The Body - o Corpo Last Chapter
1 Last Chapter
Abri a gaveta, e lá estava o bilhete informando sobre a aparelhagem de vídeo do hospital. Encontrei também o grande livro de capa negra que Dalton me impedira de ler. Como eu suspeitara, era um livro de registro de entrada de pacientes no hospital. Não encontrei nada de importante escrito, além de números de prontuários. Fitei o cadáver de Dalton, imaginando que segredo ele quisera esconder de mim. Guardei o livro e o diário em minha mochila.
Deixei o ambulatório em busca do auditório, mas sequer imaginava em que andar do hospital este poderia ficar. Senti-me esmagado por um súbito arrependimento, como se apenas naquele momento eu tivesse percebido que matara um ser humano. Repeti incessantemente que não possui escolha, que ele perdera sua humanidade. A imagem da desfiguração de seu rosto repetia-se em minha mente. Novamente o medo me dominava. Ele estava morto, eu estava certo disto. Mas como poderia eu estar certo de alguma coisa em um lugar onde tudo o que possuía eram minhas incertezas? Segurei a foice com mais força.
Caminhei perdido pelo hospital. Tentava, desanimado, abrir as portas que encontrava pelo caminho. Apenas a porta da escada abriu. Subi ao segundo andar, mas a porta não possuía fechadura. Subi então ao terceiro andar. Não encontrei as escadas que levariam ao quarto andar. Ri num misto de ironia e desilusão. Sentia como se o local brincasse com minha sanidade. Abri a porta do terceiro andar.
O corredor estava escuro. Com dificuldade, a luz enfraquecida da lanterna evidenciou uma porta dupla de madeira com uma placa escrita \"auditório\". Tentei abrí-la, mas estava trancada. Ao lado, havia um painel com o alfabeto. Ao lado um papel com alguns escritos.
\" Muitas vezes procurei
O que faltava em minha vida
Raramente encontrei, porque
Tudo de que eu precisava
O destino me tirou
A verdade está no começo\"
Reli o poema . A verdade estava no começo, mas de que? Eu sequer conseguia me lembrar de minha vida. Meu pai. Minha mãe. Meus...irmãos? Eu sequer conseguia me lembrar de ter irmãos! Minha vida desaparecera de minhas memórias de maneira tão sutil que eu sequer percebera. A cada tentativa vã de recordar meu passado, eu socava a porta. Ela permanecia imóvel, desafiando-me. Estaria o poema referindo-se a escola? O começo do meu pesadelo? Tentava lembrar que detalhe da escola eu não percebera e que agora viera cobrar minha displicência. Apertei alguns botões aleatoriamente. Soquei o painel. Respirei profundamente, tentando me acalmar. Aquele enigma não deveria referir-se a escola. Ele deveria conter no poema a própria solução. A fúria e o desepero me consumiam, meu raciocínio estava falho, meus pensamentos obscurecidos. Meu coração acelerado reprimia o pranto latente.
\"O começo\" martelava minha cabeça. Pensava no que eu estava procurando, minha vida, minha liberdade. No entanto, \" o começo\" retornava sempre impiedoso a me torturar. Olhando superficialmente para o poema, percebi que a primeira letra de cada estrofe, tomada isoladamente, formavam a palavra \"morto\" escrita na vertical. Sentindo-me vazio, digitei a palavra morto, ouvindo um barulho vindo da porta do auditório. Suspirei tenso. Abri a porta.
A luminosidade do local me fez contrair um pouco os olhos acostumados à escuridão. Espantei-me ao ver as luzes acesas pela primeira vez naquela cidade. Após um curto período de adaptação à luminosidade, deparei-me com um pequeno palco do lado oposto a entrada. Sobre o palco, na extremidade esquerda, um discreto púlpito de madeira com a logomarca do hospital Alchemilla. Sobre o púlpito, pude perceber um microfone fixado a um pequeno suporte. Ao centro estava um suporte móvel, com uma televisão grande e um video-cassete. No auditório havia seis fileiras de cadeiras acolchoadas, de cor azul. Ao fundo do palco, havia, fixado à parede, um quadro branco.
