The Big Play
54 Capítulo 53 – Love Of My Life
Love of my life, don't leave me
You've stolen my love
And now desert me
Love of my life, can't you see?
Bring it back, bring it back
Don't take it away from me
Because you don't know
What it means to me
Queen
Dimitri's POV
Como um dia que começara tão bem havia se tornado aquele pesadelo?
Pela manhã eu finalmente havia conseguido tirar Rose de dentro de casa e tivemos um momento delicioso juntos. Ela até me pareceu mais leve durante o restante da tarde, dando a sensação de que a vida voltava a entrar nos eixos, apesar de tudo.
Quando saí para buscar Claire na escola, como vinha fazendo nos últimos dias, recebi um telefonema da joalheria avisando que o anel de noivado de Rose estava pronto. Eu havia cogitado adiar o pedido por conta do momento que vivíamos, mas repensei isto. Não deixaria aquele maníaco atrapalhar nossos planos. E agora, mais do que nunca, queria proporcionar a Rose a segurança de que o nosso laço jamais seria abalado e só se fortalecia.
Acabei tendo que levar minha filha junto quando fui buscar a jóia, o que me rendeu um interrogatório por parte dela. Felizmente, a menina não chegou a ver o anel, pois estava distraída com uma vitrine em que haviam semi-joias temáticas do Buccaneers, então a fiz acreditar que era apenas um presente para animar Rose. Claire acabou concordando em manter o segredo para que eu fizesse uma surpresa e, conforme retornávamos para casa, combinamos de pedir alguns lanches para o jantar. Porém isso foi completamente esquecido ao chegarmos lá.
Eu notei que havia algo muito errado acontecendo ao encontrar Tasha e Rose na sala e tive impressão de que a morena buscou limpar o rosto para que eu não notasse suas lágrimas.
O que aquela mulher havia feito para minha pequena?
É claro que logo compreendi o que se passava ali e foi como se tivesse recebido um soco na boca do estômago. Ela não podia levar a minha menina, não podia!
Eu tentei convencer Natasha a ser razoável e desistir da ideia de levar Claire ou passar apenas alguns dias com a filha, mas dessa vez ela estava realmente determinada. Determinada o bastante para tirar a guarda de mim.
Após muita discussão e lágrimas de minha menina, Tasha a carregou consigo sem sequer dar tempo para que arrumássemos uma mala, dizendo que compraria o que faltasse.
— Onde está Rose? – questionei Kirova ao voltar para dentro de casa depois de assistir aquela mulher levar a coisa mais preciosa da minha vida.
— Ela está no quarto – a governanta hesitou por um instante. – Senhor Belikov, nós podemos conversar?
— Amanhã – suspirei. – Você pode ir pra casa agora, Kirova.
— Mas...
— Amanhã – repeti.
A mulher resmungou algo antes que eu subisse as escadas, mas não dei atenção. Só espero que Rose não volte a se prostrar. Eu sei que eu deveria prover conforto e segurança a ela, mas, naquele momento, era eu quem precisava de sua força. Não conseguirei lidar com tudo isso sozinho.
Assim que entrei no quarto, entretanto, verifiquei que a morena não estava ali.
— Rose? – chamei.
— Estou aqui – ouvi uma porta se abrir no pequeno corredor e a morena logo surgiu em minha linha de visão. Provavelmente estava no banheiro.
— Ela realmente a levou – desabei na cama.
— Nós já passamos por isso antes – Rose se sentou ao meu lado e afastou alguns fios de cabelo de meu rosto, acarinhando-me. – Não vai ser agora que Tasha vai...
— É diferente, Rose. Você não consegue enxergar isso? – cortei-a sem muita gentileza, voltando a me erguer. – Ela conseguiu a guarda da Claire. É definitivo. Ela finalmente tirou minha filha de mim.
Eu caminhei até a janela, me colocando de costas para Rose. Apesar de me senti irritado, eu sabia que precisava me controlar. Não podia descontar minha frustração nela.
— Dimitri, me ouça – ela se aproximou, parando às minhas costas. – Vai ficar tudo bem, ok?
— Não tem como você saber isso – respirei fundo.
— Eu sei sim – Rose deu um passo a frente e pousou as mãos por meus ombros. – E estou dizendo que vai ficar tudo bem. Você vai ver, sua vida vai voltar ao normal em breve.
— O quê? – eu me voltei em sua direção, me sentindo estranhamente desconfortável por conta de suas palavras. Do que ela está falando?
— Toda essa bagunça vai acabar logo. Tudo vai voltar a ser o que era – ela sorriu de forma reconfortante, mas enxerguei tristeza em seus olhos o que me deixou ainda mais inquieto. – Eu prometo a você.
— Rose, o que você quer dizer com isso?
— Apenas confie em mim, ok? – a morena deu um pequeno beijo em meus lábios e me abraçou com firmeza, encostando sua cabeça em meu peito.
