The Brown Eyed Girl
1 Capítulo Único - Find a Way
Notas iniciais
Música-título: Safetysuit - Find a Way
Boa leitura. :)

Como é curiosa a plataforma. Feita de cimento queimado, extensa e quase infinita diante dos meus olhos enquanto limpo os óculos no cachecol vermelho. Quando os ajeito novamente no rosto, analiso que a plataforma deve ter... Vejamos... Uns quinze metros? É uma excelente pergunta. Não tenho olho clínico para medidas, tampouco tenho boa noção espacial. Em minha defesa, repito-me: Emma Swan, você é uma estudante de literatura, ignore os números ou você vai se estrepar.
O céu nublado, a estação cinza, o trem em lentidão, também cinza. Os sobretudos pretos, os sapatos sociais, as gravatas e os chapéus. Os carros lá embaixo, pretos, brancos, cinzas. Engraçado como não pensei que, ao sair do apartamento com essas roupas, as pessoas ficariam me encarando. Sapatos Oxford de estampa florida não estão na moda? É claro que estão! Não, não.... Deve ser a saia godê creme, ela definitivamente está combinando com a camisa jeans, ainda mais com essas mangas mal dobradas. Mas o cachecol vermelho está bonito, eu gosto muito dele.
Londres é uma cidade estranha. Tudo é monocromático demais. Estou desenvolvendo a teoria de que as pessoas também são monocromáticas por dentro. Não tenho ainda uma base sólida, mas a cada dia que aqui vivo, minhas suspeitas tornam-se maiores. Deixar meu querido vilarejo Lavenham, com nossas casas tortas de belas cores, nossas tradições e a extrema tranquilidade, foi o passo mais difícil. Mas não havia como evitar, ingressar na Universidade de Artes foi um sonho cultivado desde cedo em meu coração. Eu tive que vir! É claro que meus amados pais adotivos dramatizaram a situação. Ruth e George eram muito protetores comigo e com meu irmão, David. Por ser um ano mais novo, ele virá para Londres apenas no ano que vem, o que está deixando meus pais de cabelo em pé. Mas eu tenho certeza de que ele vem! Ele nasceu com o dom da música e os reitores da Universidade seriam uns tolos se não vissem isso.
Apesar da frieza, os pubs são maravilhosos, especialmente os irlandeses. Mesmo após um dia exaustivo na universidade, meu ânimo é resgatado ao saber que mais tarde estarei aconchegada em um pub irlandês com muita cerveja. Além de, indispensavelmente, as fritas, o porco e as torradas apimentadas. Só de pensar no sabor combinado sinto meu corpo relaxar, quase flutuando na estação, no meio daquele monte de expressões mal-humoradas.
“Claques” na escadaria silenciosa chamaram minha atenção, porque todos ali ou liam, ou fumavam, ou encaravam o nada com suas caras de nada, exceto por mim, que me deliciava com uma música do Safetysuit naquele celular antigo onde só cabem três músicas. O barulho interrompe meu nonagésimo momento nostalgia ao mesmo tempo em que o intensifica, porque mamãe adora sapatos de salto alto e fino. Tinha uma coleção de cerca de dez pares trazidos pelo papai direto da França. Aquele som é como uma doce melodia para meus ouvidos saudosos.
Logo pensei que seria alguém cheio de vida, porque o compasso dos claques era como um espetáculo de sapateado, porém, surgiu pelos degraus uma moça com o rosto enfiado num livro e... Adivinhe! Com um longo sobretudo preto. Ao menos os sapatos eram vermelhos, mas e daí? O resto era preto, fechado, como todos ali. Só pude ver que tinha brilhosos cabelos castanhos na altura dos ombros e que desfilava pela plataforma do trem como uma rainha desfila até o seu trono.
Quando volto à realidade, a bela está parada ao meu lado. Engulo em seco. Droga, que perfume divino é esse? É melhor que a torta de maçã que David faz com maestria. É delicioso! E o vento está vindo bem da direção oposta a mim, batendo contra ela e trazendo esse cheiro de oitava maravilha do mundo direto para minha alma. Jurei que estava conseguindo enxergar a fragrância, tamanho o entorpecimento no qual desfaleci.
Tento me esticar levemente paraa ver o que lê. Gaston Leroux, O Fantasma da Ópera. Oh, céus! Será que ela também gosta do musical? Incrível como parece tão concentrada. Não consigo conter um riso ao vê-la tocar o meio das páginas com o nariz para cheirá-las, o que indica que deve ser um livro novinho! Eu os adoro, mas nunca tive a oportunidade. Papai sempre comprou livros muito antigos, que já passaram por uns vinte donos. Depois que líamos, ele fazia questão de doar à biblioteca minúscula da nossa cidadezinha e pegar outra leva emprestada.
Minha reação impulsiva a faz enrijecer e me encarar. Droga, droga, droga, Emma Swan! Ela está te olhando, olhe para ela. Olhe! Acorde! Agora! Você pode até ser uma caipira e se vestir como uma, mas você não pode perder a oportunidade de ver o rosto dessa mulher!
Viro minha cabeça quase trêmula para devolver seu olhar curioso e sinto como se o trem tivesse chegado e me atropelado à toda velocidade. Nunca foi tão glorioso sentir-me violentamente atingida. Ela tinha lábios carnudos e rubros, que curvaram-se num sorriso discreto, torto. A pele olivada contrastava com o vermelho e uma cicatriz no lábio superior, bem no canto direito, compunha o charme. Mas o que fez minhas pernas fraquejarem... Os olhos. Ao fitá-los senti-me cair no mais profundo abismo. Pude ver a mim mesma ali dentro, caindo eternamente, com minha alegria ecoando no infinito através de uma risada. Não. Não era como os outros, mesmo que estivesse bem coberta por aquele sobretudo preto. Aquela beleza ímpar incendiou cruelmente minhas retinas, meus olhos quase lacrimejaram. Contudo, só pude devolver um sorriso abobalhado, que a fez estender o seu.
Sentindo-me tonta depois de constatar que existia uma deusa grega bem ali em Londres, tive que dar passos bem lentos para trás e cair desajeitadamente sentada em um dos bancos da plataforma. O som da minha mochila, que mais parecia aquelas bolsas dos carteiros, ecoou pela estação muda, atraindo os olhares daqueles robôs por baixo das peles e daquela ninfa de Pan, que virou-se para mim e ousou sorrir novamente. Como se nada fosse, caminhou igualmente lenta para trás e sentou-se ao meu lado, cruzando as pernas como se estivesse sentada numa nuvem dourada. Que audácia! Ela quer me matar, tenho certeza!