A televisão exibia uma imagem chuviscada. O video-cassete não possuía botões, apenas um local para inserir a fita. Insei a fita no aparelho, sentando em uma cadeira de frente para a televisão. Alguns segundos depois, surgiu na tela a imagem de Dalton, cabisbaixo, sentado em uma cadeira. Então ele olhou para a câmera. Senti um vento gélido percorrer meu corpo, pois tive a sensação de que ele me encarava. Seu semblante estava perturbado, os cabelos desgrenhados caindo em uma delicada franja sobre as sobrancelhas. Com a voz abafada, ele iniciou um monólogo.
\" Alessa, quando você encontrar esse vídeo eu já estarei morto. Mas eu quero que você saiba que você foi a pessoa mais importante da minha vida. Eu aprendi tanto com você, coisas que só o seu amor poderia me ensinar. Mas eu não consigo agüentar mais. Sinto que a cada dia fico pior. Os médicos dizem que eu ficarei bom, mas não acredito mais nisso. Os buracos na minha memória ficam cada vez maiores. As pessoas me dizem que me viram fazendo coisas...mas eu não lembro! É como se uma parte da minha vida não existisse pra mim! É horrível! É como se existisse uma outra pessoa dentro de mim! Eu...eu sinto muito. Eu gostaria muito de que você nunca me esquecesse. Eu te amei, com todas as minhas forças. E se existir vida após a morte, eu continuarei te amando. Obrigado por tudo...\"
Percebi que em sua despedida, Dalton chorara diversas vezes. Alguns segundos após a última frase, o garoto caíra em enigmático silêncio. Subitamente, aparecera a imagem de dois pés pensos no ar, como se levitassem lentamente. Contrai-me em repulsa à cena. Então veio o grito. A televisão desligou sozinha e a fita ejetada. Confuso, tentei inserir a fita novamente, mas ela não entrava no aparelho. Minha boca estava seca, meu coração dispara. Aquele grito...reconheci. Finalmente começara a compreender.
Explodi em fúria. Derrubei a televisão no chão, golpeando-a várias vezes com a foice e com chutes. Emitia grunidos quase selvagens, espantado com a violenta sensação de liberdade que sentia naquele turbilhão de ódio. Entregara-me a minha revolta, uma revolta pura e sem finalidades. Apenas uma revolta pairando em meu interior, exigindo ser libertada. Veio o meu pranto que eu tanto repreendera. Minhas lágrimas ainda não compreendo se foram de ódio, desilusão ou um sádico amor que me impulsionara até então e que se descobria não tão verdadeiro quanto eu julgara. Minha farsa se descortinava diante de mim, surpreendendo-me. Chutei uma última vez a televisão, sentando-me novamente em uma das cadeiras. Pus a foice sobre as minhas coxas. Minha respiração ofegante me recordava o macabro desespero de um sufocamento. Cerrei os olhos. Tentei acalmar minha respiração, meu coração batia forte contra meu peito, como uma ameaça. engoli seco. Agarrei-me a um pensamento agradável, imaginando para onde eu iria quando conseguisse sair daquela cidade. A esperança de uma fuga recusava-se a me abandonar.
Involuntariamente, algumas palavras ditas por Dalton repetiam-se em meus pensamentos. Novamente recordava-me do grotesco momento em que as feições do garoto se transfiguraram. Pensei em um lindo jardim. Respirei profundo, como se aspirasse o doce aroma de flores. Sorri, pois ainda me restava esperanças. Eu iria sair daquele lugar e esquecer tudo o que acontecera.
Senti um frio cano de arma encostar-se em meu pescoço. Pelo perfume, percebi tratar-se de Alessa. Abri os olhos sereno. Meu olhar perdido fitava o quadro branco, que misteriosamente eu associara a minha existência. Suspirei resignado. Não a encarei. Não consegui. Ela apontava para mim a arma que eu dera a ela e que prometera jamais usar contra minha pessoa.
- Então, eu acho que você já sabe, não é? — perguntei, tentando esconder as lágrimas que discretamente rolavam pela minha face. Fitei-a pelo canto dos olhos. Alessa fez um gesto afirmativo com a cabeça. Percebi-a trêmula e insegura. Acredito que vi duas lágrimas rolarem pela face dela também — O que eu sou afinal?
