The Blind Side Of Love
8 Smells Like Teen Spirit.
Notas iniciais
Na quarta-feira à tarde, estava deitada em um dos extensos sofás do corredor da Columbia, aproveitando o intervalo entre uma aula e outra para terminar de revisar a minha pesquisa de Citologia. No entanto, pensando que eu conseguiria me concentrar em um lugar que quase não tinha movimentação, Ali havia me surpreendido ao aparecer de repente quando faltavam pouco mais de trinta minutos para o meu penúltimo período do dia começar.
Deitada com a cabeça em minha coxa esquerda, Ali mexia em seu celular sem muito interesse, rolando a tela de algum aplicativo como se não tivesse nada melhor para fazer. Vez ou outra, ela brincava com as pontas de seu cabelo, distraidamente, ou então arrastava suas unhas pelas minhas pernas, enquanto eu virava as folhas da minha pesquisa sem realmente conseguir prestar atenção no que eu estava lendo.
— Ali, você não precisa estar em outro lugar? — Perguntei depois de alguns minutos, soltando uma lufada de ar pela boca ao tentar ignorar a sensação dos seus dedos sob a minha camisa, circulando a pele do meu abdômen preguiçosamente.
— No momento, só consigo pensar em um. — Respondeu, inclinando a cabeça para trás para poder me fitar. Em seguida, esboçando um sorriso astuto conforme descia sua mão até um pouco mais abaixo do meu umbigo, acrescentou: — E eu não estou sozinha.
Balancei a cabeça com força, espantando as diversas imagens que começaram a brotar em minha cabeça sem permissão enquanto eu me ajeitava no sofá, sentando-me. Eram todos pensamentos inapropriados para o momento e Ali sabia disso, o que a fez sair de sua posição atual para começar a escalar meu corpo, até estar confortavelmente sentada em meu colo e de frente para mim.
— O que está fazendo? — Arregalei os olhos ao vê-la se inclinar em minha direção, colando nossos corpos e beijando o canto da minha boca com extremo cuidado.
— Você está muito tensa, meu amor... — Ali sussurrou, arrastando sua mão pela minha nuca até o meu pescoço, vagarosamente. — Eu só quero ajudá-la a relaxar.
— Ali, assim não... — Tentei argumentar, mas fui impedida quando sua boca se chocou contra a minha, beijando-me intensamente. — Amor... — Suspirei derrotada, sentindo a urgência de correspondê-la monopolizar minha mente.
Sendo assim, afastei minhas coisas para o lado, rendendo-me mais uma vez a ela ao senti-la pressionar seu corpo contra o meu. Ali movimentou seus lábios contra os meus de forma erótica, inclinando levemente a cabeça enquanto tentava ficar cada vez mais próxima de mim. Aquilo parecia tão impossível, mas não a impedia de continuar tentando.
Escorreguei minhas mãos pelas suas coxas — deslizando-as por cima da calça jeans skinny que ela usava —, conforme meus lábios desciam pelo seu maxilar, dando-lhe um pouco de espaço para poder respirar. O calor que emanava de sua pele era tão contagioso que eu não podia evitar me deixar influenciar, sugando cada pedaço de pele exposta.
— Você é tão deliciosa. — Soprou as palavras com certa dificuldade, segurando meu rosto com as duas mãos para me fazer olhá-la fixamente nas íris de tom cobalto. — Eu não consigo manter as minhas mãos longe de você.
E, assim, ela passou a plantar beijos longos e delicados por toda a extensão do meu rosto, começando pela minha testa e terminando um pouco mais abaixo da minha clavícula — onde ela deixou uma leve mordida antes de voltar a capturar os meus lábios com determinação. Em resposta, deslizei minhas mãos até suas coxas e as apertei gentilmente, arrancando gemidos roucos de nós duas.
— Ou minha boca. — Acrescentou assim que se afastou para recuperar o ar, descendo suas mãos perigosamente até o cós da minha calça jeans escura, conforme distribuía beijos lentos e molhados pela minha mandíbula.
— Ali, aqui não. — Segurei sua mão, impedindo-a de continuar desatando os botões de minha calça, como se realmente fôssemos fazer sexo no meio do corredor da universidade.
— Qual é o problema, Em? — Ela suspirou contra o meu ouvido, fazendo meu centro pulsar violentamente. — Não há ninguém por perto. Só precisamos ser rápidas... E silenciosas.
Enquanto Ali continuava com as carícias até onde sua boca conseguia alcançar, tentei me manter imóvel e focar minha atenção na movimentação do lado de fora, onde quase todos os alunos estavam depois de um dia cheio de provas. Por ser véspera de Ação de Graças, com algumas poucas exceções, todos da Columbia já haviam sido praticamente dispensados pelo resto da semana.
— Eu não posso ir à aula de Bioquímica cheirando a sexo. — Consegui dizer após um minuto, escalando as costas de Ali com as pontas dos dedos.
— Você sabe que não precisa ir, não é? — Ela quis saber, afastando-se brevemente para me fitar com as sobrancelhas arqueadas. — Muitos daqueles que não foram dispensados por causa de uma ou duas disciplinas já devem ter partido para aproveitar o feriado sem arrependimentos. Mas é claro que você é diferente. — Observou, revirando os olhos antes de se ajeitar em meu colo.
