The Black Velvet Series
4 Conto:
Notas iniciais
Diz a lenda que Mami Wata, não nasceu humana. De fato, ela foi criada por Nanã, o grande espírito Vodun, considerada a Grande Mãe Universal de origem Africana. Nanã criou Mami para ser um espirito das águas, uma criatura, metate mulher negra e metade peixe.
Mami estava completamente satisfeita com sua vida marítima, até que a primeira mulher andou por sobre a Terra. Começou a sentir inveja das belas criaturas e suas lindas curvas, gostaria muito de ser como as beldades que despertavam sua curiosidade juntamente com todos os tipos de sentimentos dentro da sereia.
Em uma noite sem luar, embriagada com sua própria ganancia e egocentrismo, invocou Papa Legba para fazer um acordo. Sua alma em troca de pernas e de domínio entre os humanos. Papa, o guardião entre os mundos físico e espiritual, não conseguia recusar um bom contrato, ainda mais com uma alma tão valiosa quanto a de Mami. Beijaram-se para selar o acordo. Mami teria pernas, mas não seria mais imortal. Sua vida seria longa, mas expiraria.
Ter pernas foi bom, por um tempo. Tinha muito à explorar, lugares para ir e amantes para se deliciar. Porém, com sua vida tendo um prazo de validade, Mami queria um meio para se livrar do acordo sem precisar perder seus membros inferiores. Então ela se envolveu com as bruxas locais, as rainhas do voodoo, que usavam a magia em benefício próprio. Começou a viver em comunidade com as mulhers e aprendeu que haviam formas de se manter jovem. Rituais de troca de energia vital que podiam ser realizados a cada 22 anos.
Iria fugir e seria imortal.
A oportunidade veio de maneira não esperada quando o homem branco invadiu suas Terras, cegou suas irmãs e destruíu tudo o que ela considerava sagrado, retirando dela sua amada liberdade.
Levaram-na para o Mundo Novo, do outro lado do oceano e fizeram-na trabalhar para homens e sua mulheres vazias.
Escrava.
Apesar disso, o ego de Mami não se deixou abater, já que agora tinha poder para dominar os humanos, iria agora usa-los como seus bonecos, para escapar da morte.
Para aumentar os seus poderes, seduziu o espírito Vodun, Hevioso, para ter poderes ilimitados em rituais voodoos e era protegida por ele pelos trovões e tempestades que levavam aflições aos seus inimigos.
Aprendeu que poderia roubar a energia vital das pessoas através do voodu. Era capaz de faze-las realizar tarefas em seu favor e mais importante, eram uma fonte ilimitada de vida.
A mulher que era escrava conseguiu causar mais dano aos seus mal feitores do que eles poderiam ter imaginado.
A terra das fazendas não dava fruto sem a chuva, ou não sustentavam as secas plantações quando as tempestades atacavam furiosas. Hevioso estava do seu lado, jamais a abandonaria.
Conseguiu sua liberdade, arrancou-a a força. Com isso, fundou sua própria seita, seguida por mulheres fortes, ex-escravas, como ela, que a adoravam e viviam felizes na comunidade fundada a sangue e ferro.
E continuou fazendo os seus rituais a cada 22 anos, em segredo.
Com a modernidade, e o mundo passando a ser digital, onde a população tinha olhos em todos os lugares o tempo inteiro, precisou aperfeiçoar a maneira com que conseguiria vidas humanas sem ter o serviço secreto americano batendo em sua porta.
Resolveu abrir uma loja de roupas e cosméticos para mulheres negras fazendo sucesso relativamente grande em escala nacional.
A rede de lojas era todo estruturada para dar empregos as mulheres de sua comunidade. Mami não iria deixar nenhuma delas sofrer novamente.
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Em Nova York. O pequeno Julien Dyer sofria com uma doença rara. Quadro médico no qual ela poderia dormir por dias e dias sem ter ciência nenhuma do que acontecia ao seu redor. Com apenas 8 anos, teve seu primeiro episódio, deixando sua mãe, Helena, quase doida de preocupação.
O medicamento, ajudou o garoto a melhorar, mas sua molestadora, não podia perder uma presa tão fácil como ele.
Julien não conseguia esquecer dos seus sonhos, nunca mencionou-os a mãe ou a seu irmão mais velho, Darryl. Muito menos para o pai que já não morava mais com eles, pois já não era mais parceiro de Helena.
