The Blind Side Of Love

16 One For The Money, Two For The Show.


Notas iniciais
Dessa vez, acho que não demorei tanto assim para atualizar. Por isso, não quero prolongar isso aqui, mas, só para vocês saberem, esse capítulo continua pelo ponto de vista da Ali. Agora vamos logo ao que interessa!

Quase uma semana já tinha se passado, e eu podia sentir na atmosfera de cada ambiente em que eu estava que nada havia mudado. Absolutamente nada. Entretanto, enquanto tudo permanecia o mesmo, eu tentava lidar com algumas situações da melhor maneira possível. Não suportava a ideia de perder o controle das coisas que aconteciam ao meu redor. Seria, portanto, muito mais fácil se eu recorresse aos costumeiros artifícios, que eu sempre poderia usar para afastar de uma vez por todas aquilo que se atrevia a invadir o meu território – já que só ignorar não iria fazê-la ir embora.

— Ei, eu recebi sua mensagem. O que foi? — Não precisei olhar para saber que Zach ocupava um lugar ao meu lado no banco de mármore do Campus de Psicologia.

— Que bom que chegou a tempo. — Suspirei aliviada enquanto mantinha meu olhar fixo nos alunos que circulavam de um lado para o outro, mas também bem atenta para quando a figura esguia e de cabelos loiros acinzentados aparecesse. — Eu preciso me livrar de alguém, Zach, e adivinhe? Você vai me ajudar.

— Eu vou, é? — Ele riu debochadamente quando eu virei meu rosto para encará-lo, com as mãos entre minhas pernas cruzadas. — Não me lembro de ter concordado com nada.

Aquela resposta fez com que um sorriso largo e perverso tomasse conta de toda a minha expressão facial, levando-me de volta às lembranças do último final de semana, quando eu finalmente pude conhecer a boate de strip-tease que Zach comandava em segredo e cujo sócio asqueroso não tirava os olhos de mim. Como filho único de um poderoso político de Nova Iorque, ele não podia se envolver em escândalos, afinal, as aparências eram tudo o que realmente importava.

No entanto, segredos como esses sempre viam à tona, e depois de algumas doses exageradas de afrodisíacos coquetéis, nunca tinha imaginado o que eu estava prestes a descobrir. Aquela boate interessantíssima, cheia de mulheres vulgares e repugnantes, servia como uma fachada para esconder quem ele realmente era. Aquela noite tudo fez sentido – Zach e eu estávamos na mesma página.

— Quando você me perguntou sobre o que meus pais achavam da minha relação com Emily, eu pensei que você estava tentando me provocar de alguma forma. — Comentei vagamente, voltando a observar a movimentação distante. — Não demorou muito para eu perceber que era só uma curiosidade genuína. E você também nunca esteve realmente a fim de mim.

— Do que você está falando? — Zach deixou uma risada nervosa escapar de sua garganta, quase como se estivesse a ponto de se engasgar. — Eu não estou entendendo...

— Eu seria um disfarce perfeito para você, não é? É por isso que você insistiu em sair comigo. — Virei-me por completo para poder encará-lo, colocando minha mão em sua perna, o que não pareceu afetá-lo. — Acredite, eu não estou ofendida. Não mesmo. Eu fiz isso quando tinha quinze anos, e adivinhe? Não deu certo. Emily é o amor da minha vida. Não tem como fugir disso...

— Alison, eu não sou gay. — Ele me interrompeu, afastando-se alguns poucos centímetros de mim, com o rosto extremamente lívido. — Foi para isso que você me chamou aqui, para fazer suposições infundadas sobre mim?

— Por favor, poupe-me dessa sua vibração negativa. É tão cansativa e irritante! — Revirei os olhos dramaticamente, erguendo a mão com visível impaciência. — Eu tenho fotos de você se agarrando com aquele segurança engraçadinho. Estão um pouco trêmulas, porque, você sabe, eu não estava exatamente sóbria naquela noite... Mas, não se preocupe, tenho certeza de que seu pai irá reconhecê-lo nelas. Afinal, que tipo de pai ele seria se não reconhecesse?

— Entendi. Você está me ameaçando. — Afirmou com um baixo aceno de cabeça, depois do que pareceram minutos em silêncio.

