The Big Play

47 Capítulo 47 – Hit Betweet The Eyes


Just when you've had enough

It's really getting tough

I'm ready for that hit between the eyes

Someone get me out of here alive

Scorpions

Dimitri's POV

Eu mal podia acreditar no que estava acontecendo. Finalmente eu havia liderado meu time a uma vitória épica na final da conferência. Isso era uma enorme conquista, mas aumentava ainda mais a expectativa para ganharmos o Super Bowl. A única vez que o Buccaneers venceu a NFC em 2003 foi também a única vez que ganhou o Super Bowl. E agora a pressão recaía sobretudo sobre meus ombros e eu não podia falhar.

Ainda bem que eu podia contar com o meu time que, apesar de todos os desentendimentos, estava mais unido e engajado do que nunca, mas, principalmente, podia contar com minhas duas garotas. Rose e Claire estavam fazendo o máximo para me apoiar e me manter focado na grande partida. Sempre que eu chegava em casa minha filha estava com a lição feita e o jantar estava quase pronto – muito graças a Sonya Karp que vinha estendendo sua jornada a pedido de Rose –, e tudo estava se encaminhando na mais perfeita ordem.

Eu passei toda a segunda-feira da semana do grande jogo no CT em uma reunião com Stan repassando as principais estratégias de defesas do Patriots e como desafiá-las. No fim da tarde eu já estava esgotado e não via a hora de voltar para casa para passar um tempo com minhas garotas. Na quarta-feira eu iria para a concentração em Houston e teria que deixá-las para trás. Por mais que eu soubesse que no sábado as duas também estariam voando para lá, não podia deixar de me sentir desconfortável por me afastar delas por tantos dias. Era uma sensação estranha.

Logo que cheguei em casa, notei o silêncio incomum. Em geral, as garotas sempre me esperavam na sala de TV ou na cozinha aprontando alguma coisa com Karp.

— Rose? – chamei sem obter resposta.

Eu segui em vão até a cozinha à procura das duas, mas um barulho no andar superior me chamou a atenção. Eu caminhei até a escada, encontrando Kirova descendo os degraus.

— Boa tarde, Senhor Belikov – ela cumprimentou com seu habitual modo taciturno.

— Boa tarde, Kirova. Você sabe onde estão as garotas? – questionei.

— Claire está brincando no quarto com o menino e Rose...

— Menino? – eu a interrompi surpreso. – Que menino?

— O garotinho educado – Kirova me explicou. – O tal Matthew alguma coisa... Rose o trouxe junto com Claire da escola hoje.

— E deixou os dois brincando no quarto sozinhos? – respirei fundo sentindo uma leve irritação tomar conta de mim. Como ela pode deixar um garoto ficar no quarto da minha menininha?

— Eles estavam fazendo lição com ela, mas...

— Kirova, chame os pais de Matthew para buscá-lo – ordenei voltando a subir as escadas, deixando a mulher para trás.

A porta do quarto estava aberta e minha filha estava sentada no chão a frente do pequeno sem vergonha mostrando sua coleção de bandanas. Capitão Willy estava pulando entre eles, tentando arranhar os tecidos.

— Pai! – Claire gritou animada assim que me viu. – O Matthew veio brincar comigo hoje.

— Boa tarde, senhor Belikov – o garotinho me cumprimentou de forma educada. Pensa que me engana...

— Vocês já fizeram o dever de casa? – cruzei os braços com uma expressão séria.

— Nós estávamos fazendo, mas Rose disse que podíamos vir brincar quando... – Claire começou.

— Ok, mas agora é melhor Matthew descer pra arrumar as coisas dele, pois seus pais estão vindo buscá-lo – eu cortei minha filha, querendo ver aquele garoto o mais distante possível do quarto dela.

— Sim, senhor Belikov – o menino abandonou a bandana que segurava e passou por mim rapidamente. Creio que ele entendeu bem o meu tom duro. Talvez esteja na hora de seguir o exemplo de Abe e arrumar uma Catharina para mim.

— E quanto a você, mocinha – encarei Claire. – Que história é essa de trazer um garoto para o seu quarto? Acho que já está na hora de criarmos algumas regras a respeito disso.

— Mas qual o problema? – ela parecia perdida. – Rose deixou.

— O problema é que você só pode deixar um garoto entrar no seu quarto quando for seu marido.