O menino lembrava do labirinto de onde não conseguia sair. Quando acordado, ele recordava-se dos trovões e raios que o atormentavam e se lembrava do vazio, da fome. Havia algo dentro dele, algo mal. Entretanto por medo de causar mais problemas para a mãe, jamais mencionou nenhuma palavra.
Julien não estava sozinho. Não muito longe dali, na cidade de Allentown, Emma Walker, que tinha outra doença rara que iria impedi-la de enxergar antes dela completar 25 anos, também compartilhava os mesmos sonhos. Acordava com as batidas dos tambores ainda ecoando em seus tímpanos. Quando seu medo não era paralizante, tinha certeza de que podia ver crianças perdidas no mesmo labirinto que ela. Podiam ser fantasmas, ela não saberia dizer.
Chegou a mencionar, por cartas, os sonhos para sua melhor amiga Norma Lee. As duas ainda mantiveram contato, mesmo quando Norma se mudou para estudar. O que Emma não sabia, é que Norma na verdade, era uma bruxa. Foi acolhida pelas irmãs Halliwell para ajudar a controlar os seus poderes de dominar a Terra, pois era uma bruxa elemental.
Norma sabia que os sonhos da amiga não eram normais e pediu para ela mandar cartas mais frequentemente, pois o uso de celulares ficava proibido para segurança do covil.
Entretano Emma sentia que seus sonhos estavam cada vez piores e mais vívidos, em contrapartida com sua visão que ficava cada vez mais comprometida. Esperar a carta chegar era muito desesperador para ela, então ela resolveu arrumar um empregode meio período para poder comprar um celular para a amiga e entregá-lo de forma ilegal da próxima vez que Norma fosse fazer uma visita à Allentown.
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Black Pearl era o nome da botique especializada em roupas africanas, lindas peças e que combinavam muito com Emma. A dona da loja tinha um nome incomum, Mami Wata, mas ela foi extremamente amável com a garota e lhe ofereceu um emprego, mesmo sabendo da codição da menina.
Emma era muito confiável e fazia seu serviço com muito empenho, mesmo as vezes confundindo os preços das peças, ou se atrapalhando com a tela do computador. Mami gostava da garota. Até se ofereceu para pagar um tratamento, mas a condição era irreversível. Talvez o voodoo pudesse salvá-la. Talvez pudesse dar um outro sentido para a vida da garota.
Depois de muito pensar, resolver não envolver a menina tão jovem e presenteou-lhe com um cão guia que ela nomeou de Mawu.
Ela sabia que a cegueira não era comum e que isso poderia ser usado de forma benéfica para a comunidade.
Mami se sentiu um pouco traída quando Emma veio andando de mãos dadas com uma menina até o balcão para apresentá-la.
—Mami, essa é Norma, minha amiga fiel. — disse ela
A menina estendeu a mão para a intrusa e quando elas se tocaram, uma estranha energia pairou no ar. Mami sabia que Norma era uma bruxa e ela mão gostava de ter sua dominancia no local, ameaçada. Sabia da existencia das irmãs Supremas e do que Prudence Halliwell havia feito pela humanidade, se sacrificando para impedir o fim do mundo, mas não iria perder seu domínio, não de novo, não para brancos que se achavam donos de tudo.
~*~*~*~*~
—Ficou doida, Emma? Eu não posso levar isso comigo! — protestou Norma levantando da balança vermelha do parquinho onde as duas gostavam de passar as tardes quentes.
—Por favor! Eu estou aterrorizada, Norms. Eu não sei o que fazer e só confio em você — responde Emma.
—Amiga, eu sei que o que você está passando não é fácil, mas eu não posso quebrar as regras da escola. — disse Norma segurando as mãos da amiga.
—Eu só vou ligar se for para te contar sobre os sonhos, Norms. O labirinto fica cada vez mais escuro e eu vejo um vulto no centro dele. Parece ser o responsável por prender as pessoas dentro. Eu escuto sua vítimas, elas querem falar comigo, mas eu não consigo responder. Eu tenho medo. — ela começa a chorar.
—Escuta — diz Norma abraçando-a — eu vou levar, ok? Pare de chorar.
Elas ficam em silêncio um minuto.
—Emma, tem algo que eu preciso te contar. — começa Norma
—Pode dizer qualquer coisa, você sabe — afirma a outra.