— Meu Deus, claro que não! Eu odeio essa palavra. — Dei um empurrão de leve em seu ombro, rindo descontraidamente. — Eu não me importo com o que você faz entre quatro paredes, porque, honestamente, estou muito ocupada me preocupando com quem quer levar a minha Emily para cama. Você me entende? — Pressionei mais um pouco, sorrindo docemente quando Zach finalmente me fitou sem expressão alguma.

— O que você está planejando? — Ele perguntou, suspirando em rendição, o que fez meu sorriso se ampliar ainda mais.

— É muito simples. — Comecei calmamente. — Preciso que descubra tudo sobre Kira Bostwick. Vasculhe a vida dela, procure pelos segredos que ela guarda. Você conhece muitas pessoas influentes, tenho certeza de que irá conseguir.

— Por que você não faz isso, já que é ótima em descobrir segredos alheios? — Zach perguntou em tom de provocação, o qual eu resolvi ignorar.

— Porque eu não posso. — Respondi, sem conseguir esconder a frustração em minha voz. — Emily me fez prometer que eu não faria isso...

— Então por que está fazendo?

— Bem, eu não disse nada sobre pedir a outra pessoa. — Dei de ombros, com um sorriso de canto, assim que voltei a minha atenção para o que acontecia ao meu redor.

De onde eu estava, conseguia observar tudo com atenção sem realmente fazer parte da área que englobava a extensão verde e bem cuidada do Campus de Psicologia. Aqui tinha uma boa vibração, e eu podia ver todos os alunos entrando e saindo de suas respectivas aulas. Zach e eu esperamos em silêncio por alguns longos minutos, o campus já estava deserto e o sol já estava se pondo quando um Aston Martin estacionou longe o bastante para eu não ver o motorista. Alguns instantes se passaram e, então, a figura loira e esguia que eu esperava surgiu inesperadamente, andando ágil e desconfiadamente em direção ao carro.

Veja só... — Cantarolei distraída, perguntando-me o que exatamente tínhamos ali. As possibilidades eram infinitas. — O que eles estão fazendo? Eu não consigo enxergar.

— Conversando, eu acho. — Zach disse, forçando a vista para enxergar. — Agora estão se beijando.

— Você está mentindo. — Duvidei, encarando-o brevemente antes de fixar meus olhos no carro preto outra vez. — Nem dá para ver direito...

— Eu estou usando as minhas lentes de contato. Vejo perfeitamente, obrigado.

— Você usa lentes de contato? — Arqueei as sobrancelhas, sem precisar olhá-lo para saber que ele tinha acabado de erguer os ombros. — Nunca reparei.

— É porque são da mesma cor dos meus olhos... — Zach se interrompeu quando a porta do carro que observávamos abriu e Kira desceu dele.

— Anime-se Zachary, temos trabalho a fazer. — Comentei, notando que ele tinha seu celular em mãos e um olhar distante, quando Kira finalmente desapareceu a caminho do estacionamento.

— Não se preocupe, vou procurar saber até quem é o elemento surpresa. — Ele garantiu ao se levantar, acrescentando enquanto ainda me encarava: — Eu faço todo o trabalho sujo e, em troca, você esquece o que viu. Combinado?

— Será o nosso segredo.

***

Na manhã seguinte, assim que a minha aula sobre o Sistema Cardiovascular e Respiratório havia terminado, encaminhei-me diretamente ao laboratório em que Emily estava tendo a sua terceira aula, onde, provavelmente, preparava-se para um breve intervalo de dez minutos. Ontem à noite, quando cheguei depois de me despedir de Zach, encontrei-a dormindo no sofá com Eros entre suas pernas e os livros em seu peito. Apesar de eu tê-la acordado, mais uma vez, não tivemos a chance de conversar adequadamente. Ela parecia tão cansada e indisposta que resolvi me contentar em tomar banho e deixá-la em paz.

Agora, apressando meus passos em direção ao laboratório, esperava que eu conseguisse ao menos levá-la para tomar um café. Não conseguia me livrar da sensação de que Emily ainda cogitava a hipótese de morarmos sozinhas por um tempo, o que eu achava um grande absurdo. A esta altura, não precisávamos de espaço uma da outra. Essa era uma desculpa que as pessoas usavam quando não estavam mais contentes em uma relação – e eu esperava que não fosse o caso dela.

— Não, sério. — Escutei alguém dizer assim que me aproximei da porta do laboratório. — Eu não posso mesmo fazer isso. — Não precisei esforçar muito a minha memória para saber que aquela era Kira.