Continuou folheando o livro como se eu nem estivesse ali, suando frio. Seu pé direito balançava elegantemente no ar no reluzente sapato vermelho, como se ouvisse uma canção. Resolvi me distrair com os pássaros que... Oh, droga! Nem pássaros tem na fiação e nos postes ao redor da estação. Mas eu precisava de qualquer coisa que não a faça pensar que sou uma maluca e o trem não chegava. Eu poderia dizer alguma coisa, assim ela veria que falo sua língua e não sou um alienígena bisbilhoteiro. Não, não, espera! E se ela for um alienígena? Ela não parece desse mundo, não parece nadinha com qualquer ser humano que eu já tenha visto. Pare, Emma Swan, se concentre! Não nela, digo, se concentre em algo que não tenha a ver com ela. Papai sempre disse: “Emma, cuidado com as mulheres e homens que são muito belos. Podem ser armadilhas para os nossos corações!”. Mas eu sempre achei que ele dizia isso porque, anos antes de conhecer mamãe, quando ele ainda morava na França, uma belíssima dançarina espanhola o deixou em fangalhos.
Meus olhos saltam para ela novamente quando fecha o livro e o deixa entre nós duas no banco, quase tocando minha mão que apertava freneticamente a madeira descascada. Socorro. Chamem a guarda da rainha antes que eu entre em colapso. Para minha surpresa, tão elegantemente quanto todos seus movimentos é o momento em que abre uma pequena caixinha prateada com um R gravado, abrindo-a para revelar uma fileira de finos cigarros azuis. Eu deveria estar pensando de onde ela tirou cigarros azuis, maldição, mas só consigo rezar para que as divindades cósmicas façam um milagre e coloquem o cigarro no meu corpo e o meu eu naquele palitinho de nicotina que ela vagarosamente posiciona entre os lábios e acente com um esqueiro que mais parece uma pira olímpica, de tão alta que é a chama. Fuma majestosamente, como se saboreasse a mais deliciosa das sensações, enquanto eu fumava de tabela, porque a sensação dentro de mim é de relaxamento e tensão lutando ardentemente.
— Estou curiosa para saber como não está tremendo de frio. – A mulher diz ao terminar. Que voz é essa? É agora. Posso ouvir as trombetas me convocando. – Aqui. Pegue, eu já estou acostumada.
Para a desgraça total da minha sanidade, a desconhecida tira seu sobretudo negro para revelar um vestido “ladylike” vermelho, no mesmo tom granada do sapato, deixando-a ainda mais deslumbrante. Jogou o casaco em minhas costas quando percebeu que eu não me moveria para pegá-lo, porque sequer conseguia pensar. Mal sabia ela que eu estava fervendo tanto, que poderia ficar nua na gélida Londres, sorrindo abertamente.
Como esperava, não fui capaz de responder. Senti como se estivesse orbitando ao redor dela. Quis tocar as mãos que agora repousavam em seu colo, só para ter certeza de que não estava sonhando. Aquele chocolate quente com canela da lanchonete da manhã estava mesmo com um gosto estranho, podem ter colocado alguma substância alucinógena nele... Só assim para eu estar vendo aquela rosa vermelha reluzir entre dezenas de flores mortas.
Um estalo calou meus pensamentos e eu finalmente ouvi o som externo. Um estrondo ensurdecedor e um vento repentino. Como se eu despertasse, ergui-me para me encontrar sozinha na estação e, bem à minha frente, fechavam-se as portas do trem. Pelo vidro embaçado, a morena misteriosa me sorriu, acenou e com outro som ensurdecedor, o veículo partiu.
Era isso. Lá estava eu, sozinha, estática. Droga. Não acredito que o universo cortou meu barato tão depressa. Mesmo com aquele sobretudo pesado em meus ombros, acabei sentindo um frio inexpl... Espera! O sobretudo dela! Ah, não! O livro, ela esqueceu o livro aqui no banco!
Deduzo que uma mulher tão linda deva ser muito atarefada para prestar atenção nisso. Ela com certeza tem mil pensamentos, é justo o seu esquecimento. Mas e agora? Eu preciso devolvê-lo! Quando o abro, noto que ela parou justo no capítulo em que Christine Daaé vai tirar a máscara de Érik, o Fantasma da Ópera! Oh não, não, não! Ela precisa tê-lo de volta e retomar a leitura o mais rápido possível!
Começo a bisbilhotar o livro. Não deveria invadir sua privacidade literária daquela maneira, mas sempre fui uma criatura curiosa e boa para encontrar pessoas, sabia que pistar ajudariam. Rezo para encontr.... Digo, para não encontrar, de jeito nenhum, nada erótico dela aqui.
Brilhante! Na contracapa há uma um bilhete enorme dobrado com uma letra linda e nas folhas de guarda uma série de anotações numa letra tão linda quanto!
“Querida Regina,
Eu estava passando pela nossa livraria predileta, a Brave Dragon. Lilith e Merida finalmente estão morando juntas, mas brigam como cão e gato, uma graça! Mandaram um beijo para você e para a mamãe. Eu adoraria entregar o presente, mas se eu for até em casa, sabe que papai vai querer me entupir de comida e eu realmente não posso perder o voo para a Rússia. Dorothy deve ter acampado no aeroporto em Moscou para me receber.
Sentirei saudades e prometo trazer presentes para todos. Diga para a Zel não exagerar no whisky e obrigar o Robin a fazer aquela barba horrorosa. Beije e abrace muito o Killian e a Tinker quando a trupe dele conseguir o contrato. Não se esqueça, 15 de dezembro, às 19h ele saberá o resultado no Teatro Victoria Palace!
Como já estou enchendo o seu dia 15 de dezembro, tenho mais um pedido. Não deixe de visitar as crianças do orfanato enquanto estou fora, por favor. Sei que revezamos, mas não os deixe sem companhia. Eles precisam de esperança. Ah, e sabe o garotinho que a Zel quer adotar, o Roland? Então, ele faz aniversário dia 14... Que tal você fazer uma surpresa? Ele vai adorar!
Com amor e morrendo de saudades desde já...
Sua melhor irmã (Não conte para a Zel, só diga que eu a amo e que sou a melhor irmã dela também)
Red. ”
Que irmã abençoada! Essa despedida com cara de lista de compras vai me ajudar muito. De brinde veio o nome da morena que levou meu fôlego embora naquele trem. Não sei se é o belíssimo nome “Regina”, se são aqueles olhos, ou se é minha mania de querer ajudar, mas algo me move involuntariamente a correr dali com o livro nas mãos. Não pensei nos fones de ouvido que saltaram das minhas orelhas, quase arrastando no chão, ou que poderia deixar o sobretudo cheiroso dela todo suado. Não pensei na saia esvoaçando pelas escadarias da estação, ou mesmo de como eu parecia ainda mais louca cheia de cores naquela cidade cinza enquanto corria.
