The Challenge
3 Com uma condição.
Notas iniciais
Eu sobreviveria, afinal, no fim do dia a gente sempre sobrevive.
Ou não.
– Pela última vez, não! – respondi cruzando a porta camarão que dividia a cozinha da dispensa. – Eu não vou sair com aquele cara estúpido só pra você poder sair com o amigo dele.
–Vai Cloe, ele é gato, ele te quer e está bordado na sua testa que você o acha sexy – A loira continuava me seguindo por todos os cantos da lanchonete. – Por favor?
–Não. O cara é um babaca, você ouviu a asneira que ele disse... – Debati enquanto organizava as bandejas dentro dos armários colocando elas de acordo com suas cores. As brancas, as amareladas e por fim, as encardidas que mereciam o lixo como moradia. — “E vai por mim, eu sou bem melhor que os outros por ai” – Disse fazendo um esforço para engrossar minha voz tentando imitá-lo um pouco mais cedo. Para minha sorte, eu esperava que minha carreira como jornalista, fosse um pouco melhor que minhas chances como atriz ou imitadora.
–Você é um porre Nathaly! – Ela estava fazendo aquilo de novo. E eu realmente odiava quando ela fazia isso. Acho que era meio que uma chantagem visual quando ela fazia seus olhos normalmente grandes e azuis, brilharem com um torpor chateado e sua boca formava uma linha reta, como se realmente estivesse chateada. Claro que eu como sua colega de apartamento já tinha começado a sacar que isso não era tão real quanto parecia. E pelo mesmo motivo, estava exercitando minhas técnicas para resistir a isso.
–Não sou um porre, apenas tenho zelo pelo que julgo ser meu orgulho e a capacidade de discernir o que nem de longe parece certo. – Respondi observando as bandejas para me certificar que estavam devidamente organizadas, o que também era uma forma de desviar os olhos da loira.
Já havíamos chegado ao fim do expediente e estávamos apenas organizando algumas coisas. Valentina estava fazendo o fechamento do caixa e pode parecer crueldade, mas eu desejava que ela ocupasse Samantha com alguma coisa, nem que fosse contando quantos pelos encravados existiam na sua verruga nas costas. Eca. Ouvir Samantha implorando por alguma coisa que definitivamente não aconteceria era quase tão horrível quanto ter que ouvir as histórias de vida do Sr. Hans ou imaginar uma verruga com pelos encravados. Eu não desceria tão baixo o meu nível só para que minha colega de apartamento pudesse suprir suas carências mais intimas com um cara qualquer, não tão qualquer assim, mas ok.
–Um porre! – gritou saindo da cozinha e indo em direção aos banheiros.
–Isso se chama dignidade.
Assim que saí na rua automaticamente contrai meu corpo ao receber uma rajada de vento forte. Eu estava sozinha nas ruas de New Jersey já que Sam iria ao mercado fazer as compras mensais. Ao contrário de hoje mais cedo eu cheguei rápido ao nosso apartamento. Antes de subir fiz questão de reclamar sobre a invasão de domicílio de hoje mais cedo, sim, eu me referi ao camundongo — De coisas imundas naquele andar bastava somente Samantha -. Não que minha amiga fosse um animal irracional imundo, mas era uma desordeira diplomata e pra mim era quase a mesma coisa, claro, ela era o animal racional imundo com olhos mais grandes e tão azuis quanto o céu que eu já havia visto.
Com as mãos enterradas nos bolsos do meu moletom azul-marinho eu subi os degraus lamentando não ter apresentado uma queixa formal contra os elevadores que também não funcionavam há quase duas semanas. Diferente do resto do mundo lá fora o meu apartamento estava quente. Tranquei a porta e dei uma passada rápida de olhos pela casa e vi Rex dormindo no tapete felpudo no centro da sala. Apesar do frio eu não hesitei em tomar meu longo banho costumeiro após o trabalho.
Eu estava deitada no sofá quando resolvi ligar para minha tia. Tinha alguns dias que eu não falava com ela. Disquei seu número e esperei pacientemente até ela atender.
–Nath? – Ouvi sua voz macia e contente dizer do outro lado da linha.
–Oi – disse sorrindo – Benção tia, ta tudo bem ai?