- Minha culpa... Alguma coisa que eu preciso esquecer! — retrucou com a voz entrecortada. Sua respiração era pesada, seu semblante estava abalado.
- Você não pode simplesmente deixar... — pensei em vida, mas esta palavra não se adequava a mim. — ...deixar que eu continue existindo?
- Eu acho que não. Eu quero paz! Eu preciso de paz! — respondeu explodindo em pranto, frágil, plena de feminilidade e compaixão.
- E o quê faz você pensar que merece existir mais do que eu?! — gritei, sentindo uma estranha força fluir em minhas veias.
Meu corpo cansado revigorara-se. Ergui-me rapidamente, avançando sobre Alessa, empurrando-a. A mulher caiu ao chão. Ouvi o barulho da pistola deslizando pelo chão. Debrucei meu corpo sobre o dela. Sentia seu corpo movimentar-se freneticamente sob o meu. Ela gritava desesperada. Pude perceber o horror em seus olhos ao me encarar. Era como se ela visse um monstro. Eu também estava desesperado. Não queria deixar de existir. Não podia aceitar passivamente aquelas palavras. Ataquei com um golpe de foice, que acertou o chão. A lâmina adentrou o concreto, ficando a foice fincada ao solo. Seus seios iam ao encontro de meu tórax, provocando-me sádica excitação, porque no sofrimento ela era bela, ainda mais desejável. Suas delicadas mãos atacavam meu rosto. Senti seu dedo penetrar em meu olho esquerdo, causando-me ardor no local. Com meu olho direito, pude perceber um líquido escuro deslizar pelo braço de Alessa, sujando-lhe a camisa branca e amarrotada. Meu sangue!
Alessa gritava furiosa. Senti seu corpo frágil desvencilhar-se de mim. Ergui-me, levando minha mão esquerda ao olho. Emiti um grunido grave, quase visceral. Não podia perder Alessa de vista. Meu olho percorreu rapidamente o local, porém ouvi o barulho de um disparo, seguido por uma forte pressão em minha barriga. Meu olho encontrou Alessa, de pé, apontando a arma para mim. Um novo disparo. A forte pressão em meu peito derrubou-me. Sentia um líquido quente e viscoso ao redor de minha boca. Cuspi para não me engasgar. Ouvi os passos de Alessa aproximando-se de mim. Pude vê-la uma última vez.
- Você prometeu que não usaria ela contra mim! Que me levaria embora daqui! Com você! — sussurrei resignado.
- Me perdoe. Por favor! — ela murmurou. Teria ela sentido compaixão de mim?
Cerrei os olhos. Um novo disparo. Uma forte pressão em minha cabeça. Permaneci imóvel. Senti-me inundado por uma reconfortante paz, uma entrega aos meus últmos minutos, como se me agarrasse a eles e através deles pudesse continuar existindo. Ouvi o choro de Alessa e seus passos caminhando. Barulho de porta sendo aberta, depois fechada, depois silêncio. Deixei-me ficar parado, aguardando meu final. Minha respiração diante do \"não-existir\" era tranqüila. Sentia certa paz em contato com aquele carpete cinza e frio, talvez até estivesse sorrindo. Eu estava em casa, sempre estivera. Meu corpo tornara-se flácido. Aguardava apenas que o \"nada\" chegasse. Não sei ao certo quanto tempo se passou desde que Lara partiu, mas eu continuo aqui, pensando, existindo. Meu corpo, lentamente, recupera suas forças, e já consigo arrastar-me por alguns centímetros. \"Você é minha culpa! Algo que eu preciso esquecer!\" estas palavras martelam minha mente e talvez sejam a explicação pra minha existência. Talvez, Lara não esteja tão perdoada por si mesma quanto acredita. Talvez, em algum reduto de seu inconsciente, a culpa ainda esteja lá. Agarro-me fervorosamente a este sentimento, pois, através dele, eu sobrevivo!
The End..
Notas finais
O que faltava em minha vida
Raramente encontrei, porque
Tudo de que eu precisava
O destino me tirou
A verdade está no começo..."
Obrigado por acompanhar o conto até aqui. Estarei preparando mais contos para vocês. Adeus! o/
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