— Por que não? — Ecoou a voz de Emily, seguido de um barulho de algo caindo no chão. — Você é minha amiga, e tudo o que peço é um conselho profissional.

— Nós temos um vínculo, e isso pode interferir negativamente nos seus objetivos. O que eu posso fazer por você é aconselhá-la como amiga, ou então você pode procurar a minha terapeuta. Ela é absolutamente fantástica!

— Eu não sabia que você fazia terapia. — Pude ouvir Emily replicar quando me apoiei na parede ao lado da porta, respirando profundamente.

— Todos nós precisamos de ajuda, Emily. Alguns mais, outros menos, mas todos nós precisamos de alguém em quem confiar os nossos maiores medos. Mostrar o que há por dentro. — Houve uma pausa antes que ela prosseguisse, e eu me vi completamente curiosa sobre o que vinha a seguir. — Raiva, frustração, insegurança... Traumas. Não há quem esteja realmente livre de experimentar qualquer um desses sentimentos, mas você pode guardá-los em algum lugar seguro e rezar para que ninguém encontre a chave.

— Acho que está certa. — Emily concordou depois de um momento e, sem conseguir me conter por mais um segundo, finalmente coloquei a mão na maçaneta e abri a porta com tudo.

Ei... Não sabia que ainda estava ocupada. — Tive que fingir espanto ao ver Kira sentada em cima da bancada, enquanto Emily ainda usava jaleco e manuseava um microscópio não tão distante dela, com a atenção agora voltada para mim.

— Ali... — Ela murmurou, fazendo meu coração bater dolorosamente depressa quando um olhar de estranheza cruzou suas feições.

— Tem um minuto? Eu quero conversar com você. — Aproximei-me dela com confiança, beijando o canto de sua boca antes que ela virasse o pescoço de volta para o que estava fazendo, ficando, então, de costas para mim.

— Bem, eu preciso mesmo ir, então... — Kira anunciou, conferindo o horário em seu celular antes de pular do balcão. — Vejo você depois, Em. Tchau, Alison. — Despediu-se polidamente, e eu me limitei a sorrir enquanto forçava um aceno de cabeça.

Aquela garota me dava nos nervos com aquele jeito de pomba sonsa, que comia apenas as migalhas que lhe ofereciam, enquanto visionava ter o pão inteiro. Não era à toa que algumas pombas morriam ao alçar voo quando os carros vinham em suas direções; elas estavam no caminho errado e, por isso, precisavam aprender a nunca mais se aventurar em estradas sinuosas. Coisas muito ruins aconteciam.

— Onde você estava ontem à noite? — Emily perguntou de repente, atraindo a minha atenção da porta recém fechada para ela.

— Por aí. — Dei de ombros, depositando todo meu peso sobre os braços ao me curvar em direção à bancada gélida. — Em, nós... Estamos bem? — Hesitei brevemente, observando-a retirar as luvas e, então, descartá-las.

— Claro. — Ela disse automaticamente. — Por que não estaríamos?

— Eu não sei... Você está meio distante. — Confessei baixinho, sentindo-me exposta e vulnerável.

— Bem, eu estou muito ocupada ultimamente. Você também deveria estar. — Apontou gentilmente, aproximando-se de mim com um meio sorriso. — Medicina não é exatamente um curso fácil. Longe disso, na verdade.

— Você também acha que eu deveria me dedicar mais, não é? — Pensei alto, sem conseguir encará-la enquanto ela tirava o jaleco que lhe caía tão bem.

— Eu realmente acho. — Emily concordou, apoiando-se sobre o balcão ao meu lado logo em seguida. — Você é boa sem precisar se esforçar, mas por que ser boa quando você pode brilhar? — Ela sussurrou perto do meu ouvido, afastando uma mecha de cabelo para trás da minha orelha com delicadeza.

— Você tem razão. — Assenti devagar, virando-me para poder ficar de frente para ela. — April tem um grupo de estudos, e ela constantemente me chama para fazer parte também.

— Dê uma chance. — Emily sugeriu, tirando o celular do bolso da jaqueta que eu havia lhe dado para verificar as horas. — Ali, eu tenho que ir agora. Vejo você em casa, está bem? — Ela disse, inclinando-se em minha direção para me beijar sonoramente nos lábios, antes de pegar suas coisas e deixar o laboratório às pressas.