— Eu confio – afirmei, rodeando-a com meus braços e encostando meu queixo sobre sua cabeça. – Me desculpe. É só que... Eu não estou no meu melhor momento.
— Eu sei. Apenas quero que saiba que eu amo você, Dimitri Belikov. Nunca se esqueça disso. Independente do que acontecer.
Ao invés de me sentir acalentado por sua declaração, senti um pequeno aperto no peito que me fez abraçá-la ainda mais fortemente. Tive medo de que se não a segurasse firme o bastante, ela desapareceria por completo.
— Eu também te amo – balbuciei antes de beijar o topo de sua cabeça.
Nós ficamos por algum tempo daquela forma até que precisei me afastar para telefonar para Adrian. Era ele quem cuidara de todos os trâmites de meu divórcio e da guarda de Claire e com toda certeza ele saberia o que eu poderia fazer para recuperá-la. Ele concordou em me receber em seu escritório logo pela manhã, apesar de ser um sábado.
O resto de nossa noite se passou de forma mecânica. Eu queria que as horas passassem logo para que eu pudesse conversar com meu primo e arranjar uma solução para recuperar minha menina, então acabei me deitando cedo na esperança de encontrar algum conforto no sono, mas ele demorou a vir. Rose permaneceu ao meu lado todo tempo, apesar de estar mais quieta que o normal. Apenas se afastou ao receber um telefonema do pai, mas logo voltou a se aninhar em meu corpo.
Em algum momento minha mente finalmente flutuou em direção à inconsciência e, quando acordei, o sol já havia nascido. A morena dormia, totalmente enlaçada a mim, e tirei uma mecha de cabelo que estava em seu rosto para admirá-lo. Eu devo ser como Rose, ela tem sido tão forte perante tudo o que lhe aconteceu. Ainda que esteja abalada, ela não desiste nunca, sempre continua em frente. É uma mulher incrível.
Beijei sua testa antes de me levantar e seguir para o banheiro a fim de tomar um banho. Eu me troquei rapidamente e, ao retornar ao quarto, notei que Rose ainda estava dormindo na mesma posição. Cogitei acordá-la para me acompanhar, mas achei melhor deixá-la descansar.
Minha conversa com Adrian foi um tanto longa, mas foi o suficiente para reduzir um pouco a minha angústia. Tasha havia conseguido a antecipação de tutela, o que significa que a guarda foi dada a ela sem que o juiz tenha escutado a minha versão dos fatos. Assim, ainda tínhamos a possibilidade de reverter esta situação, já que eu poderia comprovar que todas as medidas de segurança necessárias haviam sido tomadas e que minha filha estava tão protegida comigo quanto com a mãe ou até mais. Além disso, não seria muito difícil apontar a incapacidade de Tasha em cuidar de Claire. Bastava apenas citar episódios como o do Ano Novo.
Mesmo assim, Adrian me alertou que seria uma boa briga e levaria algum tempo, além de poder envolver outras pessoas, uma vez que necessitaríamos arrolar algumas testemunhas.
Eu voltei para casa próximo à hora do almoço em um misto de frustração e esperança. Minha vontade era a de arrancar minha filha das garras da mãe hoje mesmo, mas eu sabia que isso não seria possível. Quanto tempo eu vou perder longe da minha menina?
Ao entrar em casa após guardar o carro na garagem, notei que esta estava particularmente silenciosa. A ausência de Claire tornava o lugar um tanto vazio.
Escrutinei o andar inferior a procura de Rose, mas ela não estava em lugar algum. Provavelmente ainda estava no quarto e me preocupei por ela não ter se alimentado até aquela hora.
— Rose? – chamei-a quando alcancei o corredor do andar superior, recebendo apenas o silêncio como resposta. – Roza...
Abri a porta do quarto que estava completamente vazio então segui apressadamente para o banheiro que também estava deserto. Com um mal pressentimento, abri a porta do closet olhando em volta. Tudo parecia extremamente em ordem, com exceção de que grande parte das roupas da morena haviam desaparecido. Meu coração parou no mesmo instante. Onde está Rose?
— Ela se foi – a voz de Kirova me assustou. – Ela saiu assim que eu cheguei.
— Do que você está falando? – olhei-a à porta do quarto um tanto atordoado. Rose não me abandonaria no meio de tudo isso, não é?
— Eu tentei te avisar ontem – a governanta suspirou. – Eu tinha certeza que a garota não estava bem depois de a senhora Ozera acusá-la de colocar a todos em perigo e sugerir que ela fosse embora.
— O quê? – senti o ar me faltar.
Eu reparei que Rose parecia abalada assim que as encontrei na sala ontem, mas com tudo que se sucedeu acabei não dando a devida atenção àquilo.
