The Bus Stop Girl
13 Uma realidade virtual
Notas iniciais
Eu queria dizer que eu me sentia arrependida por ter sido amiga de Armie. A verdade é que eu não me arrependi de uma ponta de cada palavra que eu troquei com ele. Não me arrependi de ter contado tudo o que me enforcava todos os dias. E um dos mais profundos segredos que eu não imaginaria contar a ninguém era o que eu conhecia Fergus melhor do que ele imaginaria, e quando ele soube disso, no exato momento disse que sabia, e que esperava que eu pudesse ajudá-lo.
Há muitos anos atrás, no Ensino Fundamental, após a morte de Meredith, minha mãe, eu soube de um MMORPG¹, um lugar onde eu possivelmente poderia ser quem eu sempre quis. Lá era possível conhecer pessoas de todos os mais variados lugares, criar grupos e conversar. Fazer amigos e marcar vidas. Esse era meu objetivo: marcar a vida de várias pessoas. Lá eu podia ser confiante, fazer qualquer piada sem ter medo de ser criticada, porque lá eu teria coragem de responder a qualquer um que quisesse brigar comigo. Eu poderia ser aquela amiga que todos queriam por perto, que sentiriam falta quando não estivesse ali. Que ouviria à qualquer um, daria os melhores conselhos e mudaria a vida real de todos que conversassem comigo. Lá eu podia ser quem eu nunca consegui ser, quem eu fui privada de ser, quem eu sempre sonhei ser.
Eu conheci diversas pessoas, mas sempre tomei cuidado. Eu via vários dizendo abertamente quem eram, de onde eram, todas as informações que deveriam ser mantidas em segredo estavam em palavras claras. Após cinco anos participando disso, já nos quatorze anos de idade, eu nunca havia revelado uma informação sequer de quem eu era, o que fazia ou como aparentava. Ninguém saberia sobre minha vida real. Eu decidi construir um muro, e de um lado estavam apenas as minhas qualidades, os meus defeitos ficariam ocultos pelo resto da vida.
Ninguém poderia em momento algum ultrapassar esse muro, porque ele fora construído com o esforço que eu sempre guardei especialmente para algo do tipo. E eu me tornei alguém conhecida, querida. Eu era alguém que sempre sonhei ser. Todos queriam minha opinião, pois sabiam que eu seria sincera. Atrás de uma tela ninguém poderia me atingir, mas eu os atingiria. Ninguém poderia me tocar, mas eu os tocaria. Ninguém poderia fazer nada para mim, mas eu seria o tudo que eles sempre sonharam. E de fato, consegui. Eu era amada, eu fiz sentimentos bons crescerem em cada um deles. E nesse mundo, eu era conhecida como WhiteAlien22.
Foi onde eu soube que conhecia Fergus Russell, e foi onde eu me arrependi de saber que o conhecia.
Armie não era definitivamente um grande obstáculo. Resolvi encará-lo como um teste ao ser chamada por ele depois da aula.
Em trinta dias, vários fatos tornaram minha vida uma espiral de dor. Não importa o quanto eu tentasse correr disso, era apenas um caminho sem fim e se tornava pior a cada dia. Na época eu não tinha consciência do que era o bullying, do quão grave era a situação e que poderia piorar cada vez mais.
De acordo com as regras dos alunos, eu não poderia levantar a mão, vai que o professor também faz uma aposta com os alunos, não é? Eu não poderia ter amigos, porque eu estaria convencendo-os de que eu era a inocente de toda a história quando eu só queria roubar os dois garotos que estavam, pelo visto, no topo da pirâmide. Dois reis que comandavam a escola sem que ninguém além de nós, estudantes, percebessem. Ninguém tinha a menor coragem de contar o que acontecia, ninguém ousaria passar por cima dos reis.
Minha única fonte de força era embaixo da arquibancada de uma das quadras da escola. A quadra de vôlei não era praticamente usada, então geralmente eu me encontrava lá. Geralmente não, sempre. Eu nem me importava mais, o meu foco era passar de ano, me formar e ter um emprego decente para conseguir sair de casa.
Como esperado, Armie estava atrás da escola, sentado na parede à minha espera.
— Então... O que queria falar comigo? — sentei-me ao seu lado, cruzando as pernas. Já fazia um bom tempo desde que eu abri minha boca na escola pra falar algo, consequentemente minha voz saiu um pouco rouca. — Cuidado, eu posso convencer você a fazer coisas beeeem ruins.
Ele riu de um modo tão desanimado que eu até me senti melhor. Aquele era o verdadeiro Armie.
— Você não vai sobreviver aqui.
— Como se esse fosse o meu objetivo. — retruquei, no mesmo tom de voz.
— Cait...lin, eu estou falando sério. Você não vai conseguir sobreviver até a formatura.
— O que acha de uma aposta? — falei em um tom sarcástico dessa vez. — Se eu conseguir me manter viva até lá...
— PARE DE GRAÇA.
— Você não tem o direito de me mandar parar, quando foi você quem começou com tudo isso. Eu já cheguei aos meus quinze anos. Não preciso de conselhos de alguém que acredita que há uma hierarquia entre os alunos. Se era só isso o que tinha pra falar, eu agradeço a preocupação. Mas eu não preciso da sua pena e muito menos da sua falsidade, se me permite, eu preciso ir chorar agora embaixo de uma arquibancada.
Não vou negar que eu queria muito acreditar que ele se importava com o meu estado, mas era claro que se isso fosse verdade, ele impediria tudo o que falavam de circular pela escola, porque eram todos mentirosos.
Armie não me impediu de sair dali, e eu não escutei nenhuma palavra a mais do que ele tinha a dizer. Eu não precisava mais me preocupar com isso, porque eu ainda tinha WhiteAlien22.
Eu acabei não chorando na quadra de vôlei pela primeira vez. Mas uma pergunta ficou rodeando minha mente: Como eu poderia consertar tudo o que eu não fiz?
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