— Ei, eu gosto de ser diferente! — Repliquei, franzindo o cenho, como se estivesse me sentindo ofendida.
— E eu não sei disso? — Ali riu, inclinando-se para capturar meus lábios com os seus. — É por isso que você é a minha sereia.
— Eu sou o que você quiser que eu seja. — Murmurei em concordância, envolvendo-a com os braços ao inclinar minha cabeça para o lado e beijá-la sonoramente naqueles lábios viciantes.
Apertei-a contra o meu corpo, levando uma de minhas mãos aos seus cabelos, onde emaranhei meus dedos entre os fios loiros e ondulados. Ali deixou um gemido quase inaudível escapar de sua boca quando a pressionei contra mim, enquanto eu me aproveitei daquele momento para deslizar minha língua dentre seus lábios entreabertos.
Continuamos assim por alguns longos minutos, até sons de passos acompanhados de risadas preencherem quase todo o corredor. Parei por um instante, virando o rosto levemente para tentar olhar na direção da origem dos ruídos, mas Ali segurou meu rosto com firmeza, impedindo que eu desviasse meus olhos dos dela. Ela começou a trilhar uma linha sinuosa de beijos suaves, percorrendo meu maxilar com engenho até chegar ao canto dos meus lábios.
— Eu amo você, Emily Fields. — Ela sussurrou, fitando-me fixamente com os olhos escuros e cheios de amor, o que fez meu coração falhar uma batida e um sorriso se alastrar por todas as minhas características.
Inclinei minha cabeça para o lado e afastei uma mecha de cabelo para trás de seu ombro, sentindo-me completamente derretida. Ali acariciou meu rosto com delicadeza, escorregando seus dedos pela minha mandíbula, até que ela chegasse ao meu queixo e o segurasse, de modo que me fizesse fitá-la diretamente nos olhos.
O meio sorriso que ela mantinha de forma tão espontânea causava um frio rigoroso em meu ventre e, sabendo disso, ela não fez outra coisa a não ser acabar com o pouco espaço que existia entre nossos rostos. Era quase devastadora a urgência com que seus lábios se moviam, beijando-me sonoramente, até que, finalmente, o barulho que ouvi segundos antes tomasse forma.
— Chloe, você não acha que essas meninas estão sendo muito indecentes? — Ouvi a voz conhecida murmurar alto o suficiente para Ali e eu escutarmos. — Não é perturbador se deparar com uma cena dessa no meio do corredor? — Ali parou de me beijar quando uma risada abafada escapou de minha garganta, mordendo meu lábio inferior com força em evidente frustração.
Virei o pescoço a tempo de ver Summer se jogar no sofá, sentando-se de qualquer jeito ao meu lado esquerdo, enquanto Chloe se ajeitava cuidadosamente no estofado do meu lado direito. Ambas tinham a atenção focada na tela dos seus respectivos celulares. Ali deixou um suspiro choroso soprar contra o canto de minha boca, certificando-se de que nossos corpos estivessem devidamente colados antes de virar o rosto para encarar Chloe.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Perguntei antes que Ali pudesse abrir a boca, acariciando as laterais de seu corpo sob o tecido fino de sua blusa, numa tentativa sutil de mantê-la calma.
— Nós estamos no meio de uma coisa aqui, caso não tenham reparado. — Ela disse, soando ríspida e visivelmente irritada.
— Vocês viram como está lá fora? De jeito nenhum eu vou sair daqui. No momento, esse é o único lugar tranquilo do Campus. — Chloe declarou, parecendo ligeiramente afetada em ao menos cogitar a hipótese de sequer se mover. — Além disso, aqui não é lugar para isso. Se algum funcionário pegar vocês duas nessa agarração toda...
— Vocês estariam perdidas! — Summer não deixou que ela terminasse, chamando a atenção de Ali quase de imediato.
— Seria muito constrangedor. — Afirmei suavemente, ajeitando-me no encosto do sofá assim que Ali repousou sua testa em meu ombro. Em seguida, claramente irritada, ela afundou seu rosto na curva do meu pescoço e aspirou profundamente.
— Droga, Em! Seu cheiro me deixa tão excitada... — Murmurou contra a minha pele; o hálito quente fazendo cócegas.
— Ali, por favor, controle-se. — Pedi baixinho, apenas para que ela escutasse, ao afastar uma mecha grossa de cabelo para longe de seu rosto. — Não estamos mais sozinhas. — Destaquei, mantendo o mesmo volume.
Muito a contragosto, Ali deixou seu corpo escorregar para o lado, bufando ao se sentar com o corpo ainda colado ao meu. Observei-a atentamente com um meio sorriso, enquanto ela procurava pela minha jaqueta no meio das minhas coisas, cobrindo-se com a mesma assim que a encontrou. Não demorou até que ela se acomodasse em meu corpo, puxando meu rosto para baixo e fazendo com que nossos lábios se encontrassem num selinho demorado.
— Ei, adivinha! Diana acabou de chegar. — Chloe anunciou, atraindo a minha atenção instantaneamente.
— Como você sabe? — Summer quis saber, endireitando-se no sofá para conseguir encará-la.