— Eu tentei convencê-la a não ir – Kirova continuou –, mas a senhorita Mazur está convencida que a senhora Natasha devolverá a guarda de Claire assim que souber que ela se foi.
Naquele instante tive certeza que o chão ruiu sob meus pés e precisei me apoiar no batente para não desabar junto. Imediatamente as palavras dela na noite anterior voltaram à minha mente. Você vai ver, sua vida vai voltar ao normal em breve. Sua vida, não nossa vida. Era por isso que ela tinha tanta certeza de que tudo se resolveria. Rose já havia tomado a sua decisão ali.
Só que ela não entendia que eu jamais teria uma vida sem ela. Ela e Claire continham as metades da minha alma. Eu nunca poderia viver sem qualquer uma delas.
— O senhor está se sentindo bem? – a voz da governanta soou distante, mas foi o suficiente para me trazer de volta à realidade.
— Pra onde ela foi? – eu me apressei em sair do quarto, já puxando o celular do bolso para ligar para Rose.
— Eu não sei – a mulher disse me seguindo de perto. – Apenas pediu para que eu organizasse o restante de suas coisas que alguém viria buscar.
— Você não fará nada disso – pontuei ao ouvir a mensagem da caixa postal. – Eu vou trazê-la de volta.
Eu tentei ligar mais uma, duas, três vezes conforme saía com o carro da garagem. Na quarta tentativa, resolvi deixar um recado.
— Rose... Eu sei que você pensa que está fazendo o certo, mas eu não vou deixar você ir embora assim. Eu preciso de você – respirei fundo. – Eu não sei onde você está agora, mas, por favor, me liga. Eu vou te buscar onde quer que seja. Não me abandona.
Eu refiz o caminho em direção ao centro de Tampa, seguindo rumo ao apartamento de Ivan. Se tem alguém em quem ela confiaria num momento como esse, seria ele.
Assim que cheguei a porta do prédio, não me dei ao trabalho de conversar com o porteiro. Ele já me conhecia de longa data, então passei diretamente por ele rumo ao elevador mesmo que o homem tenha parecido querer me impedir.
— Ivan, abra a porta – esmurrei a madeira logo que cheguei ao seu andar.
— Dimitri? – meu amigo abriu uma fresta da porta e me olhou espantado. Aparentemente ele não estava devidamente vestido, já que podia ver o torso nu. – O que você está fazendo aqui?
— Onde ela está? – eu o empurrei, adentrando o apartamento e dando de cara com Viktoria que estava sentada numa banqueta junto ao balcão da cozinha, vestindo apenas uma camisa branca de meu amigo.
— Dimka?! – ela empalideceu no mesmo instante e começou a balbuciar alguma desculpa, mas eu a ignorei prontamente, continuando a perscrutar o local, indo em direção ao corredor dos quartos que estavam vazios.
— O que está acontecendo, Dimitri? – Ivan franziu o cenho, quando voltei à sala totalmente frustrado enquanto minha irmã tentava se esconder atrás do balcão.
— Em quem mais ela confiaria pra isso? – me questionei e vi os dois se entreolharem confusos. – Ela não iria até Lissa, é óbvio demais.
— Ela quem? – Vikka nos olhou confusa.
— Rose – respondi. – Eu não sei onde ela está.
— Como assim não sabe onde Rose está? – Ivan me encarou seriamente. – Dimitri, eu deixei bem claro que ela não podia sair de casa sozinha.
— Será que aquele cara a sequestrou? – Viktoria me olhou preocupada.
— Ela foi embora... – me joguei no sofá. – Ela acha que assim Tasha vai devolver Claire.
— O quê? – minha irmã praticamente gritou, parecendo esquecer completamente que estava seminua ao andar até mim. – Por que aquela louca está com a Claire?!
— Ela descobriu sobre Nathan – expliquei resumidamente. – E com isso conseguiu na justiça a guarda da nossa filha alegando que estamos colocando a menina em perigo.
— Meu Deus! – Vikka exclamou se sentando ao meu lado no sofá.
— Eu passei a manhã no escritório de Adrian definindo o que iríamos fazer a respeito e, quando voltei pra casa, ela tinha ido embora – fechei os olhos. – Kirova me avisou que Rose achava que assim eu teria minha filha de volta.
— Dimka... – minha irmã segurou minha mão.
— Eu pensei que Ivan saberia aonde ela foi – enterrei o rosto entre as mãos, me sentindo derrotado. Em menos de vinte e quatro horas perdi tudo que dava sentido à minha vida.
— Era exatamente o que eu ia perguntar – Ivan cortou o silêncio que se formou, me fazendo erguer os olhos para encontrá-lo ao celular. – Espera, vou te colocar no viva voz.
— O que está acontecendo? – a voz de Lissa soou clara.
— Você sabe onde Rose está? – perguntei esperançoso.
