The Black Knight

2 O Cavaleiro Negro na noite negra


Notas iniciais
Não se esqueçam de prestar atenção às datas e aos horários. Obrigada a todos que comentaram.

“Somente aqueles que nunca deram um tiro, nem ouviram os gritos e os gemidos dos feridos, é que clamam por sangue, vingança e mais desolação. A guerra é o inferno."
( Gen. William T. Sherman )


Capítulo 2 – O cavaleiro Negro na Noite Negra



Muralha Norte, Akanea, 4 de janeiro de 1621, 21:37

- Reforcem os portões! – Eliwa gritava a plenos pulmões – Não deixem que entrem! Temos que ganhar tempo! Todos os arqueiros em seus postos! Retirem os corpos das muralhas!

— Não temos gente o suficiente, senhor! – Beldi gritou ao comandante – Quais as ordens de Heikisama?

— Resistir. – Eliwa parou para pensar no que fariam. A situação estava indo de mal a pior. As tropas inimigas já tinham conseguido adentrar no castelo. Liana sama havia sido morta. Neutralizaram os inimigos dentro do castelo a grande custo. Mais da metade dos soldados e dos civis estava morta. Ele havia mandado selar o castelo. Ninguém entrava e ninguém saía. Mas manter o bloqueio estava ficando difícil. Agora os malditos começavam a escalar as muralhas.

— Senhor? – Beldi perguntou. Esperava ordens.

— Coloquem tudo o que puderem para bloquear as entradas. Os feridos mais graves devem ser levados para dentro do castelo. Os outros feridos devem vir para a muralha e lutarem com flechas. Mande as mulheres preparem óleos ferventes para lançarmos do alto das muralhas.

— Sim senhor! – Beldi ia saindo quando Eliwa o chamou. – Sim?

— Mande que... – Eliwa suspirou — ...joguem os corpos lá do alto. Precisamos ter espaço para lutar. – Ele sabia que aquilo era uma tremenda falta de respeito para com os mortos, mas não tinha escolha.

— Senhor? – Beldi pareceu indeciso.

— Ou fazemos isso, ou todos morreremos ainda essa noite.

***

Salão Principal, Akanea, 4 de janeiro de 1621, 22:13

- Mizu...

— Rápido! Tragam água! – Chyo gritou. Não via tantos feridos assim desde que era pequena.

Estava já com oitenta anos, mas o seu descanso não parecia que viria tão cedo. Ela era responsável pelo tratamento dos feridos e havia treinado todos os Hiourinins (ninjas médicos) daquele lugar, incluindo Sakura. É claro que as mulheres não podiam usar suas habilidades em campos de batalha por ser considerado impróprio, mas ainda assim podiam ajudar curando os feridos. Infelizmente, eram pouquíssimas as pessoas com essa habilidade e esse era o maior desafio nessa noite.

— Chyosan! – um soldado entrou chamando. Ela olhou para ele. – Eliwasama mandou levar aqueles que ainda podem lutar para as muralhas.

— O quê? Como assim enviar feridos para o campo de batalha? – A velha senhora protestou.

- Não temos força o suficiente para proteger o castelo. E eu não vou ficar discutindo isso com você. São as ordens do comandante. – Ele pareceu incrivelmente infantil naquele instante. E também um machista idiota.

Não havia o que discutir. Era um momento de vida ou morte. Ela se levantou a contra gosto e mostrou aqueles que podiam portar armas. O salão ficou mais vazio depois que eles partiram. E mais frio também. Foi até a janela. Podia ouvir os homens gritando lá fora.

— Chyosamayo! Estão trazendo mais feridos. – alguma moça a chamou. Mas ela nem prestou atenção. Não enquanto via aquilo que mais temia. Os portões estavam cedendo.

***

Biblioteca, Akanea, 4 de janeiro de 1621, 22:34

Ela entrou na biblioteca com decisão. Clare e Menchi viram quando ela entrou. As meninas estavam escondidas entre os móveis do recinto. Heikisama não estava lá. Ninguém mais estava. Todos estavam lá fora lutando. Lutando e morrendo.

— Devemos chamá-la? – Clare, a mais nova, sussurrou a mais velha.

— Não. Ela parece confusa. – Menchi respondeu a irmã mais nova. Trabalhavam no castelo há poucos anos. E elas nunca haviam visto Sakura daquela maneira.