–Ah! – Respirou fundo – As coisas estão como sempre. A neve caindo lá fora e eu observando através da janela seus flocos pousarem sobre os galhos das árvores enquanto tomo aquele chá de canela que você adora.
–Tia, a senhora sabe sobre o que eu estou perguntando. Como está seu tratamento? – Ela hesitou em responder e por alguns segundo imaginei que talvez a ligação tivesse caído.
–Eu já disse que você não precisa se preocupar comigo. Mas me diga como está a minha jornalista? -Respondeu tentando se esquivar da resposta
–Eu estou ótima. A senhora tem recebido os depósitos? – Eu tinha uma relação forte e sentimental com minha tia Elizabeth. Sabia que hoje em dia, eu era a parte considerável da sua família disposta a lhe ajudar. E claro, eu sentia a mesma coisa em relação a ela, mas o problema é que há alguns meses uma doença vinha consumindo toda a saúde que ela tinha.
Apesar dos problemas que a mesma vinha enfrentando o sorriso em seus lábios não morriam jamais. Ela era extremamente parecida com minha mãe, morta vítima da violência no Brooklyn. Os olhos eram verdes, não tanto quanto os meus, mas possuíam uma vida e um brilho que jamais encontrara nos demais. Seus cabelos eram marrons e eram moldados por ondulações tão maravilhosas que ao ver você com certeza diria que eram moldados por Babyliss .Minha mãe, Annabelle, era mais alta que sua irmã e tinha corpo mais esguio, já tia Lizie era mais robusta e se queixava de seus poucos quilinhos a mais. Os narizes mais afinados e os lábios bem desenhados as davam um ar mais superior, mas isso não ofuscava a simplicidade de ambas. Minha mãe era mais vaidosa, quanto à tia Lizie era mais natural, o que nos deixou fotos curiosas de algumas reuniões em família, eu não me lembro da metade já que minha mãe falecera quando eu ainda era menina.
–Eu já te disse que posso muito bem viver com o que tenho, deixa de ser teimosa Nathaly.- O que deixava mais que evidente nosso parentesco era nossa teimosia, oh céus.
–Tia... – disse, eu não sabia bem o que dizer, eu só queria ajudá-la. –Me deixa te ajudar como posso ok?
–Querida, eu sei que você quer ajudar, mas minha vida já está no fim enquanto a sua apenas começa, vá viver garota. –Eu não respondi, eu não consegui. Minha voz logo se embargou e eu tentei segurar ao máximo a lágrima teimosa que insistia em querer rolar. Não era justo que ela falasse assim, ela viveria muito ainda, eu tinha fé.
– Nunca mais repete isso ok? A senhora vai ficar boa.
–Eu sinto tanto sua falta menina.
–Eu também – Minha tia passou a falar sobre algumas coisas relacionadas à Shane e eu, mas minha atenção se dispersou ao ouvir a maçaneta da porta sendo girada e uma Samantha invocada dando as caras.
–Tia, não viaja– Ri ao telefone –Eu preciso desligar. – Ri ao ouvi-la reclamando por eu não ligar com frequência e culpando Shane por isso. — Eu prometo ligar com mais frequência e não tia, Shane não tem nada a ver com isso e outra vez não, eu não sou apaixonada por ele, ele é apenas meu melhor amigo. Beijos e se cuida dona Elisabeth. – Ouvi suas orientações de despedida e logo desliguei o telefone colocando sobre o sofá.
Sam limpou a garganta parada na porta e eu olhei para a mesma com sacola penduradas até nos dentes. Peguei algumas sacolas aliviando ela de seu fardo pesado.
–Eu juro que não sei pra que aquele inútil do Caleb é pago – Reclamou jogando as sacolas sobre o balcão da cozinha – Ele me viu subindo cheia de coisas e nem se quer se ofereceu pra recolher as latas de ervilhas que rolaram pela recepção.
–Respondendo sua pergunta Caleb é pago pra vigiar a recepção não pra ser seu carregador particular.
–Por que você é assim? – Perguntou enquanto me ajudava a retirar os produtos das sacolas e organizá-los nos armários.
–Assim como? – Perguntei sem entender nada. De que diabos aquela garota estava falando? Realmente ela era estranha. Ou então era eu.