— Não – Lissa respondeu. – Eu estava prestes a te ligar. Ela telefonou agora mesmo falando que estava em um avião e precisava que eu fosse na sua casa pegar o resto das coisas dela e levar para minha casa.
— Um avião? – Vikka comentou pensativa. – Ela saiu do Estado?
— Eu realmente não sei. Tentei perguntar, mas Rose simplesmente desligou.
— Ela só pode ter ido pra casa do Abe – Ivan ponderou.
— Me consiga um voo – pedi a Viktoria, me movendo rapidamente para a porta.
— Agora? – ela me olhou como se eu estivesse delirando.
— Eu não vou permitir que ela saia assim da minha vida – decidi. – Eu vou trazê-la de volta para casa.
— Alguém pode me explicar o que aconteceu? – Lissa insistiu, mas não me dei ao trabalho de responder, pois já estava me enfiando no elevador para correr para o aeroporto.
O voo mais próximo que Vikka conseguiu continha uma escala que faria meu itinerário demorar algumas horas a mais, mas eu não conseguiria esperar até o final da tarde por um voo direto. Eu precisava me colocar em movimento o mais rápido possível.
Durante todo o tempo de viagem fiquei pensando no que eu poderia falar para Rose a fim de convencê-la a retornar comigo. Eu sabia que no fundo ela tinha alguma razão em pensar que Tasha me devolveria Claire ao saber de nossa separação. Era o que aquela mulher queria todo o tempo. Mas eu estava disposto a lutar pela minha filha pelo tempo que fosse, se isso significasse que teria Rose ao meu lado. Eu jamais abriria mão de nenhuma delas.
Acabei deixando mais algumas mensagens para Rose, enfatizando que não desistiria dela e pedindo para que ela também não desistisse de mim, porém não tive retorno para nenhuma delas.
Após desembarcar na Filadélfia, aluguei um carro para seguir para a casa de Abe e, enquanto dirigia, minha mente não parava de reviver nossos momentos até ali. A noite em que o gato invadiu o quarto dela, os dias do furacão, suas constantes aparições em meus treinos incluindo quando se juntou às cheerleaders apenas para me provocar, nossa brincadeira de piratas, o Festival Gasparilla, a Ação de Graças, os meus dias lesionado e finalmente o Natal quando tomei a melhor decisão de minha vida e me declarei a ela. Também repassei nossos dias juntos após isso, cada toque, cada beijo, cada vez que ela me apoiou e cuidou de mim.
Eu não tinha dúvidas de que seu amor por mim era tão forte quanto o que eu sentia por ela. Na noite anterior, eu vislumbrei a agonia em seus olhos enquanto conversávamos. Rose estava sofrendo por conta da decisão tomada. Ela apenas me deixara porque realmente achava que seria o melhor para mim. Mas ela precisava entender que viver longe dela estava fora de cogitação. Eu a amo como nunca amei ninguém e não vou perdê-la.
Quando estava próximo de meu destino, meu celular começou a tocar e o atendi mais do que depressa, sem olhar quem era.
— Rose?!
— Eu fiquei sabendo que vou ter um visitante – a voz de Abe soou clara. – Onde você está, filho?
— Sinto muito não ter te avisado antes, Abe – respondi um pouco decepcionado. Será que Rose finalmente ouviu minhas mensagens e avisou o pai? – Eu estou a uma meia hora de sua casa.
— Maravilhoso! – ele exclamou. – Você chegará a tempo do jantar. Eu vou pedir que preparem algo especial e depois nós dois teremos uma boa conversa. Existe algo que você deseja para sua última refeição, Belikov?
— Eu te vejo em breve, Abe – respirei fundo, ignorando a ameaça implícita ali, e desliguei.
Com certeza Rose não revelou ao pai o que havia acontecido, já que teria de explicar sobre Nathan, então Abe devia estar pensando o pior a meu respeito. Confesso que não sabia se estava realmente preparado para enfrentar a ira daquele homem, mas se isso significa que Rose vai voltar para casa comigo, eu devo ser forte.
Ao chegar aos portões da propriedade, senti uma certa nostalgia pelos dias que passamos ali apenas alguns meses antes. Éramos a família perfeita mesmo que ainda não tivéssemos assumido isso. E agora estou voltando aqui sozinho, sem as duas mulheres da minha vida.
Estacionei o carro na garagem e segui até a porta da frente, onde fui recepcionado por Alberta antes mesmo de bater. Ela me guiou para dentro e logo avistei Abe sentado à mesa de jantar ao lado de Janine, tendo um lugar vago preparado ao seu lado, mas não havia qualquer sinal de Rose.
— Belikov! Você chegou na hora certa. Por favor, sente-se.
— Ibrahim, ele precisa lavar as mãos – Janine o interrompeu. – Alberta, por favor.
— Me acompanhe, senhor Belikov – a mulher pediu e eu a segui até um pequeno lavabo, me sentindo um tanto atordoado.