— Mas Rose dorme todo dia no seu quarto e você não é o marido dela – a garota observou. Droga, porque ela tem que ser inteligente?

— É uma situação diferente – murmurei. – É o meu quarto e aqui estamos tratando do seu.

— Então quer dizer que se eu for brincar na casa do Matthew eu posso brincar no quarto dele, mas ele não pode brincar no meu? – ela parecia genuinamente perdida.

— Não! – exclamei – Nada de você entrando no quarto do Matthew nem de nenhum outro garoto e nem eles no seu.

— Mas...

— Chega de discussão, Claire. Essa é a regra e deve ser obedecida – eu a interrompi novamente. Eu sei que estava sendo muito duro e talvez devesse deixá-la falar, mas ela só ia me complicar ainda mais. – Agora me diga, onde está a Rose?

— Lá embaixo – Claire respondeu visivelmente contrariada. – Eu posso pelo menos me despedir do Matthew?

Eu estava prestes a negar, porém acho que não haveria mal algum.

— Ok, mas na sala e depois você tem que arrumar essa bagunça – falei fazendo-a revirar os olhos. – E nada de beijinhos.

— Eca! – a menina fez uma careta e saí do quarto para procurar a morena.

Por que não podia ser mais fácil? Por que eu simplesmente não podia impedir minha filha de crescer e conhecer qualquer pessoa do sexo oposto?

Passei por Matthew que estava na sala de estar com Kirova, provavelmente aguardando os pais. A governanta me informou que Rose estava na biblioteca e segui para lá apressado. Precisava ter uma séria conversa com ela sobre deixar garotos frenquentarem o quarto da minha menina.

— Rose! – minha voz saiu um pouco mais alta do que eu esperava quando cheguei à porta e acabei assustando Rose e Sonya que estavam na sala.

Eu estranhei a presença de minha irmã ali, já que ela não era tão chegada à morena quanto Viktoria, mas resolvi ignorar isso por hora e me focar no assunto que realmente estava me incomodando.

Rose começou a argumentar dizendo que são apenas crianças, mas ela precisa entender que Claire está crescendo e logo será uma adolescente acostumada a ter garotos no quarto. E isso é algo que eu não posso permitir que aconteça!

Porém, a atitude esquisita dela começou a chamar minha atenção. A morena tentava literalmente me empurrar para a porta, não parecendo tão disposta a discutir comigo como ela normalmente estaria numa situação assim. E tudo se tornou ainda mais suspeito quando Kirova nos interrompeu, trazendo uma entrega urgente da farmácia para Rose que arregalou os olhos imediatamente.

Ela e Sonya tentaram fugir do assunto com a desculpa mais boba que já ouvi e isso me mostrou que aquilo era algo grande. O fato de minha irmã estar presente e prestes a chorar apenas aumentava minhas desconfianças. O que está acontecendo aqui?

Finalmente consegui pegar aquele pacote das mãos de Rose, congelando no meu lugar assim que descobri dois testes de gravidez ali.

Então é isso? Ela está grávida?

Eu me senti totalmente desnorteado ante essa expectativa. Não que isso seja ruim, mas mais um filho? Era cedo demais para assumirmos algo assim e eu sabia que não era o que a morena queria para aquele momento. Nós nem estávamos casados. Com toda certeza Abe vai me matar!

E por que ela chamou justamente Sonya para estar com ela nesse momento? Lissa seria a escolha mais obvia ou até mesmo Vikka.

— Mas por que Sonya? – eu me joguei no sofá diante da minha consternação.

— Olha, sei que é algo difícil de aceitar – Rose se sentou ao meu lado falando com cuidado. – Ainda não temos certeza, mas há a possibilidade de ter acontecido e você não pode ficar irritado, só vai piorar as coisas.

Ficar irritado? Eu nunca faria isso. Estou apenas surpreso, não era para ter acontecido!

— Você me disse que tomava injeções – insisti. – Eu achei que não corríamos o risco.

— Como? – a morena me olhou confusa.

— O que as injeções dela tem a ver comigo? – Sonya franziu o cenho.

— O quê? – agora quem está confuso sou eu. O que minha irmã tem a ver com essa história?— Não é você quem está grávida?

— Eu? – Rose me olhou com espanto. – Não! De jeito nenhum. Tá maluco?

— Mas... O teste... – Que merda está acontecendo aqui?