–Só vive cortando meu barato. — Bufou reclamando, mais um ar engraçado parecia rodeá-la. Eu soltei uma risada exagerada ao ver a cara de cão sem dono que Sam fez. – Para de rir Nathaly!
–Desculpa, eu não corto seu barato – respondi recuperando o fôlego – Apenas respondo suas perguntas sem cabimentos ou suas frases típicas de Samantha.
Após termos guardado as compras Sam foi tomar banho enquanto eu preparava alguma coisa para o jantar. Fiz uma coisa simples, macarrão com molho a bolonhesa. Jantamos juntas enquanto assistíamos a nona temporada de Grey’s Anatomy, uma de minhas séries favoritas. Depois de horas naquele sofá maravilhosamente confortável meus olhos começaram a pesar me avisando que já era hora de ir dormir. Sam já havia dormido a dois episódios atrás e eu me recusava a acordá-la. Antes de ir dormir me certifiquei de que aquele gato preguiçoso estava dentro de casa e logo após tomei a minha dose de café diária. Eu fui para meu quarto em passos largos e silenciosos, eu sabia que amanhã me arrependeria de deixá-la dormir ali, mas com certeza acordar a loira seria bem pior, o humor dela era meio assustador quando tinha seu sono interrompido.
...
– Jura que não ficou brava Samantha? – Perguntei enquanto ela estava tentando assassinar o pobre queijo branco.
–Não — respondeu seca – Eu não me importo de não poder virar meu pescoço por que minha colega de apartamento não teve coragem de me acordar.
–Me desculpa, mas se eu te acordo você sempre reclama e diz que não ta dormindo.
–Dane-se Nathaly Dane-se!
Sim, ela estava brava.
–OK. – Falei deixando ela sozinha.
Hoje a aula seria pratica isso é, eu teria a chance de trabalhar com Alexis. Sempre nas aulas praticas Sr. Hans nos mandava formar duplas. O tempo em Princeton havia tido uma melhora considerável pela manhã, já que Princeton quase se acabou em neve pela madrugada, não nevava mais, apenas o vento fazia os galhos das árvores balançarem.
Assim que cheguei ao campus fui recebida por Shane e sua filmadora em mãos.
–Lá vem, ela com seus cabelos esvoaçados aos ventos de Princeton – Ele disse me rodeando com a câmera e chamando a atenção dos estudantes a nossa volta – Vai Nathaly, dá um oi pra câmera.
–Oi câmera – disse sorrindo.
–Diga algo legal – Shane mantinha o foco na tela de sua câmera e sorria. Shane sonhava em um dia ser um grande diretor de cinema, vivia fazendo vídeos e já havia chegado a produzir alguns curtas-metragens apenas de filmes caseiros nossos, ele era realmente talentoso e ao mesmo tempo absurdamente engraçado.
Eu não conseguia ver Shane de outro modo em um futuro próximo, a não ser com sua estimada câmera de gravações na mão. Quer dizer, ele sempre parecia estar em dias bons. Não conseguia de modo algum vê-lo em uma sala, usando terno e gravata, deixando que a vida passasse lá fora, sem filmar algo e narrar a cena, como seu fosse o locutor de uma história literária.
–Você é um bobo. – ri.
–Ei, isso não é legal! – Protestou. Ele vinha acompanhando meus passos e mantendo um sorriso enorme nos lábios, Shane caminhava de costas para poder me filmar, e levando em conta o movimento que fazia, os riscos dele esbarrar em alguém, cair e quebrar seu brinquedinho profissional, eram grandes o bastante para se tornarem preocupantes para mim.
–Ok – Parei e pensei no que dizer – Meu nome e Nathaly e eu tenho o melhor amigo mais maravilhoso e bobo de todos, e se ele não começar a prestar atenção por onde anda, terá um desastre pessoal em um futuro próximo. E por favor, corte essa parte Shane. Não é preciso relatar o modo como você caiu constrangedoramente no meio da universidade.
Shane fez um sinal com a mão me avisando que ele já tinha parado de gravar e riu.