O que sei é preciso achá-la e anunciar que ela chorará com esse livro da mesma forma que eu chorei, aproveitando para perder-me nos olhos dela novamente. Poderia procurar pelo nome, porém, além de não ter o sobrenome, imagino que Red deva ser um apelido da irmã, e não um nome de fato. Talvez eu deva começar pelo primeiro item: A livraria Brave Dragon.
— Bom dia... – Tento. O sino ecoa pelo espaço aconchegante, todo de madeira escura. No tapete à frente do caixa, três garotinhos ruivos de macacão soltam seus brinquedos e me analisam com curiosidade. Tenho vontade de agarrar todos eles e levar para casa. Será que alguém notaria?
— Bom dia, seja bem-vinda! – A voz me tira dos pensamentos sequestradores. Do que parece ser o estoque desce uma morena com uma pilha de livros, seguida de uma ruiva magrinha. Essas devem ser Lilith e Merida, ou Merida e Lilith, não sei... O que importa é que devem ser elas. Pelo modo como se olham ao descerem, parecem apaixonadas. A morena, dona da voz, pulou para trás do balcão e continuou. – Está procurando algo específico? Eu posso ajudá-la! Aliás, sou Lilith e essa ruiva maravilha aqui é a Merida!
Sorri cordialmente. Mas precisava ir direto ao ponto:
— Emma Swan, muito prazer. Estou procurando por alguém, na verdade. A única coisa que sei sobre ela é que se chama Regina e tem uma irmã que se chama ou é apelidada de Red. Esse livro foi comprado aqui.
Estendi o livro para que a ruiva encaracolada o analisasse. Ela parecia considerar algo, trocando olhares com a morena enquanto lia a contracapa e olhava rapidamente o bilhete da tal Red. Olhei ao redor para a bela livraria, com entalhes nas estantes, aromas florais e iluminação aconchegante.
— Red é a Ruby. Uma das nossas mais assíduas clientes. – Lilith me disse vagamente, tamborilando os dedos no balcão. – Só perde sua assiduidade para a própria Regina.
Ok. Aquele par de olhos frequentemente aprecia aquela livraria. Quase pedi que me segurassem. Senti que desmaiaria ali mesmo, em cima dos três ruivinhos no tapete, que começam a rir ao ver que involuntariamente abri um senhor sorriso com sua resposta.
— Hamish, Hubert e Harris, fiquem quietinhos. A irmã de vocês está trabalhando. – A ruiva, Merida, esticou-se no balcão para reprová-los com um olhar, dando suas ordens. O belo sotaque gaélico foi facilmente notado. – Precisamos respeitar os clientes, não se esqueçam.
— Vocês são próximas...? – Engoli em seco, rezando para que não me achassem uma louca psicopata. – Sabem como posso entrar em contato com ela?
— Bem... – Lilith sorriu. – Na festa de aniversário do pai dela, há cerca de três semanas atrás, as irmãs delas, bêbadas, a jogaram na piscina da mansão da família. O celular dela pifou e ainda não foi substituído... – Explicava.
— Logo... – Merida continuou também sorrindo. Todos os casais fazem isso? – Ela está temporariamente incomunicável. Contudo, Regina é muito regrada e tem manias inconfundíveis. Nossa sugestão, moça curiosa...
— É que vá a todos os lugares que ela costuma ir, que por sorte foram descritos por Ruby no bilhete. – A morena completou, devolvendo-me o livro. – São locais que ela realmente frequenta. Talvez possam informar seu paradeiro, pois a empresa dela está de férias, então, não a encontrará lá. E a mansão da família fica em Liverpool.
— Mas se nos permite perguntar... Por que a está procurando? – Merida estreitou os olhos e esticou o pescoço na minha direção, como se estivesse desconfiada. Eu disse que me achariam louca.
— Eu... O livro. – Ri. Acho que piorei a situação. – Eu a vi esquecendo-se dele no trem e quero devolver. Ela parecia gostar muito dele, ainda mais agora que descobri que foi um presente.
— Claro! – Lilith começou a arrumar uns papéis no balcão e eu poderia jurar que tentava conter um riso capaz de quebrar os vidros das janelas.
— Siga nosso conselho. – Merida piscou-me. – E boa sorte.
Saí da livraria sentindo uma comichão estranha no corpo. Como se estivessem me cutucando e dizendo que eu deveria ter deixado o livro com elas. As duas conheciam a morena misteriosa, não é? Mas aquela vontade incessante dentro de mim queria entregar pessoalmente, tanto o livro quanto o sobretudo. Como se uma algo em meu interior precisasse ver aqueles olhos novamente. Será que ela me daria uma foto deles? Não! Não, Emma, pare de falar besteiras e siga em frente. Vou arriscar o teatro. Mesmo que aqui esteja escrito 19h, talvez ela estivesse indo para lá e já esteja esperando com esse tal de Killian. Isso. Mesmo ainda sendo 14h da tarde. Se você não está louca, Emma, essa é a hora.
A caminho do teatro sinto-me mais animada. Meu irmão David ama teatros e é onde mais ama se apresentar. Acabei por adquirir sua paixão e confesso que em nada me arrependo. Na extensa rua até o Victoria Palace pude ver pessoas entrando e saindo do teatro com largos sorrisos em seus rostos, diferente de todos na estação. Aposto que é o efeito da arte!
Uma entrada belíssima, assim como todo o exterior. Meus pés formigam para vê-lo por dentro. E deixo de senti-los quando finalmente entro. O hall de mármore reluz minha imagem de todos os lados, é extasiante. O cheiro, a tranquilidade.... Eu poderia morar ali mesmo. Mas preciso realmente encontrar uma morena misteriosa que atende pelo nome de Regina primeiro, por isso subo as escadarias antes que o porteiro me pergunte que diabos vim fazer e dirijo-me à sala principal. Céus. Céus. Céus! Quase abandono a ideia de procura-la para mudar-me imediatamente. É gigantesco. As poltronas vermelhas com bordas douradas enchem meus olhos. As luzes que contrastam com o ouro, as cortinas imitam uma plateia, é magnífico!
Preciso me sentar. E sento. Deixo meu corpo tombar na poltrona mais próxima e só agora percebo que parei de respirar. David amaria esse lugar. Aliás, David vai amar esse lugar, será a primeira atração que ele terá quando se juntar a mim. Já posso vê-lo encantando à todos com suas composições Folk. Seria um orgulho. Ele já é um orgulho, o meu maior orgulho, mas ali, naquele palco majestoso, seria ainda mais.
Sou tirada pela segunda vez num só dia dos meus pensamentos saudosos. Passos ecoam na sala e, de uma entrada lateral, surgem duas mulheres e um homem impecavelmente vestidos, elegantes e carrancudos. Um segundo homem surge no palco ao lado de uma jovem loira e pequena. Com uma reverência ele anuncia:
— Senhoras e Senhor, essa é nossa caríssima diretora e dramaturga, conhecida por vocês do mundo da arte como Tinkerbell. Ela é responsável por nossos melhores espetáculos! Senhorita Rose, estes são, respectivamente, Robert Gold, o investidor e patrocinador; Úrsula Dungey e sua esposa Victoria, as proprietárias do Royal Opera House.