— Ela postou uma foto da faixada da casa dela no Instagram agora há pouco. — Explicou como se fosse óbvio. — E, há quinze minutos, atualizou o Twitter com a localização em Denver.
— Você está acompanhando todos os passos dela ou o quê? — Perguntei com curiosidade, tentando manter o deboche longe do meu tom de voz.
— Talvez. — Hesitou brevemente, antes de erguer os ombros e soltá-los no mesmo instante. — Estou, e daí?
— Chloe, aqui! — Summer irrompeu de repente, aproximando-se de mim para conseguir mostrar a tela de seu iPhone à Chloe. — Dê uma olhada no vídeo que a Di acabou de postar no Vine! Não é aquele irmão super gato dela ali no fundo?
Enquanto elas continuavam a tagarelar sobre Diana e seu irmão de boa aparência, fechei os olhos com força e enterrei meu rosto entre os cabelos loiros e sedosos de Ali, deixando o aroma delicioso de baunilha que eu tanto venerava dominar meus sentidos. Ali estava quieta demais, brincando distraidamente com a manga de meu moletom branco, ao tempo em que meus dedos escorregavam entre os fios dourados em carícias suaves.
— Ali, qual é o seu Instagram? — Chloe perguntou.
— Por quê? — Ali quis saber. — Vai reportar tudo o que eu postar para suas amigas perdedoras? — Dessa vez, ela riu confortavelmente. Aquilo era uma clara ofensa à Summer, mas eu me mantive imparcial, assim como Chloe.
— O que eu posso dizer? Eu adoro um bom escândalo. — Ela se aproximou de nós duas, sentando-se perto o suficiente para conseguir manter um diálogo sem precisar gritar.
— Quem você pensa que eu sou? — Ali estendeu a mão em direção a ela, que lhe entregou o celular de prontidão. — Paris Hilton?
— Eu pensei em Kim Kardashian. — Chloe a observou de perto, cerrando os olhos com curiosidade conforme Ali terminava de digitar no celular.
— Eca! Não me compare àquela vadia. — Ela fez uma careta adorável, o que me impulsionou a mordiscar seu maxilar com certa força, enquanto eu tentava abafar o riso preso em minha garganta. — Em, isso dói. — Choramingou, massageando a área dolorida com a ponta dos dedos.
— Chloe, não insulte a carcereira. — Summer provocou, finalmente se juntando à conversa ao tocar meu braço por puro reflexo.
— Eu não entendo como você consegue ser amiga de alguém como ela. — Ali arqueou as sobrancelhas com irritação, apontando para Summer ao empurrar o celular de volta para Chloe com a página de seu Instagram aberta. Chloe sorriu, esquecendo-se de tudo ao seu redor enquanto encarava a tela.
— Ora, não a culpe. Não é como se Emily conseguisse resistir. — Summer sorriu, divertindo-se com o explícito desdém de Ali. — É só você olhar para mim. Eu sou muito engraçada e tudo o que eu digo é adorável.
— Não, nem sempre. — Comprimi os lábios quando ela me olhou como se eu tivesse duas cabeças, rindo audivelmente logo em seguida.
— Bem, eu sou, na maior parte do tempo. — Reagiu assim que sua risada cessou.
— Talvez você realmente seja. — Ali disse, inclinando a cabeça com os lábios curvados em um meio sorriso, porém eu sabia que, por dentro, ela estava borbulhando de raiva. — Mas, você sabe, quando não está sendo uma completa vadia.
— Tudo bem, vocês duas, já chega. — Exigi, antes de pressionar meus lábios no ouvido de Ali, sussurrando calidamente: — Não dê atenção à Summer, amor, ela só está tentando irritá-la.
Ali resmungou algo ininteligível contra a minha pele, arrancando-me uma risada baixa, porém confortável. Ela ergueu o rosto para me fitar; os olhos azuis e apaixonantes irradiando calor humano conforme a ponta dos seus dedos trilhava uma linha perfeita em meu lábio inferior. Apenas aquele toque suave fez meu coração tremer e falhar uma batida.
***
No final da tarde, enquanto Ali terminava de se arrumar para uma das festas que nós duas havíamos sido convidadas, eu assistia com deleitosa diversão Eros correndo de um lado para o outro do quarto, esbarrando em tudo o que estivesse em seu caminho. Por vezes, Ali demonstrava impaciência e certa irritação com a bagunça que nosso filhote estava fazendo, mas não era como se ela pudesse manter sua postura rigorosa quando ele se aproximava dela para roçar em sua perna.
— Ele sabe que está aprontando e está tentando disfarçar. — Ela comentou, erguendo Eros do chão para depositar um beijo em sua cabeça, antes de finalmente se virar para mim. — Você vai arrumar essa bagunça. — Apontou para mim, gesticulando para a cama desarrumada e os lençóis espalhados pelo chão.
Cogitei a hipótese de protestar, mas pensei melhor e deixei passar ao vê-la acariciando Eros enquanto se olhava no espelho. Ali analisava suas roupas, que eram apropriadas para o inverno, com os olhos cerrados, provavelmente amaldiçoando o frio por não deixá-la usar um vestido, ou até mesmo uma de suas saias xadrez, e eu não poderia dizer que não estava feliz por isso.