–Eu já te disse que eu não sou boa com esse negocio de estar em frente aos focos das câmeras. – Eu disse assim que ele chegou ao meu lado guardando a câmera na bolsa enquanto em passos lentos íamos em direção aos corredores.
–Você é ótima e se encaixa perfeitamente no meu próximo trabalho.
–Do que você está falando? – Perguntei sem entender.
–Tenho dois meses pra montar um filme para o Sr. Madden, e eu quero que você seja minha protagonista. O que acha? – Ele perguntou entrando em minha frente e andando de costas, de novo. Aquele menino tinha algum problema em andar do lado certo?
–Nem pensar.
–Qual Nath, vai ser legal. – Ele insistiu.
–A Alex é bem melhor pra isso, aliais, ela meio que trabalha com isso. Ela adoraria.
–Ela trabalha com fotos – Resmungou – E ela, sei lá, ela odeia participar dos meus filmes.
–Claro, da última vez você pendurou ela numa tirolesa e ela morre de medo de altura. – Ele deu de ombros. – Ok, eu posso pensar?
–Claro – Respondeu esperançoso.
–Mas eu não garanto nada, você sabe que morro de vergonha disso. – Eu disse e aos poucos nos aproximávamos da sala de aula.
–Até. – Me despedi e entrei na minha sala.
Dominic Hans já estava no quadro anotando algum recado para está semana e por milagre divino ele não se importou com a minha entrada como de costume.
–Bom classe, como vocês já sabem, hoje a aula será prática. – Ele começou dizendo ajeitando seus óculos. – Eu não tenho achado o resultado das outras aulas satisfatórias e por este motivo hoje quem separará as duplas serei eu e nem pensem em reclamar, caso não estejam satisfei... – Ele foi interrompido por um ser ultrajante.
–Com licença. – Disse o cara sorrindo com a maior naturalidade do mundo. Como sempre acompanhado de seu amigo acéfalo, porém gostoso aos olhos de Sam. Ok, talvez eu tivesse que concordar um pouco com ela.
–Está atraso Sr. ...? – Ele deu uma pausa para que o abusado dissesse seu sobrenome, aquele cara tinha fascínio por sobrenomes, não era possível uma coisa dessas.
– Avery – Respondeu – Matthew Avery — Completou.
–Espero que não se repita. Pois bem, como eu ia dizendo. Eu separei as duplas de acordo com a lista de nomes. Conforme eu for dizendo vocês vão para o laboratório II. Vamos lá. – Ele pegou um papel amarelo no meio de seus vários papeis sobre a mesa e começou a chamar os nomes. – Alexis e Amanda, Anna e Bradley.
Enquanto ele falava os nomes o pessoal ia saindo da sala de aula para o Laboratório II. Esse era diferente, lá tinham os computadores que usávamos para montar nossas matérias e edição.
– Jessica e Madison – O professor parou e sorriu. – Sr e Sra Atrasados Matthew e Nathaly.
Droga! Entre trinta alunos existentes ali aos quais eu me simpatizava por que justamente eu tinha que fazer dupla com o cara que eu menos gosto na face da Terra? Agora sim, isso é castigo do céu por ter deixado Sam dormir naquela droga sofá.
–Vamos? – Ouvi uma voz masculina sussurrando em meu ouvido, não posso negar que me arrepiei com aquilo e de acordo com o sorriso estampado na cara de Matthew ele com certeza havia percebido. Levei meu rosto para encarar o cara que esbanjava testosterona por ai e vi que ele estava com uma de suas mãos esticadas para que segurasse. Eu levantei da mesa pegando minha bolsa sem dizer nada e sai deixando sua mão lá, estendida ao ar. – OK. – Disse e depois passou a me seguir.
Fizemos o caminho para o laboratório em silêncio. Pouco tempo depois que o chegamos lá a senhorita Fox entrou na sala e nos deu as nossas coordenadas.
Começamos então a fazer nosso trabalho. Tínhamos que montar uma matéria de jornal sobre uma ovelha clonada. Eu já tinha visto sobre esse assunto no colegial.
–Eu tenho um jeito muito mais fácil pra dizer isso sem deixar idiota como isso ai. – Ele disse ao ver minha dificuldade em fazer montar uma frase descente.
–Idiota é você, e se você sabe, então faça – Respondi afastando minha cadeira da mesa.