— É um prazer recebê-los aqui hoje. – A diretora sorriu-lhes. – Apresentaremos apenas uma cena, com apenas um de nossos atores e dançarinos. E somente esta será julgada por vocês.
O trio assente, sentando-se na primeira poltrona e limitando-se a aguardar a apresentação ao invés de fazer mil perguntas. Aquela moça parece calma demais, se fosse minha trupe eu ficaria maluca para tentar agradar investidores e afins. Deve ser uma cena e tanto para ela estar tão confiante.
Fixei meus olhos no palco para deparar-me com uma repentina escuridão. De repente, um único foco de luz no centro e as cortinas se abrem. Um violino inicia a cena, comportado e sussurrante. Uma nota que meus tímpanos captam e sentem-se melancolicamente atingidos. Reconheço como Tchaikovsky, Swan Lake, Op. Nº20, Segundo Ato. Dos bastidores surge um homem. É moreno, pálido e o que mais me chama a atenção são os olhos azuis e sua expressão que mescla desespero com angústia. Um colã negro cobre quase todo o seu corpo esbelto, mantendo o foco no rosto e em suas mãos que parecem muito trêmulas.
Quando a luz se torna mais forte, o homem torna-se mais nítido e finalmente vejo que o colã é revestido de pequenas penas negras e, no braço, uma única fileira de penas longas. Ele parece tão triste. A dor parece tão real, quase palpável. Seus lábios finos se movem sofregamente, em palavras mudas. Seus pés descalços se movem da mesma forma e inicia-se o balé. Concentradamente ele desliza solitário pelo palco, com movimentos lentos e firmes. Um rodopio e seu corpo arqueia-se como se estivesse morrendo. Arde assisti-lo coreografar o clássico do Teatro Bolshoi.
Quando o andamento da música acelera, o rapaz arregala os olhos e posso ver perfeitamente o rio de lágrimas que passa a escorrer de suas pálpebras. Abre a boca com força, como se fosse gritar, mas não grita. Simula berros, agarra os cabelos curtos com as mãos, até cair de joelhos e interpretar com maestria um vômito intencional. Coloca fundo os dedos na garganta, e depois a mão inteira, fingindo puxar algo de dentro. E da mesma forma abrupta como começou, simplesmente parou. Parou, abriu os braços e junto um belo sorriso. E a música comporta-se novamente...
Suas expressões transformam-se em confusão. Ele olha ao redor como se procurasse algo, tateia o chão com pressa, até encontrar um objeto retangular na tábua próxima à beira. Sorri. Sorri somente. Ao abri-lo, revela um batom. Analisa a maquiagem como se a reconhecesse, até levar os lábios e tingi-los de um vermelho Borgonha. Seu sorriso destaca-se ainda mais. Toco meu rosto e só assim percebo que também estou chorando. Mas o que viria a seguir, eu soube, me destruiria. Quando a obra encontra o seu auge, o batom é atirado no palco e o rapaz finca as unhas no próprio peito, rasgando sua roupa. Só ali percebo que, na verdade, o corpo que parecia musculoso era um tanto magro, mas estava coberto por grossas camadas de tecido. As penas negras grudam em suas palmas suadas, o colã negro é destroçado por seus dedos.
Quando encontrasse a morena misteriosa, Regina, e devolvesse seu livro, iria pedi-la em casamento. E simplesmente por me dar, acidentalmente, a chance de ver uma cena tão emocionante. O rapaz se contorce no palco como se o estivessem torturando, simula mais gritos, arregala os grandes olhos azuis e ofega. Revela por baixo do colã preto, para minha surpresa e deleite, um branco, revestido de penas igualmente brancas junto a discretas e aleatórias penas douradas. Mas o detalhe que chama minha atenção e arranca meu fôlego é ver que o colã assemelhava-se a um corpete e que, quando o ator se levantou, havia saltos agulha em seus pés. Quando puxa a parte de baixo do colã negro, a saia tule branca pousa em suas coxas e sua dança inicia-se mais uma vez. Agora, sorria emocionado, emocionando-me ainda mais. Entendi naquele momento do que se tratava a transformação do cisne negro para o cisne branco, da luz para a escuridão. Dançava com uma habilidade invejável sobre os saltos, com o batom vermelho ofuscando tudo ao seu redor, movimentando-se com um brilhante sorriso entre as penas negras no chão. Termina com os braços abertos novamente, simulando um último grito, mas um grito que me remetia a vitória.
As luzes se acendem e sinto-me ser puxada de um oceano profundo, onde eu sequer senti meu ar se esvair. Quero levantar e pular bem alto, aplaudindo, mas sinto meu corpo estático, trêmulo. Em minha incapacidade, os três que o avaliaram levantam-se e aplaudem, fazendo comentários baixos entre si. O rapaz tira os saltos e a diretora, a moça loira e pequena, corre para abraça-lo, tão emocionada quanto eu. É como magia. Ele sorri para os jurados e os reverencia, elegante e, pelo que parece, aliviado em ter conseguido.
— É uma grande honra, Senhor Gold, Senhoras Dungey. – O sotaque irlandês do rapaz me fez sorrir. – Sei que esperavam a peça completa, mas gostaria de manter o suspense mesmo para vocês, que nos patrocinarão.
— Parece confiante, Senhor Killian Jones. – Robert Gold o avaliou com um sorriso, subindo para lhe dar um aperto de mão. Tinha uma risadinha engraçada, quase gargalhei ao ouví-lo. Mas detive-me, porque finalmente o encontrei. É ele! Killian Jones, citado no bilhete da irmã da misteriosa morena!
— E deve estar. – Úrsula subiu em seguida, afagando as costas de Victoria, sua esposa, que ainda chorava com a cena. – Foi primoroso. Mal podemos esperar para tê-lo em nosso Teatro! – É uma belíssima voz. Como dona de uma ópera, ela com certeza sabe ou aprecia muito o canto lírico.
— Nos resta a decisão de Robert. – Victoria limpava as lágrimas, tirando do casaco um cantil de bolso, que deve ser um whisky dos bons, pois o cheiro veio parar aqui em cima, virando um generoso gole. – Porque nosso voto é, sem dúvida alguma, um sim! Que espetáculo, meu jovem!
— Obrigado, minha cara Victoria. – Killian sorriu, era muito simpático. – O que me diz, Senhor Gold? Encaixo-me nos seus padrões de excelência? – Todo o grupo riu, fazendo-me crer que Robert Gold deveria ser famoso por ser exigente.