A filha única dos Harunos caminhou até a escrivaninha do pai. Pegou um porta-retrato e depois de um tempo o colocou no lugar. As meninas observavam atentamente. Ela então puxou uma cadeira para perto da lareira. Naquele aposento, ficavam expostas as armas lendárias da família Haruno. Sakura se esticava para pegar a lança Artemis. Diziam que nenhuma arma tinha um corte tão bom quanto a que aquela tinha. E aquela arma podia se tornar também uma foice de acordo com as lendas.

Sakura pegou a arma que não possuía mais de trinta centímetros. Aidan a havia mostrado como usá-la um dia. Devia concentrar sua energia nas mãos e passá-la a Artemis.

As meninas olharam assombradas quando o bastão cresceu e se tornou uma poderosa lança prateada. Elas viram Sakura pegar também o arco e algumas flechas.

— Será que... – Clare começou a sussurrar — ...ela vai lá fora?

— Eu não sei. – Menchi respondeu.

Elas viram Sakura transformar a lança em bastão de novo. A moça fez um rasgo em toda a lateral da saia do vestido e prendeu a arma a perna. Colocou as flechas nas costas, prendeu o cabelo num rabo de cavalo e saiu decididamente com o arco nas mãos, do mesmo jeito que entrara.

***

Muralha Norte, Akanea, 4 de janeiro de 1621, 22:58

- Lançar! – Eliwa gritou. Eles ouviram a explosão quando a pedra lançada acertou as tropas do outro lado da muralha.

- Os portões estão cedendo! – Soldados gritaram.

- Nani (o quê)? – Eliwa se desesperou.

- Heikisama está cuidando das muralhas Sul e Oeste. Aidansama está no pátio central. As tropas dele vão encarar os invasores. – um soldado avisou.

- Eliwasama, miramos nos de fora ou nos inimigos de dentro? – um rapaz novo perguntou confuso. Eliwa se apiedou do rapaz, não tinha nem um mês que havia entrado na guarda e já se encontrava naquela situação.

- Mire nos de fora, garoto. Não importa quantos entrem. Evite que o maior número de inimigos possível cruze esses portões.

- Aye, sir!

***

Pátio Central, Akanea, 4 de janeiro de 1621, 23:58

- Não deixem que seus inimigos pensem que já estão derrotados. Nós não desistimos tão fácil! – Aidan cavalgava na frente de seus homens, preparando-os para a luta – A luta não será fácil. Mas isso fará com que a nossa vitória no fim seja muito melhor! Somos Harunos e somos fiéis! Fiéis até o fim!!Ikuzô (vamos)!Mama sumé*!

As tropas se preparam para encarar os inimigos. Os portões estavam cedendo até que com um grande estalo, as poderosas vigas de carvalho do portão se despedaçaram. Os primeiros inimigos que entraram, morreram pelas flechas dos guerreiros de Aidan. Os minutos se passavam e mais inimigos entravam no pátio. Aidan corria entre as tropas, ajudando outros soldados e matando mais inimigos. Eles eram muitos.

Alguém atacou o cavalo de Aidan. Ele desmontou e continuou lutando a pé. Aqueles malditos não tinham fim? Sentiu uma presença atrás de si. Aparou o golpe de espada, mas não pode evitar cair no chão. O inimigo parecia um monstro. Devia ter quase três metros de altura e era enorme. Tentou se levantar, no chão seria um alvo fácil. Ele atacava, mas o cara não parecia sentir nada. Um golpe certeiro e Aidan viu sua espada ir para longe. Viu o inimigo levantar a espada bem alto e se preparou para o fim.

A flecha entrou certeira no olho esquerdo e vazou atrás da cabeça. Aidan olhou enquanto aquele corpo enorme balançava frouxo até cair desanimado a seu lado. Ergueu o rosto e não sabia se ficava feliz ou nervoso com o que via. Sakura estava na sacada principal do castelo com um arco e flechas na mão. Ela havia salvado a vida dele. Mas porque ela não podia ser como as outras mulheres e esperar dentro do castelo?

— Sakura sama! – mais alguém havia visto a moça. Os soldados se animaram e redobraram os esforços na luta.

— Aidan! –Kira, seu irmão, lançou-lhe a espada enquanto matava m inimigo que o atacaria. Eles ficaram de costas um para o outro – Eles parecem ter se animado com ela.

— Quem não se anima. – Aidan respondeu e Kira riu.

— Ela parece uma deusa vingadora com o cabelo preso daquele jeito e o vestido rasgado. Você tem bom gosto irmão. – Dessa vez foi Kira quem falou e Aidan que riu.

— Mas essa maluca deveria estar lá dentro em segurança.

— Vai lá dizer isso para ela então.

