The Big Play

30 Capítulo 30 – Million Reasons


I've got a hundred million reasons to walk away

But baby, I just need one good one, good one

Tell me that you'll be the good one, good one

Baby, I just need one good one to stay

Lady Gaga

Apesar do jantar bizarro que meu pai proporcionou, o resto da noite foi bem tranquila. Dimitri e Claire foram cedo para cama e eu fiquei em meu quarto tentando me acostumar com a ideia de que ali era novamente o meu lugar, a minha casa.

Eu não sabia mais se havia sido uma boa ou uma má ideia levar os dois até lá. Ao mesmo tempo que adiou o nossa despedida, acabei percebendo o quanto estava gostando de tê-los ali comigo. O quanto parecia certo ver Dimitri conversando com meu pai ou minha mãe dando atenção para Claire. Era como ter a minha família inteira reunida. As duas partes do meu coração juntas.

Quando eu tenho que viajar para os jogos, eu não sinto só falta da Claire. Eu sinto a sua falta, sinto falta da nossa família.

As palavras de Dimitri não paravam de se repetir em minha mente após eu me deitar. Ele realmente pensava em mim dessa forma ou era apenas mais um modo de tentar me convencer a voltar?

Não, não pode ser... Aquilo soara tão sincero... Tão sincero quanto o sorriso que o russo deu ao nos ver no telão do estádio. Não pude deixar de sorrir igualmente com a lembrança. Ele estava tão lindo naquele momento, com um brilho nos olhos que não via ali há tempos. Talvez desde o Festival Gasparilla.

Porém pouco a pouco meu sorriso morreu ao me dar conta de que agora era tarde demais. Mesmo com aquelas declarações, eu não poderia mais voltar. Não depois da desconfiança dele. Talvez eu até pudesse passar por cima de tudo o mais que acontecera, mas isso era algo que sempre pesaria. E eu não podia correr o risco de ser magoada novamente por ele. Não depois que descobri o quanto uma palavra sua poderia destroçar meu coração.

Na sexta de manhã meus pais resolveram mostrar a propriedade para Dimitri e fui atrás deles para evitar que o velhote tentasse amedrontar o russo sem necessidade. Claire e eu aproveitamos aquele tempo juntas e brincamos entre as árvores do jardim sob o olhar curioso dos demais. Foi bom passar esse tempo com ela, mas sentia meu coração se apertar cada vez que me lembrava que seriam os últimos momentos juntas.

Ambrose retornou a tarde para mais uma visita e ficamos na sala por conta de uma fina garoa que começou a cair ao lado de fora. Ele fez questão de ficar o tempo todo ao meu lado, mesmo tendo de aguentar os constantes olhares ameaçadores de meu pai. Eu estava feliz em vê-lo, mas essa proximidade me deixou estranhamente desconfortável, principalmente quando Dimitri nos avaliava com uma expressão nada agradável.

— Rose era sempre a que arrumava as ideias mais divertidas – Ambrose contou enquanto Claire desenhava na mesa de centro com meu pai observando atentamente sua obra. – Uma vez, ela surgiu na minha porta e me convenceu que deveríamos ir a uma festa.

— Podemos não recordar essas coisas? – pedi. – Eu tinha apenas dezesseis anos.

Uma coisa era fato. Nós dois, Lissa e Aaron aprontamos muito juntos na adolescência.

— Eu quero saber – Dimitri falou subitamente interessado.

— Eu também – minha mãe declarou em tom irônico. – É sempre fascinante descobrir o que era divertimento para vocês.

— Bem, nós dirigimos pela cidade a procura de alguma festa, mas não tinha nenhuma acontecendo – meu amigo continuou. – Então nós buscamos Aaron e Lissa e resolvemos fazer nossa própria festa.

— Eu escolhi um ótimo lugar pra isso – sorri com a lembrança. De certa forma falar disso potencializava a sensação agridoce de estar novamente em casa

— Com certeza – Ambrose riu. – Nós conseguimos algumas bebidas e invadimos a casa do Senhor Dennheimer. Ele é um velho chato que mora do outro lado do lago e oportunamente Rose se lembrou de que ele estava viajando.

— Por que vocês invadiriam a casa do homem? – Janine perguntou horrorizada

— A casa tinha uma piscina ótima – dei de ombros.