Ao retornar para a mesa depois de alguns minutos, eu me sentei ao lado de Abe e o jantar foi servido. O homem fez um gesto para que os empregados se retirassem e um silêncio desconfortável tomou conta da mesa por um tempo.
— Já degustou a culinária turca, Belikov? – Abe questionou.
— Não, eu...
— Então você precisa provar esse tomate recheado – ele me interrompeu e se inclinou para servir meu prato. – E o peixe também, prove o peixe.
— Por favor, eu... – tentei novamente me pronunciar, mas mais uma vez fui calado pelo homem.
— Você também precisa experimentar o cordeiro com berinjela. Não seja tímido, rapaz.
O pai de Rose voltou a colocar a comida em meu prato e olhei para Janine em busca de alguma ajuda, mas ela se limitou a comer em silêncio, me observando com curiosidade.
— Tem ainda o...
— Abe! – elevei minha voz para finalmente me fazer ser ouvido e o homem se calou, me olhando de forma contrariada. – Desculpe, mas eu não vim aqui para isso. Eu vim ver a Rose.
— Rose? – Janine me lançou um olhar aguçado.
— Eu realmente preciso falar com ela – insisti.
— Nós não vamos falar disso durante o jantar – Abe reclamou.
— Eu não vim aqui para jantar – enfatizei. Ele acha mesmo que eu decidi viajar praticamente dois mil quilômetros apenas para ter uma refeição com eles?
— Então para o que veio, Belikov? – toda a hospitalidade de momentos atrás sumiu. – Eu estou louco para descobrir desde que Vasilisa me telefonou para comunicar que meu genro ou aparentemente meu ex-genro estava vindo da Flórida para me visitar.
— Vasilisa? – questionei surpreso. – Rose não te avisou?
— Não sei se você percebeu, mas Rose não está aqui – Janine apontou.
— E onde ela está? – perguntei me sentindo agoniado.
— Você não espera chegar aqui sem mais nem menos e simplesmente exigir saber sobre minha filha, não é? – a mulher me lançou um olhar duro.
— Eu sei que é uma situação estranha, mas...
— Estranha? – Abe ergueu uma sobrancelha. – De forma alguma. Eu considero completamente normal minha garotinha ligar de repente pedindo minha ajuda para sair do país.
— Sair do país? – repeti a informação, sentindo meu sangue gelar. Ela foi mesmo capaz de ir para tão longe?
— Isso mesmo – Janine confirmou. – E já que você está aqui, acho que pode nos fazer o favor de explicar o que está acontecendo.
— Eu preciso dela – balbuciei quase que para mim mesmo. – Ela não pode desistir de tudo...
— Eu fico pensando se ela não tem motivos para desistir – o homem me lançou um olhar profundo. – É a segunda vez que você precisa vir atrás dela.
— Rose acha que está fazendo o melhor para mim, mas não é verdade – tentei explicar da melhor maneira possível.
— Por que ela pensaria isso? – a mãe da garota me olhou desconfiada.
— Vocês não podem apenas me contar onde Rose está para que eu possa conversar com ela? – pedi um tanto frustrado. – Depois ela pode explicar a vocês com mais calma.
— Já que minha filha foi bem específica sobre não te revelar sua localização, então não. Eu não posso fazer isso – Abe declarou. – Pra falar a verdade, o único motivo para você não ter sido recebido a balas foi a ligação de Vasilisa que me intrigou bastante.
— Se eu contar o que está acontecendo, vocês me dizem onde posso encontrá-la? – propus.
Eu sabia que aquilo era a última coisa que a morena queria, mas se essa era a única forma de ter uma chance de tê-la de volta, estava disposto a arriscar. Além disso, já era hora de seus pais saberem o inferno que a filha vem passando.
— Nós podemos pensar na possibilidade – Janine respondeu, apoiando o queixo em sua mão, me olhando com cautela.
— Podemos ir para outro lugar? – me senti desconfortável diante do banquete à minha frente. Era um assunto um tanto indigesto para se ter à mesa.
— Vamos – Abe se levantou. – Podemos deixar a refeição para depois.
Nós seguimos até um escritório que traduzia bem a personalidade de Abe. Ele era todo decorado em tons pasteis e detalhes dourados, com uma enorme mesa nas mesmas cores no centro da sala ladeada por paredes com quadros a um lado e uma estante de livros a outro, contendo ainda uma enorme janela que dava para os jardins. O casal se acomodou nos sofás brancos à frente da mesa após o homem se servir de um copo de whisky e fui até a vidraça para observar o exterior enquanto sobrepesava como narraria a eles o ocorrido.
— Estamos aguardando, Belikov – Abe me incitou. – Essa é sua chance de me convencer a te ceder o quarto de hóspedes para que você possa ir atrás de Rose amanhã ou...