—Eu não tenho sido totalmente honesta com você — diz ela
—O que quer dizer? — pergunta Emma, confusa
—Olha, sobre seus sonhos, talvez sejam visões, talvez você tenha poderes, assim como eu.
—Como assim? Você também tem sonhos? Por que nunca me contou? Você não confia em mim?
—Não é bem isso. Olha...
Norma se abaixa até o gramado e ajuda a amiga a fazer o mesmo. As duas tocam o solo no mesmo lugar. Alguns segundos depois, a terra treme e uma pequena flor nasce onde a palma de suas mãos tocavam. Ela se levanta esperando a reação da amiga.
—Eu não acredito! Eu sou cega, mas eu sei que você não está me enganando! Norma! Isso é maravilhoso! Você não tinha o direito de me esconder isso!!!! — ela grita protestando
—Eu não sabia como você iria reagir e tecnicamente eu não posso falar sobre isso — defede-se Norma
—Lorotas! Sua peste imunda! Eu nunca iria te rejeitar, sua ordinária!
Norma não sabe o que dizer, sabia que Emma era fiel, mas não que iria tratar tudo com a maior naturalidade do mundo.
—Você está brava? — ela pergunta tímida
—Não, eu estou furiosa!!! E essa escola?
—É mais um covil de bruxas — diz ela sem graça
—E todo mundo tem poderes?
—Sim, somos 8, bom, tecnicamente 7, mas Prue sempre está entre nós em versão fantasma.
—O que???
— Prudence Halliwell, nossa Suprema. É uma longa história, mas você deveria ser grata a ela, acredite.
—Grata a ela por tirar você de mim?
—Ela não me tirou de você, eu preciso delas para aprender a controlar meus poderes e proteger a quem amo e a irmandade bruxa.
—Bela porcaria, me deixando para trás.
—Emma, eu sinto muito, mas você estaria em perigo se ficasse perto de mim por todo esse tempo sem eu ter controle sobre mim mesma.
—Então me leve com você.
—Eu já estou te levando comigo — diz ela colocando o celular entre as mãos das duas — Lembra?
—Mas eu preciso de ajuda, Norms.
—Olha, eu vou para o covil, eu vou contar as irmãs Supremas sobre você e ai talvez elas possam te ajudar.
—Por que você não quer me levar?
—Emma, nossa localização é secreta. O endereço que eu te envio cartas é uma caixa postal de uma casa abandonada. É para a nossa segurança. E também......não é só porque você tem poderes que isso te torna uma bruxa. A nossa irmandade é composta por bruxas que tem poderes sobre os 5 elementos, há várias outras comunidades, nem sempre nos damos bem. Infelizmente, é assim que funciona.
~*~*~*~*~
Antes de ir para casa, na estação de ônibus, as duas amigas se abraçam.
—Eu vou voltar para te ver de novo — diz Norma
—Tudo bem, eu espero. Gravou o meu número né? — pergunta Emma
—Mas é claro. Só tem o seu número hahaha — ela ri. — Emma........
—Que é?
—Tome cuidado com sua chefe.
—Que quer dizer? Ela é uma boa pessoa, até me deu o Mawu — diz ela acariaciando a cabeça do fiel companheiro.
—Eu sei, mas tem algo nela, Emma. Não sei dizer.
—Tá com ciúmes, é?
—Besta.....talvez — diz Norma revirando os olhos. — Tá, ok, agora vaza.
—Tchau, sem vergonha. A gente se fala
—Tchau tchau — diz Norma acariciando a acabeça de Mawu e depois acenando para eles. Mesmo que Emma não pudesse ver direito, era costume.
Assim que a garota saiu da vista, Primrose Halliwell, uma das Supremas aparece na estação para levar a menina com ela de volta ao covil.
—Ela é uma boa garota — diz a bruxa recém chegada.
—Prim, ela é especial. Acho que ela é um tipo de vidente.
—O que quer dizer.
—Que ela consegue ver coisas que ninguém mais consegue através de sonhos.
Primrose para um instante para pensar. Ela se vira para Norma e pergunta.
—Quer ficar aqui mais um dia???
Norma fica sem entender.
—Acho que posso ter uma conversa com sua amiga, certo — Prim dá uma piscadela para Norma que sorri largamente de volta.