— Aqui também tem uma ótima piscina, Rosemarie – ela ralhou como se aquilo tivesse acabado de acontecer e Dimitri me olhou com diversão.

— Aposto que não tão boa quanto uma que era proibida – o russo comentou.

— Exato – dei uma piscadela para ele.

— De qualquer forma – Ambrose prosseguiu –, nós chamamos mais algumas pessoas e realmente aproveitamos aquela piscina. E teria sido tudo perfeito, se o Senhor D não tivesse voltado mais cedo pra casa e chamado a polícia.

Gemi ao lembrar do desfecho daquela história. Por que aquele velho tinha que aparecer justo no auge da festa?

— Rose mal conseguia ficar em pé direito, quanto mais correr – o moreno riu.

— Você bebeu, Rosemarie? – minha mãe me fuzilou com os olhos.

— Mãe, nós vamos realmente passar por isso de novo? É sempre a mesma coisa. Você me pergunta se eu bebi, eu respondo que não, mas ambas sabemos que isso não é verdade.

— Você estragou a garota, Ibrahim – Janine revirou os olhos, chamando atenção de meu pai, que até então parecia completamente compenetrado em uma conversa com Claire a respeito do desenho que ela fazia.

— O quê? – ele perguntou totalmente confuso. – O que eu fiz?

— A mimou – ela repetiu. – Nunca se importou quando ela aparecia embriagada.

— Deixe a garota, Janie – Abe disse de forma indulgente e voltou sua atenção para Claire mais uma vez.

— Eu era uma adolescente – me justifiquei. – Não faço mais esse tipo de coisa.

Vi Dimitri erguer uma sobrancelha e me jogar um olhar significativo erguendo os cantos dos lábios de forma zombeteira e devolvi o olhar exasperada. Qual é?! Eu nem estava tão bêbada assim na festa na casa do Mason.

— Enfim – Ambrose tentou terminar de contar –, eu consegui jogar Rose por cima do muro quando os policiais chegaram, mas acabei preso no seu lugar. Não preciso dizer que meu pai não ficou nem um pouco feliz.

De fato, o senhor S proibiu Ambrose de me ver por meses a fio. Não que isso nos impedisse de algo.

— Você jogou minha menina do muro? – Abe finalmente parece ter prestado atenção na conversa.

— De tudo o que ele falou, foi só isso que você ouviu? – minha mãe reclamou.

— Eu estava distraído com o desenho da garota – ele deu de ombros. – E afinal o que é esse daqui?

Meu pai pegou uma das folhas de Claire.

— É uma nova jogada pro meu pai tentar treinar – ela disse e Abe nos olhou de forma especulativa.

— Nem tente entender – Dimitri respondeu. – Deus sabe que com ela não se discute.

— E esse? – ele pegou outra folha

— Esse é o feioso – Claire deu de ombros se concentrando em rabiscar outra folha.

— Feioso? – perguntei curiosa e Abe me passou a folha. Era difícil definir o que era aquela criatura que ela desenhara.

— Sim. Foi esse o nome que eu dei pro gato esquisito que minha mãe me deu – a menina explicou e gargalhei na mesma hora mostrando o desenho para Dimitri enquanto Ambrose tentava espionar por sobre meu ombro.

— Mas isso não é um gato – Ambrose observou.

— Então está perfeito – eu sorri para o russo. – Aquilo também não era.

— Definitivamente não – ele concordou.

— Aquele demônio quase te matou – eu o instiguei.

— Não sei o que foi pior – Dimitri revirou os olhos, apesar do meio sorriso em seus lábios. – O bicho grudado no meu pescoço ou você me acertando com o travesseiro.

— Ok – comecei a rir ao me lembrar desse episódio. Foi praticamente a primeira vez que eu percebi o quanto seria difícil morar naquela casa com esse russo tentação por perto. – Eu posso ter exagerado um pouco.

— Um pouco? – ele voltou a erguer a sobrancelha. – O bicho estava grudado na minha garganta e você me deixando tonto de tanto me bater.

— Do que vocês estão falando? – Ambrose perguntou parecendo pouco satisfeito por estar de fora da conversa.

De fato, por um momento Dimitri e eu acabamos esquecendo que eles estavam ali e que não conheciam essa história.