— Você os ultrapassa, meu jovem. – Ele tomou gentilmente o cantil prateado das mãos da loira e ergueu como num brinde. – Parece que muito em breve teremos você e sua trupe no Royal Opera House!
Quase corri escada abaixo para me juntar ao abraço e aos rodopios de Killian Jones e a diretora dramaturga. Riram, pularam de alegria. E estavam certos, foi tão incrível! Mesmo sem nada saber sobre o que se passava, como fora o contato, eu sabia que ele conseguiria.
Passo mais alguns minutos admirando a sala enquanto conversam. Os três patrocinadores deixam finalmente o palco com a diretora, provavelmente para lidar com a burocracia. E assim fica sozinho o artista, sorrindo, extasiado. Corri para lá, era o meu momento de descobrir como encontrar a morena e aqueles olhos divinos. Não me contive em pular para o lado dele, assustando-o com o baque da madeira.
— Oh! Por Dionísio! Que susto, senhorita! – Ele se afastou, estremecendo. Parabéns, Emma, quase matou o artista;
— Mil perdões... – Encolhi-me com um sorriso débil. – Mas eu precisava falar com você, Senhor Killian Jones.
— Senhor? Querida, deixe disso! – Ele gargalhou, alisando a barba. – Sou Killian, somente. Vi que estava assistindo nossa apresentação. Gostou?
— É maravilhosa! – Não consegui segurar. – Você merece, meus parabéns!
— Obrigado, fico feliz em saber que gostou. Estava muito nervoso... – Coçou a nuca, sem jeito, rindo. – Mas algo me diz que há um motivo mais específico para esse encontro, a senhorita parece ansiosa...
— Sim, eu... – Pigarreei. É agora. – Sou Emma, muito prazer. Estou procurando por alguém e talvez possa me ajudar. A única coisa que sei sobre ela é que se chama Regina e tem uma irmã que se chama ou é apelidada de Red. Esse livro é dela. – Estendi o exemplar. – E há um recado avisando-a para comemorar com você quando conseguisse o contrato e... Bem, pensei que a encontraria aqui, mas me enganei... – Ri sem humor.
— Regina é muito imprevisível... – Ele considerou, lendo o bilhete. Mas as moças da livraria não disseram que ela era regrada e cheia de manias inconfundíveis? Estão me fazendo de boba! – É quase impossível prever. Mas ela está sem celular e não sei por onde anda. Como hoje é sexta-feira, acredito que possa encontrá-la num lugar, especialmente nesse dia. Todas as sextas ela visita o orfanato Strawberry Field. Ainda mais porque ontem foi aniversário de um garotinho que a irmã dela quer adotar, como você pode ver aqui. Ela com certeza deve estar lá! Eu diria para vir comigo ao Pub em que nos reuniremos essa noite, mas como disse, senhorita, Regina não dá um passo sem dar uma surpresa. Não quero fazer você perder tempo. – E deu-me um lindo sorriso amável.
— Acredite, não o fez! – Entusiasmei-me com a ideia de achá-la no orfanato. – É a melhor pista que tenho até agora, preciso encontrá-la e ver aqueles olhos novamente!
Percebi que acabei me empolgando até demais. Killian Jones analisou-me curiosamente por um instante, até abrir um sorriso lascivo, meneando positivamente com a cabeça:
— Espero que a encontre, porque Regina tem mesmo lindos olhos. – Deu de ombros. – Boa sorte, Emma.
Não fui capaz de responder. Sei que ruborizei da cabeça aos pés, porque Killian soltou uma gargalhada alegre e reverenciou-me, oferecendo passagem. Subi as escadas praticamente saltando, correndo para fora do teatro. Era isso, eu iria até o orfanato e a encontraria lá. Eu sabia muito bem do que ele falava, porque foi exatamente no orfanato Strawberry Field que conheci meus pais, Ruth e George. Sim, sou uma londrina de nascença, assim como David. Quando nos viram, acredito que tenha sido, para nós quatro, amor à primeira vista. Mesmo tendo apenas seis anos e David cinco, sabíamos que nossos genitores haviam nos abandonado, mas tentávamos sempre alegrar às outras crianças e manter nossa esperança. Esse esforço valeu a pena quando os dois foram nos visitar e escolheram aos dois logo de cara.
Avançava a passos largos pelas calçadas, eufórica. Tinha certeza de que agora encontraria a morena misteriosa. Era minha última chance e de jeito nenhum pretendo desperdiçá-la. Me perguntava porque não aproveitei a possibilidade de Killian vê-la para ele mesmo entregar o livro, porém, mais uma vez, eu precisava rever aquela mulher. No caminho, avistei uma das coisas mais lindas que já vi em minha vida: Uma doceria. O letreiro de madeira e cores alegres a deixava ainda mais linda “Belle Époque”. A vitrine expunha os doces e bolos em suportes prateados, senti-me salivar imediatamente. Até que uma ideia me ocorre: Já que foi aniversário de um garotinho, eu poderia levar um bolo para as crianças! Por que não?
Ao entrar, o cheiro me entorpece e quase seguro-me no balcão para não desmaiar. O aroma adocicado mistura-se, encanta-me. Percebi que, para minha surpresa, quase todos os doces eram típicos da frança, o que eu deveria ter imaginado ao ler o nome. Crêpe, Eclair, Madeleine, Tarte Tatin, Créme Brulée, Paris Brest, Choux, Macaron, Profiterole, Canelé, Baba au Rhum, Mille Feuille, Clafoutis... Li cada um dos nomes escritos a mão com uma maestria invejável em letra cursiva. Não os conhecia, mas parecia um mais delicioso que o outro.
— Seja muito bem-vinda! – A voz de uma moça arrancou-me do transe saboroso em que me encontrava.
Virei-me para o balcão e, com as mãos unidas sobre o tampo, uma morena de profundos olhos azuis sorria para mim. Era bonita e parecia haver uma aura ao redor dela, tamanha a simpatia que exalava e o modo como seu tom de voz deixou-me confortável. E o sotaque, como pensei, francês.
— Bom d... Boa tarde! – Corrigi-me ao ver o majestoso relógio de ponteiros na parede, de marcações douradas e, ao redor de seu formato redondo, rosas vermelhas entalhadas.
— Sou Belle French, muito prazer. – Estendeu-me sua mão. – E você é...?
— Emma! – Sorri ao pensar em quantas pessoas peculiares já conheci hoje. – Emma Swan, o prazer é todo meu. Sua loja é... – Suspirei. – Um deleite.
— Oh, mas que honra! – Expôs um sorriso brilhante. – Pelo modo como sussurrava as palavras, deduzo que ainda não conhece bem a culinária francesa. O que a traz até nós? Curiosidade ou algo específico?
