The Bride

4 De Volta ao Mundo Real e Outras Drogas


Meses se passaram, quase dois anos, e muito havia acontecido na vida de Amy. A ruiva chegou em um bar escuro, na periferia da cidade, numa zona suja e mal frequentada, uma região que qualquer pessoa sensata ficaria longe. Na porta de um clube, estava o cartaz exibindo o corpo que a garota já conhecera muito bem, mesmo que só por uma noite. Apresentou sua documentação e entrou no local, ficando sentada em um ponto distante, desejando que ninguém a notasse. Conseguiu o que queria. Assistiu às apresentações de algumas garotas, nada que realmente lhe chamasse muito a atenção enquanto tomava a sua cerveja.

Foi apenas quando anunciaram Nico que os seus olhos se voltaram mais uma vez para o palco principal. A loira entrou, desta vez com uma roupa de courino azul escuro, agarrando-se ao poste e realizando movimentos sensuais. Amy a observava como se fosse um gesto hipnotizante, bestificada com cada onda que aquele corpo fazia. O corpete foi parar no chão, seguido de uma tanga, revelando existir uma outra menor por baixo. Os homens gritavam, mas a musica alta abafava os comentários machistas e preconceituosos, as palavras de baixo-calão. Nada disso fazia com que a ruiva desviasse os olhos nem por um instante, nem mesmo as notas de um dólar que caíam no chão, ou eram passadas entre os seus seios, guardadas na alça da calcinha.

Ao final, quando a dançarina havia acabado de ficar totalmente nua, a música se encerrou e essa passou recolhendo o seu dinheiro. Nico então deixou o palco com as mãos cheias de notas amassadas. No camarim, quando começava a contar quanto havia faturado naquela noite só de gorjetas, a stripper ouviu o seu nome ser chamado por um dos seguranças do bar:

— Nico, você tem visita.

— Não ligo.

Respondeu com frieza. A verdade era que ninguém a procurava, não sabia por onde andava sua família, não tinha amigos, então não havia qualquer chance de que alguém que pudesse significar qualquer coisa a estivesse procurando. No entanto, o homem insistiu:

— É uma ruiva bonita. Mando embora?

A stripper voltou-se para ele imediatamente, olhando-o sem acreditar no que estava ouvindo. Depois de tanto tempo seria mesmo quem imaginava? Não, deveria estar errada, ela não valia tanto para que alguém a procurasse. Nico estava acostumada a ser esquecida até mesmo pelos seus clientes. Ainda que fosse Amy, era melhor que a garota partisse.

— Diga a ela para ir.

Sua voz era pesada, podendo ser percebida uma leve nota de tristeza. Enquanto o homem deixava o camarim, a prostituta tornava a contar o dinheiro. Uma das outras moças com quem trabalhava perguntou:

— Cliente?

— Não só, ela acha que é minha amiga — foi sucinta.

— Então por que não vai falar com ela. Eu a vi, parece ser uma boa garota, estava com um carro bacana na entrada — continuou.

— Eu iria — outra se manifestou. — Amigos assim são bons pra custear.

E por “custear" esta queria dizer financiar vícios. A morena que falava estava segurando um saquinho que continha alguns comprimidos coloridos, do tipo que comumente eram utilizados por profissionais do sexo para aguentar horas e mais horas de serviço e de uma vida destroçada. Nico sabia que os contatos certos eram muito úteis para extrair todo dinheiro que pudesse, mas não desta vez, por isso desconversou:

— Como se alguém fosse querer esta merda que você usa. Tenho coisa melhor.

Pegou de dentro da bolsa um saquinho também, porém cheio de um pó branco, ao que despejou sobre um espelho e tratou de arrumar com um cartão em carreiras. Por final enrolou uma das notas que havia ganho naquele dia em forma de canudo e cheirou uma fileira inteira. Ela precisava disso, precisava do alívio que lhe proporcionava. Aspirou uma segunda vez e depois guardou o restante, recostando-se então na cadeira em que estava. Agora se sentia muito bem e quase não se achava mais uma pessoa completamente vazia.

Do lado de fora, o segurança ia falar com Amy:

— Ela mandou ir embora.

— Não saio daqui sem falar com ela — a ruiva era insistente.

— Vai passar aí a noite toda.

Ele ria quando se afastou e Amy sabia que provavelmente estaria certo. Continuou ali no bar, tomando goles pequenos da cerveja que esperava durar o bastante para que não morresse de tédio.

O tempo vagava, prostitutas pegavam os seus clientes para irem a motéis ou fazer lap dances em cabines fechadas. O bar ia ficando vazio e Amy não deixava o balcão, ainda esperando. Sabia que em algum momento Nico iria embora dali, ou ao menos esperava por isso.

