The Call Of Nárnia
2 Entre Dois Mundos
Notas iniciais
Londres, Inglaterra. Seis meses depois.
Desde que a família Pevensie havia voltado a viver juntos como antigamente, Susana sentiu que tudo mudou. Quando seus pais contaram a notícia à ela e seus irmãos, a jovem pensou que estaria feliz por finalmente poder viver com todos unidos outra vez. Contudo, ela logo percebeu seu engano. Sua mãe, Helena, continua amorosa e gentil como sempre fora. No entanto, tanto ela quanto Raphael, seu pai, pareciam empenhados em determinar como seria o futuro dos filhos dali em diante.
Pedro estava cursando a faculdade de direito, mas odiava o curso. A única opção viável para ele, seria medicina. Mas Raphael Pevensie não concordou e tratou de impor sua vontade, fazendo com que Pedro tivesse que desistir da vontade de ser médico e seguir aquilo que seu pai idealizava para ele.
Embora estivesse terminando o colegial junto com Lúcia, Edmundo infelizmente se viu indo pelo mesmo caminho. Apenas para não entrar em conflito com o pai e Helena ser obrigada a intervir outra vez depois de uma discussão entre o marido e o filho mais velho.
Enquanto isso, Susana e Lúcia se viam sendo empurradas para possíveis pretendentes a todo custo através de seus pais. Helena e Raphael estavam determinados a arranjar bons casamentos para as filhas, pois naquela época, um casamento era a única garantia de que as mulheres seriam bem vistas na sociedade londrina de 1940. Susana se via odiando a situação em que se encontrava. Os candidatos a possível noivo demonstravam mais interesse em sua beleza do que em seus talentos e gostos pessoais. A cada olhar deles, ela podia perceber algo extremamente familiar, cujo brilho de cobiça e malícia ela já vira há muito tempo atrás.
Um arrepio de horror e medo passava pelo corpo de Susana sempre que a imagem dos olhos negros e sombrios de Rabadash apareciam em sua mente. Ela jamais conseguiria esquecer da experiência traumatizante que passou durante o breve período em que ela e Edmundo estiveram na Calormânia. Apesar de não poder mais retornar para Nárnia para sua tristeza, Susana ainda tinha a estranha sensação de que Rabadash parecia segui-la onde ela estivesse e a possibilidade do Tisroc encontrá-la a deixava apavorada, mesmo que ela soubesse que ele estava morto há muitos anos.
Pedro, Lúcia e seus pais jamais imaginaram o terror que Susana experimentou nas mãos de Rabadash. Apenas Edmundo, que, depois de muita insistência da irmã, concordou em guardar segredo sobre tudo o que aconteceu nos domínios de Rabadash. Ele sabia que a razão pela qual Susana detestava e evitava os pretendentes que seus pais apresentavam para ela, era devido ao trauma sofrido em seus tempos como rainha de Nárnia.
Contudo, mais do que isso, havia o fato de que Susana nunca conseguiu esquecer um certo rei telmarino que ainda mexia com seus pensamentos e seu coração. Aslam fora claro quando disse que Pedro e ela não retornariam mais para Nárnia, porém, Susana seguia pensando em Caspian, perguntando-se como ele deveria estar, e o que ele estaria fazendo enquanto ela e seus irmãos viviam infelizes em Londres.
Quando Lúcia contara para Susana sobre sua última ida à Nárnia, a mais velha ouvira tudo com atenção, principalmente nas partes em que se referiam à Caspian. Em dado momento, ela sentiu um incômodo e seu coração apertou quando Lúcia contou que, na Ilha de Ramandu, Caspian havia demonstrado interesse em Lilliandil, a filha da estrela. No entanto, ela reprimiu esse pensamento na época. Não é justo eu ficar decepcionada se eu o deixei, ela pensava tristemente. Caspian tinha todo o direito de seguir com sua vida, independentemente se fosse com a tal Lilliandill ou outra mulher.
E aos poucos, a vida foi voltando aos eixos para os quatro irmãos. Pedro e Susana, esta contra a vontade do pai, estavam cursando a faculdade, enquanto Edmundo e Lúcia terminavam o colegial e já estavam com suas vidas sendo encaminhadas e planejadas por seus pais. Contudo, nenhum deles sabia que em poucos dias, suas vidas seriam mudadas drasticamente outra vez.
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─ Você acha que isso é o bastante para fazer a sopa de hoje à noite? ─ Susana perguntou à irmã, assim que ambas entraram em casa com as compras que tinham acabado de fazer.
