virei às costas e sai.
Mais uma vez eu pergunto, qual a necessidade dessas ações dele?
Depois de ter mexido com água eu estava quase congelando então eu decidi que tomar um banho quente ajudaria bastante com isso. Entrei no meu quarto e antes de separar minha roupa ou pegar a toalha juntei meus livros do chão e organizei meu quarto.
Quando eu passei pelo quarto do Matthew sem ter intenção ouvi ele falando ao telefone, me parecia ser com montador de moveis, eu estranhei já que não tinha chegado nada aqui. Como sempre, assim que entrei no banheiro me certifiquei de que Rex não estaria lá. Aquele gato parecia sentir quando eu ia tomar banho e se enfiava dentro do banheiro. Liguei o chuveiro para que ele esquentasse um pouco e pendurei minha roupa em uns ganchos postos por Sam, eu na real tinha entendido o real objetivo daquilo, mas às vezes me quebrava um galho.
Quando a água quente entrou em contato com minha pela gelada os pelos do meu corpo se eriçaram. A corrente de água quente era relaxante e o meu xampu de pêssego deixava um odor agradável dentro do banheiro. Eu estava distraída com a espuma do cabelo que escorreu até o ralo e começava se amontoar ali, quando eu ouvi o trinco da porta do banheiro sendo girado.
–Sam? – Gritei por impulso. Eu sei, foi uma pergunta idiota, eu sabia que ela estava trabalhando.
Droga, isso viraria rotina? Vejo que agora tenho um bom motivo para arrumar a fechadura daquela porta. Até hoje tento entender como Samantha conseguiu aquela proeza.
Ela tinha talento para destruição.
–Erro, próxima tentativa .
Fechei a porta do Box com uma velocidade absurda. O vidro não era transparente, mas se ele prestasse um pouquinho mais de atenção ele com certeza me veria do outro lado, assim como eu podia vê-lo nitidamente.
–Matthew! – Eu gritei me virando de costas. Qual é a dessa cara? Agora além de todas as outras qualidades ele também acrescentaria tarado na lista?
–Eu só quero mijar ruiva – Ele disse como se fosse super normal ele invadir o banheiro comigo nua lá dentro.
Tudo é normal no mundo dele.
–Se manda Avery ou eu juro que vou te matar durante o sono. – Falei tentando me impor.
–Nathaly, já vi muitas mulheres nuas, você não é a primeira – Ele falou se virando até o vaso. Eu fui tomada pela raiva e vergonha. Eu peguei um frasco de xampu e abri a porta do Box o suficiente para que meu braço passasse e joguei nele.
–Ai sua maluca! – Ele gritou de volta.
–A próxima coisa que vou jogar é água gelada, se manda! – Um banho relaxante passou a ser estressante em menos de cinco minutos.
–Sutiã bonito, ele por acaso combina com a calcinha?- Ele provocou rindo. Droga! Eu iria mata-lo durante o sono com certeza. Será um desperdício jogar um corpo tão belo debaixo da terra, mas seria pior ainda eu ter que ir parar em um sanatório.
Esse cara nasceu com talento para me fazer odia-lo.
Isso foi provado agora, e ontem, e anteontem e desde que o conheci.
Eu desisti de tomar banho, tecnicamente eu já havia me ensaboado e me enxaguado, eu só estava apenas querendo curtir a água quente correndo por corpo. Puxei a minha toalha que estava pendurada no Box. Me enrolei nela e sai de dentro dele.
–Dê descarga pelo menos – Falei me dando por vencida e pegando minhas roupas do gancho.
Matthew virou para mim terminando de fechar sua calça. Com certeza, o cara não tinha uma vírgula de pudor. Eu já tinha entendido que o individuo que dividia o banheiro comigo não tinha limites para sua falta de vergonha na cara, mas me custava aceitar.
Ele ficou me olhando de um jeito que diferente das outras vezes não era típico de Matthew. Nessa semana eu já tinha recebido diversos tipos de olhares dele e em todos os tipos de situações, mas esse definitivamente não se adequava a ele.
Ele não tinha nenhum tipo de expressão, ele apenas me olhava fixo nos olhos.