Permaneci imóvel por alguns instantes, projetando novos planos e metas para a minha vida a partir daquele momento. Embora eu tivesse a recorrente sensação de que algo não estava certo, tratei de afastar aquele misto de ansiedade com incerteza o máximo que pude durantes os dias que se seguiram. Ignorei os barulhos que Emily fazia quando levava Killian para passar algum tempo com ela enquanto Kira fazia só Deus sabe o quê.

Emily não era de questionar o que as outras pessoas faziam com o tempo livre que tinham, e isso é uma das muitas coisas que nos difere como pessoas, pois eu sou feita de dúvidas. O trabalho dela era aceitar as coisas de coração aberto, enquanto o meu resumia-se em desconfiar e estar sempre atenta. Assim como René Descartes, eu gostava de pensar em mim como uma pessoa cética por natureza, buscando supostas verdades ao se basear em dúvidas reais. E só de pensar como Descartes eu me sentia menos ordinária por procurar provas que constatem a minha verdade – que nem tudo é o que parece.

Portanto, pensando nisso, sentei-me em um dos sofás macios e confortáveis que ficavam de frente para o palco de um aconchegante cabaré dos anos vinte, onde a influência europeia reinava ao mesmo tempo em que relembrava o início da libertação feminina – com direito a todo brilho, transparência e sensualidade. Assim como o lugar, as garotas de programa eram de alta classe, oferecendo a ideia de um mundo enriquecido e alegre. Como realmente acontecia na época das duas grandes guerras do século XX. Havia também dançarinas e cantoras profissionais, todas usando penas, vestidos bordados e pérolas, que, posicionadas em cada canto do palco, davam tudo de si em um impressionante número de All That Jazz.

— Você está atrasada. — Zachary observou, dando uma longa golada em seu Martini antes de bater o copo sobre a mesa de centro. — Estou esperando há quinze minutos.

— Eu meio que fiquei presa com meu grupo de estudos. — Dei de ombros, aceitando a bebida que me ofereceram sem conseguir desviar minha atenção do espetáculo que eu assistia com interesse. — Eu não entendo o que você faz nesses lugares. Não é como se você fosse encontrar alguém que te interesse aqui. — Comentei casualmente, bebericando o que parecia ser Margarita.

— Bom. Não estou procurando ninguém mesmo. — Ele disse, inexpressivamente, acenando para que alguém lhe trouxesse outro Martini.

— Eu gosto mais de você agora, Zach, então não seja um cretino. — Sorri ao fitá-lo brevemente antes de me recostar no sofá e voltar a minha atenção ao show que se desenrolava com extrema habilidade e desempenho.

— Eu gostava mais de você quando não estava sendo invasiva. — Retrucou imediatamente, sem conseguir esconder o humor negro em seu tom de voz, o qual eu fiz questão de ignorar.

— Você já viu Catherine Zeta-Jones interpretando essa música? Ela entra no palco depois de sua personagem ter assassinado o marido e a irmã e simplesmente arrasa. É fabuloso. — Comentei com contida empolgação, lembrando-me das vezes em que Emily e eu assistíamos ao filme Chicago em minha antiga casa em Rosewood.

— Mulher ciumenta é um perigo... — Zach murmurou, observando-me rapidamente quando um foco de luz percorreu o círculo em que estávamos. — Você acha isso bonito, não é? — Ele riu, balançando a cabeça como se já possuísse a resposta.

— Bonito? Acho que não. Justo? Talvez. — Ponderei calmamente, deixando meu corpo inteiro relaxar no sofá, desleixada e pensativa ao terminar minha Margarita. — Embora a morte, neste caso, seja uma punição extrema, é válida a ideia de que não sabemos o que se passa na cabeça da outra pessoa para fazê-la chegar a esse ponto. Afinal, não se trata mais do ciúme em si. Não é mais sobre o sentimento de afeição que restou. É algo mais profundo. Como a traição vinda das pessoas que você menos espera.

Enquanto Zach assentia lentamente em concordância, como se agora entendesse perfeitamente o meu ponto de vista, meus olhos estavam fixos em um homem ocupando o lugar mais próximo do palco. Ele usava roupa social, como se tivesse vindo direto do trabalho, e sustentava um sorriso sugestivo conforme acompanhava os movimentos das dançarinas ao som da melancólica música de Jill Tracy, Evil Night Together. A aliança em seu dedo era chamativa, mas o peso certamente não tinha muita importância.