— O teste não é pra mim.

Como assim o teste não é pra ela? Se não é dela só pode ser de... Não... Não!

Eu me levantei com os olhos arregalados, me virando em direção a minha irmã.

— Você não pode estar falando sério! – exclamei. – Diz que eu entendi errado.

— Dimka – a garota choramingou. – Olha, eu sinto muito, mas...

— Não! Você é a mais boazinha das três – apontei. – Por que você faria algo assim?

— Camarada, vamos nos acalmar.

— Acalmar? Como eu poderia me acalmar se minha irmãzinha está grávida Deus sabe de quem? – elevei a voz.

— Olha, Dimitri, eu tenho certeza que quando a Rose conseguir falar com o André nós vamos...

— André? Ele é o pai?! – literalmente berrei fazendo ambas as mulheres recuarem.

Minha cabeça estava prestes a explodir. Aquilo tinha que ser uma brincadeira. Uma brincadeira de péssimo gosto!

— Dimka, por favor...

— Por favor o quê, Sonya?! Se ainda fosse do Jamie, eu teria certeza que ele iria assumir porque é um homem descente, mas desse desgraçado?

— Ei! – a morena olhou para minha irmã. – É verdade. Pode não ser do André. Na verdade faz mais sentido...

— Não é do Jamie – ela disse com convicção. – Nós nunca... Bem... A gente sempre se cuidou.

— Ah, que maravilha! – joguei as mãos por alto. – Você ainda deu pra aquele bosta sem camisinha? Estar grávida vai ser a menor coisa que pode te acontecer.

— Chega! Nós estamos perdendo um ponto importante aqui – Rose elevou o tom para se fazer ser escutada.

— Qual? O fato de que eu vou pessoalmente matar o filho da puta? – rosnei.

— Não! – Sonya exclamou horrorizada.

— Sua irmã ainda não fez o teste e tem a grande chance dela NÃO estar grávida. Nós íamos resolver essa questão quando você nos interrompeu – Rose revirou os olhos arrancando o teste de gravidez que ainda estava em minhas mãos e começou a puxar minha irmã para a porta. – Você vem comigo. Nós vamos voltar logo, camarada. Apenas não surte até termos o resultado.

As duas saíram da sala me deixando ali. Eu comecei a dar voltas sem conseguir me manter parado. Sonya grávida daquele idiota? Eu não consigo lidar com isso!

Observei o celular da morena jogado em cima da mesa de centro e não pensei duas antes de pegar o aparelho, desbloqueando-o com facilidade. Eu já tinha visto Rose fazendo isso milhares de vezes, mas nunca sequer cogitei mexer em seu celular, pois respeito sua privacidade. Porém agora é uma situação bem diferente.

Aguardei impaciente enquanto o telefone chamava, sendo atendido no quinto toque.

— Florzinha, que surpresa você me ligar – a voz do Dragomir usando aquele maldito apelido para se referir a Rose fez minha indignação aumentar exponencialmente .

— Não é a florzinha – rosnei.

— Quem está falando?

— Você acha que pode engravidar a minha irmã e não se casar com ela? Eu vou matar você!

— Engravidar? Do que você está falando? – o loiro engasgou.

— Dimitri! – eu me encolhi diante da voz irritada de Rose que surgiu na sala nesse instante. – O que você pensa que está fazendo com meu celular?

— Dimitri? Eu engravidei sua irmã? – o rapaz balbuciou.

— Eu vou acabar com a sua raça, Dragomir – ameacei antes de ter o celular arrancado da minha mão.

— Oi André – Rose respirou fundo enquanto eu pegava o meu próprio celular, discando um novo número. – Não... Eu não sei ainda...

— Eu não acredito que você ligou pra ele – Sonya se aproximou de mim irritada enquanto o telefone chamava. – Pra quem você está ligando agora?

— No que eu posso te ajudar, Belikov? – a voz de Abe soou clara no outro lado da linha.

— Eu quero o endereço do Dragomir – fui direto ao ponto.

— André, eu te ligo depois, agora eu preciso desligar... – ouvi Rose tentando encerrar a outra ligação.

— E por que eu faria isso? – ele perguntou em um tom astuto.

— Porque o desgraçado engravidou a minha irmã e eu com certeza vou acabar com a vida dele.

— Ele finalmente engravidou alguém? Isso é interessante – o homem soou divertido. – Se eu te passar o endereço você vai trazer minha menina para me visitar?