─ E por que você acha que não seria? ─ Lúcia perguntou, retirando seu casaco e o pendurado no gancho da parede da entrada da casa.
─ Bem, talvez porque Pedro e Edmundo comem o dobro do que nós comemos. Principalmente quando chegam com fome e de mau humor.
Lúcia riu, divertida. Antes que pudesse responder, Helena entrou na cozinha demonstrando uma empolgação que assustou Lúcia e deixou Susana em alerta. Ela já podia imaginar o que aquilo significava.
─ Meninas, não se preocupem em fazer o jantar hoje à noite. Teremos visitas! ─ Helena contou, batendo palmas.
─ O papai não comentou nada sobre isso... ─ Lúcia franziu o cenho.
─ Ele acabou de telefonar avisando, querida. ─ Helena sorriu e se voltou para Susana. ─ Susana, querida, hoje o jantar é por minha conta. Você e a sua irmã precisam apenas se preocupar em colocar seus melhores vestidos e fazer um lindo penteado.
Lúcia olhou assustada para Susana, que paralisou onde estava e piscou sem acreditar no que sua mãe tinha acabado de falar. Menos de uma semana depois da última tentativa fracassada de tentar lhe empurrar um pretendente, seus pais novamente estavam fazendo outra tentativa.
Susana quis mover seus lábios e gritar um sonoro NÃO!, todavia, sua mente estava petrificada e seus pensamentos longe dali. Sem perceber, a jovem se obrigou apenas a assentir enquanto engolia um nó de revolta em sua garganta e seus olhos pareciam lacrimejar.
Lúcia seguiu a irmã, que sem dizer mais nada, subiu para o segundo andar da casa rumo ao conforto e privacidade de seu quarto. Susana deixou-se cair sentada na cama, de costas para Lúcia, fitando a janela e o céu nublado daquela quinta-feira tão sem vida quanto os outros dias da semana.
─ Su, você sabe que o papai não vai desistir da ideia de arranjar um casamento para nós duas, não sabe? ─ Lúcia perguntou, cautelosamente.
─ E é por isso que eu estou assim, Lúcia. ─ Susana retorquiu, sem olhar para a irmã. ─ Eu já estou farta disso. Até quando ele vai nos tratar como se fôssemos incapazes de trilhar o nosso próprio caminho?
─ Não é só comigo e com você. Pedro e Edmundo também não podem viver as vidas deles como eles bem entendem.
─ Se ao menos... pudéssemos retornar para Nárnia. ─ Susana lamentou, deixando os ombros caírem.
Lúcia entendia. Assim como Susana e os irmãos, há muito tempo também tinha a sensação de que a Inglaterra não era mais sua casa. Sentiam-se estrangeiros em um país em que nasceram, cresceram e viveram por tantos anos.
─ Eu tenho fé de que um dia retornaremos para lá. ─ Lúcia garantiu.
Susana olhou para ela. Às vezes invejava Lúcia, pois queria ter a mesma fé e esperança que a caçula tinha, enquanto ela própria tinha suas próprias dúvidas e questionamentos, por mais que nunca deixasse de acreditar em Aslam e nos propósitos que ele tinha para ela e seus irmãos.
─ Sabe, às vezes eu queria ser tão confiante quanto você. ─ Susana suspirou. ─ Você nunca deixou de acreditar em Aslam e de ter fé.
─ Você também não, Su. ─ Lúcia sentou-se ao lado de Susana. Ambas olhando para a janela juntas.
─ Em alguns momentos eu tenho tantas dúvidas... Chego a duvidar se um dia realmente vamos voltar.
─ Você tem medo, Susana. E é normal. Também sinto medo de não ver Aslam e nossos amigos em Nárnia novamente.
─ Deve estar tudo diferente agora... ─ Susana fitou o teto com o olhar pensativo e perdido. ─ Muita coisa deve ter mudado.
─ Estou me perguntando se Caspian se casou com a filha de Ramandu, afinal. ─ Lúcia murmurou distraída e quando se deu conta, se arrependeu.
Os olhos de Susana arderam, mas ela conseguiu lutar contra as lágrimas antes que elas pudessem sair descontroladamente.
─ Su, me desculpe. Eu não quis... ─ Susana sorriu sem alegria, tentando tranquilizar a irmã.
─ Está tudo bem, Lúcia. Eu sei que você não falou por mal. Mas, de qualquer forma, uma hora ou outra isso teria que acontecer, não é? Caspian teria que se casar de qualquer maneira.
─ Mas deveria ter sido com você...
─ Infelizmente nem tudo é como queremos, Lu. ─ Susana sorriu tristemente. ─ Mas agora vamos. Temos que ver esses vestidos logo antes que a mamãe venha e escolha por nós.