–Com uma condição. – Revirei os olhos não acreditando no que ouvi.
–Qual? – Me atrevi a perguntar.
–Que você aceite a tomar um café comigo hoje.
–Nem pensar, se não quer fazer não faça, mas eu não vou sair com você.
–Ok – Respondeu e voltou continuou brincando com seu anel sobre a mesa.
Mas que droga de cara é esse? Como alguém como ele pode estar em uma faculdade? Pelo o que eu sei ele quase não aparecia nas aulas e eu não precisei ser um gênio para descobrir que de fato ele também não estudava.
–Senhora Fox – Chamei após ter terminado a matéria, claro, sozinha.
Matthew continuava ao meu lado, apenas olhando para meus dedos que alteravam algumas partes do texto. Como eu sabia? Simples, eu não deixava de olhá-lo, mas claro, de um jeito discreto. Ou nem tanto já que ele não havia demorado a notar.
–Ouvi dizer que você está à procura de alguém pra dividir o apartamento. – Ele quebrou o silêncio e a minha concentração.
–Sim, conhece alguém? – Perguntei sem tirar os olhos da tela do monitor.
–Não. – Respondeu rápido. – Pelo menos ninguém que você aceitaria sob o mesmo teto que você.
– O que foi? O diabo te expulsou do inferno e agora você está sem teto? – Disse por um impulso e logo senti meu rosto corar.
–Pra sua inteira decepção, eu não fui expulso pelo diabo do inferno – Ele sorriu torto e debochado, colocou o anel em seu dedo e se ajeitou na cadeira para que pudesse me encarar. – Lá é minha casa, eu sou o diabo.
Maldito!
–Como você é idiota – Respondi rindo mesmo que não quisesse assumir isso.
–Bem que você queria um idiota desses né? – Ele disse baixo completamente convicto do que dizia. Estava bastante nítido que esse cara não tinha escrúpulos nem um para flertar. Ele simplesmente parecia disposto a soltar uma palavrinha cheia de décimas intenções a qualquer momento.
–Nem se você fosse o único homem da face da Terra. – Ok, eu já havia contribuído mesmo que sem querer para o crescimento do ego daquele cara. E acredite, isso não era bom.
Quando terminei por completo a parte escrita do trabalho Matthew fez a formatação e a importação de imagens para a página.
–Por que você está cursando jornalismo? — Perguntei após um longo tempo de silêncio – Ta na cara que você não gosta.
Ele parou o que fazia e passou a me encarar de um jeito que eu jamais imaginei que um dia tal olhar seria direcionado a mim. Ele tinha uma mistura de nervosismo e raiva naqueles olhos também verdes.
–Apenas acho que não seja de sua conta – respondeu ríspido.
Bipolar? Confere.
Estranho? Confere.
Idiota? Confere.
Estúpido? Confere.
Depois daquilo eu resolvi me calar e desisti da ideia de ser gentil e de tentar entender ele. Sim, durante quarenta minutos eu tive tais pensamentos e sim, eu cogitei a ideia de que talvez ele não fosse um ser tão desprezível.
Saímos para o intervalo e diferente dos outros dias eu não me juntei com as outras pessoas. Eu fui para debaixo de uma árvore do campus e tentei achar uma solução para os problemas que a cada dia aumentavam. Os minutos passaram e logo estávamos de volta ao laboratório. A atividade proposta pela professora era algo simples. O segundo tempo passou tão rápido quanto o primeiro e quando dei por mim já estava na hora de ir embora. Matthew tentou por várias vezes puxar assuntos aleatórios e eu sempre cortava, assim como a vida dele não era da minha conta é um tanto obvio que a minha também não fosse da conta dele.
Samantha me ligou avisando que a lanchonete não abriria hoje por causa da nevasca de ontem na madrugada. A entrada estava inacessível incluindo a dos fundos por onde reabasteciam a dispensa do lugar. Eu estava guardando meu celular na bolsa quando dei um passo em falso sobre a neve e senti que o pequeno salto de minhas botas pretas havia ficado preso em alguma coisa sob a neve.
–Droga! – Resmunguei comigo mesma tentando puxar meu pé.
Foram longos minutos e nada.