— Com quem você está falando, Dimitri? – Rose perguntou irritada parando à minha frente.

— Se eu levá-la, ela não vai me deixar fazer nada com o desgraçado – murmurei.

— Não me diga que... Eu vou te bater, Dimitri Belikov – Rose tentou em vão tirar o telefone da minha mão.

— Eu posso resolver isso por você – Abe propôs. – Vai ser uma ótima oportunidade de demonstrar o que eu farei com você se engravidar minha menininha antes de se casar com ela.

— Me dá isso – a garota finalmente conseguiu arrancar o celular da mim. – Pai... Não... Você não vai fazer nada!

— Você pode se acalmar, Dimka? – Sonya pediu.

— Você não vai fazer nada com o André, pai – a morena respirou fundo ainda ao telefone. – A gente nem sabe se ele engravidou mesmo a Sonya... Sim existe a possibilidade... Não, isso não é o suficiente!

— Você já fez o teste? – perguntei a minha irmã.

— Sim – ela suspirou. – Estamos esperando dar o resultado.

— Qual é o seu problema? – Rose surgiu a minha frente após desligar a ligação, tentando me empurrar, mas acabou apenas impulsionando a si mesma para trás já que eu nem saí do lugar. – Eu não acredito que você ligou para o meu pai.

— Rose...

— A gente nem sabe se ela está grávida – ela continuou sem me dar a chance de continuar. – O André está quase infartando em casa e agora meu pai quer dar uma surra nele pra que sirva de exemplo pra você.

— Eu vou ver o resultado – Sonya informou saindo da sala o mais rápido que pode.

— É o que ele merece e eu nunca engravidaria você – devolvi teimosamente.

— Ah é? Não era o que você estava pensando há uns minutos atrás – ela cruzou os braços.

— É diferente, nós nos cuidamos e...

— Eu me cuido, você quer dizer – Rose observou, me cortando. – Porque aparentemente eu sou a única responsável aqui por engravidar ou não, já que você estava prestes a me acusar de ter sido a culpada disso. Como se eu tivesse feito sozinha.

— Eu não ia te acusar – tentei me explicar. – E de qualquer forma você não está grávida

— Não, não estou graças as minhas injeções e não graças a sua preocupação – a morena retrucou. – E, de qualquer forma, o que eu quero dizer é que o André não implantou esse bebê a força na Sonya. Ele não é o único irresponsável dessa história, então nada justifica as suas atitudes.

— Ok, talvez eu possa ter exagerado – admiti de mal grado.

— Talvez? – Rose riu com desdém antes de seu celular voltar a tocar, fazendo-a fechar os olhos com força ao atender. – André, você pode se acalmar?... Nós ainda não sabemos, eu disse que te ligaria. Vai dar tudo certo...

— Deu negativo! – Sonya gritou em êxtase entrando na sala. – Eu não estou grávida!

— Graças a Deus – eu me joguei aliviado no sofá.

— Você ouviu? – Rose questionou. – Não é dessa vez que você vai conseguir um Dragomirzinho... De agora em diante fique longe de todas as mulheres que eu conheço. Todas, está ouvindo?

— No fim deu tudo certo – Sonya mordeu o lábio parecendo um tanto constrangida.

— É melhor você fazer o outro teste pela manhã – Rose recomendou ao encerrar o telefonema. – Mas pode ficar tranquila, as chances de erro são muito baixas.

— E não me assuste mais assim – murmurei.

— Sim – a morena reafirmou. – Antes de sair causando infartos nas pessoas descubra se realmente está grávida.

— Melhor. Se cuide antes de criar a possibilidade de engravidar – emendei.

— Sinto muito, Dimka – minha irmã me encarou temerosa. – Você não vai contar para a mãe, né?

— Eu deveria, mas não vou correr o risco de matar Yeva de desgosto – revirei os olhos. – Então não, elas não vão ficar sabendo.

— Obrigada – ela me deu um beijo no rosto. – Desculpe te assustar. Desculpe assustar os dois. Acho melhor eu ir embora agora.

— Apenas se cuide, Sonya – Rose pediu e nós observamos minha irmã sair antes da morena se virar em minha direção, colocando as mãos na cintura. – Você sabe que está muito encrencado, não é?

Sim, com certeza estou encrencado. De novo.