Os Harunos lutavam bravamente. Conseguiam refrear o avanço dos inimigos, mas não eliminá-los por completo. Os reforços precisavam chegar logo. Sakura matava tantos quanto podia e nem percebeu quando se aproximaram dela por trás. Aidan que sempre olhava para onde a moça se encontrava viu quando ela foi levada.

— Sakura!

***

Portão Leste, Akanea, 5 de janeiro de 1621, 01:42

Estavam tão ocupados em lutar que ninguém reparou quando ela saiu. Sakura cavalgava rápido como nunca havia feito antes. Agradecia mentalmente por Aidan ter ensinado essas coisas impróprias para ela. Lutar, cavalgar, nadar, não estaria viva agora se não fosse isso. Os captores a haviam levado até a biblioteca. Queriam os documentos. Ela não fazia idéia do que eles falavam, mas eles procuraram e acharam alguns objetos. Eles a largaram machucada lá e partiram.

Ela não podia deixar que levassem a melhor. Com a ajuda de Clare e Menchi, que estavam na biblioteca, ela se levantou. Foi até a estrebaria e montou sua própria égua. Adriene era árabe, seu pai tinha um amigo de lá que presenteara Sakura com a égua. Ela era delgada, de pelo castanho bem escuro, linda, porém extremamente nervosa e teimosa. Sei pai só a deixava montar Adriene quando alguém estava junto. Bom, hoje, ele não estava ali para proibi-la.

Ela estava correndo muito. Se caísse, seria morte na certa. Não demorou em achar quem procurava. Eles eram cinco e não pareciam que parariam. Sakura prendeu as rédeas com as pernas. Pegou uma flecha e preparou o arco. Mirou no líder. Outro cara entrou na frente. Ele caiu. Que pena. Não era quem ela queria, mas já era um inimigo a menos. Eles perceberam a presença dela. Lançou outra flecha antes que eles se preparassem. Agora só tinha três. Eles entraram na floresta.

Adriene os seguiu. Sakura não os deixaria escapar. Era o líder que estava com os documentos e era ele que ela perseguia. A floresta ficou silenciosa. Sakura ouvia apenas a própria respiração. Adriene diminuiu o passo. A Haruno havia perdido eles de vista e isso não era bom. Ela ouviu lobos uivando. Adriene se irritou. Sakura tentou manter o controle sobre a égua, mas foi derrubada e viu, preocupada, a sua égua partir e deixá-la sozinha na floresta.

Ela andou um pouco pela floresta. Prendeu o arco nas costas e continuou andando perdida. Foi cercada antes que percebesse. Sacou a Artemis e lutou como pode.

— Olha! – Um deles apontou para ela e riu – A gatinha tem uma lança!

— Cuidado para não quebrar a unha, docinho!– Outro emendou a piada.

Eles partiram para cima dela. Só que eles não esperavam que ela fosse tão rápida. Sakura aprendera a usar o seu tamanho e a sua destreza para lutar. Aidan a incentivara. Ela não podia competir em termos de força bruta, então o jeito era desviar facilmente. Quando o primeiro cara veio, ela se jogou para o lado e o estocou com a lança diretamente no coração. Era médica, sabia exatamente onde atacar. Ele caiu com um baque surdo. Morreu sem um suspiro.

— Sua pequena vadia! – o maior vociferou. Ainda restavam dois.

Sakura viu que o cara caído estava com os objetos que ela procurava. Ela os pegou e entrou correndo na mata. Podia ouvi-los atrás dela. Podia sentir eles se aproximarem lentamente. Ela se feria com galhos. Mais de uma vez, ameaçou cair, mas continuou a correr.

Ela não o ouviu se aproximar. Apenas sentiu o peso nas costas. A Artemis caiu de sua mão e voltou a ser apenas um bastão. Sakura caiu e sentiu o braço quente. Podia apostar que estava ferida. Alguém puxou seu cabelo.

— Você não está tão rápida agora, não é mesmo!

Sakura se enojava de ter um tipo daqueles em cima dela. Ele estava ofegante e suado, o que o deixava ainda mais nojento. Ele a virou e a segurou pelo cabelo.

— Hanase! (me solte!)

— Pegou ela? – O outro cara se aproximava e o homem que estava sobre ela foi para o lado deixando que o outro a visse. – Essa aí era bem rápida, hein!

— Mas ela não pode mais correr agora. – o homem que estava sobre ela disse.

— Ela é bem bonitinha, né. A gente podia se divertir um pouco. O chefe não vai ligar mesmo.