–Quer ajuda? – Ouvi uma voz á minha retaguarda e me virei para ver quem era. Mesmo que isso não fosse realmente considerado virar, já que um dos meus pés parecia ter se agarrado ao chão do mesmo modo que os dentes de Rex se grudavam nas canelas de Sam.
–A não ser que você tenha uma pá por ai, não creio que possa ajuda. – respondi e vi Matthew estacionar o carro.
–Eu não tenho uma pá, mas pelo jeito tenho mais neurônios que você – Ele disse ironizando a frase. Idiota. Grande idiota.
–Duvido muito, você não enxerga nada além de você mesmo, seria muito improvável que alguém como você pensasse mais do que eu. – Rebati convicta a não deixar meu rosto ruborizar. Afinal, pode ser que você nunca tenha passado por isso, mas ser pega em flagrante por um cara inegavelmente bonito porem idiota em uma disputa nada justa, contra os restos de uma nevasca que parece estar firme na ideia de manter seu pé para si, não era nem um pouco bom para o meu orgulho.
–Você vai me deixar te ajudar ou vai continuar me insultando?
Eu apenas me calei. Não podia correr o risco de morrer congelada sem antes me formar.
–Você vai ter apenas duas alternativas – Matthew disse após um tempo tentando puxar meu pé e cavando a neve em volta dele. – Ou você larga essa bota ai, ou você amputa a perna, por que isso aqui não vai sair até essa neve derreter. – Ele começou a me olhar e ele não parecia estar brincando, o que era preocupante — Talvez tenha se prendido no meio das lajotas congeladas em baixo da neve. – Acreditem, ele realmente parecia falar sério, como se de repente deixar minha bota da Donna Day no meio da rua, até aquela maldita neve derreter fosse uma possibilidade a ser arriscada
– Você só sabe dizer bobagem? – Perguntei irritada. – Que droga! – Gritei um pouco mais alto do que deveria, novamente medindo esforços para desenterrar meu pé e desprendê-lo das malditas lajotas.
Matthew começou a rir. Do que aquele traste estava rindo? Isso não era engraçado.
–Para de rir! – Gritei ficando nervosa.
–Esta bem eu paro – Levantou as mãos abertas como sinal de aceitação. – Eu te ajudo a sair daí. – Ele sorriu, e quando ele sorriu um senti um frio percorrer minha espinha, aquele sorriso não significava coisas boas. Há, com certeza não. – Mas com uma condição.
–Qual é a droga da condição? – Perguntei rendida.
–Que você venha comigo. – Disse simplesmente como se estivesse comentando sobre o tempo com o vizinho. O que nem de longe podia ser verdade, já que desde o dia que me mudei para o apartamento de Samantha, não me lembro de ter cruzado com um vizinho tão... bem estruturado.
–Prefiro ficar presa aqui até o gelo derreter. – Disse cruzando os braços, pelo fato de estar irritada e ao mesmo tempo por sentir o gelo da neve ultrapassar as camadas da bota.
–Digamos que nas suas condições você não tenha muitas opções. – Suspirei. Que grande eufemismo o dele. “Você não tem muitas opções.” Fala sério, eu não considerava morrer de pneumonia uma opção. E claro, dividir o mesmo veículo que o diabo, também não era uma.
Mas levando tudo isso em consideração, não me parecia restar opção alguma. Então o melhor realmente parecia ser escolher a forma mais branda de tortura. E por mais que esperar a neve derreter pareça essa opção, eu julgava que ter uma ajuda de Matthew podia ser um pouco mais rápido.
–Eu te odeio. – Silibei em um suspiro
–Isso é mentira – Ele disse e se abaixou perto de mim abrindo o zíper da bota. – Digamos que eu não seja odiável. – Quer dizer... mesmo que você queira me odiar, isso não é uma das suas opções. Sabe como é, sou bonito de mais para você desperdiçar seu tempo me odiando.
Dito isso aquele miserável me pegou no colo e basicamente me jogou dentro de uma Ferrari modelo Califórnia.
Odiá-lo com certeza não me parecia opção. Na verdade, me parecia muito mais como uma vocação.
Matthew Avery nasceu com um incrível talento para me fazer odiá-lo.
Fale com o autor