— A mãe da Claire deu pra ela esse "gato" pelado – fiz aspas com os dedos. Aquilo não era um gato nem aqui e nem na China. – Depois ela levou a garota pra passarem uns dias juntas, nos deixando sozinhos na casa com aquela criatura.

— O bicho não gostava de mim – Dimitri continuou. – Mas parecia gostar até demais da Rose.

— Pois é... Ele invadiu meu quarto no meio da noite e acabou atacando Dimitri quando ele tentou tirar o gato de lá – expliquei me sentindo um pouco desconfortável diante do olhar penetrante de Janine. – E eu posso ter acertado Dimitri com um travesseiro em algum momento, tentando ajudar.

— Por que meu pai estava em seu quarto? – Claire perguntou confusa.

— Essa é uma excelente pergunta – Abe falou pausadamente encarando Dimitri.

— Eu te aconselho a começar a correr, Belikov – Ambrose provocou. – Já estive nessa situação e, acredite, nunca termina bem.

— Eu me assustei quando aquele ser invadiu meu quarto e comecei a gritar – expliquei, ignorando deliberadamente o comentário do meu amigo. – Dimitri me escutou e correu até lá pra ver o que estava acontecendo.

— Estou de olho em você, rapaz – meu pai disse de forma ameaçadora. – Talvez seja bom eu te apresentar a Catharina no fim das contas.

— Nem pensar, velhote! – eu o olhei com os olhos semicerrados.

— Ei, você não se importou quando ele quis me apresentar a Catharina – Ambrose reclamou mal humorado.

— Porque você fez por merecer, Ambrose – devolvi segurando a risada.

— Quem é Catharina? – Dimitri parecia genuinamente confuso.

— É a Winchester 44 dele – minha mãe explicou e o russo perdeu um pouco da cor enquanto eu e meu amigo ríamos da sua reação.

Ambrose ficou até o fim da tarde e aproveitei o tempo antes do jantar para tomar um banho e tentar organizar um pouco as minhas coisas no armário. Eu mal tinha aberto uma mala desde que cheguei ali e esperava que com isso me convencesse de que realmente estou fazendo a coisa certa.

No dia seguinte, notei que a casa estava silenciosa demais quando saí de meu quarto, o que era bem estranho. Eu com certeza dormi mais do que deveria, então segui apressada para a cozinha. Ao entrar ali encontrei minha mãe preparando um cappuccino na cafeteira.

— Bom dia – ela sorriu. – Quer um?

— Claro. Onde estão todos?

— Abe levou Claire e Dimitri pra um passeio – Janine explicou com ar desinteressado.

— Puta que pariu! – xinguei em turco para evitar que minha mãe brigasse comigo. – E você deixou o velhote sozinho com o Dimitri? Não vê que ele só vai apavorar o pobre coitado?

— Deixe Abe se divertir um pouco – ela disse condescendente. – Você tirou esse prazer dele quando se bandeou para a Flórida.

Revirei os olhos diante desse comentário e me limitei a pegar meu cappuccino e seguir para a porta, quando ela me chamou:

— Rose? Podemos conversar um minuto?

— Estava demorando – suspirei.

Tirando suas observações mortificadas durante as histórias de Ambrose, minha mãe quase não falou nada desde que eu cheguei e isso nunca é um bom sinal. Ela nunca perde uma chance de me criticar.

Janine ignorou deliberadamente meu comentário e seguiu para uma pequena área aberta na parte de trás da casa sem verificar se eu a estava seguindo. Ela sabia que eu estava.

Assim que nos sentamos, me enrolei da melhor forma possível em meu casaco. A temperatura havia caído ainda mais na última noite e eu havia me esquecido o quanto detestava esse clima congelante da Pensilvânia.

Apesar disso o frio de alguma forma era reconfortante. Mais do que minha mãe, pelo menos. Ela se limitou a ficar um bom tempo me olhando enquanto bebericava de sua caneca.

— Você vai falar alguma coisa? – perguntei depois de alguns minutos.

— Estou esperando você começar, na verdade – ela deu de ombros.

— Como assim? Foi você quem me chamou.

— Rose, eu sou sua mãe. Eu esperava que você pudesse conversar comigo sobre o que está acontecendo ao invés de fugir.

Aquela declaração me desarmou um pouco e acabei admitindo:

— Eu não queria que você me julgasse como sempre faz.

