The Blade
6 THE HOUSE!
Notas iniciais
Senti uma mão me puxar para fora da roda assim que Chaz avançou contra Daniel, olhei para ver quem foi, mas já não havia ninguém.
A certeza que a briga não era por minha causa me invadiu e me pus a andar para a saída.
(Obs: Chaz é do time de basquete e os outros estavam na escola por causa da inscrição)
Abri a porta pesada e sai do colégio, havia me inscrito para ajudar em um orfanato as três da tarde, sempre amei ajudar as pessoas e ir lá não só os ajudava, como a mim também, me fazia sentir bem, não feliz, mas bem.
Precisava almoçar, iria ao hospital em que nasci, recentemente tenho procurado por meus pais biológicos, escondida claro, meu tio não permitiria.
Subi na bicicleta sem muito esforço e segui na ciclovia.
Cheguei na lanchonete que normalmente almoçava ao sábados, me sentei na última mesa, ao lado da grande janela.
Coloquei minha bolsa na mesa e observei o restaurante, madeira em toda a sua mobília, tem quadros enigmáticos espalhados em suas paredes, o que eu mais gostava, era de um coelho cinza, ele tinha apenas um olho, sendo então um ciclope, patas de pato e ao seu redor haviam framboesas com olhos e se você olhasse atentamente poderia ver uma uva negra carregando um foice, logo atrás do próprio.
Um casal em minha frente, velhinhos no bar e uma loira como balconista, as luminárias nas paredes tinham flores entalhadas por toda sua estrutura que a envolvia, o chão de madeira encerada brilhava.
– O que gostaria? — Perguntou um garçom em minha frente.
– O de sempre. — Disse em tom baixo.
Ele assentiu e só então quando se virou me lembrei seu nome, Samuel, Sam.
Branco de cabelos pretos, olhos castanhos e boca carnuda, seus pais são donos do restaurante, falando sobre, se chama "As long as you come"(contanto que você venha) uma sátira.
Logo ele me trouxe um prato com salada e lasanha de vegetais, suco de abacaxi com hortelã. Agradeci e me pus a comer.
Terminei me sentindo ansiosa, queria ir logo para o hospital, fechei minha conta e sai rapidamente.
Minha bicicleta estava destrancada, um bilhete em sua cesta me chamou a atenção, era dourado, o peguei com receio e o abri.
"Pare de procurar quem não lhe quer"
Procurei um remetente, mas não encontrei nada, dei de ombros, o amacei e o joguei em uma lixeira próxima.
Na frente da estrutura gigantesca a observei, meu estomago rodou, branco com azul nas janelas, o estacionamento cheio de carros.
Não sabia o que esperar daquilo, não sabia se lá algumas perguntas seriam respondidas, o meu inconsciente teimava em falar que não, que não deveria mexer naquilo, mas era uma forma de saber mais quem sou.
Entrei sem receio logo avistando a recepção, um balcão azul, luzes fluorescentes fortes, fileiras de cadeiras de espera e um painel de senha vermelho com preto ao lado do balcão.
Peguei uma senha, já sendo a próxima, havia poucas pessoas na espera.
Uma moça de cabelo castanho e óculos rosa nas bordas digitava sem parar em seu computador velho.
Me sentei esperando a minha vez, estalei meus dedos nervosa, fitava o aparelho esperando que mudasse logo o número.
Um bipe soou e os números mudaram, me levantei fitando meus pés, caminhei em passos largos até o balcão.
– No que posso ajudar? — Perguntou me olhando de canto de olho.
– Eu gostaria de uma informação. — Falei colocando minha bolsa no balcão e a abrindo.
De lá tirei uma fotografia da minha suposta "mãe", o seu rosto fora tampado com rabiscos de caneta esferográfica.
A virei.
– Alicia Grigori, ela deve ter tido um parto aqui em 27 de junho de 1995. — Informei e mostrei a foto.
– Não posso informar isso a você. — Falou sem me olhar.
– Por que?– Perguntei fitando minhas mãos.
– Quem é você? — Perguntou desconfiada.
– Violet Grigori. — Respondi lhe fitando em suplica.
– Não posso dar esse tipo de informação. — Falou por fim, soube que não iria me falar mais nada.
Me virei frustrada, minhas esperanças não acabaram, mas não sei mais aonde procurar.
Forcei-me a engolir o choro, o vento batia em meu rosto secando cada lágrima, a rua estava cheia de carros, um atrás do outro, meus olhos embaçaram pelo choro.
– Está bem? — Alguém perguntou segundos depois de eu colidir com a lateral de um carro e cair na rua úmida.