— Na verdade, eu gostaria de um bolo e aqui me pareceu o lugar ideal! – Admiti. – Poderia escolher um para mim? Estou totalmente perdida... – Ri. – E pode ser o que tenha mais chocolate! – Senti-me uma criança ao abrir um sorriso largo e travesso.
A atendente me surpreende ao acompanhar meu entusiasmo e sair de trás do balcão para me ajudar. O vestido rodado lhe caía muito bem e seu caminhar era gracioso. Puxou-me pelo braço para os expositores, colocando-me bem à frente de um enorme bolo, inteirinho de chocolate.
— Já temos seu favorito! – Ela riu.
— Com certeza! – Ri de volta, mais boba do que antes.
— Dependendo da ocasião, eu a aconselharia a levar alguns doces. Posso escolhê-los, o que me diz? – Ofereceu, simpática.
Ainda hipnotizada pela imagem daquele bolo, simplesmente assenti. Belle embrulhou uma porção de cada um daqueles doces, falando-me dos ingredientes e sensações. Que atendimento esplendido! Preciso voltar aqui muito, muito mais vezes. Saí da doceria carregando metade da doceria nos braços, finalmente me direcionando para o orfanato.
Quando cheguei nos largos portões de bronze, carregando o título em vermelho, Strawberry Field, ele imediatamente foi aberto. Uma jovem morena de cabelos curtos veio até mim e, sem perguntar, ajudou-me com o peso dos doces, sorrindo.
— Uau! – Ela riu. – Seja bem-vinda ao nosso orfanato. Se isso for para as crianças, prevejo uma tarde de muita alegria. Sou Mary, a principal responsável pelos nossos pequenos.
— Emma! – Já havia me acostumado a me apresentar depois desse dia. – Sim, é tudo para eles. E especialmente esse bolo, soube que um garotinho especial fez aniversário ontem. – Timidamente confessei.
— Roland? – Arqueou as sobrancelhas. – Como soube?
— Estou procurando uma moça que o conhece, provavelmente trata-se de uma voluntária. Ela e as irmãs vêm aqui, talvez possa me ajudar... Uma delas parece querer adotá-lo.
— Ah, sim! – Ela riu, descontraindo. – As irmãs Mills. Ruby, Zelena e Regina. Você as conhece?
— Não, na verdade... – Corei. – Estou procurando uma delas para devolver esse livro. – Tirei da bolsa desajeitadamente o exemplar.
— Regina, com certeza. – Franziu o nariz, divertida. – Esses romances dramáticos são bem do feitio dela. Acertei?
— Em cheio! – E lá estava eu, entusiasmada novamente. – Um amigo dela, Killian Jones, me disse que eu poderia encontrá-la aqui hoje... Algo sobre ela vir todas as sextas... – Pisquei um olho, torcendo.
— Oh, minha querida, eu lamento, mas ela não apareceu hoje. – Guiou-me pelo largo corredor, cheio de portas, iluminado e colorido. – Hoje quem veio foi a própria Zelena, alegando que, ao que parece, Regina teria que sair da cidade. Vai visitar os pais em Liverpool.
— O que? – Arregalei os olhos. Não, não, não. Minhas esperanças voavam pela janela. Eu não encontraria a morena misteriosa naquele vestido vermelho, com aqueles olhos felinos. Não.
— Sim, os pais vivem lá. – Sorri. – Aqui. – Abriu uma porta que dava para um lindo pátio, recheado de brinquedos, flores e... Crianças. Eu amava crianças. – Eles se divertiram com Zelena pela manhã, mas estão um pouco entediados agora a tarde. Quanto a Regina, ela volta em duas semanas, não se preocupe em guardar o livro. – Sorriu cordialmente.
Parte de mim estava decepcionada. Mal podia acreditar que não a encontraria, que ela já estava muito distante dali. Por um momento pensei em Killian ter dito que talvez se encontrassem num Pub à noite, mas ele também disse que ela era imprevisível. Não devo mentir dizendo que, por algum motivo não identificado, esmoreci. Eu desejei tanto vê-la e, agora, não poderia. Segui para o pátio com os tantos doces e bolos, cabisbaixa.
Mas havia algo ali. Repentinamente estar com aquelas crianças encheu meu coração, o fez transbordar. Eram tão encantadoras, tão amáveis. Abraçavam-me, agarravam-se em minhas pernas, deliciavam-se com os doces, com seus brilhantes olhos iluminando-me por dentro. Pediram uma história, uma canção. Contaram-me de seus sonhos juvenis e principalmente de seu desejo de ter uma família. O pequeno Roland mostrou-se um encanto sem precedentes, dizendo que a mãe e o pai dele foram visitá-lo de manhã, intitulando-os de Robin e Zel. Apesar de não conhecê-los, tive certeza de que iriam conseguir adotá-lo, ele estava apaixonado pelos dois. Quando o fino sol se punha, era hora de voltarem para dentro e descansarem. Mais abraços e beijos, mais carinho daquelas crianças que não desejavam nada além de amor.
Mary agradeceu-me calorosamente e deixei o orfanato como se flutuasse. A noite caia e eu caminhava pelas frias e caladas ruas de Londres com um coração tranquilo, uma mente fixada na imagem de uma mulher desconhecida e com um exemplar de “O Fantasma da Ópera”, embaixo do braço. Que dia. Então, ela era Regina Mills. Um nome tão lindo quanto ela.
Decidi seguir meu caminho para o Pub Roebuck, próximo ao Richmond Park. Senti-me um robô, andando sem expressão. Não porque nada sentia, mas havia tantas sensações em mim que não fui capaz de exteriorizá-las todas ao mesmo tempo. Mandei uma mensagem para meus colegas de classe, August Wayne Booth e Neal Cassidy, porque sei que aqueles dois desocupados estarão dispostos a encher a cara nessa noite de sexta-feira. O Roebuck era nosso Pub predileto, especialmente pela vista mais que fantástica do parque.
Resolvi folhear o livro mais detalhadamente, notando que havia anotações em quase todas as páginas. Coisas aleatórias, lembretes pessoais e, para minha surpresa e mais um pouco de encanto, havia trechos das músicas de Andrew Lloyd Webber. Pequenos versos como “And in this labyrinth were night is blind, the phantom of the opera is here... Inside my mind”, “Masquerade! Grinning yellows, spinning reds! Masquerade! Take your fill, let the spectacle astound you!”, “Softly, deftly, music shall caress you”, “What raging fire shall flood the soul? What rich desire unlocks its door? What sweet seduction lies before us?” e finalmente, o meu favorito, o mais belo de todos “All I want is freedom, a world with no more night; And you, always beside me, to hold me and to hide me”.