Sendo assim, levantei-me da poltrona rapidamente e comecei a arrumar o que Eros havia bagunçado. Era no mínimo curioso como sempre sobrava para mim algumas específicas tarefas de organização. Nada que realmente tirasse a minha paz. Por isso, assim terminei, tudo o que precisei fazer foi pegar um casaco de lã azul índigo e ir ao encontro de Ali. Cumprimentei Andy ao passar pela portaria apenas por educação, uma vez que, jovem e de boa aparência, ele não se preocupava em disfarçar seu interesse — quase fascínio — pela minha namorada.
— Pronta? — Ali perguntou, e eu apenas assenti enquanto colocava o cinto de segurança. — Tem certeza que quer mesmo ir? Você sabe, nós podemos fazer a nossa própria festa debaixo das cobertas... — Lembrou-me, parando por um instante para projetar as imagens em sua mente.
Para mim, era quase impossível não saber quando ela estava pensando em sexo, e eu tinha certeza de que Ali podia dizer o mesmo em relação a mim. De um jeito ou de outro, sempre sabíamos o que se passava pela mente uma da outra. Era uma conexão tão profunda e valiosa a que tínhamos. E a maneira como seus lábios se comprimiam rigidamente, os olhos semicerrados e a expressão pungente que tomava conta de suas características me pareciam argumentos irrefutáveis.
— De onde você está tirando toda essa vitalidade? — Finalmente consegui dizer, sorrindo para o súbito pensamento que me surgiu. — Não estou reclamando, mas, só hoje, nós fizemos amor sete vezes e eu tenho a impressão de que, se eu não tivesse implorado para você me deixar respirar, teríamos continuado até agora.
— Eu disse que só iria parar quando você implorasse. — Ali deu a partida com o carro, sorrindo perversamente ao virar o rosto para frente. — E não ouse me culpar. Eu estava muito frustrada por ter sido interrompida mais cedo e você sabe como eu fico quando isso acontece.
— Amanhã é Ação de Graças e nós deveríamos tentar nos divertir socialmente. Apesar de eu amar que, às vezes, você seja insaciável, eu realmente gostaria de aproveitar nossa primeira véspera de feriado em Nova Iorque de um jeito diferente. — Argumentei com a voz da razão, fazendo-a revirar os olhos em desgosto.
Ela parou no sinal vermelho e eu olhei pela janela, admirando os enfeites de Natal que embelezavam com propriedade a Quinta Avenida. Não havia uma única árvore em toda Midtown que não estivesse rodeada de pisca-pisca, deixando Manhattan ainda mais gloriosa e iluminada do que nunca. Estava distraída olhando em direção ao Empire State Building quando Ali colocou sua mão em minha coxa, atraindo minha atenção no mesmo instante.
— Eu sei no que está pensando. — Ela disse, sem olhar para mim. — Eu prometo que nós vamos começar a decorar nosso apartamento para o Natal. Essa semana! — Esclareceu quando eu cerrei os olhos em sua direção, mostrando-me confusa por um momento antes de assentir em concordância.
— Eu estou muito animada, sabia? — Suspirei com grande contentamento, colocando a minha mão sobre a de Ali e entrelaçando nossos dedos.
— Você sempre fica. — Limitou-se a dizer, lançando-me um breve olhar antes de dedicar sua atenção exclusivamente a sua frente.
Ali precisou atravessar Midtown para chegar ao Upper East Side, uma vez que diversas ruas estavam congestionadas por conta dos eventos noturnos recorrentes à véspera de Ação de Graças nas principais avenidas do Upper West Side. O caminho até a festa havia sido feito em confortável silêncio e, assim que chegamos, Ali jogou a chave de seu Porsche em direção ao manobrista, que a segurou contra o peito com certa firmeza.
— Vamos lá, sorria e acene. — Ali murmurou entredentes ao escorregar sua mão pelo meu braço, entrelaçando nossos dedos cuidadosamente assim que sua palma tocou a minha.
Era perfeitamente possível, mesmo que de longe, escutar as batidas da música que tocava dentro da casa de alto padrão. Assim que Ali e eu adentramos aquele ambiente agitado e cheio de pessoas alteradas, senti uma pontada de arrependimento por ter vindo. No entanto, logo tratei de afastar esse sentimento quando avistei Chloe se esbaldando no meio da movimentada pista de dança ao som de alguma música da Ariana Grande.
Ali apertou a minha mão para que eu prestasse atenção nela, dizendo que iria procurar Bree e pegar alguma bebida para nós duas. Limitei-me a apenas assentir, atravessando aquela multidão de adolescentes com os hormônios à flor da pele, desviando a cada esbarrão, até finalmente alcançar Chloe.
— Ei... — Toquei seu braço com gentileza para não assustá-la, fazendo-a se virar para mim.
— Emily! — Ela gritou, erguendo os dois braços em evidente euforia e embriaguez. — Eu não pensei que você viesse. Está sozinha? — Perguntou, olhando ao redor.
— Não, Ali foi procurar as amigas dela. — Respondi rapidamente. — Onde está Summer? — Questionei quando ela assentiu lentamente, tomando um gole da bebida que estava em sua mão.
