The Bus Stop Girl
11 Feita de poesias
Cedo ou tarde, alguém virá. Estão todos fadados a sofrer ao menos um contato visual, ou o toque humano.
Mas aquela garota não sofreria isso porque ela era feita de poesias.
Poesias não podem ser tocadas, mas seu único objetivo é tocar alguém. Poesias não têm sentimentos, mas despertam-nos em alguém.
E aquela garota era feita de poesias.
Nunca fora tocada, nunca sentiu nada, mas sempre tornou o seu redor em um lugar diferente.
Tudo começou tão de repente. Os olhares, os gestos e as palavras que machucavam-na mais que qualquer ato. Aquela garota queria que eles espancassem-na com paus e pedras, mas não ferissem seu coração com palavras. Suas bocas eram o arco, suas vozes as flechas. E cada vez que eles lhe dirigiam a voz, ela sentia uma pontada em seu coração, uma vontade imensa de se esconder. Mas o que ela fazia? Sorria como se aquilo fosse uma piada, e internamente, não via a hora de escurecer, ficar sozinha em um quarto que parecia ser a sua única salvação. Profissionais lhe diziam que chorar poderia resolver tudo, chorar o bastante e que no outro dia seria tudo melhor. Ela não sabia dizer se eles eram profissionais em resolveu seus problemas ou em mentir. Aos poucos, ela se sentiu entre quatro paredes, criando um mundo apenas dela. Nesse mundo ela poderia rir tão alto quanto as músicas que amava cantar, ela poderia correr por todos os lugares sem se importar com o jeito desajeitado de seus pés tropeçando em vários lugares. Aquela garota poderia olhar para o céu cheio de nuvens e observar que algumas dela faziam formas de coroas, coelhos e pudins. Nos dias chuvosos também haveria felicidade, porque ela iria dançar na chuva, e ao sentir as gotas geladas caírem em sua pele, um brilho jamais visto seria colocado em seu rosto, em seu modo de sorrir e em cada movimento que ela fizesse ao dançar na chuva. De sua boca sairia uma melodia aveludada e suave, que encantaria os animais e indivíduos que a escutassem. Esse mundo era mais conhecido como seu quarto, e dali ela jamais queria sair, mas tudo o que é bom, dura pouco. Porque cedo ou tarde, ela perceberia o quão solitária estava.
Aquela garota não nasceu poesia, se tornou uma.
Todos os dias eram os mesmos: cada vez mais seu coração se quebrava em vários pedacinhos que um dia tornariam-se impossível de colá-los em um perfeito estado, como estava antes. Ela achou que encontraria as respostas nas cordas em seu pescoço, nos cortes em seus pulsos ou nas pílulas que caíam aos montes, corroendo cada vez mais o desejo da garota de viver.
Mas ela cansou de tentar encontrar respostas assim, cansou de ver seu coração tão quebrado quanto um lindo vaso ao cair no chão.
Ela cansou de sentir as lágrimas quentes que caíam de seus olhos todas as horas em que o sol desaparecia.
Aquela garota se tornou uma poesia, porque ela percebeu que entre os versos e estrofes não haviam sentimentos, não havia motivos para sentir alguma coisa, quando as únicas pessoas que teriam sentimentos despertos seriam aquelas que lessem a garota que era feita de poesias.
Será que algum dia, nas lágrimas de alguém, essa poesia se tornaria cheia de sentimentos como aquela garota já foi um dia?
Será que nas entrelinhas haveria uma resposta para todas as perguntas anteriores ao dia em que ela se tornou poesia?
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