Esse não era um olhar Matthew Avery, por alguns – muitos poucos – segundos ele até me pareceu ser uma pessoa sensata e inocente.
–Claro – Ele respondeu depois de um tempo, assim desviando seus olhos esverdeados e pequenos de mim.
Depois que eu já estava agasalhada, enrolei outra toalha no meu cabelo e me sentei na cama pensando nas minhas contas. Eu precisava enviar o dinheiro dos remédios da minha tia que aumentou consideravelmente devido a sua piora nas últimas semanas, precisava ajudar com as compras de supermercado, o carnê do sofá, conta de celular e internet e tudo isso sem mencionar os meus gastos com a faculdade e o valor do aluguel que aumentaria no próximo mês. A situação já estava saindo fora do meu controle, o meu dinheiro era contado e qualquer centavo que aumentasse já me colocaria fora do orçamento. Minha cabeça parecia que ia explodir a qualquer momento. Eu necessitava de um escape. Eu precisava de uma solução.
A vida não era tão simples como nos contos dos meus livros.
–Ruiva? – Ouvi leves batidas na porta e em seguida ela sendo levemente empurrada e a voz de um dos meus problemas ecoando dentro do quarto me tirando dos meus devaneios.
–Oi... – Respondi com a cabeça baixa e com as mãos ao lado de minhas pernas apoiadas na cama.
–Seu telefone, ele ‘tava vibrando tanto em cima da estante que era provável ele provocar um or...’ na mesma,
Eu revirei os olhos e depois sem perceber acabei rindo da besteira que ele tinha falado.
–Obrigado – Respondi pegando o celular da mão dele.
Eram chamadas da minha tia. Droga! Eu sabia que estava esquecendo de fazer alguma coisa. Está provado, eu sou uma péssima sobrinha que esquece de ligar para sua tia doente. Eu vou queimar no inferno.
–De nada. – Falou se retirando do quarto.
Eu retornei a ligação para ela, mas nas primeiras tentativas o telefone dela apenas chamava, aquilo começou a me preocupar e minha pobre cabeça cheia de problemas começou a pensar no pior. Enquanto eu esperava que ela atendesse minha ligação fui até a sala procurar o meu secador de cabelo. Samantha tinha uma mania de pega-lo e depois guardar dentro de uma das gavetas da estante, bom, pelo menos ela guardava em algum lugar.
–Nath? – Ouvi sua voz fraca atendendo o telefone e eu suspirei aliviada. Me sentei no sofá e tirei meus chinelos do pé e os apoiei no sofá.
–Oi tia, tudo bem? – Falei de imediato com a voz embargando – Olha, me desculpa não ter ligado, eu sei que sou uma sobrinha ruim.
Quando eu me mudei do Brooklyn para Princeton eu prometi a ela que não a deixaria, ela era viúva e vivia em uma casa grande e sozinha e agora para complementar uma doença a consumia. Ela só tinha a mim, e eu mal tinha tempo para ela.
–Querida, o que ouve? – Tia Elisabeth perguntou com sua voz doce e calma, o que me fazia eu me sentir ainda pior.
Eu respirei fundo.
–Nada – Falei mentindo descaradamente e tentando me controlar. – Tia, eu não descarregar em você os meus problemas.
–Nathaly filha, nós somos a única família que restou uma a outra, conta para mim o que te assola.
–Não é nada tia, eu estou bem. Já pegou o resultado dos exames?
O silêncio na linha foi absoluto. Ela não me disse nada e por alguns momentos pensei que ela até poderia ter desligado. Aquilo não podia ser um bom sinal. Eu não conseguia mais imaginar minha tia com aquele sorriso enorme nos lábios e com os olhar cheio de vida, era triste pensar nela assim, pior ainda era não estar ao lado dela.
– Sim...Vi os resultados ontem – Ela disse em um tom de voz baixo, eu não encontrava mais nenhum traço de animação e de doçura que ela havia usado comigo minutos atrás.
–Me diz que obteve melhora...Por favor – Falei e senti um aperto no meu peito. Eu me encolhi ainda mais no sofá e encostei minha cabeça sobre meus joelhos.
–Filha, eu não quero despejar meus problemas em cima de você.
–Nós somos a única família que restou uma a outra – Repeti o que ela tinha me falado.