~*~*~*~*~*~
Mais tarde naquele dia, as duas bruxas aparecem na Black Pearls Boutique para esperar Emma sair do turno dela.
—Norma, essa loja, tem algo nela. Não deveríamos estar aqui. Não é nosso território — diz Primrose segurando os ombros da menina.
—Sim! Eu disse isso para Emma, mas ela adora a dona da loja.
—Quem é a dona? Você a conheceu?
—Brevemente, mas não sei dizer o que ela é.
Neste momento, Mami Wata vem de braços dados com Emma saindo da loja. Mami e Primrose se encaram fixamente como se brigassem silenciosamente.
—Emma, porquê não vai até a sorveteria com sua amiga? — ordena Wata
—A Norma não foi embora??? Sua feia, por que não avisou? — diz ela segurando mais forte a coleira de Mawu e indo em direção a amiga.
—Vá com ela — ordena Primrose.
—Então, veio analisar a competição? — instiga Mami
—Eu vim em paz.
—Paz? Vocês são extremamente engraçados. Se meu povo piscar os olhos, vocês já vem se apropriando de tudo o que é nosso.
—Você é Mami Wata, a bruxa voodoo. Sabemos quem você é e o que você faz, não queremos nos meter nos seus negócios. Mas a matança tem que parar.
—É assim que você não vai se meter? Me mandando o que fazer? Está na hora de vocês respeitarem o meu povo.
—Cuidado, Wata.
—Hahaha — Mami ri — Você é quem deveria ter cuidado, bruxa.
O ar começa a ficar denso em torno das duas. Primrose cresce.
—Você é poderosa, mas nós somos três. — diz Prim com uma voz que parece não ser dela.
Os pedestres e passantes da rua de repende param e encaram Primrose.
—Vocês podem ser três, mas nós somos milhões. — diz Wata
As pessoas começam a andar novamente, sem saber o que houve. As duas se encaram novamente.
—Você foi avisada — diz Prim e se vira para buscar as meninas na sorveteria.
—Não fale com Emma, ela é minha cria. — diz Wata ameaçadora. — Eu saberei.
Primrose chega a sorveteria e arranca Norma da mesa sem dizer uma palavra.
—O que houve? Onde vamos? E a Emma? — pergunta Norma atordoada
—Não podemos ajudá-la. Ela é propriedade de Wata.
—Não, o que quer dizer? Pare, Prim!
As duas somem no ar.
~*~*~*~*~
—Acho bom terem um bom motivo para me invocarem aqui — diz o fantasma de Prue Halliwell sentando na mesa redonda no centro da sala de reuniões do covil.
Norma esperava de cara amarrada em sua cadeira.
—Prue, as bruxas Vodun, lembra do filho de Helena Dyer? — pergunta Prim.
—O que aconteceu com Julien? — pergunta Bonnie.
Bonnie conhecia Julien, ela já foi vizinha de Helena e seu ex-namorado era o irmão mais velho do garotinho. De fato, ela já havia ajudado a cuidar do pequeno enquanto Helena dividia-se entre dois trabalhos para pagar o tratamento.
—O caso dele não me parece ser médico, e esse tipo de Síndrome tem aumentado, para um caso raro, não está me parecendo tão raro assim. — diz Prim.
Norma de repente se levanta batendo as mãos na mesa.
—É isso! — grita ela
—Que foi, garota? — Pergunta Nessie, a bruxa com poderes sobre as águas.
—Os sonhos de Emma! São essas crianças presas num labirinto ou algo assim!
—Nos conte mais sobre esses sonhos? Ela te contou mais alguma coisa? — pergunta Prue
—Por que não trazemos ela aqui para ela mesma poder contar?
—Não podemos. — afirma Primrose
—Por que? — pergunta Prue calmamente
—Mami Wata
A sala de reunião entra em silêncio novamente.
—Tem certeza? — pergunta Pam Halliwell
—Você disse algo para enfurecê-la? — indaga Prue
—Talvez, mas não intencionalmente — responde Primrose
—O que tem de tão especial nessa Mami Wata? — pergunta Norma
—Mami Wata era um espírito das águas, ela fez um trato com o guardião da passagem entre os mundos, Papa Legba para ter pernas e andar por sobre a Terra, mas isso retirou a mortalidade dela. Ela não ficou contente em saber que sua vida teria prazo de validade. Então começou a praticar rituais voodoo que incluiam a matança de inocentes para poder continuar viva e jovial. Acontece que a escravidão chegou para o povo dela e ela jurou se vingar de todos.