— Por aí com algum carinha da fraternidade. — Sorriu com ligeira malícia, mas não antes de encolher os ombros num gesto de quem não se importava. — Vem, vamos nos sentar. Minha cabeça está girando. — Ela me puxou pela mão até o outro cômodo, onde havia alguns lugares para nos acomodarmos, enquanto algumas pessoas conversavam pelos quatro cantos.
— E você, está sozinha por quê? — Quis saber assim que meu traseiro atingiu o estofado macio do sofá.
— Estou querendo me guardar esta noite. — Ela disse, meio bêbada e incerta de suas palavras, conforme olhava fixamente para um único ponto a sua frente. — Mas aquele cara... Deus, eu quero tanto fazer algumas sacanagens com ele. — Murmurou mais para si, fazendo-me seguir seu olhar com curiosidade.
Mais adiante, podia-se ver um rapaz alto e de boa aparência encostado a uma pilastra. Ele tinha um copo descartável vermelho na mão direita e, vez ou outra, olhava em nossa direção com um meio sorriso sugestivo. Chloe suspirou audivelmente ao meu lado, e antes que eu pudesse abrir a boca para dizer alguma coisa, senti o estofado do sofá afundar com o peso que se jogou sobre ele.
— O que aquele idiota ali está olhando? — Alison perguntou num claro tom de exigência, entregando-me um copo com cerveja.
— Chloe. — Respondi simplesmente, tomando um pequeno gole da bebida alemã só para não fazer desfeita. — Ela está tentando resistir ao impulso de se jogar nos braços dele. — Dei de ombros, apoiando o copo de plástico sobre o meu joelho e, então, colocando-o no chão; ficar bêbeda hoje à noite não estava nos meus planos.
— Vocês têm sorte, sabe? — Chloe se virou para se dirigir a nós duas. — Não precisam se preocupar em usar preservativos... — Comentou vagamente, encostando a beirada de seu copo em seu lábio inferior enquanto meus olhos se arregalaram.
— Então é disso que se trata? — Ali riu, inclinando-se em minha direção para apoiar seus cotovelos sobre as minhas pernas, fitando Chloe com diversão.
— Espere... — Ela virou o rosto em nossa direção outra vez; as sobrancelhas arqueadas e os lábios entreabertos em ligeira confusão. — Eu disse isso em voz alta?
— Alto o suficiente para ouvirmos. — Resmunguei baixinho, tentando conter o violento rubor que subiu pelo meu pescoço.
Ali sorriu ao perceber meu ligeiro desconforto, inclinando a cabeça levemente para plantar um beijo suave em meu maxilar. Abaixei o rosto para encará-la, encontrando seus olhos azuis e brilhantes. Ela encostou seus lábios nos meus, roçando-os longa e delicadamente antes de se afastar o suficiente para que pudesse depositar um beijo na ponta do meu nariz.
— Tudo bem, pombinhas, desejem-me sorte. — Chloe suspirou profundamente, endireitando a coluna durante o processo.
— Sorte são para perdedores, você não precisa disso. — Ali disse, usando seu tom sincero e convincente, que logo causou um frio deleitoso em meu estômago e um sorriso caloroso em meus lábios.
— Obrigada, Ali! Isso foi tão... Gentil. — Chloe levou sua mão ao peito, meio sóbria, sorrindo com contida emoção. Em seguida, sem dizer mais nada, ergueu-se num rompante. — Jesus que me perdoe, mas hoje eu vou causar.
— Ela é uma gracinha. — Ali observou Chloe se afastar, sacudindo a cabeça com veemência antes de se endireitar e me puxar para que eu levantasse junto dela. — Vem, Em. Vamos dançar!
Deixei que ela me puxasse em direção ao cômodo em que estávamos antes, sorrindo extasiada com a visão de seu corpo balançando involuntariamente ao ritmo de Bang Bang. Assim que chegamos à pista de dança, Ali se virou para mim e passou os braços ao redor do meu pescoço, colando nossos corpos conforme mexia seu quadril sensualmente.
— Eu já disse o quanto esta calça fica perfeita em você? — Ela sussurrou perto o bastante do meu ouvido, escorregando suas mãos até os meus glúteos, onde apertou com delicadeza. — É colada nos lugares certos e me faz querer agarrar sua bunda com força.
— Você é tão pervertida! — Comentei com a voz rouca, contendo o ruído preso em minha garganta.
Emaranhei meus dedos entre seus cabelos e a puxei para o mais perto possível, roçando nossos lábios de leve. Ali continuou movendo o quadril em minha direção, conduzindo-me num ritmo sexy e envolvente. Suas íris estavam naquele tom de azul que eu tanto venerava — escuras e cheias de paixão e erotismo —, e eu não podia impedir o misto de sentimentos que se acumulavam com tanta propriedade em mim.
Ali fechou os olhos quando tomei sua boca com a minha, movendo meus lábios com violenta necessidade contra os seus. Suas mãos haviam voltado para os meus ombros e, agora, dedicavam-se a traçar caminhos semelhantes pelo meu tronco — a esquerda se perdia entre os fios do meu cabelo, enquanto a direita descia lentamente pelas minhas costas.
— Agora eu sei por que você quis tanto vir. — Ali murmurou contra os meus lábios, rindo quando eu a envolvi possessivamente em meus braços.