No camarim, a loira finalmente acordava, tendo adormecido em um banco, tomada pelo seu torpor, pela depressão após instantes de euforia. Olhou para os lados, havia uma garota lá recolhendo os pertences para ir embora. Checou então no relógio, faltava poucas horas para amanhecer. Assim sendo, nem tomou banho, apenas trocou de roupa e colocou algo comum, pegando sua mochila e a maleta para ir para o seu carro, onde iria dormir o quanto pudesse. Nem lembrava de Amy quando viu a figura ruiva com os cotovelos sobre o balcão, mas não aguentou e acabou se aproximando:

— Você tem uma hora. Me tire daqui.

Era o pagamento pelo esforço que a outra tivera, sua forma de expressar que estava impressionada por alguém ter se dado o trabalho de passar tanto tempo naquela espelunca só para falar com ela e não receber sexo oral. Não se achava tão importante, mas, pelo visto, para Amy deveria ser.

Seguiu para o carro da ruiva e deixou que a levasse para um hotel, não como o que haviam ficado no dia em que se conheceram, mas um hotel de verdade, três estrelas. Amy a levou para o seu quarto e tão logo fechou a porta, antes mesmo de sequer sentar na cama, disparou:

— Me divorciei de Petter.

Foi algo tão direto e, de certa forma, inesperado pelo curto lapso temporal, que Nico a olhou erguendo uma sobrancelha de uma forma a indagar por mais:

— Achei que o “senhor perfeito” fosse lhe fazer feliz. Vocês pareciam bem, até ele começar a ser um idiota.

— Ele sempre foi um idiota, eu apenas não tinha percebido. Eu descobri que ele estava dormindo com uma colega de trabalho.

Em resposta, a stripper abriu a bolsa e tirou um cigarro, acendendo-o próximo à janela. Tragou bastante da fumaça e a soltou lentamente, antes de falar mais uma vez:

— Agora você veio até aqui porque?

— A casa, aquela do casamento, é minha, foi um presente de casamento dos meus pais. Estou morando sozinha.

— É um contrato para os meus serviços ou um convite para morar juntas? — Era rude enquanto apagava o cigarro em um cinzeiro, ao que logo começava a desabotoar a camisa. — Você sabe o que sou, o que faço da minha vida.

— Eu sei.

Por mais que as palavras de Nico fossem um aviso, Amy não se importava com nada naquele momento, menos ainda enquanto os seus olhos iam para o sutiã de renda preta que desenhava tão bem aqueles seios.

— Eu quero te contratar para me fazer sentir como naquele dia. Eu me senti bem…

A prostituta foi se aproximando e cobriu os lábios da garota com um dedo. Estavam tão próximas que a ruiva sentia o ar quente que saía de sua boca ao dizer:

— Eu sei do que precisa. Vou cuidar de você.

Imediatamente Amy puxou-a pela nuca e a beijou com fervor, como se aquele corpo, aquela pele tivesse o contato tão necessário quanto oxigênio para a sua sobrevivência. De certa forma, era sim imprescindível para a sua sanidade, pois ninguém jamais a fizera sentir tão viva quanto aquela mulher que cobrava cem dólares a hora.

Depois do sexo, enquanto ficavam deitadas na cama, ainda nuas sob as cobertas, Nico acendia mais um cigarro. Amy a olhava sem parar, como se estivesse fascinada por cada um dos seus movimentos. Aproximou-se mais e, entre uma tragada e outra, disse:

— Você não tem que ir.

A loira ergueu a mão e passou por entre aqueles fios vermelhos, olhando-a nos olhos, ao que falou com uma certa tristeza:

— Não destrua sua vida.

— Eu não estou destruindo nada — Amy respondeu cobrindo a mão que a tocava. — Eu quero construir uma nova vida e isso inclui você.

— Você não sabe o que está falando. Você não sabe o que eu passei, o que eu vivi…

— E tudo isso pode ficar para o passado, se você quiser! — Ela era muito positiva.

— Meu passado vai me acompanhar para sempre — desviou o olhar, mirando o teto e rindo de sua desgraça. — Vou ser para sempre aquela que os homens comentam nas ruas como “a puta”, “Nico a puta”. Ninguém aguenta esse tipo de coisa, essa merda de vida e você, uma garota jovem e bem criada certamente não iria aguentar.

Quando a stripper fez menção de se levantar, a outra a segurou e derrubou na cama mais uma vez, ficando por cima de seu corpo, uma perna entre as da loira, prendendo-a sob o seu peso e obrigando-a a encará-la mais uma vez.

— Eu não me importo — Amy disse. — Eu quero te conhecer. Eu quero saber quem você é, do que gosta, o que não gosta, o que faz nas horas vagas. Eu quero saber de tudo, de onde veio, a sua família — foi afundado o rosto no pescoço da stripper. — Quero saber seu nome muito mais do que as medidas do seu corpo. Mas somente se você quiser.

Com esse desfecho, foi deslizando até deitar a cabeça no peito da prostituta, ao que Nico via-se impossibilitada de sair dali. Falou com uma voz um tanto fina:

— Acho que posso dormir aqui essa noite.