—Mas não é justo, eu sei que não deveriam ter tirado tudo o que é dela, mas se vingar do mundo inteiro? E o que o garotinho tem haver com isso. — diz Bonnie
—Aos 30 anos, a doença do sono passa, sem explicação. O que não contam nos livros de medicina, é que o paciente morre alguns anos depois. Pois Mami usa o sono para controlá-los, retirar sua energia vital e o que sobra para eles são alguns anos de vida. — diz Prue.
—Quer dizer que Helena está se desdobrando e se matando de trabalhar só para manter o filho como gado para essa bruxa louca? — pergunta Bonnie incoformada
—Sim.
—Prue, você sabia disso? — pergunta Pam
—Eu não poderia ter certeza. Nossas comunidades não se misturam e os casos da doença começaram a aumentar depois que impedimos o meteóro de cair na terra. — resume Prue.
—Mas por que Julien? — pergunta Bonnie.
—Não sei, talvez ele tenha alguma ligação com Wata.
—Mas que tipo de ligação? Eu não entendo...-
—E Emma? O que quer dizer com ela é propriedade desta maluca? — interrompe Norma — É porque ela é negra?
—Elas tem a mesma cor de pêle e Wata ama demais o seu povo, mas não é por isso. Emma já está envolvida emocionalmente com ela. Ainda mais com esses sonhos. — conclui Prue
Linda Foster puxa Pam de lado e pergunta baixinho.
—Pam, eu também sou negra, isso quer dizer que sou propriedade de Mami Wata?
—Não, minha querida, você tem um acestral em comum, mas o que você faz com seus poderes e sua vida, é decisão sua. — diz Pam dando tapinhas carinhosos nas costas da garota.
—Mas ela tem medo dos sonhos, ela tem medo da criatura no centro do labirinto — protesta Norma
—Criatura? — pergunta Primrose
—Mami — diz Prue
—Então, ela está sugando a vida das crianças presas no labirinto? — pergunta Bonnie
—Sim.
—Temos que impedí-la, são só crianças! — protesta Bonnie
—Sim, temos. Mas ela não vai abrir mão do território dela, sua fome de vingança é imensurável. — diz Primrose.
—Sim, irmãs e além disso ela é protegida pelo Vodun do trovão, Hevioso.
—Como vamos fazer isso, então?
O celular de Norma começa a tocar
—Norma Lee, você conhece as regras! Onde conseguiu isso?
—Ops, achei que estava no silencioso. É EMMA! ALÔ?
—Se preparem para serem devoradas.
Norma fica pálida e se senta novamente na cadeira, perdedo o equilíbrio. Pam toma o celular de suas mãos
—Mami? O que você fez com Emma?
—Ela não é preocupação sua.
—Sabemos o que você faz bruxa. Não queremos te machucar, só queremos que pare de assassinar inocentes.
—Eu sei onde vocês estão! — diz ela cantarolando — E minhas crianças tem fome.
As bruxas escutam os vidros da sala sendo quebrados. Pequenas mãozinhas ensaguentadas escavam seu caminho de entrada.
—Mas que diabo? São crianças vampiras agora? — pergunta Sunmi — Eu vou queimá-las!
—Não ouse! — grita Bonnie — Julien está entre eles! — diz ela apontando para a janela quebrada.
Nisto uma criaturinha a ataca, mordendo seu braço com força. Sunmi chuta a garota zumbi no rosto fazendo a soltar o braço da amiga. Vê-se nitidamente as marcas do dentinhos recém desenvolvidos da garotinha cravados no braço de Bonnie.
—Vão nos comer vivas! — grita Nessie
—O único jeito de impedí-los é parando Wata. Prim, se teletransporte com Norma e tentem achar Emma. Enfeiticem ela para que durma e somente ela poderá parar Wata. Em sonho. Rápido, Sunmi, círculo de fogo, rápido, vamos invocar Papa Legba.
As 5 bruxas ficam em suas posições dentro do círculo de fogo projetado por Sunmi para protegê-las.
—Digam essas palavras, — diz Prue:
“Papa Legba ouvre baye pou mwen, Ago eh!