— Eu não sou tão ruim assim, filha. Posso ver que você está sofrendo – Janine devolveu com um tom que nela poderia parecer maternal e que quase me fez cair da cadeira. – Você quer me contar o que está acontecendo?

Ela realmente estava querendo me ouvir? Ela seria capaz disso? E eu? Poderia tentar?

— Minha vida está uma completa bagunça – acabei desabafando, dando um voto de confiança a ela. – Achei que estava fazendo a coisa certa ao voltar pra cá, mas agora não consigo mais ter tanta certeza.

— Por que você tem dúvidas?

— Bem, é complicado... – falei desviando o olhar. Acho que realmente não consigo me abrir sobre tudo o que está acontecendo comigo.

— Suponho que isso esteja relacionado ao russo que está nesse momento sendo torturado psicologicamente por seu pai? – ela instigou.

— O quê? – dei uma risada nervosa. – De onde você tirou isso?

— Rose, eu não sou cega – Janine deu um sorriso convencido. – E além disso os dois não são exatamente mestres do disfarce.

— Eu não sei do que você está falando – murmurei. Por que todo mundo está cismado que Dimitri corresponde meus sentimentos? Isso sim é um absurdo.

— Me dê algum crédito, por favor – ela revirou os olhos. – Você sabe que eu vou conseguir descobrir o que eu quero, então por que não adiantamos as coisas?

— Ok – suspirei um tanto cansada de ficar remoendo aquilo tudo sozinha. – Eu posso sentir algo por Dimitri, mas nunca aconteceu nada. Não é como se eu fosse correspondida.

Janine deu um pequeno sorriso, fazendo uma cara engraçada para mim, mas não fez qualquer comentário a respeito, preferindo seguir outro caminho:

— E por que você está fugindo? Você nunca foi do tipo que abandona o barco quando as coisas ficam difíceis ou desconfortáveis. Pelo contrário.

— Nós discutimos – expliquei. – Dimitri me falou algumas coisas que me machucaram demais e eu não posso permitir que isso volte a acontecer.

— Ele me parece uma pessoa tão centrada – ela comentou pensativa. – Você fez alguma coisa pra tirá-lo do sério?

— Apesar de ser difícil para a senhora acreditar, desta vez eu não tive nada a ver com isso – falei um tanto indignada. Por que ela sempre pensa o pior de mim?

— Então você sabe o porquê dele ter agido assim? – Janine insistiu.

— Bem... – como explicar aquilo sem revelar nada demais? – A mãe da Claire inventou algumas coisas pra ele a meu respeito e ameaçou tirar a guarda da Claire por isso, então ele descontou em mim.

Busquei deixar a história totalmente genérica. Talvez ela pense que o motivo da briga foi algo relacionado ao ciúmes de Tasha e não queira mais detalhes.

— Você conversou com ele depois? Sobre isso, eu quero dizer?

— Dimitri até tem tentado, mas eu tenho evitado falar no assunto ou sobre qualquer outra coisa com ele – reconheci, me sentindo um pouco idiota. Acho que eu deveria pelo menos tê-lo deixado falar, já que justamente o fato dele não ter me ouvido que causou todo o mal entendido.

Janine me avaliou por algum tempo, me deixando completamente desconfortável, até que voltou a falar:

— Eu sei que pode ser um choque pra você, mas as pessoas podem errar. Elas nos machucam às vezes, só que não podemos fugir sempre que isso acontece.

Eu olhei surpresa para minha mãe. As palavras dela eram bem parecidas com as de Lissa. Mas, será que nenhuma delas conseguia enxergar?

— A questão é que ele não confiou em mim, mãe – argumentei. – Dimitri preferiu acreditar nas mentiras que aquela mulher disse do que me ouvir.

— Rose, você mesma disse que ela ameaçou tirar a garota dele – ela apontou. – Está na cara que o homem é louco pela menina e certamente a possibilidade disso acontecer afetou o julgamento dele.

— Eu não sei...

— Mas eu sei. Os pais são capazes de qualquer coisa por seus filhos... – minha mãe pareceu distante por um momento. – Eu, por exemplo, abri mão de muitas coisas por você.

— Por mim? – Aquilo me pegou completamente desprevenida.