— Ou? – eu me virei para observá-lo.
— Ou eu te dou um tiro e deixo que você se vire sozinho na estrada.
Engoli em seco. Não havia dúvidas de que ele o faria.
— Vamos direto ao ponto – Janine interrompeu as ameaças do esposo. – O que diabos está havendo entre Rosemarie e você desta vez?
— Bem, antes de explicar o que vem acontecendo nos últimos dias, eu preciso revelar algo a vocês que ocorreu com Rose antes que eu a conhecesse – iniciei a narrativa, voltando a mirar os jardins escuros através da janela. – Devo alertar que não é algo agradável.
— Não nos enrole, rapaz – Abe disse impaciente. – Apenas conte.
— Eu não sei exatamente quando tudo se sucedeu, mas sei que foi próximo de Rose se formar. Ela acabou conhecendo esse homem em uma festa da faculdade e os dois tiveram um envolvimento naquela noite.
Eu sentia raiva apenas por relatar aquilo. Aquele maldito não deveria sequer viver nesse mundo.
— O desgraçado ficou obcecado por Rose e a perseguiu pelos seis meses seguintes – continuei. – De início ela relevou, mas a situação foi ficando insustentável e foi quando ela procurou Ivan Zeklos para conseguir uma ordem de restrição contra esse homem. Demorou algum tempo, mas ela foi deferida próximo ao aniversário de Rose.
Parei por instante ao notar que Abe e Janine me observavam com os rostos livres de emoção, como se eu tivesse contando alguma história qualquer. Eu não sabia se devia interpretar isso como um bom ou mau sinal.
— Termine de uma vez, Belikov. O que esse homem fez após isso? – Janine me fitou, adivinhando que havia algo mais.
— Naquela noite, ela ia comemorar a data com os amigos, mas acabou ficando sozinha no alojamento enquanto se arrumava – eu foquei meu olhar em uma árvore do lado externo, mas reparei por minha visão periférica que Abe havia se erguido do sofá e estava apoiado em uma das colunas da parede, de costas para a sala. – Ele a surpreendeu e a espancou. Deixou-a irreconhecível. Ele a teria matado se Lissa não tivesse estranhado o fato da amiga não atender o celular e chamado a polícia.
— O que aconteceu com esse homem? – Janine questionou com a voz mais grave que o normal.
— Ele foi preso.
— Eu tenho apenas uma pergunta sobre essa história toda – Abe soltou entredentes e me voltei em sua direção, notando seus ombros tensos. – Por que eu não fui informado de nada disso?
— Rose sempre escondeu isso daqueles que não vivenciaram essa situação – esclareci. – Eu apenas soube alguns dias antes da Ação de Graças.
Tive certeza que havia falado demais assim que o homem se virou, me lançando um olhar sagaz.
— Na Ação de Graças? Acho que conseguimos uma informação interessante aqui, não acha?
— Sim, senhor – balbuciei. Agora sim eu terei que ser muito cuidadoso ou realmente vou acabar sendo morto.
— Senhor? – o homem deu uma pequena risada irônica. – Para que tanta formalidade, filho? Nós somos amigos, não?
— Claro, Abe – concordei prontamente, procurando o olhar de Janine atrás de algum sinal de que estava tudo bem, mas ela apenas cruzou os braços e se acomodou no sofá, se limitando a assistir minha interação com seu marido.
— Me ajude a refrescar a memória, Belikov – o pai de Rose deu alguns passos em minha direção, parando logo à minha frente, me olhando de forma ameaçadora. – Se bem me lembro, quando vocês estiveram aqui naquele feriado, você mencionou algo sobre ter magoado minha garota, não é?
— Sim.
— Se importa de nos contar por que você a teria magoado?
Ok, agora sim estou à beira do abismo. Um passo em falso e eu morro. Não posso contar tudo o que realmente aconteceu, mas também não posso negar.
— Claire – segui pelo caminho que considerei mais seguro.
— O que sua filha tem a ver com essa história? – Abe franziu o cenho. Ele claramente não esperava por isso.
— Como eu disse, eu não sabia de nada. Rose nunca tinha tocado no assunto e nós estávamos apenas começando a nos conhecer de fato. Foi quando minha ex-mulher apareceu com essa revista que contava uma história sobre Rose...
— Revista? – Janine me interrompeu, parecendo bastante cética. – Nós nunca vimos revista alguma contando sobre isso.
— Era um tablóide barato que circula apenas nas cidades da Baía de Tampa – esclareci. – E, de qualquer modo, eles não contaram a história verdadeira. Havia uma matéria sobre Rose ter se envolvido em tráfico de drogas por conta de um suposto namorado que estava preso. Eu sabia que tinha algo errado nisso, mas na hora eu só conseguia pensar no risco sob o qual tinha colocado minha filha e acabei discutindo com Rose e...