Ela gostava do musical. Oh! Esplendido! Mesmo sem obter sucesso, meu dia valeu muito a pena. Correr atrás daquela mulher o dia inteiro valeu muito a pena. Eu sabia que estava sorrindo, sabia que estava sem fôlego. Continuei folheando, encontrando mais e mais trechos, cantarolando-os nas ruas escuras. Quando finalmente cheguei na última página, a página em branco, pude jurar que meu coração explodiu ao ver um recado e uma marca de batom deixada por lábios que, só pela marca, vejo que são belíssimos.
“Pub Roebuck, 130 Richmond Hill, Surrey. 19h.
Não se atrase. Eu ainda não sei o seu nome, garota dos cachos dourados e das roupas coloridas.
Regina Mills.”
Parei. Simplesmente parei no meio da calçada, atônita. Não. Não é possível. Essa mulher... Não. Estou ficando louca. Pare, Emma, você está louca! E quer saber? Dane-se! Isso, grite, Emma, dane-se se você está louca, ou se ela está louca, ou se você conheceu um bocado de loucos nesse louco dia. Que maldita e doce loucura é essa, dane-se. Vá. Vá, Emma. Corra! Agora!
Obedeci minha própria voz que gritava em minha mente. Corri. Ignorei os olhares curiosos e espantados, corri, corri, corri em direção ao Pub Roebuck, não poderia ser uma coincidência, não era. Eu não sabia, na verdade, o que era, mas precisava descobrir, nem que fosse um psicopata que armou todo um plano para me matar. Materializei, como fiz o dia todo, aqueles olhos, aquele sorriso e aquele solar elegante em minha cabeça e corri.
Sem nem me dar conta, já estava na porta. Foi quando detive-me, quase arrancando a ponta da sola dos meus sapatos, ofegando como uma maratonista e suando como um porco. Ri de mim mesma, eu estava sendo uma tola? Sim. Definitivamente, Emma Swan, você está sendo uma tola. Está agindo como uma menina de 15 anos que se apaixona à primeira vista.
Entrei mais discretamente, tentando recuperar o fôlego. E mais uma vez senti que meu coração explodiria. Sim, explodiria, mas não como uma bomba. Explodiria como fogos de artifício, brilhantes e festivos. Deparei-me com August segurando duas garrafas de cerveja e sorrindo para mim, próximo ao balcão. Na mesa em que costumávamos a ficar, Neal estava abraçado de lado com uma moça que, para me deixar ainda mais abobada, tratava-se da diretora do teatro, “Tinkerbell”. Do corredor que levava ao toilete, a moça da doceria, Belle French, aproximou-se e cruzou seu braço com o de August, dando um beijo carinhoso em seu rosto. Caminhei até meu colega com as pernas bambas, tentando não me precipitar.
Quando chego até os dois, os refletores do pequeno palco do Pub se acendem para revelar uma banda. Precisei levar as duas mãos até o peito para garantir que meu coração não fugisse. No microfone, com um violão, o rapaz, Killian Jones. Num contrabaixo clássico de madeira escura, com um sorriso adorável, Mary, a coordenadora do orfanato Strawberry Field. Na bateria, arrancando-me um sorriso, a moça da biblioteca, Lilith e, subindo rapidamente para entregar-lhe as baquetas e deixar um beijo em sua testa, a outra jovem, Merida. Não... Eu estava ficando maluca, estava totalmente sem rumo.
Killian piscou divertidamente para mim, iniciando a canção. Neal juntou-se a nós ainda abraçado à diretora loira do teatro, ambos sorridentes. Reconheço essa música, David adorava aquela banda. Era “Find a way”, do Safetysuit, que ficou impecavelmente agradável em sua voz e seu sotaque. August me entregou uma das cervejas, agarrada sem firmeza por meus dedos trêmulos. Enquanto a música soava, outros dois casais se juntaram a nós e, dessa vez, meu coração realmente deu um salto.
— Ei, loira misteriosa! – Uma mulher ruiva sorriu. – É um prazer finalmente conhecê-la. Sou Zelena, esse é meu Robin Hood e essas sãos Ruby, minha irmã e sua namorada, Dorothy.
Não sabia o que dizer. Estava estática. August notou meu estado e gargalhou, assim como todos ao meu redor.
— Ela é Emma. – Neal adiantou-se. – Emma Swan.
Antes que eu pudesse me recuperar do choque e falar alguma coisa, outro refletor surgiu do topo do palco. Merida havia subido até lá, não faço ideia de como, e o acendeu. E quando Killian cantou mais alto e animado, com os instrumentos todos acompanhando, e Merida apontou o refletor para uma mesa próxima ao palco, que eu ainda não tinha visto devido à escuridão, meu coração finalmente, depois de tantas ameaças, explodiu.
You know I'm gonna find a way
(Você sabe que vou encontrar um jeito)
To let you have your way with me
(De deixar você ter seu caminho comigo)
You know I'm gonna find a time
(Você sabe que vou encontrar um tempo)
To catch your hand and make you stay
(Para pegar sua mão e fazer você ficar)
I don't care what clothes you wear
(Eu não me importo quais roupas você veste)
It's time to love and I don't care
(É tempo de amar e eu não me importo)
You know I'm gonna find a way
(Você sabe que vou encontrar um jeito)
To let you have your way with me
(De deixar você ter seu caminho comigo)
Na mesa oculta, com um sorriso que poderia dominar o mundo inteiro, o mesmo vestido vermelho e uma sobrancelha arqueada, a morena misteriosa da estação do trem. Regina Mills. Olhava diretamente para mim, fixa em meus olhos como se pudesse me ver por dentro, estendendo seu sorriso, provavelmente ao ver como eu estava mais tonta que barata depois de tomar dez chineladas. Todos ao meu redor aplaudiram rapidamente ao final da música e sentaram-se nas mesas, conversando. Todos se conheciam. Neal e August conheciam a coordenadora do orfanato, as donas da livraria, o ator, a diretora e com certeza conheciam a morena misteriosa.
Eu estava ardendo, podia sentir isso em cada pedacinho da minha pele. Eu a encontrei. Virei essa cidade de cabeça para baixo e finalmente estou diante dela. August estica-se em sua mesa e me empurra sem delicadeza alguma, forçando-me a mover meus pés até ela. Chego ainda mais tonta ao recordar-me do aroma e, ainda trêmula, estendo o livro. Ela me analisa sem abandonar aquele sorriso devastador, fazendo-me quase arfar.
— Você demorou mais do que eu previa. – Ela suspirou. Era linda até ao suspirar. Droga! – São 20h45, loira misteriosa dos olhos esmeraldas. – Sorriu. – Obrigada, eu já estava sentindo falta do meu livro predileto.
Abri a boca, mas falhei ao tentar proferir alguma coisa. Ainda estava sem ar, perdida, enlouquecida. Respirei fundo, acenando, olhando para meus dedos e jurando que poderiam ser feitos de gelatina conforme tremiam, conseguindo apenas sussurrar.