— Claro! – ela devolveu de forma quase indignada. – Não era como se eu realmente pudesse continuar sendo uma bailarina e criar você ao mesmo tempo.

Eu sabia que Janine teve uma carreira promissora no ballet, tendo inclusive sido solista do American Ballet Theatre¹, mas eu sempre achei que ela havia optado parar por não precisar mais disso.

— Eu achava que você havia desistido por ter se casado com Abe e não por mim – expliquei encolhendo ligeiramente os ombros.

— Isso também pesou, mas não era o que eu havia planejado para minha vida a princípio, Rose – Janine explicou com ar quase saudoso. – Eu me apaixonei por seu pai e acabei engravidando de forma não planejada. Até você nascer eu estava com a cabeça feita de que isso não atrapalharia minha carreira. Eu recusei inúmeros pedidos de casamento de Abe e decidi que assim que você tivesse idade suficiente iria para um colégio interno e ficaria os tempos livres com ele. Só que, quando o médico me entregou você e vi o seu rostinho, eu soube que nunca poderia fazer isso. Naquele momento o meu sonho mudou. Eu quis ser sua mãe, ver você crescer, te ensinar a ser uma boa pessoa. E com certeza foi a melhor escolha, porque só Deus sabe o que você viraria se ficasse só sob a supervisão do seu pai.

Apesar da alfinetada ao final, todo o discurso de minha mãe mexeu comigo. Nós nunca tivemos uma relação tão próxima, sempre vivendo envoltas em pequenos conflitos por sua postura rígida e meu gênio difícil, porém ouvir o que ela fez por mim me fez perceber que o seu amor nunca esteve nas grandes declarações ou demonstrações, mas sim nos pequenos gestos.

— Enfim – ela voltou a falar corrigindo seu tom para o prático e direto de sempre –, o que eu quero dizer é que qualquer pai e mãe acaba colocando seus filhos acima de tudo. São capazes de abrir mão daquilo que mais querem e fazer coisas impensadas para protegê-los. Então não é que Dimitri não confie em você. É só que o medo de perder a filha o fez agir de forma irracional.

Pensei naquelas palavras por um instante. Realmente se Janine Hathaway foi capaz de desistir de tudo o que havia planejado para si por mim, talvez não seja tão incompreensível a atitude de Dimitri. Ele estava apenas protegendo a filha da ameaça que ele achou que eu era. É claro que ele poderia ter colocado a cabeça no lugar e me ouvido antes de despejar aquele monte de coisas sobre mim, mas eu poderia perdoá-lo por aquilo tudo.

Por outro lado, eu continuava sem poder voltar. Não quando eu o amava tanto e não sabia se esse amor um dia seria correspondido. E se ele um dia se interessasse por outra pessoa? Ou até mesmo voltasse com Tasha? Eu seria obrigada a presenciar tudo isso? Como ficaria meu coração?

— Eu me sinto idiota – declarei encostando cabeça na mesa.

— Por estar fugindo? – minha mãe perguntou confusa.

— Por me sentir assim em relação a ele – murmurei. – Eu nunca quis nada disso, mãe... Drama é a última coisa que eu quero na minha vida.

— Uma coisa eu aprendi com a vida, minha filha – Janine deu um suspiro. – Não se pode controlar o coração. Os sentimentos aparecem e eles aparecem de repente. Não nos faz idiotas, nos faz humanos. E não adianta fugir deles, porque eles sempre nos vencem. Eu sou prova disso. O que sentimos não desaparece simplesmente por nos afastarmos. Na verdade parece que se intensifica com a distância.

— Eu sinto falta dele – finalmente admiti em voz alta. – Eu fiquei com medo de me machucar e o afastei, mas eu realmente sinto falta dele.

— Rose – ela disse se levantando. Acho que nosso momento de mãe e filha acabou. – Se você realmente gosta dele, não deixe os seus medos te impedirem de ser feliz. Você é uma Mazur, pelo amor de Deus! Corra atrás, faça acontecer!

Janine se foi me deixando ali sentada, completamente confusa pelo o que acabou de acontecer. Minha mãe realmente me aconselhou a voltar para a Flórida com Dimitri? Ela me incentivou a tentar um relacionamento com meu chefe? Seria possível ela estar bêbada a uma hora dessas?