— E acabou falando o que não devia – a mulher concluiu aquilo que não tive coragem de dizer e apenas anui com um aceno.
— Sabe, Belikov – Abe enfim de pronunciou após absorver toda aquela informação por um instante. – Você é um homem de sorte.
— Como?
— Por mais que eu queira te culpar por tudo isso e, acredite em mim, eu quero muito, eu não posso te recriminar por se preocupar com a segurança da sua menina – ele suspirou.
— Eu nunca quis machucá-la – desviei o olhar. Agora que compreendia o que Nathan havia feito a Rose, relembrar a forma como fui injusto com ela era ainda mais doloroso.
— Isso é tocante, mas não vem ao caso – Janine tentou trazer a conversa de volta ao foco. – O que eu quero saber é como tudo isso que você nos contou influencia no fato de Rose ter saído do país.
— Esse homem foi solto há algumas semanas por um problema no processo – expliquei. – Rose não quis me contar, acreditando que ele a deixaria em paz...
O rosto de Abe ficou completamente vermelho e, pela primeira vez, ele demonstrou seu verdadeiro sentimento. E definitivamente não era bom. Se Nathan estivesse aqui, com certeza ele o mataria.
— Ele a procurou – Janine afirmou, ainda com o rosto calmo, contrastando com o do marido que praguejava em turco.
— No começo da semana o maldito foi atrás de Rose na escola da Claire – senti meu coração se apertar apenas por me lembrar o estado em que ela ficou. – Um professor achou a situação suspeita e interviu. Foi só então que eu soube que ele estava a solta.
— E por isso ela decidiu ir embora? – Abe questionou irritado, começando a andar de um lado para o outro no escritório.
— Sim – concordei, preferindo deixar meus problemas pessoais de fora.
— Você não está nos contando tudo – a mulher estreitou os olhos.
— Rose não queria nos colocar em risco – insisti. – E eu preciso convencê-la de que isso não é verdade. Nathan logo será preso novamente.
— Não será, porque eu vou matar esse filho da puta antes disso – Abe rosnou quase que para si mesmo enquanto perambulava pelo escritório. – Vou fazê-lo se arrepender de ter sequer nascido.
— Por que Rose foi embora, Dimitri? – Janine me encarou de forma perspicaz. – O que você não está me contando?
— Eu já disse! – exclamei. Eles já sabem o suficiente. Não podem simplesmente se dar por satisfeitos?
— E ele vai sentir dor – Abe divagou. – Com certeza vai.
— Então eu devo simplesmente assumir que a culpa da minha menina estar longe de mim é sua? – ela retrucou me olhando com raiva.
— Como é? – soltei ofendido. Ela ouviu alguma coisa do que eu acabei de dizer?
— Facas... Eu preciso de facas novas – o homem continuou, sem dar atenção ao que acontecia entre sua mulher e eu e só então me atentei ao rumo de seus pensamentos. Deus, isso é um pesadelo!
— Você não foi capaz de protegê-la – Janine me acusou. – Ela fugiu por sua culpa.
— Isso não é verdade! – ergui minha voz, chamando atenção do turco. – Eu fiz tudo para protegê-la, ela se sente segura comigo!
— Então qual é a verdade, Dimitri? Fugir para o outro lado do mundo não é um sinal de confiança.
— Ela confia!
— Então conte a verdade de uma vez por todas, homem – Janine se ergueu.
— Eu perdi a guarda da Claire – minha confissão saiu praticamente em um grito.
— O que você disse? – Abe me olhou surpreso enquanto Janine me encarava com um olhar satisfeito. Finalmente ela havia conseguido o que queria.
— A mãe dela descobriu o que estava acontecendo e a levou ontem – soltei de uma vez. – Por isso Rose foi embora. Ela se culpou pelo ocorrido e achou que assim eu poderia recuperar a guarda.
— Mas você não a culpa? – a mulher questionou, voltando a se acomodar no sofá.
— É claro que não! Eu nem tenho certeza se eu culpo Tasha por isso – admiti com sinceridade. – Eu provavelmente faria o mesmo se a situação fosse inversa.
Claro que eu não faria como ela, com o único intuito de atrapalhar o relacionamento de seu ex-cônjuge, mas eu teria buscado fazer qualquer coisa para tirar minha menina de uma situação de perigo iminente.
— Por que as pessoas só me contam as coisas quando tudo fica mais complicado? – Abe reclamou. – Eu poderia ter evitado tudo isso! Teria matado esse desgraçado em um piscar de olhos apenas por pensar em tocar na minha garota e ainda penduraria a cabeça dele em praça pública pra que sirva de exemplo para qualquer outro que pense em fazer o mesmo.
— Abe, por favor – suspirei cansado. – É exatamente por isso que Rose não queria envolvê-lo nessa história.
— Por que eu vou esfolar aquele homem vivo?