— Emma. – Busquei pelo ar. – Emma Swan...
— Regina. – Estendeu sua mão e segurou a minha, rindo ao ver como tremelicava. – Regina Mills. Mas disso você já sabia.
Finalmente consegui rir, relaxando os ombros:
— Sim. Eu já sabia... – Engoli em seco. – Oi... Eu... – Ri novamente, desconsertada. – Oi!
— Oi, Emma Swan. – Abriu novamente aquele sorriso estonteante. – Você teve um dia agradável?
Não respondi de imediato. Mantive meus olhos presos ao dela, rememorando aquele dia extraordinário. As moças divertidas da livraria mais linda que já vi em minha vida e aqueles três ruivinhos brincando no tapete. O Victoria Palace, o teatro que me deixou sem ar, encantada. A performance de Killian Jones, que arrancou de mim as emoções e o prumo. Aquela doceria magnífica, comandada pela simpática Belle French. Mary em seu orfanato, com aquelas crianças que me ganharam tão rapidamente. Todas as paisagens que vi nesses caminhos, como dei todo o meu entusiasmo e minhas esperanças para encontrá-la. Um dia onde esqueci-me das responsabilidades da universidade, do trabalho, da saudade dolorosa da minha família, que deu lugar a uma saudade alegre. Regina Mills me deu um dia de encantos e surpresas.
— Sim... – Tentei no melhor tom que consegui pronunciar. – Como você... Como sabia que eu a procuraria para devolver o livro?
— Não sabia. – Bebeu elegantemente um gole de vinho, mexendo na taça em suas mãos. – Mas desejei que o fizesse.
— Por que...? – Estava acanhada e confusa. O que uma deusa quereria de uma mortal como eu?
— Porque estava cansada de ver todos os dias uma moça de roupas coloridas na estação do trem, destacando-se entre todos os outros como um foco de luz destaca-se na escuridão e sequer saber o nome dela. – Encarava-me sedutora e tranquilamente, mesmo ao me ver enrubescer da cabeça aos pés.
— Oh... Eu sou Emma. – Ri. Ótimo. Parabéns, Swan, você acaba de bater o recorde de tonta do século.
Surpreendendo-me, ela soltou uma gargalhada grave e incontida, levando em seguida o palito com a azeitona até os lábios, mastigando-a suave e majestosamente, fazendo com que minhas pernas bambeassem novamente.
— Sei disso, mas confesso que é bom ouví-la repetir. – Pisca. – Meu casaco a aqueceu?
Em meus ombros jazia seu sobretudo negro. Ainda mais desconsertada, tencionei tirá-lo, porém, sua mão tocou meu braço, impedindo. Céus. Céus! Ela me tocou. Vou entrar em combustão.
— Eu... – Tento balbuciar.
— Ficou bonito em você. Fique com ele por enquanto, está muito frio.
— Obrigada... Talvez eu estivesse congelando sem ele! – Sorri. Estava realmente um gelo, mesmo que eu não conseguisse sentir direito devido ao formigamento em todo o meu corpo.
— Eu adoraria ficar, Senhorita Swan, mas preciso partir amanhã cedo para Liverpool e voltarei apenas em duas semanas. – Me revela um tanto cabisbaixa. – Mas estou feliz que você tenha me encontrado. Talvez... Quando eu voltar...
— Sim! – Disparei num só fôlego, quase arrancando minha língua quando ela riu da minha atitude.
— Espero que tenha uma boa noite, Emma Swan. Foi um prazer conhecê-la. – Levantou-se, segurando o livro e passando uma bolsa no ombro direito. Aproximou-se com um sorriso discreto, ouso dizer que era tímido de certa forma, e comete o crime de tocar meu rosto com seus lábios. Sim, o crime, foi um tiro que me dilacerou de dentro para fora.
Estava parada enquanto ela deixava o Pub, com a marca do batom vermelho em minha bochecha. A música da banda havia desaparecido e fui capaz de ouvir somente os batimentos acelerados e completamente loucos do meu coração. Droga, Emma, o que você está fazendo? Atravessou Londres atrás dela e vai simplesmente ficar aí como uma estátua humana?
Disparei para fora sem me despedir daquelas pessoas, de Neal e de August, largando a cerveja e uma nota em cima do balcão, sem preocupar-me com o troco. Vesti finalmente seu sobretudo corretamente, uma vez que até agora estava só jogado em meus ombros, tropeçando para fora como um canguru com pulga.
— Regina! – Gritei para a morena misteriosa, que estava a alguns metros dali, com as mãos no bolso, fitando o céu noturno. – Espere!
Ela se virou lentamente, como se estivesse num filme romântico francês em câmera lenta, onde os olhares dos amantes se encontram e fazem mil juras de amor. E o sorriso que abriu... Eu devo ter morrido hoje de manhã na estação e entrado num paraíso alternativo, porque não parecia nada, nadinha com a realidade. Respirei fundo, tentando não parecer ainda mais maluca. Respirei repetidamente, fechando e abrindo os olhos bem devagar.
— Você está bem? – Suas sobrancelhas se curvam numa expressão tristemente preocupada, atingindo-me ainda mais profundamente.
— Eu... – Pigarreei. – Eu gosto de andar. Costumava a caminhar por horas e horas na minha cidade, Lavenham, sem nunca me cansar. E... – Ri. – Eu gostaria de caminhar mais um pouco por Londres, ainda não conheço muito dessa cidade extraordinária.
— Acha que Londres é uma cidade realmente extraordinária, Emma Swan? – Arqueou suas sobrancelhas, exibindo um sorriso travesso.
— É. – Admiti sem rodeios, devolvendo o mesmo sorriso. – Depois de hoje, deve ser a cidade mais extraordinária do mundo! – Mais uma vez eu me mostrava como uma garotinha entusiasmada.
Ela riu. Não respondeu, mas riu. Estendeu de longe sua mão e eu corri para alcançá-la. Tomei-a. Entrelaçou seus dedos aos meus e trocamos um breve sorriso. Os pés dela se moveram e os meus os seguiram. Permanecemos em silêncio, cada qual com seu riso. Eu falei sério quanto à Londres ter se tornado a cidade mais extraordinária do mundo. Mas o que eu precisava e ainda desejava descobrir, era se a cidade mais extraordinária do mundo também abrigava a mulher mais extraordinária do mundo. Mesmo que, no fundo, bem no meu interior, algo me dissesse que essa pergunta havia sido respondida desde o momento em que meus olhos trombaram com aquela imensidão castanha e profunda. A garota da estação, com seu bom gosto literário, seus olhos ferinos, seus cigarros azuis e seu vestido vermelho, não poderia ser nada menos que isso: Extraordinária.
Notas finais
Foi muito divertido escrevê-la! :)
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