Depois de um tempo resolvi procurar meu pai para garantir que Dimitri continuasse vivo e vi ao longe Claire correndo pelo jardim enquanto os dois estavam sentados em um banco absortos em uma conversa particular. O russo não parecia amedrontado ou incomodado, apenas estava bastante pensativo, então achei melhor não interferir.

Eu voltei para casa e procurei me ocupar pelo resto da manhã, mas o tempo todo me lembrava que esse era praticamente nosso último dia juntos. Dimitri e Claire voltariam para a Flórida na manhã seguinte e agora eu não parava de me perguntar se eu não deveria voltar com eles. Droga!

Depois do almoço Dimitri foi atender uma ligação e me deixou sozinha com Claire na sala. Ela passou a avaliar as fotos do aparador, parando especialmente em uma que eu tirei no dia do meu Sweet Sixteen². Meu pai fez questão de me dar uma grande festa e, logo pela manhã, ele deixou uma infinidade de balões vermelhos à minha porta. Não perdi a oportunidade de tirar uma foto com eles, mesmo sem ainda estar totalmente produzida.

— Você está tão linda nessa foto – Claire falou pegando o porta retratos com suas pequenas mãos e o trouxe até o sofá onde eu estava.

— Isso foi no meu aniversário de dezesseis anos – expliquei ajudando-a a se sentar no meu colo. – O velhote enviou um balão pra cada ano de vida.

— Isso parece ser muito legal – ela disse com o olhar fascinado. – Será que meu pai vai fazer isso também quando eu fizer dezesseis?

— Aposto que ele adoraria, mas aí você seria tratada como uma princesa – provoquei. – E nós sabemos o quanto você detesta isso.

— Eu acho que não seria tão ruim assim – Claire deu de ombros, o que me deixou bastante surpresa. – Você parece realmente feliz.

— Eu estava – revelei pegando a fotografia e olhando-a com certo saudosismo. A vida era tão mais fácil naquela época.

— Acho que eu não me importaria de ser uma princesa se fosse pra ser parecida com você – a menina declarou. – Se eu fizer essa festa, você vai estar lá?

— Eu não perderia por nada – dei uma piscadela para ela.

— Espero que você não se esqueça de mim, Rose – Claire murmurou cabisbaixa e senti meu coração falhar. Eu larguei a foto sobre o sofá e segurei seu rosto, erguendo-o delicadamente até que ela olhasse para mim. Ao ver seu olhar triste aquela questão que rondou minha mente mais cedo voltou a me assombrar, mas eu prontamente a afastei para me concentrar na criança.

— Eu nunca vou me esquecer de você, baixinha. Nós somos amigas, independente da distância, ok? – falei antes de abraçá-la com força.

Claire retribui o abraço por uns instantes, então, ouvi-a falar:

— Pai, você voltou.

Soltei a garota e o vi encostado no batente da porta atrás de mim com um certo brilho nos olhos.

— Eu não queria atrapalhar – Dimitri comentou. – Posso ver essa tal foto?

— Claro – sorri quando ele se sentou ao meu lado e lhe entreguei o porta retratos.

— E eu vou procurar aquele velhote – Claire pulou do meu colo, me fazendo rir. – Ele é divertido.

— Claire! – Dimitri a repreendeu antes que ela saísse da sala. – Não chame o senhor Mazur de velhote.

— Mas Rose chama – a menina devolveu confusa.

— Ele é pai dela.

— Então eu posso te chamar de velhote também? – ela deu um sorriso diabólico para ele que me olhou com uma sobrancelha levantada.

— Está vendo em quais situações você me coloca? – Dimitri tentou ficar sério, apesar de estar claramente se divertindo.

— Eu não tenho culpa – me eximi antes de me voltar para Claire. – E você não seja má, seu pai nem é um velho ainda.

— Obrigado – ele revirou os olhos

— Ele está até que bem conservado para um tiozinho – pisquei o olho para a garota que saiu correndo rindo enquanto o russo me olhava incrédulo.

— Tiozinho? – ele perguntou me fitando.

— A idade chega para todos, camarada – instiguei.

— Eu não sou tão mais velho que você – Dimitri me deu um pequeno sorriso.

— Agora não faz tanta diferença, eu acho – respondi pensativa. – Mas na época da foto você devia estar se formando na faculdade enquanto eu era presa por roubar o Porsche do meu pai.