Suspirei audivelmente ao senti-la me puxar para o mais perto possível dela, pressionando nossos corpos com firmeza, enquanto movia suas mãos em direção ao meu rosto. Fechei os olhos instantaneamente quando seus dedos começaram a traçar um caminho sinuoso pela minha mandíbula, até chegar ao meu lábio inferior, onde acariciou com suavidade antes de plantar beijos molhadas em minha boca.
— Eu amo tanto você. — Consegui dizer quando a música de Ellie Goulding e Calvin Harris, I Need Your Love, passou a preencher todos os cantos da pista de dança.
— Eu também amo você, meu amor. — Ela sorriu abertamente, afastando uma mecha de cabelo do meu olho. — Com todo meu coração.
***
Havia se passado quase três horas desde que Ali e eu chegamos à festa e, agora, um pouco menos sóbria do que antes, ela estava sentada entre as minhas pernas — as costas confortavelmente recostadas em meu peito, enquanto eu descansava meu queixo sobre seu ombro e acariciava a palma de sua mão distraidamente —, num círculo formado no centro da sala de jogos.
— Já chega, cansei disso. — Ali declarou ao jogar suas cartas em cima da extensa mesa de centro, terminando o que restava de sua vodca com limão. — Amor, tem certeza de que não quer tomar um pouquinho? — Apontou em direção à garrafa quase vazia de Absolut ao lado de outra cheia de tequila.
— Eu estou bem, Ali. — Garanti com um meio sorriso. — Não vou poder cuidar de você se eu acabar bebendo demais.
— Eu sei o que está tentando fazer, Fields. — Ela sussurrou em minha direção, roçando seus lábios nos meus preguiçosamente. — Você quer me deixar bêbada só para poder tirar proveito de mim.
— Como se eu realmente precisasse disso. — Balancei a cabeça, rindo do sorriso sugestivo e, ao mesmo tempo, surpreso que surgiu em seus lábios rosados e beijáveis.
— Está dizendo que sou fácil?
— Às vezes, sim, você é. — Inclinei-me em sua direção, rindo antes de beijá-la de qualquer jeito, o que também a fez rir.
— Você também é... — Retrucou, com a voz meio embargada por causa da bebida, pausando por um minuto antes de continuar num tom baixo e lascivo: — Adoro os sons que saem da sua garganta quando eu coloco minha boca em você. São quase tão perfeitos quanto o seu gosto.
Ali se remexeu no espaço entre as minhas pernas, ajeitando-se numa posição ainda mais confortável, na qual pudesse me fitar enquanto acariciava o ponto de pulso do meu pescoço com a ponta dos dedos. Através do reflexo de seus olhos, eu podia dizer que os meus estavam tão escuros quanto os dela, e as batidas da música do Arctic Monkeys, R U Mine?,confundiam-se com a vigorosa pulsação em meu centro.
— Você sabe, eu não posso evitar. — Consegui dizer com certa dificuldade, deixando meus olhos caírem em sua boca. — Tudo o que preciso é de um toque seu para que eu me derreta por inteira. — Ali sorriu com a minha resposta, mostrando-se genuína ao jogar os braços ao redor do meu pescoço desajeitadamente.
— Minha Emily. — Sussurrou entre beijos molhados e afetuosos, fazendo-me sorrir com as demonstrações de carinho vindas de uma Alison não tão sóbria.
Estava prestes a abrir a boca para respondê-la, mas a barulhenta agitação ao nosso redor chamou a atenção de ambas quase ao mesmo tempo. Os novos amigos de Ali riam e conversavam do outro lado da mesa, ligeiramente embriagados e alheios a nossa conversa desde que ela desistiu do jogo de cartas.
— Ei, Ali... — Zach olhou em nossa direção, sorrindo perversamente para qualquer que fosse seu pensamento. — Está a fim de um desafio?
— Estou ouvindo. — Ali se limitou a dizer, sem se preocupar em disfarçar sua insipidez, conforme repousava sua cabeça em meu ombro.
— Eu acho que ela não consegue. — Natasha comentou, organizando diversos copos de shots na mesa com certo cuidado.
— Está vendo isto daqui? São dez shots de um novo drink da casa, chamado Floresta Negra dos Sonhos, e o desafio em questão é esvaziá-los. Não pode deixar uma gota para trás. — Zach se inclinou em direção à mesa, ignorando o que sua amiga disse. — Bree foi a nossa última vítima, mas desistiu no quinto copo. — Ele lançou um olhar zombeteiro a Bree, que, deitada com a cabeça no colo de Erin, revirou os olhos, claramente afetada.
— Desafio estúpido. — Resmungou ao cobrir o rosto com as mãos.
— E o que eu ganho com isso? — Ali quis saber, arqueando as sobrancelhas, como se aquilo fosse ridículo. — Além de uma maldita ressaca no dia seguinte, é claro.
— Depende de quantos shots você conseguir tomar. — Natasha começou. — Para promover o novo drink, os donos estão oferecendo cinquenta dólares por copo. Bree ganhou duzentos e cinquenta dólares pelos cinco shots que tomou. Mas, se você conseguir beber todos, o valor dobra. — Explicou calmamente, erguendo-se do chão assim que colocou os copinhos de vidro em fileiras organizadas.