Sakura percebeu com o horror o que eles planejavam fazer. O cara sobre ela estendeu a mão sobre ela.

— Immayamero (pare agora mesmo)! – Sakura gritou.

— Baka! Ninguém vai te escutar aq...

As palavras foram interrompidas por uma lâmina cortante de aço negro. Sakura viu a cabeça do homem deslizar e cair ao seu lado. Ela estava paralisada pelo medo. Ela ergueu o olhar apenas para encontrar um cavaleiro negro montado num corcel também negro. A lua iluminou a clareira e ela divisou o guerreiro assustador.

\"\"

— Black Knight... – o outro perseguidor parecia ainda mais apavorado do que Sakura. Ele retrocedeu, tentando por distancia entre ele e o cavaleiro.

O Cavaleiro Negro, Sakura conhecia as lendas. Havia um cavaleiro imortal que andava num corcel negro trajando uma armadura igualmente negra. Ele podia matar inúmeras pessoas desde que assim o quisesse. Por mais que tentassem, ninguém conseguia matá-lo ou capturá-lo. Ele era o melhor espadachim, o mais esperto e o mais veloz. Encontrá-lo significava encontrar a morte. Sakura sempre achara que se tratava de uma lenda. Só que lendas não costumavam apontar armas para as outras pessoas. Ela começou a tremer. Era mais forte do que ela. Segurou os ombros. O tremor a balançava completamente. Tentou se afastar daquela aparição.

O outro homem, tentando aproveitar aquela aparente distração, saiu correndo. O cavaleiro negro virou o cavalo e o alcançou com poucas passadas. Ele não o matou rápido. Primeiro, cortou um braço, depois o outro e, só então, cortou a cabeça. Sakura queria sair dali, mas seu corpo não respondia. Estava ventando e a capa negra do guerreiro balançava em volta dele como algo fúnebre. Sakura emitiu um grito sufocado. Estava com medo.

Ele se virou para ela. Apeou do cavalo e andou em direção da Haruno. Ela estava ofegante e seus olhos estavam mais abertos do que nunca. Aquele era o fim. Seria o fim dela. Fechou os olhos com força e tampou os ouvidos. Ainda assim, podia sentir ele se aproximar. Sentiu-o abaixar ao seu lado. Ouviu o metal da espada. Encolheu-se ainda mais. Algo puxou o braço dela. Gritou. Tentou empurrar o peito dele, mas parecia de aço. Ele a puxou forte. Virou a e a segurou com as costas dela batendo no peito dele. Ela estava presa. Não podia se mexer daquele jeito.

Sentia a respiração quente dele no pescoço. Ela era tão pequena entre os braços dele. Com surpresa percebeu os movimentos em seu braço. Abriu os olhos e viu que ele o enfaixava. O Cavaleiro Negro estava cuidando dela? Ela queria perguntar, queria falar, mas não podia. Quando ele terminou o curativo simples disse:

— Pode andar, milady?

A voz era um pouco assustadora. Não parecia de verdade. Era extremamente forte, mesmo para um homem. E ela quase podia dizer que era um pouco rouca. Ela queria responder, mas não conseguia. Apenas ficou olhando para ele com cara de idiota. Ele deve ter entendido isso como uma resposta negativa, pois a pegou no colo e a acomodou sobre o cavalo, montando em seguida. Conforme a noite prosseguia, ficava mais frio e Sakura percebeu que se aninhava nos braços daquele cavaleiro.

Não estava mais com medo. Pela primeira vez naquele dia se sentia segura.Ele arrumou a capa para que a cobrisse e Sakura foi ficando sonolenta. Não queria dormir, mas não conseguia lutar contra o topor que a invadia. “Não quero dormir”. Pensou a Haruno. Devia ter falado isso alto porque o cavaleiro respondeu:

— Shimpaijanai (não se preocupe), logo chegaremos, milady.

Ela queria perguntar onde. Queria dizer sobre o ataque. Queria agradecer. Queria chorar. Mas apenas concordou e fechou os olhos. Dormiu sentindo o perfume dele. Ele tinha um cheiro tão bom.

Notas finais
*Mama Sumé ! ("Aqui estamos, prontos para o sacrifício" em língua Bantu do sul de Angola) - usado pelos Comandos do Exército Português, desde a Guerra do Ultramar.
Eu sei que não tem nada a ver com os japoneses, mas eu achei um grito de guerra tão bonito.
PS: Antes que venham me falar, vocês não tem certeza de quem é. Acreditem, é pouco provável que seja o Sasuke.