— Você tem medo de ser traída? — Ele finalmente quebrou o silêncio, fazendo-me pensar a respeito antes de respondê-lo. — Eu não conheço Emily muito bem, mas você faz parecer que tem dúvidas sobre a lealdade dela.

— É claro que eu confio nela! — Respondi com segurança, tirando meu celular de dentro da bolsa para encarar a foto de Emily com Eros como proteção de tela. — Emily é maravilhosa, e eu não quero que as outras pessoas vejam isso.

— Isso não faz sentido...

— Não importa também. — Balancei a cabeça ao interrompê-lo bruscamente, sentindo o álcool começar a fazer efeito, enquanto eu me esforçava para me recompor do meu breve momento. — Chega de enrolação, Zachary. Eu tive uma semana horrível, então me diz logo, quem é essa Kira?

— Eu não precisei vasculhar muito a vida dela, se você quer saber, porque ela costumava ser bem comum por aqui. — Zach fez um conhecido gesto com o dedo indicador, indicando ao redor, enquanto eu cerrei os olhos, visivelmente confusa. — Acredite ou não, mas Kira Bostwick começou a trabalhar aqui quando ainda tinha vinte anos e ficou por tempo suficiente para fazer uma longa lista de contatos importantes. Você estava certa, ela é realmente um perigo para o seu relacionamento.

— Qual é a idade dela agora? — Perguntei de repente, com os olhos levemente arregalados e o queixo quase em meu colo. Uma puta profissional? Aquilo não era o que eu esperava.

— Vinte e três. — Zach sorriu com meu espanto, e eu logo soube que aquela situação era perfeitamente normal para ele. — Uma das dançarinas daqui disse que os clientes que Kira atendia eram bem específicos; homens acima dos trinta anos, de alto poder aquisitivo e todos casados. E apesar de ser ocupada com a universidade e todas essas coisas, ela tem casos sólidos com dois ou três empresários. O quarto eu tenho certeza que é David Green, nosso senador devasso.

— Zach, não brinque comigo... — Comecei de forma ameaçadora, mas ele logo me fitou atônito, cortando-me logo em seguida.

— Estou falando sério! — Garantiu-me, terminando sua bebida rapidamente antes de pegar sua bolsa e me mostrar uma pasta cheia de fotos, endereços e informações pessoais de Kira. — Eu conversei com a terapeuta dela, tentei enganá-la para conseguir alguma informação valiosa, mas não deu muito certo. Então, eu disse que estava muito agradecido pelo que ela estava fazendo por Kira, porque ela está bem melhor.

— Você também é diabólico. — Assenti com a cabeça, e eu sabia que meus olhos estavam brilhando. — Ela disse alguma coisa?

— Não exatamente, mas deu a entender que Kira tem problemas de raiva e ansiedade. — Zach franziu o cenho em uma breve pausa. — Eu descobri que ela tentou tratamentos para apagar memórias com um grupo de pesquisadores.

— Que tipo de memórias?

— Do tipo ruim, tenho certeza. Ninguém tentaria apagar memórias boas. — Ele deu de ombros, passando a mão em seu rosto liso e brilhante. — Caramba! Essa garota é bem perturbada também... Emily não faria uma boa troca. — Comentou distraidamente, sobressaltando-se quando eu belisquei seu braço com força.

— Não me aborreça, Zachary. Eu garanto que não é uma boa ideia. — Rosnei em sua direção, juntando todos os papéis e os colocando dentro da pasta, antes de me levantar para ir embora daquele lugar barulhento.

— Espere. — Zach segurou meu pulso, impedindo-me de me afastar. — Apesar de promíscuo e inescrupuloso, eu sou um homem de palavra. E você?

— Não se preocupe, docinho. — Inclinei a cabeça para o lado, com um sorriso ameno moldando meus lábios. — Seu segredo está a salvo comigo. Não vou tirá-lo do armário. As fotos foram apagadas no dia seguinte, quando eu tive certeza de que eu não estava delirando. Eu não pretendia usá-las contra você. Por isso, da próxima vez que eu te pedir alguma coisa, faça como um bom amigo ao invés de temer que eu o exponha. Eu não sou tão cruel assim.

— Ah, mas você é. — Ele riu, cruzando os braços largos sobre o peito.