— Você realmente era uma delinquente juvenil, não era? – ele gargalhou enfim mirando a foto, observando-a atentamente.

— O que foi? – perguntei ao notar seu sorriso se desfazer.

— Uma bela delinquente juvenil, devo dizer – ele suspirou e então me olhou um tanto inseguro, colocando a foto sobre a mesa de centro. – Rose... Eu queria conversar com você antes de voltar pra St. Pete. Por favor.

Eu o observei por um momento. Na realidade, minha vontade era fugir daquela conversa como tinha feito todos esses dias, mas eu devia a ele pelo menos uma chance para se explicar.

— Claro – respondi me erguendo. – Mas vamos pra um lugar mais sossegado.

Seguimos para a varanda da casa e nos sentamos nos sofás de frente para o lago. Dificilmente alguém nos incomodaria ali.

— Rose – Dimitri começou um pouco incerto. – Promete não me interromper? Eu realmente preciso falar algumas coisas.

— Ok – concordei após pensar um pouco. – Eu vou me esforçar pra isso.

— Eu queria me explicar, na verdade – ele disse desviando o olhar do meu. – Não tive a chance de esclarecer o que aconteceu naquele dia e tudo o que a Tasha me falou...

— Dimitri... – tentei impedi-lo de continuar. Eu não queria reviver aquilo e não sabia se queria ouvir os detalhes do que aquela mulher disse.

— Você prometeu me deixar falar – o russo me lembrou.

— Tudo bem – suspirei. – Continue.

— Aquele dia, quando Tasha surgiu, ela estava transtornada – ele prosseguiu. Eu me lembrava de ouvir os gritos dos dois e Claire ficar apavorada. Principalmente depois de um som de um baque surdo, como uma pancada. Não foi algo agradável. – Ela me mostrou aquela matéria, dizendo que havia contratado um detetive pra te investigar e que ele descobriu que Nathan era um traficante e vocês haviam namorado por mais de um ano.

— Traficante? – perguntei chocada. De onde aquela louca tirou isso? Até onde eu me lembrava a maldita revista não dizia nada disso.

— Tasha ainda deu a entender que você e Ivan estavam mentindo pra mim desde o começo e... – Dimitri hesitou mirando o chão. – Bem, ela disse mais uma série de coisas que você não precisa saber e no fim anunciou que pegaria a guarda de Claire com base em supostas provas que tinha a seu respeito e a levaria pra Europa. Eu realmente fiquei muito assustado por conta da minha filha, apesar de no fundo eu saber que tinha algo de errado nisso tudo. Você nunca me deu motivos pra desconfiar de você e eu deveria ter te ouvido...

Eu olhei para o homem sentado ao meu lado que parecia totalmente miserável e me lembrei na mesma hora da conversa com minha mãe. Eu entendia o que ele pode ter sentido na hora, mas por que ele não pôde simplesmente me ouvir? Eu teria explicado tudo e nos poupado dessa situação...

— Eu confiava tanto em você, como eu nunca confiei em alguém, Rose – ele voltou a falar. – Então pensar que você mentiu pra mim... Bem, aquilo me afetou... Muito.

Senti meu coração dar um salto em meu peito. Ele confiou tanto assim em mim?

Até então eu estava entendendo que toda sua atitude havia sido movida por seu medo de perder Claire. O medo de perder a filha o fez agir de forma irracional, foi o que Janine disse. Mas continuava magoada por sua falta de confiança. Porém nunca pensei que justamente por ele confiar tanto em mim e achar que eu o havia enganado que ele havia ficado tão transtornado.

— Você não me deixou explicar – acabei dizendo num sussurro. – Sua desconfiança me magoou. Tanto...

— Eu sei – Dimitri fechou os olhos e respirou fundo. – Foi insuportável a ideia de que você pudesse ter mentido pra mim todo aquele tempo, então eu simplesmente não deixei você falar porque tinha medo de ser enganado de novo. De acabar acreditando em você novamente. Eu realmente sinto muito por isso, Rose... Se eu pudesse voltar no tempo...

— Por que você não me deixou explicar? – eu não consegui segurar mais as lágrimas. – Quero dizer você acabou de me dizer, mas ainda assim, se você confiava tanto em mim...