— Interessante... — Ali murmurou, contemplando a ideia enquanto eu brincava com algumas mechas do seu cabelo. — O que acha, Em? — Perguntou, fazendo-me enrugar as sobrancelhas por alguns instantes.
— Você quem sabe, Ali. — Encolhi os ombros, pressionando meus lábios em seu ouvido. — Faça o que estiver com vontade. Se as coisas fugirem do seu controle, estarei aqui para cuidar de você. — Garanti com suavidade, plantando um beijo casto em sua têmpora.
— Tudo bem, eu aceito! — Ela anunciou num rompante, erguendo-se rapidamente para ficar de joelhos, mas não antes de me lançar uma piscadinha. — Preparem os bolsos, perdedores.
— Esse é o espírito! — Zach sorriu; satisfação tomando conta de seus lábios avermelhados.
Assim, portanto, Ali começou a virar copo por copo enquanto todos ao redor a observavam cheios de diversão e expectativa estampados em cada rosto presente. Limitei-me a apenas afagar suas costas preguiçosamente, esperando surgir qualquer sinal de que eu precisaria pará-la, o que não aconteceu. Ela estava terminando de virar o sétimo shot do tal drink que, como a maioria, possuía uma boa aparência, sendo uma mistura de licor de chocolate, cereja e Blue Curaçau, quando a música de Cobra Starship e Leighton Meester, Good Girls Go Bad, começou a tocar.
— Droga, eu adoro essa música! — Ela suspirou ao bater o pequeno copo de vidro com força sobre a mesa, virando-se, então, para mim. — Emily, amor, vamos dançar.
Agora, puxando-me desajeitadamente para uma das extremidades da sala, não havia um pingo sequer de sobriedade nela. Deixei que toda a sua energia se desgastasse de forma natural, acompanhando os movimentos eufóricos que seu corpo fazia, até que a música finalmente trocou para outra qualquer de Katy Perry e Ali se mexeu para retornar ao seu lugar de minutos atrás. No entanto, antes que ela pudesse voltar a virar os shots restantes, arrastei-a comigo até perto do bar, onde pedi uma garrafa de água. Ali iria acabar passando muito mal se continuasse a ingerir aquela quantidade de bebida alcoólica sem se hidratar.
— Em, o que está fazendo? — Ali quase gritou para mim, por conta da música alta.
— Tentando evitar que você passe mal e termine nossa noite tomando soro numa cama de hospital. — Falei firmemente, entregando-a a garrafa trincando de gelada.
— Mas, amor, se eles me pegarem trapaceando, eu perco o desafio! — Ali choramingou para mim, fazendo um bico que me deixou com vontade de mordê-la por inteira.
— Deixe de ser boba, Ali, não tem ninguém nos vendo. — Assinalei, olhando ao nosso redor. — Ande, beba e acabe logo com esse desafio, estou cansada e quero voltar para nossa casa. — Disse por fim, observando-a revirar os olhos e tomar três longos goles de água.
Como eu previa, sua falta de coordenação motora deixou com que um fio de água escorresse pelo canto de sua boca, levando-me a prontamente grudar meus lábios ali e sugar as teimosas gotas. Ali sorriu insipidamente e, em seguida, beijou-me na boca, escorregando sua língua gélida por causa da água por dentre meus lábios. Arrepiei-me com o toque, mas não deixei com que o beijo se aprofundasse. Só Deus sabe o quanto eu estava resistindo para não arrastá-la até um canto qualquer e ceder às suas inúmeras provocações.
Sendo assim, afastei-me de sua boca rosada e viciante e procurei por sua mão, virando-me para puxá-la de volta para onde estavam os seus amigos, mas não sem antes vê-la soltar um longo suspiro de frustração.
— Ali, dê um tempo com a bebida, ou você vai acabar passando mal. — Bree avisou com a voz cheia de preocupação, sem saber do meu recente cuidado quanto a isso, ajoelhando-se de frente para ela. — Por que continuamos com esse desafio idiota mesmo? — Perguntou para ninguém em particular.
— Porque é divertido, B. — Erin sorriu para Zach, que assentiu em concordância.
— Dê algum crédito à garota. — Zach disse, empurrando outro copo em direção à Ali. — Vamos lá, você consegue. — Ele piscou, soando tão confiante quanto pôde.
— Eu sou Alison DiLaurentis. — Ela cantarolou seu mantra habitual. — É óbvio que eu consigo.
Durante o tempo inteiro, mantive-me a mais neutra e distante possível daquela troca de palavras. Não gostava da companhia de Erin e Zach, mas fazia o que estava ao meu alcance para não demonstrar de maneira alguma meu discreto desafeto. Apesar de Ali não se preocupar em fazer o mesmo com Summer, as coisas comigo seguiam rumos opostos.
De certa forma, eu compreendia as razões de Ali desaprovar Summer, dado o fato de que a mesma era animada e espontânea demais para seu próprio bem em relação a mim. Ali não gostava de sua personalidade excêntrica e maneiras afobadas. Chloe, por outro lado, possuía quase as mesmas peculiaridades, mas que, para Ali, tinha uma diferença significativa.