–Está bem. – Falou e suspirou – Na verdade não houve melhora, as células com defeito continuam a se multiplicar. O doutor achou por bem aumentar a quimioterapia e receitou novos remédios. – Ela ficou em silêncio na linha, quem sabe esperava que eu falasse alguma coisa, mas eu não conseguia formular uma frase descente.
Eu queria mais do que tudo estar lá, ao lado dela, dando meu apoio, assim como ela fez quando minha mãe se foi.
–Vai tudo ficar bem, a senhora vai vencer esse câncer, tenha fé. – Respondi com minha voz embargada.
Nós duas tínhamos que acreditar naquilo. Eu tinha fé.
–Nathaly, vai ficar tudo bem. Eu estou bem querida.
–Tia... – Falei já com algumas lágrimas rolando meu rosto. Eu não queria viver novamente tudo o que vivi com a perda da minha mãe.
–Querida, eu vou desligar. Acho que minha comida acabou de chegar. Vai ficar tudo bem. Eu te amo – Disse tia Lizie com sua típica voz doce. Igual minha mãe.
–Se Deus quiser. Eu também te amo.
Eu soltei o celular ao meu lado no sofá e afundei meu rosto em minhas mãos. Eu estava angustiada, era como se tudo estivesse se repetindo. Eu já tinha perdido a minha mãe de um modo rude, e, só de cogitar a idéia de que poderia perder também minha tia, eu enlouquecia. Eu não tinha mais família. Meu pai foi dado aos ventos e não tenho lembranças dele, eu sei que ele ainda vive em algum lugar desse continente, no entanto, isso não me traz esperanças de um revê-lo ou de chamá-lo de pai.
Eu já não controlava mais as lágrimas.
–Ruiva? — Senti um peso ao meu lado no sofá e mãos sobre minhas costas. – Você está bem? Ok, pergunta idiota. Eu meio que ouvi você no telefone – Ele deu uma pausa e eu não me manifestei – Foi sem querer, eu estava na cozinha e não pude não ouvir. Sua tia, certo? – Ele pausou mais uma vez e eu levantei meu rosto, passei a mão no rosto secando as lágrimas que passearam por ali e assenti a sua pergunta. – Ela vai ficar bem, não fica assim não. Quer conversar?
Sua mão estava apoiada em meu ombro e seus olhos ligados diretamente aos meus. Era ridículo, mas eu não conseguia olhar para outro lugar se não aqueles olhos. Ele estava sendo sincero, ao menos parecia e eu não estava disposta a descobrir, estava perdida na minha própria bagunça, o tipo de bagunça que veja e água não limparia. Eu só me dei conta da aproximação de Matthew quando eu comecei a sentir o hálito quente dele batendo contra a minha pele gelada.
Aquilo não estava certo.
Na verdade aquilo jamais seria certo. Matthew não é o tipo de cara que você permite que te console, definitivamente não.
–Matthew para! – Falei me levantando rapidamente do sofá.
–Parar com o que?
–Parar com isso tudo. Você não pode me sequestrar e me levar á um bar depois de jogar meus sapatos no mato como se fosse super normal. Também não pode vir morar na minha casa, invadir meu quarto e elogiar minhas pernas depois de perseguir meu gato como se estivesse tudo bem. E também não pode entrar no banheiro enquanto eu tomo banho e depois ficar me olhando daquele jeito. – Dei uma pausa e respirei fundo. – Você não pode e não precisa fingir que é meu amigo e me consolar, por que ambos sabemos que esse teatro não é verdade. Você não pode, eu não sou sua amiga e muito menos preciso que você tente me beijar sempre depois de tentar me ajudar. Eu não preciso que você se torne mais um problema pra mim.
–O que é que eu posso e do que você precisa, ruiva? – Ele perguntou calmo, tão calmo que quase me senti mal por te falado daquele jeito.
–Você pode me deixar em paz... – Respirei fundo passando a mão pela cabeça. – E é só disso que eu preciso.
–Ok – Ele abaixou olhar, engoliu a seco e saiu da sala.
Eu só precisava ficar distante daquilo que me parecia ser um problema.
Matthew Avery era esse problema.
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