Papa Legba Ouvre baye pou mwen,
Ouvre baye pou mwen, Papa
Pou mwen passe, Le’m tounnen map remesi Lwa yo!”
As vozes começam a ecoar e ficarem mais altas. Um vulto surge no canto escuro da sala. Um homem negro, alto, com dreads que aparecem por debaixo da grande cartola que ele usa se faz presente. Seus olhos vermelhos encaram os do fantasma de Prue. As crianças zumbis param o ataque e ficam paralizadas quando ele fala. O transe não é interrompido, mas o tempo para quando ele abre a boca.
—Boa noite. A quem devo a invocação?
—Papa Legba?
—O próprio. Acho bom terem um bom motivo para me trazerem aqui. O que tem a oferecer e o que em nome de Nanã são essas criaturas. — diz ele se aproximando e abaixando-se a altura de uma das crianças.
—Papa Legba, precisamos de sua ajuda. Precisamos parar o ataque e livrar as crianças da agressora deles. — diz Prue
—Eu sei quem vocês são. Mas não ajo sob ordens de qualquer bruxa. De fato, não tenho o que fazer com esse ritual voodoo. Entretanto, eu ajo em cima de acordos. O que você pode me oferecer? — diz ele sorrindo, revelando os dentes de ouro.
—A alma da autora dessa obra — diz Prue. — Mami Wata
—A alma dela já pertence a mim, bruxa.
—Não foi ela que conseguiu escapar de você por séculos? Agora poderá clamá-la. — diz Prue ciente que o Vodun não gosta de ser desafiado.
—Eu não posso tocá-la, ela é protegida de Hevioso.
—Não pode tocá-la em na terra, mas em sonhos poderá.
—Explique-se — ele ordena
—Há uma garota, Emma, que consegue se conectar com Mami quando ela entra em seu rito voodoo. Se viajar com ela através dos poderes de Primrose, poderá impedi-la.
—Eu clamo a alma de Wata e vocês não são engolidas pelas crianças famintas. Me parece um acordo justo. Podemos selá-lo?
—Sim! — diz Prue.
Os dois selam o acordo com um beijo. Primrose dá as mãos para Norma e a outra para Papa Legba e eles desaparecem no ar. O tempo volta. O exército de crianças recomeça os ataques. Agora sem duas aliadas, as defesas ficam mais fracas.
~*~*~*~*~
Mami tem suas velas negras acessas num pentagrama em sua volta. Seus olhos brancos em transe e sua mente em contato com cada uma das crianças de seu exército zumbi particular. As guardiãs vigiam a porta e tem ordens para matar qualquer um que se aproximar da menina amordaçada e do quarto em que Wata se encontra. Ela não vê quando o vulto, muito rapidamente aparece no canto do quarto e resgata a menina Emma.
As guardiãs em desespero por não poderem impedir resolvem abrir a porta do quarto, sendo mortas imediatamente por um feitiço para não interromperem o ritual voodoo.
Os trovões começam a ecoar e a chuva cai pesada no continente.
~*~*~*~*~
Emma grita quando tiram a mordaça de sua boca.
—Norma! Sai de perto de mim! — diz ela se arrastando na areia do velho parquinho onde as três entidades resolveram usar como base.
—Para, Emma. Me escuta! — diz Norma
—Eu não quero saber, você e essa bruxa doida aí me deixaram lá na sorveteria sozinha, sem nem dizer tchau! — diz ela com lágrimas nos olhos — Mami estava certa, vocês são todos iguais, só nos usam quando querem algo.
—Mami não está certa, olha o que é fez com você e não é verdade! Eu voltei por você!
—Voltou porque você precisa de algo. O que você quer?
Norma se cala, pois sabe que realmente precisa da ajuda de Emma, mas sabe também que voltou porque se importa com a amiga.
—Eu realmente necessito de sua ajuda, Emma. — diz ela cabisbaixa
—Viu só! Eu não quero ouvir, vai embora com seu povo — diz ela ainda se arrastando e dando de cara nas pernas de Papa Legba
—Boo!
—Que isso?!- Emma grita — Não era para eu poder estar enxergando essa coisa!!!
—Emma me escuta! Se acalme! Ei, me escuta — diz Norma tentando impedir que a outra se machuque com as amarras dos braços e das pernas — Eu vou te soltar, se você me ouvir.