— Ei, onde está a nossa beberrona? — Natasha me surpreendeu ao se jogar ao meu lado no sofá, trazendo consigo sua própria bebida.
— Ela foi ajudar Bree a preparar margaritas. — Respondi com um sorriso, lembrando-me da forma descuidada que Ali havia me beijado antes de acompanhar sua amiga até o bar.
— Então ela está em boas mãos. — Natasha me assegurou; sua voz saindo arrastada, porém firme. — Bree é ótima em manter as pessoas seguras. Não é à toa que ela vai ser a minha médica.
Enquanto ela bebericava o que parecia ser um Sex On The Beach, parei para observá-la conforme contemplava o que havia acabado de ser dito. Bree realmente parecia ser uma pessoa de confiança e alguém de se admirar, qualidades estas que eram muito apreciadas por Ali. Portanto, depois do que foram algumas batidas da música agitada que tocava, deixei meus olhos caírem para as minhas mãos no meu colo.
— Você sabe, eu nunca te agradeci de maneira adequada por ter levado Ali para casa em segurança naquele dia. — Comentei de repente, sentindo-me no dever de trazer isso à tona.
— Não se preocupe com isso. — Ela foi rápida em sua resposta, gesticulando desajeitadamente num sinal de que estava tudo bem.
— Eu acho que fiquei um pouco irritada diante da possibilidade de alguém ter se aproveitado do estado dela e, talvez, tenha sido rude sem perceber.
— Até onde eu me lembro, você tinha acabado de acordar e parecia bem cansada. — Observou com certa sensibilidade. — Além disso, só fiz o que Bree mandou. — Ela sorriu amistosamente ao olhar em minha direção, como se apenas o fato de ter sido útil a fizesse feliz.
***
— Em, eu preciso que você tire a minha roupa. — Ali repetiu pela centésima vez assim que entramos em nosso apartamento; o cheiro de lavanda e conforto nos recebendo de bom grado.
— Eu vou tirar, amor. Espere até chegarmos ao banheiro. — Guiei o corpo frágil e menor que o meu em direção ao quarto, onde comecei a finalmente despi-la.
Desde um pouco antes de deixarmos a festa, Ali vinha querendo se livrar de suas roupas, insistindo que desejava sentir meu corpo pressionado ao dela com urgência. Somente a lembrança do ocorrido causava um violento frisson em meu ventre e precisou de muito esforço de minha parte, como também de autocontrole, para convencê-la a esperar até estarmos a sós.
Agora, no entanto, completamente bêbada e desorientada, ela mal se aguentava em pé. Tive certa dificuldade em conseguir mantê-la acordada enquanto tomávamos banho e temi que, a qualquer momento, ela pudesse passar mal. Felizmente, isso não aconteceu e, assim que terminamos, tratei de secá-la e colocá-la em um roupão de seda azul da Victoria’s Secret antes de fazê-la vir até a cozinha comigo.
— Comporte-se enquanto eu preparo alguma coisa para você comer. — Avisei ao vê-la deslizar preguiçosamente na bancada, enfiando a cabeça entre os braços com gemidos chorosos. — E, por favor, não durma. — Acrescentei.
— Isso é tortura, Emily. — Resmungou com a voz rouca e vulnerável, fazendo-me sorrir. — Deus, eu vou desmaiar... Nunca mais vou beber aquele maldito drink na minha vida.
— Fique feliz. — Deixei uma risadinha divertida escapar, transitando pela cozinha conforme preparava sanduíches para nós duas. — Você ganhou mil dólares.
Ali pareceu contemplar a ideia por alguns instantes, sorrindo debilmente ao erguer seus olhos azuis e cansados para me fitar. Ela, então, voltou a descansar sua cabeça em seu braço, mantendo as íris no tom cobalto presos em meus movimentos. Eros logo surgiu de sabe Deus onde, roçando em minha perna longamente antes de ir até Ali, que não moveu um músculo para acariciá-lo, como sempre fazia.
— Eros, bebê, mamãe não pode brincar com você agora. — Murmurou com a voz abafada, fungando dramaticamente.
Parei de cortar os tomates por um instante, apreciando com intenso deleite o que ela havia acabado de dizer. Em dois anos, desde que adotamos Eros, Ali nunca tinha se referido a ele daquela forma. Era adorável, certamente, e eu não podia deixar de notar a considerável elevação em meus batimentos cardíacos só de imaginá-la como mãe.
Embora nunca tenhamos conversado sobre o assunto diretamente, Ali não perdia a oportunidade de deixar claro, sempre que conversávamos sobre o futuro com as nossas três melhores amigas, que ter filhos não se encaixava em seus planos. Aria era sempre a primeira a abordar o tópico, declarando sua vontade de ter um casal quando chegasse a hora certa.
— Em, ainda estou esperando... — Escutei Alison reclamar, trazendo-me de volta à realidade.
Balancei a cabeça com veemência, dissipando as centenas de possibilidades que começavam a se formar em minha mente. Não era como se eu precisasse me preocupar, pois, mais cedo ou mais tarde, ela iria mudar de ideia. Ali sempre levava em consideração o que eu queria, e eu não tinha dúvidas de que, para ela, era evidente meu anseio de ter uma família algum dia — com filhos e tudo o que eu tinha direito.
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