Levantei-me com dificuldade sentindo uma dor horrível na mão direita, a olhei com receio, sangue pingava de um extenso corte, que ia do meio da palma da minha mão até meu pulso, minha cabeça girou e eu cambaleei quase caindo, mas duas mãos firmes me agarraram na cintura.
– Você precisa de ajuda. — Constatou nervoso, Daniel.
– Não... eu posso me virar sozinha! — Falei me desvincilhando de suas mãos.
Se fosse ao hospital precisaria tirar meu moletom, e a última coisa que queria era mais um olhar de pena.
– Pare de ser teimosa. — Falou me virando para ele.
Daniel estava de boné e parecia ter estado correndo, uma blusa preta modelava seu abdómen, shorts e tênis preto, seu rosto continha pequenas gotículas de suor, sua mão esquerda agarrava uma garrafa de água azul marinho.
– Não posso. — Falei.
– Então deixe que eu te ajudo. — Falou, ele pegou minha bolsa e segurou minha bicicleta.
– Não precisa! — Insisti tentando pegar minha bolsa, mas ele já estava mas a frente. — Ei, pare de andar. — Falei correndo atrás dele que virava a esquina.
– Pare de correr, vai passar mal. — Falou Daniel.
– Então me diga aonde está indo com as minhas coisas. — Falei o parando com a mão "boa".
– Minha casa. — Falou normalmente dando de ombros.
– Como assim? — Perguntei confusa.
Ele riu pelo nariz e me olhou de canto de olho, minha mão latejou, desviei o olhar assim que senti o sangue molhar toda a manga da minha blusa, não podia tirar.
– Quer água? — Perguntou me estendendo a garrafinha.
Balancei a cabeça negativamente, Daniel parou na frente de um portão gigantesco, nunca passara nem perto de sua casa, agora ter que entrar e com essas roupas, será constrangedor.
– Eu acho melhor não! — Falei fitando meus tênis surrados.
– Não adianta contestar. — Falou me puxando gentilmente até sua frente, me impedindo de sair.
Seu corpo estava exalando calor, ele está a cinco centímetros de mim, o seu cheiro é algo como malva silvestre, deveria estar com dor de garganta ou algo do tipo, me afastei, dando a distancia necessária aos nossos corpos.
Os portões se abriram após ele se identificar pelo interfone.
Entrei receosa pelo jardim, havia grama por toda parte e muitas flores, uma estrada que dava a um chafariz de anjo, uma grande estrutura de geso se estendia por uma grande parte do terreno, oito janelas com sacadas, duas de cada lado na parede de cima e o mesmo na parte de baixo. Meus pés batiam em pequenos fragmentos de pedras e madeira lascada.
A escadaria a minha frente me obrigou a oprimir um suspiro de hesitação, nunca vira algo tão magnifico.
– Vamos, acho que meus pais não estão em casa! — Falou distraído enquanto subia com leveza os degraus.
Subi sem muita coordenação e me posicionei ao lado de uma pilastra.
A porta era branca como o resto e havia detalhes em dourado, lembrando a ouro — o que provavelmente era -, rodando a maçaneta brilhante Daniel abriu a porta.
– Venha! — Falou vendo que eu me mantinha imóvel.
Três passos contados fizeram com que eu entrasse na luxuosa casa, sem ter tempo de observar os detalhes, uma pontada em minha mão fez com que eu fechasse os olhos e logo em seguida seguisse Daniel pela escada de madeira e corrimão prata, ele virou em um extenso corredor e novamente a direita se dirigindo ao último quarto, o segui e entrei em seu quarto.
Em comparação a casa, seu quarto é minusculo, a cama ao lado com cobertor azul marinho e vários travesseiros, as paredes cobertas por tinta preta, as persianas cinza escuro, uma escrivaninha de madeira, notebook preto e uma luminária mostrando vários livros e cadernos abertos. Logo abaixo da janela um puff de couro também preto.
– Por que tanto preto? — Perguntei atordoada.
– Não sei, quando o fiz estava em uma fase um pouco — fez aspas com os dedos — rebelde.
Deu de ombros, engoli em seco quando minha mão formigou, consegui ouvir o barulho abafado de uma gota de sangue cair no tapete cinza.
– Já volto. — Falou indo para o banheiro do lado direito de seu quarto.
Apertei minha mão em minha barriga, constrangida por ter manchado seu tapete.
Daniel voltou com uma maleta preta, franzi o cenho confusa.
– O que pretende fazer? — Perguntei receosa.
– Sente-se na cama! — Falou autoritário, mas sorriu gentil no final.