—Eu não preciso de você! — diz ela agora se afundando nas areias sem fazer muito progresso em sua fuga
—Ela vai matar a gente! E depois as crianças, Emma! — grita Norma
Emma para ofegante.
—Do que você está falando?
Norma explica a história rapidamente para Emma
—E você quer que eu durma aqui, no meio da chuva? Vai dar muito certo isso! — protesta Emma.
—Vamos te enfeitiçar para você dormir, vamos todos com você na verdade. — diz Prim — Menos você, Norma, você fica de vigia. — a garota ia protestar, mas o olhar severo de Prim a impede de começar.
—Ok.....
—Emma, está pronta?
—Não estou feliz com isso e não estou fazendo isso por você sua traidora — diz ela para Norma
—Não me importa, só faça.
Primrose diz as palavras:
“Deixe nós que acordamos do nosso sono,
voltemos imediatamente a dormir profundamente.”
Emma dorme. Enquanto ela entra no labirinto novamente, Prim e Papa Legba se materializam ao seu redor.
—São vocês mesmo? — ela pergunta em dúvida
—Em plano astral, mas sim, somo nós. — reponde Prim.
—Precisamos chegar até o centro do labirinto. Ela estará lá. — diz Emma.
Nisto, uma criança ataca Primrose pelas costas e começa a morder seu pescoço. Papa Legba chuta o pequeno que cai nocauteado.
—Isso vai deixar uma marca — diz ele fazendo graça com Primrose
A bruxa se levanta sem rir da piada
—Ela sabe que estamos aqui. VAMOS! — ela comanda
Emma começa a correr em direção ao centro, fazendo o caminho percorreu tantas vezes por noites seguidas.
As crianças continuam atacando, mas Papa Legba limpa o caminho, usando sua bengala como espada.
A criatura no centro do labirinto tem os olhos brancos e as teias que ela tece com a as mãos dificultam o acesso à ela.
—Não se aproximem — ela diz em voz distorcida. — Ou as crianças morrem — ela ameaça
—Não é problema meu — diz Papa Legba rindo-se e fazendo seu caminho em direção à ela.
As crianças gritam em agônia. Começar a chover no sonho também. Hevioso sabe da situação.
—Velho inútil, pensa que eu vou me curvar a você? Eu quero o que é meu! Temos um contrato e ela vai cumprir com a parte dela! — Diz Legba.
—Papa, as crianças! — grita Primrose
Alguns pequenos caem por Terra em agonia.
—Elas não são parte do acordo, bruxa! — diz ele em tom severo. — Mami! Sua alma é minha!
Enquanto eles discutem, Emma se aproxima por de trás de Wata, abraçando-a.
—Chega Mami, sabemos de tudo o que você fez por nós! Você jamais será esquecida! Nós te amamos. Você é nossa “Mãe das Águas”! — diz Emma chorando.
Mami Wata para o ritual e sai do transe. Ela olha com carinho para a menina.
— Eu não posso parar, criança — diz ela com ternura.
—Mas eu posso — diz Papa Legba que se aproxima para beijá-la e levá-la consigo.
Ela aceita sua sina. Os dois somem para o submundo.
Emma acorda chorando e gritando. Norma tenta acalmá-la em vão. Primrose deixa as duas terem um minuto de paz para depois dizer
—Precisamos voltar ao covil.
~*~*~*~*~
O covil se encontra destroçado. As meninas tem marcas de mordidas pelo corpo, e as crianças dormem tranquilamente no chão da sala e espalhadas pelo jardim destruído.
—Não deu certo? — pergunta Emma
—Eu as enfeiticei para dormirem e esquecerem o que aconteceu — diz Pam
Linda vem correndo e abraça Emma, as duas meninas choram sozinhas, pois somente elas sabem o tamanho profundo da perda que sofreram. Elas nem se conhecem, Linda jamais viu Mami Wata, mas a dor é a mesma.
~*~*~*~*~
Julien Dyer passeia com sua mãe e seu irmão. Eles tem o fim de semana livre agora que sua doença já não se manifestava há dois anos. Eles vão para Allentown visitar o Museu de Artes, enquanto Darryl Dyer estaciona o carro na sorveteria local, duas garotas se balançam nos brinquedos do parquinho em frente.
A nova dona da Black Pearl tirou o dia de folga para passar o dia com sua amiga Norma. As duas riem e citam feitiços para o vento.
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