— Porque ela não queria que você se expusesse. Que acabasse preso por fazer algo de cabeça quente.
— Bobagem – ele revirou os olhos. – Eu sei como agir.
— Rosemarie tem razão. Você não é racional quando se trata dela – Janine interviu. – Se dependesse só de você é exatamente o que iria acontecer, então sossegue, Ibrahim.
— Mas...
— Quanto a você, Belikov – ela interrompeu os protestos do marido –, você não acha que é melhor respeitar a decisão da Rose? Ela também tem razão quanto a sua filha. Assim você vai conseguir a guarda dela de volta.
— Eu não vou escolher entre as duas, Janine – declarei com firmeza. – Eu vou lutar para manter ambas em minha vida, não importa o quão seja difícil.
— Boa resposta, rapaz – a mulher sorriu pela primeira vez desde que entrei naquela casa, então se levantou, alisando o tecido de sua saia lápis que se amarrotara ligeiramente. – Agora vamos. Você vai terminar de jantar e descansar. Amanhã terá uma longa viagem para...
— Espere! – Abe chamou nossa atenção quando sua esposa me incitava para fora da sala. – Você não pode simplesmente revelar onde Rose está só por conta dessa declaraçãozinha.
— Ibrahim... – Janine suspirou.
— Você pretende pedi-la em casamento? – Abe me fitou, ignorando a esposa.
— Sim – assumi. – Já estava planejando isto antes de tudo acontecer.
— Então tenho uma proposta pra você – ele piscou, provocando um revirar de olhos em Janine. – Eu te falo para onde Rose foi sob duas condições...
— Eu aceito.
— Você deveria ouvir primeiro – a mulher avisou.
— Eu faço qualquer coisa para encontrá-la – falei sem titubear.
— Em primeiro lugar, você vai cuidar da minha filha – o olhar de Abe se tornou sério. – Se algum dia ela voltar a me ligar pedindo ajuda para ir embora da sua casa, você é um homem morto. E ela herda a sua casa, estamos entendidos?
— Claro. Qual é a próxima condição?
— Ela vai manter o sobrenome Mazur depois do casamento – ele decidiu, me surpreendendo.
— O quê?
— Ela é minha única filha, alguém tem que levar o sobrenome da família – o homem explicou.
— Ibrahim, não seja absurdo – Janine respirou fundo. – É ela quem decide isso.
— Não, é ele quem decide. Agora! – Abe sorriu em minha direção.
— Não responda – a ruiva me pediu antes de lançar um olhar incisivo para o marido. – E você pare de desperdiçar seu tempo criando exigências absurdas e empregue isso em algo mais urgente. Vou ajudar Belikov a encontrar nossa filha e depois nós dois vamos conversar.
Janine não deu chance de resposta a Abe, me empurrando imediatamente em direção à sala de jantar.
— Onde Rose está, Janine? – voltei a perguntar acreditando que agora poderíamos nos tratar de maneira mais racional.
— Turquia. Ela queria ir para nosso apartamento em Istambul, mas como está em obras, acabou indo para um hotel que Ibrahim adquiriu recentemente na Capadocia.
A informação me atingiu em cheio, me deixando um tanto zonzo. Turquia?!
— Coma um pouco enquanto mando Alberta preparar um quarto – Janine continuou ao indicar que eu voltasse a me sentar à mesa. – Vai precisar de energia pra enfrentar o voo amanhã. Aliás, você trouxe seu passaporte?
— Não – fechei os olhos em exasperação. – Na verdade eu nem trouxe uma mala. Acho que terei de retornar para a Flórida.
Por que eu não havia me planejado melhor? Por que eu não saí da casa do Ivan e fui até a minha para organizar tudo antes de vir correndo para cá?
— Não há ninguém que possa te encontrar em Nova York para te levar essas coisas? – ela questionou. – Não há vôos diretos da Filadélfia para lá, então você terá que fazer esta conexão de qualquer forma.
— Vou ligar para minha irmã – declarei já sacando o celular. – Ela poderá providenciar tudo.
Eu sabia que Vikka não ficaria nada feliz em ter que se deslocar para outra cidade apenas para levar meus pertences, mas ela não se recusaria a me ajudar, especialmente nessa situação.
Janine me deixou para passar suas ordens a Alberta e, após conversar com minha irmã, sendo específico sobre ela levar para mim a pequena caixa de jóias que eu deixei em uma gaveta da sala, observei a comida à minha frente sem o menor apetite.
A verdade é que eu estava fatigado e a única coisa que meu corpo queria era se deitar com Rose em meus braços. Como ela estava a um oceano de distância, infelizmente teria que me contentar apenas com a primeira parte por aquela noite. Porém essa situação não perduraria mais do que isso.
Eu a traria de volta comigo como minha noiva, nem que tivesse que continuar rodando o mundo até convencê-la.
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