— É verdade, eu realmente sou. — Concordei depois de um segundo, ponderando orgulhosamente e chegando à conclusão de que algumas coisas eram imutáveis. Bem ou mal, nós somos o que fazemos e, no fim das contas, é isso o que nos define.

***

Já passava das vinte e duas horas quando estacionei meu Porsche Panamera preto na garagem subterrânea do meu prédio, com os pensamentos distantes e nebulosos. Meu estômago se contorceu em desgosto ao imaginar Emily tão perto de Kira durante todo esse tempo em que se deitava com outras pessoas em troca de dinheiro. Era uma promiscuidade assustadora, que eu nunca havia parado para pensar a respeito, e aquilo não parecia se encaixar – não era certo. Ainda assim, era muito provável que ela levasse uma vida dupla, separando o mundo incerto e cheio de degradação em que havia se enfiado da vida comum de universitária que todos podiam ver – e até invejar.

Logo que entrei no apartamento, vi que somente as luzes da cozinha estavam acesas, indicando que Emily ainda não estava dormindo. Atravessei os cômodos em silêncio, largando as minhas coisas pelo caminho desleixadamente até a cozinha, onde encontrei Emily debruçada sobre o balcão, dividindo sua comida com Eros. No entanto, ao invés de prestar atenção na cena adorável, meus olhos percorreram as voluptuosas curvas de Emily, que vestia uma camisola de seda macia e convidativa.

— Ótima forma de me receber. — Sorri largamente ao me aproximar do balcão e pegar Eros no colo, acariciando-o conforme eu roçava a ponta do meu nariz em sua orelha. — Ei, meu amor... Sentiu saudades?

— Pode apostar que sim. — Emily murmurou cansadamente, com o rosto apoiado na palma de sua mão. — Ele ficou miando o dia todo, e só parou agora pouco, quando eu comecei a distraí-lo com a minha comida.

— Você é terrível quando quer, não é? — Acusei-o entre risadas suaves, fazendo Emily bufar e Eros ronronar baixinho em resposta aos meus carinhos.

— Acho que ele puxou isso de você. — Em disse, inclinando-se ainda mais sobre o balcão para plantar um beijo longo e molhado em meus lábios. — Aliás, eu também senti sua falta, caso esteja se perguntando.

— Mesmo? — Deixei minha cabeça tombar para o lado, levemente, sentindo-me tão derretida e vulnerável quanto Eros em meu colo, enquanto recebia meus afagos e atenção.

— É claro que sim. — Ela franziu o cenho em confusão, como quem estranhasse a minha dúvida. — Afinal, onde você estava até agora? — Emily quis saber ao se afastar com um sorriso, acrescentando antes que eu pudesse respondê-la: — E não diga “por aí” mais uma vez, ou eu vou ficar muito brava.

— Eu estava em um cabaré razoavelmente agradável com Zach. — Respondi simplesmente, colocando Eros em cima do banco antes de encará-la. — Conversamos sobre coisas tão interessantes, e ele me contou algo que quase não acreditei. — Continuei, observando suas feições partirem de surpresa para curiosidade.

— Acho que não quero nem saber... Ele é mesmo um pervertido, afinal de contas. — Decidiu por fim, balançando a cabeça ligeiramente ao se levantar e limpar o que sujou, enquanto Eros lambia a pata meticulosamente.

— Talvez você esteja certa. — Retruquei pensativa, ponderando algo em minha mente antes de prosseguir. — Em, aquele menino esteve aqui hoje? — Perguntei cuidadosamente, observando-a guardar os talheres na gaveta.

— Killian? — Ela se virou em minha direção, lançando-me um olhar confuso, e eu me limitei a apenas assentir. — Não. Kira o levou para o zoológico hoje. Ela me chamou para ir também, mas eu já tinha combinado de estudar com Chloe e Summer. — Deu de ombros, tentando disfarçar sua chateação.

— Bom saber. — Assenti brevemente quando ela me encarou com desconfiança. — Não me olhe assim, eu só estava curiosa. Afinal, você tem passado mais tempo com eles do que comigo.

— Não, Alison... Por favor, me diz que não está com ciúmes de uma criança também. — Ela disse incrédula, passando a mão em seu rosto, como se estivesse agoniada com o que estava por vir.