— Porque eu fui um idiota cego – o russo me interrompeu, me olhando diretamente pela primeira vez desde que começamos essa conversa. Havia tanta dor nos seus olhos. – Eu passei todo esse tempo tentando fazê-la me perdoar, mas a verdade é que eu estraguei tudo. Eu realmente estraguei a melhor coisa que aconteceu nas nossas vidas.

— Droga, Dimitri... – murmurei ao perceber o quanto aquelas palavras estavam me afetando. – Por que você faz isso?

— Faço o quê? – ele perguntou confuso.

— Me faz chorar e depois diz algo doce – falei, secando meu rosto com a manga da blusa. Por que eu tenho que amá-lo? Por que me deixo afetar tanto assim pelas palavras dele? Eu senti que precisava encerrar aquilo de uma vez por todas. Aquele assunto já tinha ido longe demais. – Eu te perdoo.

— Sério? – Dimitri me olhou esperançoso.

— Sim, não adianta mais remoer isso. E eu não quero que fique esse mal entendido entre nós quando você for embora amanhã – declarei e o vi murchar um pouco. Eu queria falar que eu voltaria com ele, que tudo seria como antes, mas eu não ia voltar atrás na minha decisão. Eu tinha de virar a página. – Vamos deixar isso no passado, ok?

— Acho que não temos escolha – ele desviou o olhar.

— Eu espero que a próxima babá cuide bem da Claire – mudei de assunto. – Ela realmente precisa disso.

— Eu não vou contratar uma nova babá – o russo falou fitando o vazio.

— Você vai levá-la aos treinos? – questionei estranhando essa decisão. Com certeza isso não iria dar certo. Stan ia simplesmente pirar.

— Não – ele suspirou antes de continuar. – Eu vou sair do time.

— Você vai o quê? – quase engasguei. – Como assim?

— Rose, eu não posso mais fazer isso com a Claire – ele encolheu os ombros. – Ela já sofre por causa das atitudes da mãe e eu não vou mais submeter a minha menina a isso. Não vou mais deixá-la se apegar a alguém apenas para perder essa pessoa depois de um tempo. Está na hora de rever minhas prioridades...

— Mas você ama jogar – observei de forma idiota.

— Eu amo mais a minha filha – Dimitri afirmou com convicção, então olhou profundamente em meus olhos. – Às vezes eu me pergunto como é possível amar tanto uma pessoa e não saber como demonstrar.

— Dimitri, deve haver outra forma – eu insisti. – Vocês só precisam de outra pessoa.

— Nós não precisamos de qualquer pessoa, Rose – ele continuou sustentando meu olhar. – Nós precisamos de você. Mas eu não vou mais pedir pra você voltar, não quando eu te magoei a ponto de te afastar dessa forma. Você precisa ser feliz. Eu quero que você seja feliz.

— Dimitri... – eu ainda tentava pensar em alguma solução quando ele se levantou.

— Rose, eu falhei como jogador, eu falhei como marido e eu falhei com você – ele decretou. – Eu não vou falhar como pai.

Eu permaneci ali totalmente atordoada pela revelação enquanto Dimitri entrava na casa. Ele realmente está considerando isso? O football é a vida dele, ele adora jogar.

Qualquer pai e mãe acaba colocando seus filhos acima de tudo. São capazes de abrir mão daquilo que mais querem e fazer coisas impensadas para protegê-los.

As palavras de Janine nunca foram tão precisas.

Mas será que isso era justo? Era justo Dimitri abrir mão do maior sonho da vida dele dessa forma? E eu podia ficar simplesmente ali vendo isso acontecer quando eu já o tinha perdoado e tudo o que me impedia eram meus medos e a minha teimosia?

Não, eu não poderia fazer isso. Janine tem razão, eu sou uma Mazur e não vou mais fugir. Eu vou voltar para a Flórida.

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¹ American Ballet Theatre (ABT) é uma das mais importantes companhias de balé do mundo, posição que conquistou durante o século XX e continua a exercer nos dias de hoje. Fundada em 1937, a companhia está baseada em Nova York e tem três níveis de bailarinos, em escala ascendente: o corpo de baile, solista e principal.

² Nos EUA a festa de debutantes ocorre aos 16 anos e é conhecida como "Sweet Sixteen".