Ri pela intimidade que havíamos ganhado em pouco tempo e como amei te-la, me sentei sorrindo apesar da dor.
Daniel se ajoelhou em minha frente, a maleta ao meu lado foi aberta.
– Vou precisar que erga... — Ele abaixou os olhos envergonhado. — ou tire a blusa.
Gelei, me levantei o derrubando sentado.
– Não. — Neguei nervosa.
Daniel se levantou confuso e pensei até mesmo irritado.
– Me desculpa, mas eu não... posso. — Falei agitada.
– Tudo bem, fica calma Violet — passou a mão em meu ombro e se afastou dois passos, aparentemente achando que o problema era com ele — Se quiser fazer sozinha, tudo bem, eu até saio do quarto!
Abaixei a guarda assim que vi sua expressão de preocupação, seu cenho estava franzido e seus lábios comprimidos.
– Não, tudo bem, acho melhor eu ir. — Falei engolindo em seco.
– Não vou te deixar sair daqui assim. — Falei firme, pelo seu tom de voz ele estava irredutível.
Bufei frustrada, sabia que não podia deixar com que se aproximassem dessa forma de mim, mas foi algo que não programei, peguei a maleta e me dirigi ao banheiro, trancando a porta em seguida, o banheiro era pequeno.
Havia pastilhas verde musgo da pia até o chão, o resto da parede era pintada de bege claro, um armário com espelho da altura de meu rosto.
Bem iluminado fazia com que tivesse a aparência de ser amplo.
Tirei a blusa com cuidado e suspirei de dor quando a manga passou pelo corte o arranhando. Coloquei a maleta em cima do vaso sanitário e a abri.
Apenas com uma regata preta liguei a torneira, repetindo o ato do dia anterior, me inclinei sobre a pia e lavei todo o corte, deixando que o sangue sujo coagulado se soltasse e respingasse na pia.
Desliguei a torneira, peguei o algodão de dentro da maleta e coloquei soro por todo ele e um pouco de álcool, com muita coragem passei o algodão desde a palma da minha mão até o pulso, gemi sem querer alto de dor, ele parecia queimar minha pele.
– Você está bem? — Perguntou Daniel aflito.
Respirei fundo reprimindo a voz de dor, me controlando totalmente falei:
– Sim, só bati o pé... no armário. — Menti descaradamente, mas ele pareceu acreditar, pois não falou mais nada.
Após limpar todo o corte, me abaixei pegando um rolo de gaze e o enrolei em minha mão, primeiro passando pelo dedão e indo até meu pulso, tapando todo o corte, após a terceira volta o colei com fita adesiva.
Guardei tudo que havia usado e coloquei o moletom.
Sai do banheiro em passos pequenos e mudos, Daniel não estava no quarto, um copo com aspirina ao lado, fazia com que o bilhete ao seu lado chamasse a atenção.
Fui até a escrivaninha.
"O motorista está doente, meus pais pediram que eu fosse pegar meu irmão no treino, volto em 15 minutos... >"
Era minha chance de ir sem ele me segurar, virei o bilhete que tinha uma seta.
"Ps: Não fuja."
Bufei, não teria como sair, no fundo de alguma forma sentia — ou queria -, que iria o magoar, e ele fora tão gentil e solidário, que mesmo sabendo que isso é só por pouco tempo, não queria o fazer mal algum.
Tomei a aspirina, seguida de três goles de água e me virei fitando o quarto, percebi que no chão ao lado da cama havia um pequeno porta CD's, me abaixei curiosa, percebendo então o quão eclético Daniel é, seus CD's iam de Debussy a Jay-Z
O micro system em sua larga comoda me atraiu, me levantei e apertei o play.
Brendan's Death Song soou pelo quarto, sorri, já que amava aquela musica.
Um globo de neve brilhou quando a luz do monitor o tocou, dentro dele havia um boneco de neve com cachecol verde com vermelho.
Um portfólio preto me chamou a atenção, ao seu lado um estojo azul marinho. Peguei o portfólio e assim que o iria abrir ouvi passos na escada, o coloquei rapidamente onde estava e quando iria desligar o som, Daniel entrou com o rosto retorcido de raiva.
– Eu... — Comecei e ele me cortou raivoso.
– Eu estou ocupado agora, acho melhor você ir. — Falou seco e olhando em meus olhos.
Gelei, meus lábios tremeram enquanto me perguntava o que havia feito de errado, talvez não goste que mexam em suas coisas.
Assenti de vagar e peguei minha bolsa, saindo em passos rápidos de seu quarto.
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