— Será que você não vê que não se trata mais de ciúmes? — Argumentei com seriedade, controlando meu tom de voz, assim como minhas emoções. — É tão difícil perceber que eu me sinto deixada de lado? Não é mais ciúme, eu juro... É só um misto de solidão com desespero, e eu sei... — Pausei rapidamente, tentando engolir o bolo que se formou em minha garganta. — Eu sei que é só uma questão de tempo.

— Do que você está falando? — Emily perguntou, com a voz baixa e cansada.

— Eu não vou ceder, Em. — Balancei a cabeça firmemente, sentindo meus olhos arderem. — Eu quero me casar com você um dia, mas eu sei que vai chegar um momento em que você vai ter que decidir se ficar comigo será o suficiente. Você terá que me escolher.

— É só o que eu faço, Alison! — Ela disse, aproximando-se do balcão com determinação. — Eu sempre escolhi você, até mesmo quando eu não deveria. As suas vontades se tornaram mais importantes do que as minhas. Você se sente deixada de lado? Pois bem, eu me sinto sufocada pelo seu ciúme descontrolado e magoada com sua falta de confiança em mim. Mas eu mereço, porque deixei isso acontecer. Eu permiti que você me tratasse como uma propriedade. — Exasperou, deixando algumas lágrimas de pura mágoa e raiva deslizarem pelo seu rosto.

— Em, você sabe que não é assim. — Aproximei-me dela devagar, tocando seu rosto delicadamente e afastando uma mecha de cabelo que escorregou de seu coque.

— Como não, Alison? Eu comecei a ter consultas com uma terapeuta quando é você quem precisa de ajuda. — Argumentou, com a voz rouca e fraca, afastando-se de mim. — Você tem sérios problemas, mas está tão focada tentando me controlar que não percebe isso.

— De onde você tirou essa ideia? Eu não tenho problemas, e eu não preciso de ajuda. — Retruquei em alto e bom tom, sentindo uma fúria conhecida brotar dentro de mim, mas antes que ela pudesse me cegar, eu me afastei de Emily.

— Quer saber, Alison? — Ela relaxou os ombros, com a respiração trêmula e os olhos negros como um abismo. — Eu não vou mais fazer isso com você. Eu tentei, eu juro que tentei, mas não dá mais certo. Não posso mais me desgastar com você, então eu desisto. — Decidiu, encarando-me por dois segundos e, então, passando por mim sem me dar a chance de processar o que aquilo significava.

Antes que eu percebesse, no entanto, minhas pernas já estavam se movendo em direção ao quarto, onde eu a encontrei trocando sua camisola para calça jeans, camiseta de manga comprida e botas escuras. Ela pegou seu casaco e seu celular, enquanto eu a observava de braços cruzados, sem saber o que fazer, ou o que dizer. Quando Emily estava para passar por mim outra vez, segurei seu braço e fiz com que ela me olhasse.

— Aonde você vai? — Perguntei, temendo a resposta mais do que tudo na vida.

— Eu estou indo embora. — Ela disse, puxando seu braço do meu aperto. — E, dessa vez, é sério.

— Emily, não... Por favor, vamos conversar. — Quase implorei quando ela virou as costas para mim, atravessando todos os cômodos com passos firmes até o elevador.

— Não tem mais conversa, Ali. — Afirmou de cabeça baixa quando o elevador subiu. — Eu preciso de espaço, e você de ajuda. — Continuou ao entrar no cubículo metálico, torcendo os lábios enquanto olhava para o outro lado.

Pensei em entrar naquele elevador e fazer com que ela voltasse a pensar com clareza, mas eu não conseguia me mover. Meus olhos agora estavam embaçados, minha garganta arranhada e dolorida e minhas pernas estavam prestes a ceder. Aquilo parecia tão decisivo – seu maxilar trincado e sua expressão de quem também estava devastada me faziam querer desabar e implorar perdão. Mas eu não conseguia encontrar a energia para fazer aquilo, então me limitei a dizer antes que as portas do elevador se fechassem, com a voz embargada e marcada pelo desespero:

— Você vai voltar.

Notas finais
Apesar de um final triste desse, espero que tenham gostado. Tive que esperar um bom tempo para escrever tudo o que aconteceu nesse capítulo, e eu estava tão animada. Me digam o que acharam, estou super ansiosa para saber a reação de vocês. Vou tentar postar o próximo o mais rápido possível, então até breve! :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.