As irmãs levantaram-se em direção ao guarda-roupa, começando a busca pelos malditos vestidos que a mãe lhes havia pedido. Perdida em pensamentos, Susana mal via a hora de se livrar de mais um noivo em potencial, sem perceber, que, em meio às nuvens do céu, um brilho diferente começava a surgir.
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Nárnia. Um ano depois.
Se em seu mundo Susana e seus irmãos encontravam-se tristes e infelizes com o rumo que suas vidas estavam levando, em Nárnia não poderia ser diferente. Após três longos anos de paz, Caspian se via entre a cruz e a espada. Seus conselheiros o pressionavam para ir em busca de uma noiva e, assim, garantir um herdeiro que pudesse garantir o trono de Telmar e Nárnia. Para ele, a situação não era fácil e simples como queria que fosse. Ainda mais quando o rei ainda mantinha em seus pensamentos, a rainha gentil de olhos azuis como duas safiras.
Não, Caspian pensava, ele não poderia casar-se com outra mulher pensando em Susana ou que não fosse com a própria. Para ele, aquilo estava fora de questão, embora soubesse que mais cedo ou mais tarde, ele teria que encontrar uma noiva. Contudo, dada à atual situação de Nárnia, essa era uma das últimas preocupações que rondavam a mente do rei telmarino.
Desde que há dois meses estranhos envenenamentos começaram a acontecer em Nárnia, Caspian não pensava em outra coisa a não ser descobrir quem estava por trás das mortes misteriosas que estavam ocorrendo com mais frequência a cada dia que se passava.
Trumpkin e o restante do conselho pressionavam-no a tomar medidas mais rígidas, mas Caspian sabia que agir com precipitação poderia colocar ainda mais vidas em risco. Os envenenamentos não eram simples tragédias isoladas; havia um padrão neles, uma intenção sombria por trás.
Além disso, as vítimas não eram escolhidas ao acaso. Os primeiros a sucumbirem foram nobres telmarinos que apoiavam Caspian, seguidos por faunos e centauros, reforçando a suspeita de que alguém desejava desestabilizar a frágil paz entre humanos e narnianos. Se uma nova guerra entre telmarinos e narnianos começasse novamente, Caspian sabia que Nárnia não iria suportar por muito mais tempo.
─ Desculpe interromper seus pensamentos, meu rei ─ Lorde Revilian tomou a palavra. ─ Mas, acredito eu, que os súditos devem ser informados imediatamente sobre os envenenamentos misteriosos que estão ocorrendo. Não podemos manter isso às escuras para sempre.
─ E alarmá-los com isso? ─ Trumpkin discordou. ─ Não creio que deixá-los em pânico e apavorados vai ajudar em alguma coisa, meu caro Lorde Revilian.
Caspian permaneceu em silêncio por um instante, refletindo sobre as palavras de ambos. De fato, ocultar a verdade por muito mais tempo poderia gerar desconfiança entre seu povo, mas revelar tudo sem uma solução concreta só aumentaria o medo e o caos. Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros, sentindo o peso de sua coroa mais do que nunca.
— Não podemos permitir que o medo tome conta de Nárnia — disse, enfim. — Mas também não podemos tratá-los como crianças e esconder a verdade. Faremos um pronunciamento ao povo, mas sem detalhes alarmantes. Diremos que estamos investigando e tomando as devidas providências.
Trumpkin bufou baixinho, ainda relutante, mas não contestou a decisão do rei. Lorde Revilian, por outro lado, assentiu satisfeito.
— Devemos reforçar a segurança dentro do castelo e nas cidades vizinhas — sugeriu o anão. — Não sabemos até onde isso pode chegar.
Caspian concordou. Ele já havia ordenado que dobrassem a vigilância nos portões e que os alimentos fossem inspecionados antes de qualquer refeição. Mas algo lhe dizia que os envenenamentos não parariam tão cedo.
─ E ainda não sabemos quem pode estar por trás disso. ─ O texugo Caça-Trufas falou pela primeira vez desde que a reunião com o conselho começara. ─ Quem poderia estar arquitetando e causando todas essas mortes por envenenamento?
─ A pergunta não é quem... É o que... ─ Lorde Bern respondeu de forma sombria. ─ Isto não me parece um envenenamento comum.
Caspian sentiu um mal pressentimento, tendo suas suspeitas confirmadas. Lorde Bern estava certo. Aquilo estava muito longe de ser um simples envenenamento. Era algo muito pior.
─ Magia negra. ─ Caspian murmurou.
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